
Jurado: Antonio Marcos Pereira
Em torno de qualquer objeto literário que encontramos há uma rede de crenças, desejos, opiniões e quejandos que distribui diferencialmente nossa atenção, colocando no centro do palco aquilo que nos confirma, confinando à marginalidade aquilo que nos antagoniza e — salvo casos de rematada má-fé — fazendo o melhor possível para lidar com o objeto anômalo, que põe em xeque justamente nossas crenças e desejos mais ordinários, nossa costumeira fisionomia moral, nossas certezas professadas em mesa de bar, conversas domésticas, textos jornalísticos e acadêmicos.
Isso é um fato menor, que constitui a experiência de qualquer leitor que reflita sobre o que faz enquanto lê. Mas em nosso caso — comentadores, críticos e produtores de literatura, em diversos momentos da carreira e graus de profissionalização — a importância desse fato cresce, e a reflexão sobre a relação entre expectativas e experiências de leitura é quase um sine qua non da atividade. Somos participantes de um jogo cujas regras são variáveis e no qual a própria idéia de vencedor é matéria de discussão. O que é, claro, bom — é no debate e na conversa que o que quer que seja literatura pode se transformar, avançar, progredir.
Vamos, portanto, conversar a respeito de Na multidão, de Luiz Alfredo Garcia-Roza, e de O filho eterno, de Cristovão Tezza. Seria possível que alguém conectado à produção de literatura no Brasil hoje ignorasse um desses títulos? Duvido: ambos procedem de nomes-marca, autores de carreira longeva e, malgrado as diferenças salientes entre os projetos de cada um, inequivocamente nomes que hoje provocam acolhimento crítico imediato. Ambos são títulos publicados por grandes casas editoriais, e não creio que qualquer editoria de grande veículo de mídia tenha deixado passar esses dois lançamentos sem resenhá-los. Li, ao sabor das circunstâncias e com diversos graus de atenção e respeito ao comentador, várias dessas resenhas, que variavam do tom moderadamente admoestador ao francamente encomiástico.
Além disso tudo, ambos chegam a essa altura nesta Copa por já terem passado por embates anteriores, deixando seus adversários para trás. Na resenha de Felipe Charbel, Na multidão bateu o livro de Ruy Castro, o sofrível e oportunista Era no tempo do rei. Charbel registra, creio que com acerto, que o livro de Garcia-Roza é um caso em que “o projeto acaba sendo mais atraente que sua realização”. Tendo a concordar com essa afirmação: a epígrafe de Walter Benjamin, que explica o título e insinua uma conexão entre a indiferenciação do indivíduo na grande metrópole e a forja do gênero policial, não pode ser trivializada. Na verdade, em minha leitura é isso que dá mais valor ao livro: um certo regime proto-ensaístico, que Charbel menciona ao falar em “divagações quase conceituais sobre a natureza da memória, da multidão e do individualismo contemporâneo”. Embora às vezes peque por didatismo (mas há que pensar na audiência do livro, há que pensar num modelo ideal para os fãs do delegado Espinosa), isso confere certa graça especulativa a um formato que creio cansado, e que tende a me interessar mais ao se aproximar do bizarro, do surreal, do estilo mondo — algo que, creio, já está em Poe. Aqui nada há de bizarro: há um protagonista cansado, envelhecendo. Há um Rio de Janeiro com as marcas da velhice e do cansaço também. Como apontado por Simone Campos, na resenha em que deu a vitória a Na multidão contra maisquememória, de Marcelo Backes, há também as personagens femininas pouco desenvolvidas, as tramas paralelas que se insinuam mas não conseguem respirar o suficiente, os personagens acessórios e, enfim, há esses diálogos entre detetives cariocas nos quais, francamente, não consigo acreditar, que não consigo ler sem acusar (mediocremente, sei) o autor de ser inverossímil, fato que se repete em uma cena de sexo que parece ter sido escrita para-minha-mãe-não-enrubescer. Há, portanto, uma matriz cansada: esse livro tematiza isso, concedendo o que pode ao formulaico no gênero e tentando articular, pela chave memorialística, algo afinado talvez com a epígrafe para convergir na afirmação conclusiva de fim, na remissão de Espinosa a um momento apropriado para, tendo sobrevivido até aqui, “sair de cena”.
Não é muito inteligente executar uma colagem entre fala do personagem e voz do autor, mas aqui creio que se trata de uma burrice tentadora. Os sinais de cansaço espalhados pelo livro, o regime de evocação memorialística de uma velha Copacabana, de um Bairro Peixoto que, como a Urca, simboliza uma ilha de sossego em meio ao caos da metrópole — não consigo deixar de pensar em Garcia-Roza desejando se livrar, enfim, deste personagem. Penso em Garcia-Roza passeando por Copacabana, evocando sua infância, refletindo sobre seu sucesso literário com o delegado Espinosa e, quem sabe, pensando que já é hora de dizer adeus. Se era esse o empenho, o livro é um sucesso, pois ao lê-lo pensei que, sem dúvida, já é mesmo hora de Espinosa sair de cena. Se era outro o empenho, o livro falha. Para mim, falhou como entretenimento, ao me retornar vezes sem conta à minha obrigação de comentador, ao ser incapaz de me retirar de um horizonte de ordinariedade e cobrança, ao ser incapaz de me oferecer algo de novo, estimulante, estremecedor (e sei que aqui manobro em uma exigência quase infantil: a de que a narrativa “me prenda”, e de que o trabalho de ficção é melhor na medida em que executa essa captura de maneira inequívoca — trata-se, obviamente, de matéria debatível, expressão de minha própria “ética supersticiosa” como leitor, mas quem não tem uma que atire a primeira pedra). E falhou também como reflexão sobre o gênero policial, o que talvez fosse uma ambição de seu autor (ou ambição forjada por mim, ao constatar a pompa e o vulto das epígrafes), ou sobre as relações entre memória, história, experiência e narrativa. O arremate de Charbel à sua resenha parece perfeito, e o roubarei para arrematar esse comentário: pareceria mesmo o caso de o livro ter perdido “para si mesmo”, não fosse seu adversário tão qualificado.
E agora me aproximo de O filho eterno, de Cristóvão Tezza que a essa altura do campeonato geral dos livros no país já vai cheio de louros, láureas, prêmios a granel. Trata-se de autor que nunca me interessou em particular, e ao qual dediquei atenção medíocre até agora — que me lembre, já me queixei várias vezes, entre amigos, a respeito da atuação de Tezza como comentador de literatura. Assim, não poderia fazer aqui uma análise como a de Jonas Lopes, que em sua resenha confere perspectiva e particularidade a O filho eterno contrastando-o com produções anteriores de Tezza e a partir disso afirmando que este “é seu melhor livro”, é seu produto “mais equilibrado”, aquele no qual “pela primeira vez emoção e técnica aparecem em doses iguais”. Eu estaria disposto a discutir esse ideal de simetria e equilíbrio como esteio de um juízo de qualidade, mas isso nos levaria em outras direções. Cabe valorizar aqui o que Lopes produz ao enfatizar algo que percebi de maneira semelhante: “O risco era enorme: o resultado do livro poderia ser um relato piegas do filho que fez o pai deixar as trevas e ver o quanto a vida é bela”. Assim como Alex Castro — que resenhou o embate entre O filho eterno e Rakushisha, de Adriana Lisboa — eu “[p]revia um romance demagogo e apelativo, cheio de momentos ‘chora agora’: aquelas longas cenas em que você sente que o autor está preparando o terreno e minando sua resistência, até culminar em uma frase de efeito absolutamente brega mas que ainda assim, para seu imenso ódio, te faz chorar”. Lembro mais: lembro de pensar que não seria possível fazer melhor que Oe — que tematizou situação semelhante em vários escritos; lembro de pensar também, com vileza, que Tezza havia aprendido a arte de copiar sem dar o devido valor à fonte com Teixeira Coelho, cujo vaidoso e derivativo História natural da ditadura Tezza havia elogiado copiosamente. Teixeira Coelho predou Sebald, agora estaria Tezza sugando em tema e forma Oe? Ademais, boa literatura raramente se faz com boas intenções, e o tema de Tezza parecia tão ajustável a um regime de boas intenções que tomei a catadupa de prêmios que foi conferida ao livro como comprovação efetiva de sua provável mediocridade. Com tanto aplauso, só podia ser ruim.
Mas não para por aí. Além de minha antipatia imediata pelo título, assim que recebi o livro deparei-me com uma epígrafe de Thomas Bernhard que me pareceu escusatória e piegas, aliciadora de uma jogatina com o “autobiográfico” como equivalente ao “verdadeiro”, e outra de Kierkegaard a respeito das relações entre pai e filho que só reforçava minha crença de que eu avançava célere para um encontro com a breguice.
Ao contrário de Alex Castro — que diz em sua resenha que não conhece ninguém com síndrome de Down e que por isso o assunto não lhe interessa (!) — não me aproximei do livro com nenhum parti pris antagônico ao tema: creio que boa literatura se faz com qualquer conteúdo, pouco importa o que é tematizado, importa é o como. Já havia lido Oe e admirado muito o que ele faz em zona semelhante; guardadas as devidas proporções há Steinbeck e Faulkner lidando com tema afim: “Vamos ver”, pensava eu. E vi uma narrativa excelente, com uma voz oscilante em perspectiva — e lugar temporal, e horizonte moral — que me deixou magnetizado do início ao fim. O livro, apesar de toda minha má vontade, funciona, e muito bem: rompeu meu antagonismo inicial, conquistou plenamente minha atenção, me deslocou e — perdoem minha breguice à la Afrânio Coutinho — me elevou. Que os prêmios abundem e que Tezza seja feliz, pois mandou muito bem.
O resumo apresentado por Lopes é eficaz e preciso, e a conexão sugerida com a voz do ciclo autobiográfico de Coetzee é muito produtiva — há uma efetiva semelhança na natureza do exame de si, nas características do projeto dos dois. Mas creio que em Tezza a volta adicional do parafuso é fazer a biografia de um em relação ao outro: os protagonistas do livro, pai e filho, constituem-se reciprocamente, e a biografia é, portanto, dupla. Com tudo de dubitativo, titubeante e falho que o pai aparenta ter, é sempre o filho que está ali, como presença e perspectiva que confere sentido aos gestos e feitos do pai. Dizer que pai e filho constituem-se reciprocamente é uma trivialidade; fazer ficção com tal matéria, e conduzir com tal afinco essa moralidade hesitante, de foco variável, não. Fala-se aqui de crescer nos anos 60, tornar-se adulto entre os 70 e os 80, ser o que se pode ser hoje; fala-se de agruras por grana e respeitabilidade, de auto-imagens que são sempre produtos especulares, de sonhos e desejos erráticos, mutáveis, infirmes. Como romance de formação que é, o livro tem um endereçamento moral mas, do mesmo jeito que as narrativas biográficas de Coetzee, não há uma “lição”.
Apesar de ser um livro que explora muitos erros, juízos equivocados, problemas comezinhos, aflições miúdas aos olhos de estranhos e imensas pra quem as vive, uma mesma voltagem percorre a trama de cabo a rabo: um acolhimento do problemático como matéria da existência, uma recusa à resolução fácil do conflito na ópera ficcional pela via da ironia, perfazendo um trabalho no qual nenhum deus ex machina é conclamado, nem há qualquer grande epifania final. E é sem nenhuma grande epifania que, creio, deve ser apropriado concluir essa resenha: na mesma chave com que o livro de Tezza chega ao seu final, que é — na medida em que representa a conclusão bem-sucedida de um projeto literário — indubitavelmente feliz.

O filho eterno
de Cristovão Tezza



























22/11/08 - 10:32 pm
Mauro Judice
Como vc sabe, “vanguarda” é só um termo inflado pra falar de pessoas q fazem diferente do q já foi feito. Na verdade, jamais houve nem jamais haverá um “tudo pode, nada é proibido”. Sempre q alguém vem com o papo de “ir contra as convenções”, eu sugiro q passe a dirigir apenas na contramão e a 100 por hora, pra ver o q acontece. Ou no caso de um escritor, lançar um livro inteiro com uma única palavra repetida 50 mil vezes. Quem apregoava q nada era proibido tava na verdade dizendo “não proíbam a obra extremamente formulaica q inventei de fazer.”
E olha q eu *gosto* de inconvecionices, hem. Tenho uns CDs aqui q só posso tocar qdo tou sozinho…
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