Semifinais

19/11/07

Um defeito de cor jogo 13 Leda

Jurada: Simone Campos

Como numa Copa do Mundo de verdade, muitas vezes o sorteio determina chaves fortes ou fracas. Assim, muitas vezes um favorito precisa eliminar outro para passar à próxima fase, enquanto um pangaré continua no campeonato sem grandes esforços — e a distorção entre o banco de apostas e a realidade faz qualquer torcedor querer gritar por “justiça” e até querer parar de acompanhar os jogos.

Qual foi o caso aqui neste jogo? Um dos livros julgados teve de enfrentar adversários fortes nas suas chaves de origem para chegar aqui; o outro ganhou pelo menos uma partida por sorte ou, melhor dizendo, por motivos técnicos. Mas só me cabe apitar a partida entre os que efetivamente li: Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, versus Leda, de Roberto Pompeu de Toledo.

Não é pelo exótico que Um defeito de cor encanta. Nem pelo toque politicamente correto de ser um “romance afro-brasileiro”. (Eu até torço o nariz para essas coisas, quando feitas com uma indevida ênfase à causa que defendem, porque arte comprometida raramente escapa de ser chata.) Um defeito de cor é simplesmente uma história muito bem contada.

O livro tem 950 páginas. Todos os que me viram lendo Um defeito de cor arregalaram os olhos: “uau, que tijolão!”, “parece o meu livro de química!” Matei duas moscas durante a leitura simplesmente depositando o volume sobre elas. Além de ser um texto extenso, a autora escolheu não usar travessões ou aspas para representar a fala dos personagens: é tudo paráfrase, encaixando-se em enormes parágrafos de texto corrido — a típica mancha gráfica espanta-leitor. Cadê o incentivo para comprar (e efetivamente pegar para ler) o livro? É duro imaginar como é que o leitor comum irá vencer esse Everest — até que se abra o livro na primeira página do primeiro capítulo.

A leitura avança rápido e bem, com uma taxa adequada de repetições, referências a acontecimentos (passados e futuros) e advérbios bem colocados para ajudar a memória e incentivar o progresso. A leitura desacelera sempre que há excesso de didatismo, mas só emperra mesmo por volta da página 400, a parte que trata da revolta dos malês (negros muçulmanos), retomando o impulso lá pela 550. As paráfrases dos diálogos funcionam que é uma beleza, muito melhor do que, por exemplo, a técnica de José Saramago de separar cada fala por vírgulas. Ficamos até conhecendo melhor a narradora através de sua forma de refrasear o que outros disseram.

A história: a pequena Kehinde é arrancada à África para ser vendida como escrava e, até chegar à costa brasileira, perde toda a família, inclusive uma irmã gêmea (ibêji, na cultura iorubá). Rebatizada Luísa, é comprada para virar mucama, cresce, fica forra, participa da revolta dos malês, volta à África e depois decide voltar ao Brasil.

A cada bordoada que Kehinde toma da vida, desde criancinha, ela vai ficando mais forte e mais esperta — e o leitor, mais encantado com sua fibra. Kehinde/Luísa narra já velha, de um ponto fixo no futuro, e em primeira pessoa. Assim, sua narrativa é uniforme justamente porque narrada do ápice do amadurecimento. Só tem um porém. Depois que nasce o segundo filho, Omotunde, Kehinde começa a se dirigir a ele diretamente por você, alternando com a primeira pessoa usada desde o começo do livro. Há coisas como “meu novo filho chorou” e “seu pai queria fazer de você um doutor” no mesmo parágrafo. Isso dá a impressão de que a velha Kehinde não tem lá muita concentração, e não parece ter sido intencional.

Apesar de episódios que podem ser vistos como fortes, não há grandes momentos de sentimentalismo ou autopiedade — nem de seu oposto, tédio ou cinismo — em Um defeito de cor. Se o leitor quiser senti-los por Kehinde, ele que sinta. A sensibilidade da (ótima) personagem não é a nossa: não é a do leitor nem provavelmente a da autora. Mais um ponto positivo.

Outro romance que trabalha bem a mitologia africana, inclusive usando o tema da ibêji morta, é A menina Ícaro, da nigeriana radicada em Londres Helen Oyeyemi. Significativamente, é comparado a este seu “gêmeo” que Defeito mostra mais seus defeitos: é explanatório demais, como se de vez em quando Kehinde/Luísa se destacasse do seu pano de fundo histórico e fosse bem lampeira até a lousa dar uma aulinha sobre cultura iorubá (ou geografia baiana, ou funcionamento de engenhos…). Em A menina Ícaro fica totalmente a critério do leitor conhecer mais sobre essa cultura — as explicações são propositalmente embaçadas. Mas a Wikipédia, a Barsa e a Britannica existem para isso mesmo.

É muito mais difícil explicar por que um livro é bom do que por que outro não o é. É por isso que esta resenha vai ficando por aqui para se deter sobre os problemas de Leda.

Sinopse: Adolfo Lemoleme, jovem professor de literatura, começa a escrever a biografia de seu ídolo, o escritor Bernardo Dopolobo. Em Leda, os ingredientes são os mais promissores: relação mestre/discípulo, mulheres, intrigas, vaidade intelectual, metalinguagem. Ainda por cima, os personagens caminham num terreno conhecido pelo autor, o acadêmico. Só que, de repente, dona Gigi, sogra de Dopolobo e cozinheira de mão cheia, solta uma análise literária destas em plena cozinha: “Eu vejo nessa história uma espécie de castigo contra esse país.” Ou seja, quando a ação sai desse ambiente, a linguagem se esquece de sair junto.

No atribulado começo há uma inútil inversão de pretensiosos adjetivos; depois, isto se dilui e, se havia um propósito no exagero inicial, não fica muito claro. De repente, há alguma conexão com uma das melhores coisas do livro: o retrato da galardeação intelectual que vai se acumulando sobre Dopolobo e, depois, sobre Lemoleme. Além das referências ao fiacre de Emma Bovary, evidenciando a ascendência de Flaubert sobre o personagem Dopolobo (e muito possivelmente sobre o autor), há a citação de livros inexistentes, um truque herdado de Borges.

Leda tem o valor de construir personagens muito coerentes. Acontece que eles são tão coerentes que só exibem o que se espera deles desde o princípio, emperrando um tanto a leitura. Aliás, os nomes dos personagens são todos sugestivos, coisa que angaria a antipatia de qualquer leitor bom em anagramas ou idiomas. Bernardo Dopolobo. Adolfo Lemoleme. Felícia Faca. Doutor Nochebuena. Professor Spielverderber. E por aí vai. O fato de haver trocas de ponto de vista não ajuda — logo ficamos sabendo o que Dopolobo e sua atual mulher pensam de Lemoleme, cortando o suspense pela raiz. Fosse diferente, Leda poderia ter frutificado numa boa história de detetive em disfarce de acadêmica (um Código Da Vinci menos medíocre).

O maior erro do livro está em descortinar a intimidade dos personagens sem com isso chegar a iluminar os desvãos mais sombrios de suas almas. Aliás, nem era preciso ir pelo caminho da seriedade. Se a proposta fosse, por exemplo, fazer pouco das intrigas e relações do mundinho literário — como fazem A estrela sobe (Marques Rebelo) e o recente Os atalhos de Samantha (Márcio Paschoal) com a indústria musical —, poderíamos nos comprazer nessa metalinguagem. Mas Leda caiu no meio-termo e caiu mal. Solenizou a relação mestre-discípulo e sua inversão, recorrendo a um quase humor que quase funciona. Não é que Roberto Pompeu de Toledo não saiba fazer isso. A história “O pecado encoberto”, parafraseada no epílogo de Leda, é excelente, cheia de ironia e movimento; se o livro todo fosse assim, ganhava de Defeito fácil, fácil. É que o autor procurou fazer algo de novo: uma jornada lítero-acadêmica, com metalinguagem e ironia, que não se escorasse nem no moralismo humorístico (Flaubert), nem na obsessão alfarrábica (Borges), e que resultasse em crítica e epifania. Fica esse mérito, mesmo que a tentativa tenha resultado frustrada.

Um defeito de cor dribla um grande número de páginas e algumas explicações e inconsistências narrativas para marcar um golaço no final: o de contar uma boa história. Embolou um pouco o meio de campo, mas jogou com alegria e garra, sem esquecer do placar. Leda entrou em campo promissor, depois se perdeu e só fez ficar mais lento no segundo tempo. Procurou inovar no esquema técnico e com isso deu seus chutes a gol, mas marcar, que é bom, quase nada. Lembram do “Quadrado Mágico” do Parreira? Pois é.

Um defeito de cor
Um defeito de cor
de Ana Maria Gonçalves

Qual concorrente da CLB 2008 merece uma segunda chance na repescagem?

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Comentários de Lucas Murtinho

E assim termina a saga de Leda como destruidor de favoritos nesta Copa: não com um estrondo mas com um suspiro. O romance de Roberto Pompeu de Toledo, que causou sensação e surpresa (bom, pelo menos em mim) ao derrotar Memorial de Buenos Aires no jogo 10, é eliminado menos pelas qualidades do adversário do que por seus próprios defeitos — pelo menos foi essa a leitura que fiz da resenha da Simone.

E ao falar de Leda Simone abordou um tema que já tinha sido central na resenha de Jonas Lopes para o jogo 12: a relação, e eventual discrepância, entre a ambição de um romance e sua execução. A sensação de que Leda falha ao tentar fazer algo de novo foi um dos motivos da sua derrota, e o grande elogio que Um defeito de cor recebeu foi pela sua capacidade de contar uma boa história. Curioso um livro de duzentas páginas ser condenado por excesso de ambição e outro de quase mil ser elogiado por sua simplicidade, mas Sérgio Rodrigues já lembrou num comentário que a ambição do escritor não precisa ser limitada pelo tamanho do texto.

Enfim, Um defeito de cor está na final e deverá ser lido por todos os jurados — o que deve provocar um atraso na publicação do último jogo da Copa, inicialmente marcado para daqui a duas semanas. Mas antes Luiz Biajoni decide quem enfrenta o tijolo de Ana Maria Gonçalves: Música perdida ou As sementes de Flowerville? Até semana que vem.



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