Jurada: Simone Campos
Como numa Copa do Mundo de verdade, muitas vezes o sorteio determina chaves fortes ou fracas. Assim, muitas vezes um favorito precisa eliminar outro para passar à próxima fase, enquanto um pangaré continua no campeonato sem grandes esforços — e a distorção entre o banco de apostas e a realidade faz qualquer torcedor querer gritar por “justiça” e até querer parar de acompanhar os jogos.
Qual foi o caso aqui neste jogo? Um dos livros julgados teve de enfrentar adversários fortes nas suas chaves de origem para chegar aqui; o outro ganhou pelo menos uma partida por sorte ou, melhor dizendo, por motivos técnicos. Mas só me cabe apitar a partida entre os que efetivamente li: Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, versus Leda, de Roberto Pompeu de Toledo.
Não é pelo exótico que Um defeito de cor encanta. Nem pelo toque politicamente correto de ser um “romance afro-brasileiro”. (Eu até torço o nariz para essas coisas, quando feitas com uma indevida ênfase à causa que defendem, porque arte comprometida raramente escapa de ser chata.) Um defeito de cor é simplesmente uma história muito bem contada.
O livro tem 950 páginas. Todos os que me viram lendo Um defeito de cor arregalaram os olhos: “uau, que tijolão!”, “parece o meu livro de química!” Matei duas moscas durante a leitura simplesmente depositando o volume sobre elas. Além de ser um texto extenso, a autora escolheu não usar travessões ou aspas para representar a fala dos personagens: é tudo paráfrase, encaixando-se em enormes parágrafos de texto corrido — a típica mancha gráfica espanta-leitor. Cadê o incentivo para comprar (e efetivamente pegar para ler) o livro? É duro imaginar como é que o leitor comum irá vencer esse Everest — até que se abra o livro na primeira página do primeiro capítulo.
A leitura avança rápido e bem, com uma taxa adequada de repetições, referências a acontecimentos (passados e futuros) e advérbios bem colocados para ajudar a memória e incentivar o progresso. A leitura desacelera sempre que há excesso de didatismo, mas só emperra mesmo por volta da página 400, a parte que trata da revolta dos malês (negros muçulmanos), retomando o impulso lá pela 550. As paráfrases dos diálogos funcionam que é uma beleza, muito melhor do que, por exemplo, a técnica de José Saramago de separar cada fala por vírgulas. Ficamos até conhecendo melhor a narradora através de sua forma de refrasear o que outros disseram.
A história: a pequena Kehinde é arrancada à África para ser vendida como escrava e, até chegar à costa brasileira, perde toda a família, inclusive uma irmã gêmea (ibêji, na cultura iorubá). Rebatizada Luísa, é comprada para virar mucama, cresce, fica forra, participa da revolta dos malês, volta à África e depois decide voltar ao Brasil.
A cada bordoada que Kehinde toma da vida, desde criancinha, ela vai ficando mais forte e mais esperta — e o leitor, mais encantado com sua fibra. Kehinde/Luísa narra já velha, de um ponto fixo no futuro, e em primeira pessoa. Assim, sua narrativa é uniforme justamente porque narrada do ápice do amadurecimento. Só tem um porém. Depois que nasce o segundo filho, Omotunde, Kehinde começa a se dirigir a ele diretamente por você, alternando com a primeira pessoa usada desde o começo do livro. Há coisas como “meu novo filho chorou” e “seu pai queria fazer de você um doutor” no mesmo parágrafo. Isso dá a impressão de que a velha Kehinde não tem lá muita concentração, e não parece ter sido intencional.
Apesar de episódios que podem ser vistos como fortes, não há grandes momentos de sentimentalismo ou autopiedade — nem de seu oposto, tédio ou cinismo — em Um defeito de cor. Se o leitor quiser senti-los por Kehinde, ele que sinta. A sensibilidade da (ótima) personagem não é a nossa: não é a do leitor nem provavelmente a da autora. Mais um ponto positivo.
Outro romance que trabalha bem a mitologia africana, inclusive usando o tema da ibêji morta, é A menina Ícaro, da nigeriana radicada em Londres Helen Oyeyemi. Significativamente, é comparado a este seu “gêmeo” que Defeito mostra mais seus defeitos: é explanatório demais, como se de vez em quando Kehinde/Luísa se destacasse do seu pano de fundo histórico e fosse bem lampeira até a lousa dar uma aulinha sobre cultura iorubá (ou geografia baiana, ou funcionamento de engenhos…). Em A menina Ícaro fica totalmente a critério do leitor conhecer mais sobre essa cultura — as explicações são propositalmente embaçadas. Mas a Wikipédia, a Barsa e a Britannica existem para isso mesmo.
É muito mais difícil explicar por que um livro é bom do que por que outro não o é. É por isso que esta resenha vai ficando por aqui para se deter sobre os problemas de Leda.
Sinopse: Adolfo Lemoleme, jovem professor de literatura, começa a escrever a biografia de seu ídolo, o escritor Bernardo Dopolobo. Em Leda, os ingredientes são os mais promissores: relação mestre/discípulo, mulheres, intrigas, vaidade intelectual, metalinguagem. Ainda por cima, os personagens caminham num terreno conhecido pelo autor, o acadêmico. Só que, de repente, dona Gigi, sogra de Dopolobo e cozinheira de mão cheia, solta uma análise literária destas em plena cozinha: “Eu vejo nessa história uma espécie de castigo contra esse país.” Ou seja, quando a ação sai desse ambiente, a linguagem se esquece de sair junto.
No atribulado começo há uma inútil inversão de pretensiosos adjetivos; depois, isto se dilui e, se havia um propósito no exagero inicial, não fica muito claro. De repente, há alguma conexão com uma das melhores coisas do livro: o retrato da galardeação intelectual que vai se acumulando sobre Dopolobo e, depois, sobre Lemoleme. Além das referências ao fiacre de Emma Bovary, evidenciando a ascendência de Flaubert sobre o personagem Dopolobo (e muito possivelmente sobre o autor), há a citação de livros inexistentes, um truque herdado de Borges.
Leda tem o valor de construir personagens muito coerentes. Acontece que eles são tão coerentes que só exibem o que se espera deles desde o princípio, emperrando um tanto a leitura. Aliás, os nomes dos personagens são todos sugestivos, coisa que angaria a antipatia de qualquer leitor bom em anagramas ou idiomas. Bernardo Dopolobo. Adolfo Lemoleme. Felícia Faca. Doutor Nochebuena. Professor Spielverderber. E por aí vai. O fato de haver trocas de ponto de vista não ajuda — logo ficamos sabendo o que Dopolobo e sua atual mulher pensam de Lemoleme, cortando o suspense pela raiz. Fosse diferente, Leda poderia ter frutificado numa boa história de detetive em disfarce de acadêmica (um Código Da Vinci menos medíocre).
O maior erro do livro está em descortinar a intimidade dos personagens sem com isso chegar a iluminar os desvãos mais sombrios de suas almas. Aliás, nem era preciso ir pelo caminho da seriedade. Se a proposta fosse, por exemplo, fazer pouco das intrigas e relações do mundinho literário — como fazem A estrela sobe (Marques Rebelo) e o recente Os atalhos de Samantha (Márcio Paschoal) com a indústria musical —, poderíamos nos comprazer nessa metalinguagem. Mas Leda caiu no meio-termo e caiu mal. Solenizou a relação mestre-discípulo e sua inversão, recorrendo a um quase humor que quase funciona. Não é que Roberto Pompeu de Toledo não saiba fazer isso. A história “O pecado encoberto”, parafraseada no epílogo de Leda, é excelente, cheia de ironia e movimento; se o livro todo fosse assim, ganhava de Defeito fácil, fácil. É que o autor procurou fazer algo de novo: uma jornada lítero-acadêmica, com metalinguagem e ironia, que não se escorasse nem no moralismo humorístico (Flaubert), nem na obsessão alfarrábica (Borges), e que resultasse em crítica e epifania. Fica esse mérito, mesmo que a tentativa tenha resultado frustrada.
Um defeito de cor dribla um grande número de páginas e algumas explicações e inconsistências narrativas para marcar um golaço no final: o de contar uma boa história. Embolou um pouco o meio de campo, mas jogou com alegria e garra, sem esquecer do placar. Leda entrou em campo promissor, depois se perdeu e só fez ficar mais lento no segundo tempo. Procurou inovar no esquema técnico e com isso deu seus chutes a gol, mas marcar, que é bom, quase nada. Lembram do “Quadrado Mágico” do Parreira? Pois é.

Um defeito de cor
de Ana Maria Gonçalves

O resultado do jogo 13 foi justo?
Sim – 18 votos
Não – 20 votos

Comentários de Lucas Murtinho
E assim termina a saga de Leda como destruidor de favoritos nesta Copa: não com um estrondo mas com um suspiro. O romance de Roberto Pompeu de Toledo, que causou sensação e surpresa (bom, pelo menos em mim) ao derrotar Memorial de Buenos Aires no jogo 10, é eliminado menos pelas qualidades do adversário do que por seus próprios defeitos — pelo menos foi essa a leitura que fiz da resenha da Simone.
E ao falar de Leda Simone abordou um tema que já tinha sido central na resenha de Jonas Lopes para o jogo 12: a relação, e eventual discrepância, entre a ambição de um romance e sua execução. A sensação de que Leda falha ao tentar fazer algo de novo foi um dos motivos da sua derrota, e o grande elogio que Um defeito de cor recebeu foi pela sua capacidade de contar uma boa história. Curioso um livro de duzentas páginas ser condenado por excesso de ambição e outro de quase mil ser elogiado por sua simplicidade, mas Sérgio Rodrigues já lembrou num comentário que a ambição do escritor não precisa ser limitada pelo tamanho do texto.
Enfim, Um defeito de cor está na final e deverá ser lido por todos os jurados — o que deve provocar um atraso na publicação do último jogo da Copa, inicialmente marcado para daqui a duas semanas. Mas antes Luiz Biajoni decide quem enfrenta o tijolo de Ana Maria Gonçalves: Música perdida ou As sementes de Flowerville? Até semana que vem.



























19/11/07 - 8:38 am
Gostei muito da resenha. Esclarecedora sem ser simplista e muito menos pedante. Valeu.
{ Comentar }19/11/07 - 8:54 am
Até por uma questão de formação – horas e horas da minha semana são dedicadas à leitura de historiadores pouco inspirados -, acho pouco provável que venha a ler Um Defeito de Cor. Ainda assim, apostei desde o início no livro de Ana Maria Gonçalves – os amigos do Prosa Contemporânea não me deixam mentir; logo eu, um mentiroso contumaz. Porém, estou na metade de Música Perdida, e como apostador atento mudo minhas fichas assim meio que na surdina. Cravo no livro de Assis Brasil, não só para a semi-final contra o insosso Sementes de Flowerville, como também na final.
Sobre a resenha da Simone Campos, está muito boa. (Existe uma Copa paralela das resenhas? se existir, minha final, até o momento, é entre Antonio Marcos e Simone). Bastante crítica, porém respeitosa, bem argumentada, especialmente no tratamento de Leda. Se por um lado nenhum dos jurados conseguiu me convencer até o momento a ler Um Defeito de Cor, os comentários de Simone sobre Leda são bem formulados e bastante persuasivos: excesso de coerência e pretensão, emulação de clichês, etc. E por falar em “inútil inversão de pretensiosos adjetivos”, este é, também, um defeito de Música Perdida.
{ Comentar }19/11/07 - 10:22 am
É no que dá quando uma resenhista inteligente, e ivulnerável à vaidade, lê um livro de pirotecnia estética. Não se deixa iludir pelos fogos de artifício da forma e não tem medo de valorizar o enredo. Brilhante.
{ Comentar }19/11/07 - 12:44 pm
Sem relação com o jogo 13, meu comentário é para divulgar a primeira parte da entrevista que a Revista Malagueta fez com treze escritores.
Os primeiros são Marçal Aquino e Luiz Antonio de Assis Brasil, um dos semifinalistas da Copa.
Quem se interessar pode entrar no blog da revista e ler as respostas.
Ah, foram publicados textos de alguns jurados da Copa na última edição da Malagueta também.
{ Comentar }20/11/07 - 12:50 am
Simone, interessante resenha. Só não entendi o q vc quis dizer com “uma taxa adequada de repetições”, sobre uDdC.
{ Comentar }20/11/07 - 3:48 am
Obrigada, obrigada a todos. Bom voltar do feriado e ver que o texto foi bem lido.
{ Comentar }Dr Plausível: seria aquele recurso de repetição de fatos – pontuado por “como eu já disse antes…”, “sei que estou me repetindo, mas…” – usado para refrescar a memória do leitor e dar liga à história. O uso desse recurso não chegou a ficar irritante, como em um livro que li e felizmente obliterei da memória. Por falar em obliterar da memória, tenho quase certeza de que existe um nome exato para esse recurso, mas esqueci qual é. Se alguém souber informar, agradeço.
20/11/07 - 10:25 am
Simone, junto-me ao coro dos contentes: excelente resenha.
Vc diz que “os nomes dos personagens são todos sugestivos, coisa que angaria a antipatia de qualquer leitor bom em anagramas ou idiomas. Bernardo Dopolobo. Adolfo Lemoleme. Felícia Faca. Doutor Nochebuena. Professor Spielverderber”. Isso, claro, me lembrou Pynchon, mestre dos nomes ridículos e com, digamos, potência semântica (Mucho Maas, Tristero, Benny Profane). E eu acho que isso com Pynchon funciona, que essa estratégia é usada com tanta consistência que produz um efeito narrativo interessante – confinar o personagem a um certo lugar no espaço social, fazer com que a gente desenvolva expectativas imediatas a respeito dele logo ao ouvir o nome pela primeira vez, frustrar essas expectativas mais adiante, etc. Outro dia falava com um amigo sobre um amigo de Saer, o Hugo Gola, e ele disse “Parece nome de personagem de Pynchon!” Pois é.
É fácil observar o uso desse recurso e ver que não está funcionando, que está só no domínio da gracinha, que é ineficaz como dinamizador da narrativa, etc. E mais uma vez penso: onde estão os editores desse pessoal? Será que não houve um editor, ou um amigo leitor, a indicar pro Toledo “Olha, isso aqui não tá muito bom, vc tá com a mão pesada”, etc? Tenho pensado nisso freqüentemente ao longo da Copa: onde estão os interlocutores dos autores?
{ Comentar }20/11/07 - 12:11 pm
Simone,
Pensei q vc tava sendo irônica.
Antonio Marcos,
Coincidência: é uma pergunta q me fiz mais vezes do q consigo lembrar. ¿Escritor só tem amigo q aprova?
“E aí, Joquinha, ¿já leu o manuscrito? ¿Q achou?”
“Tá bom, tá booom. Muito bem escrito.”
“…”
¿Ninguém quer ser responsável por uma mudança?
{ Comentar }20/11/07 - 12:13 pm
Antonio Marcos, talvez o interlocutor do autor seja apenas o resenhista ou crítico. Pois os leitores não fornecem um feedback direto (o livro pode vender bem, mas não se sabe o que o leitor achou do livro exatamente). Os editores que se aliavam ao autor de ficção em suas obras parece ser uma coisa do passado (infelizmente). Cada vez mais o departamento financeiro e o “faro” (ou a submissão) do editor decidem se o livro vai ser publicado como está ou não. Daí mais uma vez a importância dessa iniciativa da Copa, que parece criar um fórum inédito para os escritores que desejam ver suas obras discutidas, avaliadas, com respaldo e respeito.
{ Comentar }Saudações da praia
20/11/07 - 1:37 pm
Areias,
{ Comentar }Acho q o Antonio Marcos (e eu) quer dizer antes de o livro ser publicado, ou mesmo de ser enviado ao editor.
20/11/07 - 2:06 pm
[...] Dr Plausível em Semifinais – jogo 13 [...]
{ Comentar }20/11/07 - 2:16 pm
P/ constar: de longe, o melhor texto até agora nesta Copa– bem melhor, inclusive, do que vários dos livros que estão sendo resenhados. Aproveitei para visitar o blog da autora e há vários textos bem-escritos, engraçados e inteligentes, tais como o de 10/11 (”etiquette”), além de comentários hilariantes (Radiohead=É o Tchan).
Caso haja, tal como ocorre nas Copas, a escolha do melhor juíz p/ apitar a final, espero que seja a Simone Campos.
{ Comentar }20/11/07 - 5:31 pm
Tem razão, doctor, desculpem você e o Antonio Marcos o lapso no meu raciocínio.
{ Comentar }Ainda assim, antes tarde do que nunca.
20/11/07 - 6:03 pm
A intimidade tem uns usos escusos nesse país, vou te contar.
{ Comentar }Se eu fosse dona de editora, dona mesmo, a que detém o dinheiro e se refestela nos lucros, eu estabeleceria a seguinte regra: avaliação e acompanhamento editorial só podem ser feitos por pessoas que não conhecem o autor. Funcionaria mais ou menos como o conflito de interesses em direito. Até haveria original pulando etapas, mas assim que batesse na mesa do editor amiguinho do autor, aquele diria, “desolado”: “vou ter que encaminhar pra outra pessoa, normas da empresa”.
20/11/07 - 10:33 pm
Tbm vou puxar o saco – ótima resenha, profissional. Infelizmente uma das poucas realmente boas da copa.
{ Comentar }20/11/07 - 10:55 pm
Acho que vou repetir, mas fazer o quê? Quem manda chegar atrasado? Excelente seu texto. Sobre esse ponto em sua resenha:
{ Comentar }“Só tem um porém. Depois que nasce o segundo filho, Omotunde, Kehinde começa a se dirigir a ele diretamente por você, alternando com a primeira pessoa usada desde o começo do livro. Há coisas como “meu novo filho chorou” e “seu pai queria fazer de você um doutor” no mesmo parágrafo. Isso dá a impressão de que a velha Kehinde não tem lá muita concentração, e não parece ter sido intencional.”
Creio que é o mesmo problema que vi e que disse em minha resenha, na partida anterior. Parece que houve uma mudança que não estava prevista no início da narrativa, de se dirigir diretamente ao filho, e que no fim das contas causou um grande estranhamento quando o leitor chega lá.
21/11/07 - 9:43 am
Doutor, vc está certo – estamos de acordo, era à dimensão pré-publicação que eu me referia.
Areias, mesmo considerando a questão no pós-publicação, fica o problema de como os autores metabolizam a recepção. Se é laudatória, o autor é confirmado em seu projeto, e tudo fica no lugar do ponto de vista do aprendizado. Se é, todavia, uma crítica que manifesta alguma dissonância entre o projeto do crítico e o do autor – se, digamos, ela deixa de apenas confirmar o que o autor toma como ideal de literatura e manifesta uma compreensão alternativa – o que acontece? Por quê não há polêmica, interação, diálogo público, debate, conversação? Ou há – e eu, mal informado, saio por aí falando do que não sei? Corrijam-me, por favor.
Que me lembre, o único quiprocó decente entre autor e crítico que testemunhei foi o do Piza com o Martins.
{ Comentar }21/11/07 - 9:58 am
Simone, o regime moral que vc vai utilizar qdo se tornar dona de editora parece mesmo bom. Vc menciona o conflito de interesses no direito, eu pensei no esquema de comentário feito por um par acadêmico que, em tese, não sabe quem escreveu o texto que ele comenta – é prática corrente em publicações acadêmicas, e algo dessa natureza já estava de bom tamanho. Mas em literatura a fisionomia de todos importa e, já que isso é incontornável, a questão talvez seja de encontrar estratégias alternativas, propiciadoras de um tête-à-tête e uma conversação que, em princípio, beneficia a todos os interessados (veja a já mencionada, acho que pelo Lucas, conversa entre James Wood e Zadie Smith).
Deslocando um pouco o papo para seu lugar de ficcionista: como se dá isso com vc? Com quem vc dialoga a respeito do que produz? Como interage com a recepção?
{ Comentar }21/11/07 - 1:04 pm
Gosto de mostrar os textos para pessoas sinceras e impiedosas, antes e depois de editar. Depois de editado, presto bastante atenção ao feedback dos desconhecidos (como estou fazendo agora) que depois podem se tornar conhecidos, claro. Mas fundamental mesmo é deixar o superego fazer o seu trabalho e alimentá-lo com bons parâmetros, né?
{ Comentar }21/11/07 - 3:10 pm
Sim, Simone, sem dúvida: a nutrição dos critérios pessoais pela freqüentação da crítica e da literatura (ou seja: ler antes de escrever e, depois de ter escrito, continuar lendo) e o uso do crivo íntimo (que tem a ver com seu projeto estético, com suas ideias do que é bom e ruim em ficção) são imbatíveis, nada supera isso.
Só me ocorreu que, ao passo que abundam ids e egos hipertrofiados por aí, dentro e fora do mundo dos autores, o superego, a própria idéia de controle de alguma coisa, e de cuidado com a expressão – ah, isso tá fora de moda mesmo. Se estivesse em moda, a interlocução no campo literário – entre autores, críticos, editores, e leitores genéricos, não-profissionais – seria prática corrente e prezada: que controle melhor para as idéias que temos a respeito de nós mesmos e do que fazemos que a segunda opinião?
Me alongaria mais no papo – mas agora, que tenho um tempinho entre as aulas, vou voltar pra Kehinde e sua narrativa atlântica – oxalá não me afogue nem seja esmagado pelo livro, como as moscas da Simone.
{ Comentar }21/11/07 - 5:57 pm
Críticas são sempre complicadas, de fazer, de ouvir. Só não são complicadas para o leitor — por isso gosto tanto do meu confortável lugar na platéia (parafraseando aquele filme), com direito a mentex e pipoca doce.
Não sei nada sobre o mercado editorial brasileiro, mas às vezes fico com a impressão de que faltam leitores competentes, preparados, profissionais mesmo. Alguém citou, acho que foi Antonio Marcos, passagens desnecessárias de certas obras, que claramente poderiam ser excluídas sem prejuízo algum, muito pelo contrário. Li recentemente um livro, inclusive um participante dessa copa (não foi O Paraíso é Bem Bacana, adianto logo), e me senti constrangido pelo autor. Misto de clichês com “expertismos”, tentativas de ser moderno só por ser… É claro que entra o tal do gosto, a famosa “minha opinião”, cada vez mais uma desculpa para a falta de diálogo. Porém, não preciso recorrer a Sócrates para dizer que opinião e argumentação são coisas distintas, ainda que em muitos aspectos complementares.
Vou citar um exemplo. Li, com muita atenção, o livro do Galera, Mãos de Cavalo. Gostei do livro, algumas passagens são fantásticas, mas achei a solução fácil, apressada. O Galera tem tudo para se tornar um grande escritor, mas ainda não é. Me pergunto: será que ele não foi atropelado pela própria pressa? Será que um editor menos condescendente, e talvez menos ávido pelo faz-me-rir imediato (não é uma crítica, gosto muito de dinheiro) não teria dado a ele mais um tempo? Ou, o que é muito provável, diante da recusa do Autor (quem falou que ele morreu?), se recusasse a publicá-lo, será que nesse caso Mãos de Cavalo não teria se tornado um livro mais forte, talvez memorável? Não conheço o cara, só li esse livro dele. É apenas uma divagação.
Existe uma canonização do autor que é meio ultrapassada, e que está atrelada a diversas questões: o elogio de qualquer novidade, mesmo que inócua; a falta de preparo de muitos críticos e leitores (quem são os grandes críticos brasileiros); a dificuldade de repensar a literatura para além do nacionalismo. Poderia citar muitas outras coisas. O fato é que, volto a dizer, continuo esperando Godot, continuo esperando o salto da “literatura brasileira”. Li com muita atenção alguns livros da Copa e todas as resenhas, e pouca coisa me fez suspirar.
{ Comentar }22/11/07 - 1:00 am
Simone,
Aceita um sócio na sua Editora? Com tantos incentivos do governo, até que a idéia não é má. Só em pensar nos inúmeros bons livros que não chegam por aqui, nos que chegam porcamente traduzidos e nos autores nacionais tão desconhecidos quanto brilhantes dá vontade de mudar o mundo. Eu sei, sou um fanfarrão utópico. Minha maior qualidade e defeito.
Mas voltando à resenha e aos livros:
O que me dizem sobre Um defeito de cor na questão da coerência narrativa? Eu meio que vi uma salada grega quando ela conta a infância mesclando narradores de diferentes idades no mesmo parágrafo: ora o narrador é inocente com impressões e expressões infantis (”riozinho de sangue”) ora é adulto onisciente com linguagem que remete à alguém da nossa época. Me corrijam se estiver errado, mas não seria melhor optar por apenas um, buscando maior coerência e verossimilhança?
1 abraço.
OBS: Ah, e sou sincero e impiedoso, embora não reconheça em quais proporções. Portanto, se quiser ser maltratada (no bom sentido, claro
) lembre-se de mim, hehe.
{ Comentar }23/11/07 - 8:01 am
Essa foi a resenha mais laudatória de Um Defeito de Cor que li. Acho que só perde para a resenha de Millôr, que disse, empolgado, que esse tinha sido um dos dez melhores livros que ele já leu. Não, não acho que ele tenha lido pouco.
Mas como eu dizia, essa foi a resenha mais elogiosa que o tijolão — já carinhosamente apelidado de Um Defeito de Tamanho por alguns — recebeu nessa CLB. Isso e o desagradável cheiro de cueca dessa caixa de comentários me levaram a pensar em alguns fatos e a uma pergunta:
A) Entre os 15 jurados, apenas 20% são mulheres: Olivia, Renata e Simone.
B) Entre os 16 livros, cerca de 20% foram escritos por mulheres: Adriana (Corpo Estranho), Cíntia (Por Que Sou Gorda, Mamãe?) e Ana Maria (Um Defeito de Cor).
C) Considero que o pseudônimo Dr. Plausível seja de um homem. No jogo dele, ganhou o homem, perdeu Adriana.
D) No jogo de Renata, ganhou a mulher: Cíntia.
E) No jogo de Simone, ganhou a mulher: Ana Maria.
F) Olivia resenhou dois livros de homem. Não conta.
Como o papel do espectador é encher o saco dos comentaristas, pergunto: é possível concluir alguma coisa dos fatos C, D e E?
Tem razão a Crítica Feminista?
Abraços.
{ Comentar }23/11/07 - 8:29 am
Tiago, você poderia ter dito que a Olivia tirou do jogo o livro que fala de futebol.
O jogo do Doutor Plausível foi decidido na moedinha ou algo do tipo, não foi?
Bom, há esses livros escritos por mulheres aqui, mas poderia ter sido uma Copa de homens e ninguém falaria sobre os livros que as juradas escolheriam, pois seria mais “normal” mulher escolher um livro de homem (?). Não entendo.
Eu gostei do livro do Galera, os dois livros que o Leandro resenhou são de mulheres e eles gostou dos dois, a Olivia gostou do Música perdida, creio que outros jurados devem ter lido Um defeito de cor antes mesmo da Copa e podem ter gostado.
Quando leio um livro, eu leio o livro e não quem o escreveu. Mas falo de mim, não sei dos outros. Depois, numa análise, é que se leva em consideração outros livros escritos pelo autor, por exemplo. Mas isso também nada tem a ver com o fato de ser homem ou mulher. Claro que há mulheres que escrevem mais com o “toque feminino”, o mesmo com os homens. Mas… e daí? Qual é a intenção dessa discussão? Por que ela sempre volta? Não é melhor falar sobre os livros, levar a discussão até mais longe, do que sobre essas “condições de escolha” (para mim são inexistentes) dos jurados (especialmente das juradas)? Claro que isso é levar mais longe, mas para onde?
{ Comentar }23/11/07 - 10:46 am
Tiago, a resposta fácil é dizer que três casos não são o bastante para extrapolações estatísticas. Mas a pergunta é boa.
Quando anunciei quem ia apitar quais jogos, um jurado me escreveu dizendo que achava estranho o “Mãos de cavalo”, um romance tão “masculino”, ser julgado por uma mulher. O comentário, a derrota de “Mãos de cavalo” para “Por que sou gorda, mamãe?” no primeiro jogo da Copa e a sua observação me fazem pensar em duas coisas:
- Por que presumir que livros escritos por mulheres são “femininos” se livros escritos por homens não são necessariamente “masculinos”? Vale lembrar que, em média, as mulheres lêem bem mais que os homens. Livros que falam mais a elas do que a nós deveriam ser a norma.
- A partir dessa última frase: livros podem falar mais a mulheres do que a homens ou vice-versa? Acho que sim. Quem não leu “Mãos de cavalo” e não gosta de spoilers, afaste-se: se o protagonista do livro fosse uma mulher, faria sentido aquele tormento todo por não ter ido defender um amigo cercado de brutamontes? Não quero dizer que uma leitora não conseguirá nunca se identificar com o drama de Hermano, mas para um leitor essa identificação vem mais fácil – assim como o drama da protagonista de “Por que sou gorda, mamãe?”, que mistura obesidade e conflitos familiares, é mais imediatamente acessível às mulheres do que aos homens. Isso é um problema? Acho que não, mas se for os responsáveis são os autores e não os leitores.
Abraços,
Lucas
{ Comentar }23/11/07 - 11:36 am
A questão aqui é sobre o tendencionismo ou não existente na arte. As pessoas dizem que concordam com Bloon, com Kundera, com Antônio Cândido etc… quando estes dizem que toda a moral é interdita em literatura. Ao mesmo tempo, acham maravilhoso que se fale da questão do negro, das mulheres, dos homossexuais etc… e colocam estes pontos como valores artísticos. É engraçado, quando um sujeito mostra sua religiosidade nos textos, todo mundo reclama, todo mundo rejeita. Se o artista expõe em seu trabalho uma ética bem delineada, aquilo não é arte, é dogma. Agora, quando é uma questão de discriminação feminina, racial ou sexual, isto não se trata de um problema ético e moral? Não há algo estranho nisso? A questão de Tiago, se fiz boa leitura do que disse, está, neste sentido, profundamente relacionado com arte. E com as escolhas nesta Copa. Vejo mulheres cultas e inteligentes dizendo: a literatura não serve para nada e, em seguida, exaltam a crítica feita nos livros à discriminação sofrida por mulheres, na medida em que conscientiza os leitores sobre o problema. Vejam, a indagação de Tiago não desvia tanto assim do assunto da Copa, da literatura, da arte, das pretensas questões puramente estéticas (como se estética existisse in vitro). Há sérios problemas, ao meu ver, subjacentes à questão literária, ainda não resolvidos e que, por isso, voltam sempre à tona. Ou talvez eu não faça parte do número dos homens super sensíveis, paternais e abertos, que acham que não se pode questionar as mulheres e as minorias sobre sua posição artística. Não seria um problema profundamente artístico então, indagar os críticos de arte sobre o medo que têm de questionar a posição ética das minorias nos trabalhos artísticos? Se o crítico tem medo de discriminar certas éticas e outras não, ele está apto para ser um crítico de arte? Não está sendo tendencioso? Não temos nós, dentro de nós, resenhistas e comentaristas, certos conceitos estéticos cristalizados que nos fazem ler de um modo diferente, pessoal, personal, os textos? Não são estas questões pertinentes, aqui, então?
{ Comentar }23/11/07 - 11:41 am
renata, essa nem vale, porque eu adoro futebol
tiago, eu acho que muitas vezes há diferença entre o que mulher escreve e homem escreve, na maioria das vezes (generalizar não pode, é feio), mas não posso servir para qualquer análise que seja, porque eu costumo gostar mais dos livros dos homens.
e de qualquer forma, há menos mulheres escrevendo e aparecendo, e as algumas que existem e aparecem fazem questão de fazer a tal literatura mulherzinha, um troço bem chatinho, sei lá, tem gente que acha ainda que por ser mulher escritora tem que ser diferente de homem escritor. justamente por haver supostamente menos espaço para as mulheres, muitas que aparecem ainda querem dar à literatura um tom de transgressão do espaço masculino com assuntos exclusivamente femininos. eu sei que eu não tenho muita paciência para isso assim como não tenho paciência para livros metidos a revolucionários e cheios de palavrão e putaria, mas aí já é também questão de gosto.
{ Comentar }23/11/07 - 12:20 pm
O que a Olivia disse, de gostar mais de livros escritos por homens, também é uma preferência minha. E sobre haver as mulheres que fazem literatura de mulherzinha: também acho bem chato. Essas, sim, fazem questão de que tudo seja distanciado. Mas o que isso diz sobre nós duas? Os modos de pensar são diferentes, está cientificamente provado, o que for. Mas e…? Em vez de insistir sempre na mesma faixa do disco, por que não assimilar esses modos diferentes de pensar exatamente como isso: um modo diferente de pensar sobre determinado livro. Por que não priorizar o pensamento, o que foi dito, em vez de quem o disse? Acho que essa, sim, é questão pertinente.
Se no primeiro jogo fosse um livro do Marçal Aquino no lugar do livro do Galera, haveria grandes chances de o da Cíntia perder. O que isso quer dizer, então?
A indagação do Tiago já foi feita aqui por outras pessoas. Me interessa saber o destino disso apenas. A intenção também, na verdade. O que se quer descobrir com isso?
“certos conceitos estéticos cristalizados que nos fazem ler de um modo diferente, pessoal, personal, os textos”
Isso e outras detalhes fazem as pessoas lerem de forma diferente. Mas é com qualquer pessoa. Ou todo homem lê o mesmo livro da mesma forma? Às vezes parece que as pessoas acham que toda mulher lê igual.
{ Comentar }23/11/07 - 1:41 pm
Renata, a questão interessante é justamente se o “quem” influencia o “quê”. Até que ponto o sexo do escritor influencia o texto, e o sexo do leitor influencia a leitura? No lugar de “sexo” podemos colocar “etnia”, “religião”, “nacionalidade”. “Por que sou gorda, mamãe?” dificilmente seria o mesmo se sua autora não fosse judia; pode ser interessante saber se ele seria o mesmo se sua autora fosse um autor.
Abraços,
Lucas
{ Comentar }23/11/07 - 1:48 pm
-Acho que Tiago tem um ponto interessante, mas não no sentido que as estatísticas dele aparentemente apontam, de que os gêneros se defendem. O ponto é: a observação do gênero como dado. Então é um dado Renata dando vitória para Cíntia. Mas ninguém acha estranha a moeda do Plausível ter caído do lado macho? ué? quem sabe heim, essa moedinha não era tendenciosa.
-A expressão do preconceito é a desqualificação da capacidade da pessoa pelo que ela é e não pela sua fala ou ações. Numa situação de medição de força se percebe preconceito pelo seguinte: os preconceituosos não se deixam igualar com quem consideram inferiores, só querem disputar com quem consideram seus iguais. Os oponentes inferiores devem ser descartados, e para tanto a condição reveladora da inferioridade em questão deve ser bem destacada e devidamente apontada.
-Para mulheres (pelo menos as que eu conheço) a name is just a name. Se o livro foi escrito por George Sand ou George Orwell, o que importa é o livro. Reconhecem suas características distintas, mas que importam na criação daquele universo particular, não na acepção geral do mundo da vida e tudo o mais.
-Acho que no meio intelectual brasileiro existe um tipo de pessoa que se julga muito esclarecida e sem preconceitos e por isso divide mulheres em duas categorias: as que ultrapassaram seu gênero, por alguma razão super humana, quiçá hormonal, deixaram de ser mulheres para se tornarem, bem, intelectuais. E as outras, com quem não se deve nem discutir.
{ Comentar }23/11/07 - 2:08 pm
Faltam dados mais abrangentes na pesquisa do Tiago. Fui enfeixada com as outras mulheres – tanto escritoras quanto resenhistas. Meu nome é legião, porque somos muitas.
{ Comentar }Já numa visão por-pessoa, é uma resenha só, amostragem meio baixa para me apontar como protecionista. Compilando as estatísticas de toda a Copa devo ser até machista. Isso tudo segundo uma visão bem cartesiana, claro.
23/11/07 - 2:51 pm
Quando escrevi aquele texto que destacou, Renata, quis dizer que há conceitos ou paradigmas a respeito de arte introjetados em nossas cabeças ao lermos um livro. Muitas mulheres não percebem que um comentarista, às vezes, não gosta de um texto feminino do mesmo jeito que não gosta de um texto panfletário. Não gosta de textos quaisquer que levantem alguma forma de bandeira. Estou sendo claro? Daí, muitas mulheres pensam que é por discriminação. O cara acha importante a “igualdade entre sexos”, mas não gosta de ver o tema defendido em romance, por exemplo. Assim, para mim, uma das questões mais importantes em literatura e, por extensão, a arte, é se elas podem ou não ter utilidade. Para mim, pode, sim, contanto que o autor saiba mexer na alquimia da arte, sem torná-la doutrinária ou enfadonha. Também, não precisa ser em extremos: art pour art ou arte engajada. Às vezes, um, às vezes outro; às vezes, os dois… Sem fechar, sem formular, pode tudo. Se, bem feito, pode tudo. Agora, chega aquela escritora que procura um recheio literário para sua causa feminista, aí os homens reclamam (e as mulheres esclarecidas também).
{ Comentar }Obs- Vai dizer: os homens reclamam e só as esclarecidas reclamam – com isto quer dizer que qualquer homem vê o erro, enquanto só o vêem as mulheres esclarecidas? Não, nada disso. É mais fácil para a gente ver o erro alheio que o nosso. Qualquer mulher nota que nós deixamos a toalha molhada sobre a cama, mas nem todos nós, homens, que deixamos, notamos. Eu, por exemplo, muito culto e sensível, já percebi (depois de tomar algumas chicotadas de toalha molhada, que dói como couro).
23/11/07 - 2:51 pm
Agora fiquei curioso com o que o tiago vai dizer da final da CLB, pois estatisticamente já ficou claro que a disputa será um livro escrito por uma mulher contra um escrito por homem.
Seguindo o raciocínio dele o resultado seria previsível: 3 votos para Um defeito de cor e 12 para o outro livro, independente de qual seja.
Em tempo, notei outra estatística interessante (também baseada nas estatísticas do tiago): se somente 20% dos livros concorrentes são escritos por mulheres e somente 20% dos jurados da copa são mulheres como se explicar uma final hipotética entre um homem e uma mulher?
Alguém aí chame o Oswald de Sousa!
1 abraço.
{ Comentar }23/11/07 - 3:02 pm
“C) Considero que o pseudônimo Dr. Plausível seja de um homem. No jogo dele, ganhou o homem, perdeu Adriana.
…é possível concluir alguma coisa dos fatos C, D e E?”
Acho que somente quem vai poder comentar isso, além dele, é a esposa.
{ Comentar }23/11/07 - 6:04 pm
Pessoas, percebam que não sugeri que os livros escritos por mulheres ganharam os jogos apitados por mulheres só por causa de uma espécie de protecionismo informado pelo cromossomo XX ou coisa parecida. Isto seria leviano; afinal, também penso que os argumentos foram bem expostos, que houve critério na escolha e que elas conseguiram mostrar as razões — além do gosto — que as levaram a escolher um livro, e não o outro.
Acho que Lucas resume bem qual era o papo que eu estava querendo instigar. Eram duas coisas. A primeira: dentre as muitas questões que podem surgir desse tipo de provocação, estava a de saber se o campo da Teoria Crítica Feminista tem razão quando diz que o gênero informa a criação e a recepção da literatura, se é possível falar em texto feminino e texto masculino etc. — não tenho nem esboço de resposta para estas perguntas e agora reconheço que procurá-las aqui pode tornar o ambiente insuportavelmente rarefeito. A outra coisa era chamar a atenção para a pouca presença de mulheres no debate, principalmente considerando que “as mulheres lêem bem mais que os homens”, como foi lembrado, tal.
Se as coisas não ficaram claras desde o princípio foi porque eu ainda tava meio que acordando: as oito da matina que o primeiro comentário registrou na verdade eram sete, aqui onde não tem horário de verão.^^
{ Comentar }23/11/07 - 8:32 pm
Eu entendo a idéia proposta, Tiago. Mas meio que completando o que o Lucas disse, acho que deveria ser levada em conta até a criação da pessoa, se for assim. Assim como um livro deve se sustentar sozinho, um pensamento também, não importando a origem. Isso pode ser num primeiro momento para algumas pessoas, mas acho que deve ser prioridade o tempo todo.
O que eu não entendo é que sempre as “escolhas femininas” são questionadas, quando as dos jurados (usando o exemplo da Copa) são naturalmente aceitas. Não quero entrar naquela velha história de igualdade nem nada disso. Mas o que tem a mulher que termos e mais termos são inventados para designar formas de pensamento? Todo o resto é “normal”, portanto do homem? Desnecessário ser assim.
Um livro é inicialmente um pensamento. E acho que isso resume tudo o que quero dizer. Mas acho também que muita coisa (boa, inclusive) pode se falar sobre o assunto e o “nada resolvido” vai continuar — o que pode ser até bom. Sempre rendendo.
Gostei do teu comentário, Simone.
{ Comentar }23/11/07 - 9:30 pm
Então, tia, xô vê se eu ‘tendi: Defeito da Cor é (yet another) Grande Romance Brasileiro e Leda, um livrinho estranho, certo?
{ Comentar }23/11/07 - 9:50 pm
Notem q só um homem decidiria jogar a moedinha. :•)
Acho q uma discussão entra num beco sem saída qdo chega na questão do gênero – apesar de gerar debates animados. Gênero é a categoria definidora mais básica e óbvia q existe entre seres humanos vivos (mais básica q homem/mulher só morto/vivo); daí vem a comichão por opinar, e também os mal-estares. Mas qdo se chega aí, ¿avançar pra onde?
Mesmo q o gênero dos jurados contribua na decisão, ele é apenas o fator mais óbvio, a distinção mais básica entre nós, escancarada aí nos nomes pra todo o mundo ver. Mas ¿o que se poderia concluir se descobríssemos q, por uma aberração estatística, 40% dos jurados coincidissem de ser nisseis ou muçulmanos ou petistas?
A questão é q, além de agrupar os jurados por gênero, TAMBÉM seria possível nos agrupar por características muito mais sutis e q, acho eu, são muito mais definidoras na decisão de cada um. Logo de cara, tem uma distinção q já desbanca a relevância da dicotomia “texto masculino/texto feminino”: é o histórico de leituras de cada jurado. O gosto individual de cada jurado é influenciado, claro, pelos livros q já leu. Se uma mulher já leu com prazer 500 livros “de homem” e 50 livros “de mulher”, então ¿de que adianta falar em “texto maculino/texto feminino” na definição do q ela aprendeu a apreciar? Mesmo q o gênero influencie na criação e na recepção de um determinado livro, isso é só um potencial: não quer dizer absolutamente q o livro será (ou foi) de fato lido. E se um homem leu com igual prazer os mesmos 500 livros “de homem” e 50 livros “de mulher” q aquela mulher leu, então temos aí um fator de agrupamento muito mais forte do q o gênero de quem os leu.
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