Jurado: Leandro Oliveira
Abrindo a segunda fase, Por que sou gorda, mamãe? — a grande surpresa da primeira fase — enfrenta Um defeito de cor, um dos favoritos ao título da Copa. A resenha do primeiro jogo fez com que eu começasse a leitura de Por que sou gorda, mamãe? com a expectativa de descobrir o porquê de o livro ter sido tão bem avaliado. E após a leitura, ficou evidente que não deveria ser nenhuma surpresa ele estar na segunda etapa. Talvez o problema seja mesmo o título, que indetermina o conteúdo e favorece a idéia de ‘livro-mulherzinha’ que muitos tiveram ao se expressarem na caixa de comentários por ocasião do primeiro jogo. A leitura dá a certeza de que o livro, além de muito bom, está muito longe de se reduzir a um rótulo como esse. Mas vamos ao jogo que é o que interessa.
Por que sou gorda, mamãe? é narrado em primeira pessoa por uma mulher judia que decide entrar numa rotina de rígida dieta ao descobrir que num curto período conseguiu ganhar uns bons quilinhos. É bastante interessante o modo como a autora utiliza a questão do peso como mote para falar sobre a condição judaica no início do livro. A primeira frase do prólogo é:
Este é o começo doloroso e persistente da nova etapa de minha vida. Que se inicia ali, um pouco adiante, no ponto final deste prólogo. Depois, trato de purificar a memória em invenção.
O prólogo introduz a questão do peso, a preocupação em emagrecer da narradora, dando uma idéia errada de que a advertência serviu apenas para introduzir o leitor numa banalidade estética meio adolescente. Mas o que vem a seguir surpreende:
Para quem vem de uma família que, nos miseráveis e congelados vilarejos judeus da Europa, passou fome de comer só repolho ou só batata, para a qual, naqueles shtetels, carne era uma abstração que os dentes nem conheceram e que se acostumou a aplacar o oco do estômago com sopa de beterraba ou com aquele mamelingue, que nada mais era do que um mingau meio insosso de farinha de milho e água, a obsessão por comida nada tem, ou nada deveria ter, de extraordinário.
Aquela primeira idéia de que o livro é somente um diário adolescente se apaga e o leitor é levado a se interessar por essa família judia que passou fome. Quem são? Como vieram parar aqui? Abre-se uma nova e cativante perspectiva no romance. A questão judaica é, sem dúvida, o ponto forte do livro e o bom humor com que os personagens familiares são apresentados emociona em muitas situações.
O segundo livro, Um defeito de cor, conta a história de uma mulher negra africana, arrancada de sua terra natal de modo cruel para ser vendida como escrava no Brasil. A história tem vários pontos altos e mostra a dificuldade da personagem de entender o que acontece à sua volta, como ela amadurece e busca a liberdade e como é bem sucedida em enfrentar tantos problemas. Pela primeira vez tive a sensação de realmente conhecer um escravo que viveu no Brasil. Mesmo depois de tantos anos, nunca foi possível ouvirmos essa voz na literatura brasileira até a publicação de Um defeito de cor. Não se trata de uma personagem negra estereotipada por alguém que desconhece seus hábitos, sua religiosidade, sua cultura africana, sua relação com a vida social brasileira no século XIX. É uma personagem realmente negra, porque enxergamos tudo isso na obra. Houve um trabalho de pesquisa gigantesco para trazer todos esses detalhes à tona, recuperando uma voz que foi ignorada por tanto tempo pela nossa literatura.
Ambos os romances, portanto, apresentam personagens periféricos e buscam dar voz à alteridade e por isso minha leitura procurou enxergar qual dos dois livros descreve melhor esta situação. Em Por que sou gorda, mamãe?, a escritora, além de falar a respeito da cultura judaica e de emagrecimento, costura outros temas como a difícil relação entre a narradora e a mãe e as dificuldades de se tornar escritora. O modo como os temas estão costurados evidencia algumas falhas que fazem o romance perder sua força. Enquanto os capítulos passam a contar a história da família judia, o atrito entre mãe e filha e o amadurecimento da narradora, existem entrecapítulos que procuram informar como anda a dieta. Uma exasperante lamúria toma conta da história e de novo aparece a sensação de que se trata de uma historinha adolescente. O tom utilizado nesses trechos parece destoar do restante da narrativa: se era para fazer o leitor se compadecer da situação, os trechos soam ridículos; se era para serem engraçados, soam enfadonhos. Alguns exemplos:
Pessoas acima do peso não têm somente dificuldades para se locomover ou para amarrar os sapatos. Impedidos pela barreira do abdômen, alguns homens gordos não conseguem enxergar o próprio pênis.
Roupa em tamanho especial é o mais duro golpe na auto-estima duma pessoa.
Numa academia de ginástica não há gordos.
Como um gordo cruza as pernas?
Enquanto um magro coloca uma coxa sobre a outra, o gordo consegue mal-e-mal apoiar o tornozelo sobre o joelho oposto.
No fim, o romance se volta para a condição do escritor e parece que faltou desenvolver o ponto e relacioná-lo adequadamente com os outros temas do livro. De uma hora para outra, sai a fantasia e prevalece a autobiografia, de um modo intrusivo, como se não fizesse parte dali. Fica uma sensação de decepção, afinal a transposição de dois temas tão diferentes (a vontade de perder peso e o povo judeu) no começo do livro foi brilhante, por que o mesmo não ocorre no fim? Fiquei pensando que talvez tenha faltado um final mais amarrado à narrativa e à condição judaica. Oportunidades não faltariam para isso, já que o povo judeu legou ao resto da humanidade belas histórias que estão contidas na Bíblia. Mas o assunto aparece solto, de repente, dando a sensação de que pulamos um capítulo.
Em Um defeito de cor os defeitos são facilmente encontrados pelo motivo oposto: ao invés de parecer que falta algo, no romance sobram muitos trechos. Não se trata do número de páginas, mas do modo como alguns eventos são obsessivamente detalhados, dando a impressão de que a autora se deixou seduzir pela vontade de expor seu rigoroso trabalho de pesquisa. Alguns trechos evidentemente deveriam ter sido cortados, já que não servem a nenhum propósito na narrativa. Por exemplo, a narradora fala tanto de vários rituais religiosos africanos, dando tantos detalhes de cada um deles, que no final não nos lembramos de nenhum. Claro que se pode justificar o detalhamento dos vários rituais religiosos africanos e costumes da época em nome da verossimilhança da narrativa e da personagem, mas em alguns casos essa justificativa não convence, como no trecho abaixo:
Não sei se ainda é assim que se fabrica um charuto, mas lembro que fazíamos os miolos com folhas torcidas e colocávamos dentro de fôrmas, onde ficavam prensados por mais ou menos uma hora. Depois enrolávamos os miolos nas folhas mais inteiras, cortadas ao meio, que são as capas do charuto, escolhidas entre as mais bonitas. Havia várias qualidades e tamanhos de charutos…
E assim a narradora prossegue até o fim do parágrafo.
Como justificar o longo trecho onde se explica passo a passo o método de fabricação de charutos da época? A sensação é que a narradora quer se intrometer em todos os espaços da imaginação, não deixando nada para ser intuído. Essas explicações, ao invés de criar expectativas, tiram o foco da ação e dos acontecimentos. Parece que até mesmo a autora percebe isso e em certo trecho faz a personagem Kehinde se desculpar:
Não tenho idéia do que você sabe sobre os cultos da minha terra, e peço desculpa se nada do que eu contar aqui for do seu interesse.
E então passa a detalhar mais uma vez o que ocorre em certo culto.
Outro grande problema aparece no capítulo cinco, quando nasce o filho de Kehinde, para quem ela está narrando a história. De um modo muito estranho, o relato, que possuía um tom impessoal, como que dirigido a um leitor despersonalizado, a partir desse trecho ganha um tom pessoal e embola tudo. Imagine alguém contando um relato para seu filho usando não um termo familiar como “seu pai”, mas um nome próprio. Parece que a escritora teve a idéia de mudar o romance no meio do caminho e não quis reescrever todas as outras páginas. Há até uma tentativa de justificar o uso do tom impessoal, que não é muito convincente.
No final do confronto me peguei pensando: bom, e daí? Qual é o resultado de saber que existem falhas nos dois romances? De certo modo, a ausência de elementos para ligar os temas no final de Por que sou gorda, mamãe? fizeram com que visse o livro como bom em relação a certos temas. É como aquele time bem acertado, mas que erra passes cruciais e sofre gols no contra-ataque. Já em Um defeito de cor, quando o livro se fecha após a leitura da última página, o resumo que fica na sua cabeça exclui a chatice do excesso. Compadecemo-nos da personagem, sentimos dor ao nos lembrar que em certo período de nossa história certas ações deploráveis realmente existiram e que era inevitável para alguns uma vida de padecimentos por causa do seu “defeito” de cor. À medida que o tempo passa, a chatice vai se dissipando e Kehinde reaparece como a pessoa interessante que conhecemos pelas páginas da obra. O excesso se parece com aquele time de craques que perde uma enxurrada de gols porque na hora agá resolve fazer uma firula ou dar um toquinho a mais, mas no final o torcedor esquece tudo porque está comemorando a vitória. Por esses motivos, num placar bastante apertado, vence Um defeito de cor.

Um defeito de cor
de Ana Maria Gonçalves

O resultado do jogo 9 foi justo?
Sim - 24 votos
Não - 18 votos

Comentários de Lucas Murtinho
Até ler a resenha do Leandro, eu não tinha pensado muito sobre o fato de cada resenha da Copa falar de dois livros. A comparação é necessária para o jogo, e o que é necessário não precisa ser muito discutido. Mas o método usado para decidir o vencedor deste jogo chamou a minha atenção para um ponto positivo das resenhas comparativas.
A tarefa mais importante de um crítico é separar o joio do trigo, e por isso críticos que só vêem joio ou trigo à sua frente me interessam bem pouco. Mas na Copa todo jogo precisa ter um vencedor e um perdedor, o que quer dizer que às vezes será preciso procurar defeitos em livros bons, como o Leandro fez aqui, ou qualidades em livros ruins, como Bruno Garschagen fez no jogo 8 — ou apelar para a moedinha, como o Doutor Plausível fez no jogo 4. Mas o árbitro que não opta por essa saída pela tangente é obrigado a aprofundar e matizar sua análise. E o Leandro, numa resenha muito bacana, deixou claro esse processo.
Por que sou gorda mamãe?, a grande surpresa da Copa ao derrotar o arquifavorito Mãos de cavalo na primeira fase, é eliminado por outro favorito ao título e recebe elogios do jurado que o elimina. Se Alberto Mussa ganhou o troféu Fair Play nos comentários do jogo 7, será que o romance de Cíntia Moscovich merece ser declarado campeão moral da Copa? Quanto a Um defeito de cor, ele se recupera da vitória inglória da primeira fase e avança com fôlego renovado para as semifinais. Seu adversário, Leda ou Memorial de Buenos Aires, sai no próximo jogo, apitado por Marco Polli.



























20/11/07 - 2:05 pm
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