Jurado: André Gazola
Realmente não era minha intenção trazer à tona esta tão batida discussão, que costuma levantar defensores e agressores inflamados, com argumentos apaixonados e até escandalosos. Mas creio que é inevitável. O que é literatura?
Leda narra a história do professor Adolfo Lemolene, fã número 1 do grande escritor Bernardo Dopolobo. Tamanha é sua admiração que Lemolene decide escrever a biografia do ídolo. Depois de grandes dificuldades e um longo tempo de espera, o professor consegue finalmente a autorização de Dopolobo, que se mostra bastante animado, colaborando com horas e horas de entrevistas e descrições de sua trajetória.
Lemolene revive cada passo do escritor: refaz suas viagens, recria seus conflitos, sofre o mesmo tipo de acidente e até tem um caso com a mesma amante. Todo seu esforço faz com que o primeiro volume da biografia seja um sucesso. Dopolobo, atingido em cheio pela fama de seu biógrafo, passa a evitá-lo e, em um golpe de puro ardil, publica a biografia de Lemolene. O grande conflito fica em torno de quem é o mais famoso e talentoso, além do medo crescente que sente Dopolobo ao verificar que talvez seu biógrafo saiba mais de sua vida do que si mesmo.
A possibilidade de utilização do conceito de livro dentro de livro quando escrevemos sobre escritores foi muito bem explorada por Pompeu de Toledo. A obra de Dopolobo ilustra concretamente a vida do seu autor. Por exemplo, na versão condensada de A busca vã imperfeição, principal livro do escritor, somos levados a um universo paralelo que nos faz entender diversos aspectos psicológicos fundamentais do personagem. Aliás, essa é exatamente a melhor qualidade que pude observar na narrativa: os personagens são muito bem formados psicologicamente. Dopolobo, o famoso e excêntrico escritor, encontra na fama um modo de dar sentido à própria vida, que considera banal como a de qualquer ser humano. Porém, sua biografia faz perceber o quanto essa vida — impregnada por misteriosos segredos de sua infância — influencia sua obra. Lemolene, o professor e pesquisador que vai até o fim com todos seus ideais, mantém seus princípios mesmo quando se torna famoso, mas incorre num deslize que se torna fatal.
O movimento pendular é um estudo profundo sobre o adultério e suas mais diversas formas, através da teoria dos triângulos amorosos. O autor dá exemplos de cada triângulo através de pequenas histórias de traição. Entre essas histórias, encontramos fatos que remetem à lingüística histórica, à sociedade brasileira dos séculos XVIII e XIX e ainda a narrativas fantásticas, mitos que fazem parte de antigas e poderosas culturas e que culminam com casos de adultério.
O livro me soou como um trabalho acadêmico, e o apêndice final só confirma esse fato. São listados todos os tipos de triângulo, com seus nomes específicos — como triângulo centrífugo, triângulo ofídico, triângulo ególatra — e um pequeno parágrafo com mais exemplos do tipo de triângulo em questão. É nesse sentido que faço o questionamento do parágrafo inicial. Será um estudo acadêmico merecedor de ser chamado literatura?
Mesmo como estudo acadêmico, O movimento pendular tem seus defeitos. O autor se prolonga demasiadamente no estudo dos triângulos, o que torna a narrativa bastante monótona e confusa em várias passagens. As histórias que entrelaçam cada estudo, apesar de narrarem mistérios evolventes em alguns casos, não ilustram de forma clara o tipo de adultério analisado. Algumas delas até parecem um tanto inverossímeis, embora o autor deixe no ar a pergunta sobre quais seriam verdadeiras e quais seriam ficcionais. Há no início do livro a afirmação de que apenas uma delas é falsa, mas no final o autor aponta a possibilidade de apenas uma ser verdadeira.
Devido à análise da teoria dos triângulos, que torna o estudo quase uma questão matemática, o trabalho ficou com aparência artificial, contribuindo ainda mais para renegar sua literariedade.
O motivo principal para eleger Leda à próxima fase da Copa de Literatura Brasileira é exatamente por não considerar O movimento pendular merecedor do adjetivo “literário”. Apesar disso, não pretendo tirar o mérito de Toledo, que conseguiu reproduzir com grande originalidade o orgulho de um ser humano tão habituado com a fama que não consegue prosseguir normalmente com sua vida no momento em que se vê nas sombras de um simples professor talentoso, que se ergue apoiando-se em suas costas.
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VENCEDOR
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Comentários de Lucas Murtinho
O que é literatura? A minha resposta para essa grande questão é pequena: literatura é qualquer história de ficção escrita. Se um dia você foi um pouco flexível com a verdade numa redação sobre as suas férias (esse é o maior clichê de redação do mundo, mas alguém lembra de escrever uma redação com esse tema?), você escreveu uma obra de literatura. Ruim, provavelmente, mas literatura. E é esse o ponto: chegar a uma definição simples e abrangente, que não dependa do gosto do freguês.
Ou seja, eu dificilmente eliminaria um romance da Copa por ele não ser literário o bastante. Mas entendo o que o André quis dizer, embora eu apresentasse a questão em outros termos: um romance é o melhor veículo para apresentar teorias sobre o comportamento humano? André acha que não, e chegou à conclusão de que O movimento pendular não se sustenta enquanto literatura. O que me deixa curioso para ler o livro e conferir por mim mesmo. Mas, no escuro, os argumentos da resenha são convincentes: um estudo exemplificado por histórias que podem ou não ser ficcionais é literatura no meu livro, mas perde para um romance com personagens bem desenvolvidos e uma trama bem arranjada.
Leda, portanto, passa para a próxima fase, na qual Memorial de Buenos Aires e o jurado Marco Polli o esperam. Semana que vem, a primeira fase da Copa termina com um jogo que promete: o pelo menos fisicamente grande Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, enfrenta Os vendilhões do templo, do pelo menos reputadamente grande Moacyr Scliar. Bruno Garschagen apita.





























08/10/07 - 9:32 am
Olá,
Acho que o cerne da questão levantada pelo André sobre O Movimento Pendular seria se os exemplos citados foram escritos por ele. Se sim, com certeza é literatura, pois apesar de parecer com um trabalho acadêmico, é criação do próprio autor. Se não, aí sim entraria a dúvida: algo escrito sobre literatura é literatura? Resenhas, pesquisas, críticas entrariam nessa classificação? Tem gente que diria que sim, se a resenha (ou crítica ou trabalho acadêmico) usou as mesmas ferramentas do original. Outros diriam que não, pois uma resenha (ou etc etc etc) que não se sustente sem apoiar-se em outra obra não é independente, então não é literatura.
Eu realmente precisaria saber se os casos de adultério foram inventados ou coletados antes de formar uma opinião a respeito. O que me diz André, vc saberia me dizer o que o Mussa fez?
{ Comentar }08/10/07 - 9:37 am
Esqueci um detalhe importante que me veio ao pensamento após escrever meu comentário anterior: essa classificação só definiria se a literatura é ficcional ou não-ficcional. Então, de qualquer forma seria literatura, mesmo que chata e parecendo trabalho acadêmico. Tenho de dar o braço a torcer.
{ Comentar }08/10/07 - 9:44 am
Jefferson, por incrível que pareça, o autor usa essa questão como um “mistério”.
Como eu digo ali na resenha, no início do livro ele afirma que apenas uma delas é falsa — e portanto criada por ele, creio eu — e convida o leitor a tentar descobrir. Ótimo, você passa o livro inteiro com a impressão de que tudo é falso. Aí no final ele joga a bomba do “Oh, eu enganei você!” e diz que talvez só uma delas seja verdadeira, mas cabe a você tirar suas conclusões.
Eu realmente não entendi qual a intenção dele com esse joguinho. O Lucas falou muito bem no comentário dele, um romance não é o melhor caminho para um estudo acadêmico. Ou você faz literatura, ou apresenta resultados de uma pesquisa. Não os dois juntos.
{ Comentar }08/10/07 - 9:51 am
Tudo bem, literatura de não-ficção está aí, mas o fato é que além das tais histórias — que se isoladas dariam um livro de contos — há as análises.
É das análises que eu estou falando.
Eu me senti, literalmente, um estudante de matemática ao ler o livro. São teoremas, gráficos, fórmulas, ângulos, termos técnicos, etc. Isso “não me desce”.
{ Comentar }08/10/07 - 3:41 pm
Ah, outra curiosidade minha: Por quê o título Leda?
{ Comentar }08/10/07 - 3:43 pm
Meus amigos, primeiro quero dar parabéns aos idealizadores da copa. Foi uma idéia muito inteligente. Assim que soube que o meu livro estava concorrendo, passei a acompanhar os jogos. É, realmente, um modelo bem emocionante, esse mata-mata literário. Pena que o atual campeonato brasileiro tenha deixado de ser assim.
Quero também dizer que não vim reclamar do resultado. Achei a crítica coerente. Toda crítica que não tenha um caráter pessoal, como foi a do André, tem que ser levada em conta. Aliás, muitas pessoas que não gostaram do livro têm os mesmos motivos.
Isso não quer dizer que não estou triste, é claro que queria ter ganho. Mas é do futebol, da literatura e da vida. Infelizmente, a gente não escreve como quer, mas como pode.
Mas quero mesmo é esclarecer uma dúvida surgida no debate. O livro tem 17 histórias grandes, principais (são aquelas que têm título). Essas todas são ficção. Já a maioria das que estão incluídas nos comentários não é minha. No apêndice, há algumas historietas originais, outras são recriações de histórias bem conhecidas.
Bem, era isso. Fiquem com o meu abraço.
alberto mussa
{ Comentar }08/10/07 - 4:24 pm
Depois desse post do Alberto Mussa, sugiro aos organizadores a criação do Troféu Fairplay da CLB. Parabéns, Mussa. Muito bacana.
{ Comentar }08/10/07 - 4:36 pm
Se essa talvez não seja a melhor resenha da Copa, embora não comprometa a compreensão das qualidades que constituem um e outro livro, o autor mais magnânimo e interessante a se apresentar aqui foi o Mussa, que tem leveza e maturidade para ler críticas negativas, compreendê-las e não expressar sombra de ressentimento. Touché. Vou procurar ler seu livro, viu Mussa, só porque você foi finíssimo.
{ Comentar }Um abraço,
clara lopez
08/10/07 - 4:38 pm
Muito legal mesmo. Indiretamente reforça algo que postei em outra ocasião aqui mesmo nessa Copa, sobre a elegância (no sentido de boa-educação mesmo) ao expressar-se.
O Mussa só deve ter cuidado pois pode ser tachado como mais um espécimen de “Homem Cordial”.
{ Comentar }08/10/07 - 4:43 pm
Ao Jefferson: O título “Leda” é devido a uma personagem do livro de Dopolobo, que é também representada na vida real, no primeiro encontro entre biógrafo e biografado. Um ser misterioso, pra dizer o mínimo.
Ao Alberto Mussa: Confesso que fiquei com bastante receio em publicar essa resenha. A falta de literariedade é um conceito que eu considero bastante pessoal. Mas afinal, esse é o intuito da nossa Copa, um prêmio que prioriza a opinião de pessoas de carne e osso, com transparência de opiniões, mas sempre aberto à discussões.
Só quero destacar que não achei o livro ruim. [Se] É um trabalho acadêmico, eu sou um acadêmico. Aquela história que narra a trajetória do guerreiro da tribo africana (os khoisan, se não me engano), elucidou alguns aspectos da linguística histórica que muitas horas-aula na faculdade não haviam feito. Só que eu esperava por um romance, com tramas, conflitos e tudo mais. Foi isso que eu não encontrei.
Obrigado por seu comentário e concordo com o Jorge, se ouvesse um troféu Fairplay, seria seu.
{ Comentar }08/10/07 - 5:49 pm
Obrigado ao Jorge, à Clara, ao Claudio, ao André. Apesar de achar que respeitar os críticos e a crítica, mesmo negativa, é obrigação de quem escreve, não há nada demais. Até porque as pessoas publicam livros para conquistar leitores. É a opinião do leitor que a gente busca.
{ Comentar }Acho esse espaço aqui inclusive muito democrático, porque permite o diálogo.
Vou perder os dois próximos jogos em função de uma viagem, mas em novembro estou de volta, torcendo pelo meu favorito, da arquibancada.
abraço em todos
08/10/07 - 5:51 pm
Quem dera se todos aprendessem com o Mussa como se debate!
Concordo com o conceito do Lucas: entrou ficção, é literatura. Porém, a fronteira que indica onde começa verdadeiramente a ficção pode, por vezes, ser sutil demais para caber num conceito esquemático como esse.
{ Comentar }08/10/07 - 8:54 pm
Sem dúvida, palmas pro Mussa. Gostei de todas as participações de autores até agora, mas a sua se destacou. E, como disse o Jorge (cuja participação tb tem sido bem bacana aqui), Troféu Fairplay pra vc.
Um efeito colateral interessante da resenha do André foi que o Mussa perdeu, mas foi o livro dele o que mais me interessou. Sua descrição convocou minha atenção, André, e eu, ao contrário de vc, tendo a curtir jogos literários com o vocabulário e as estruturas retóricas da academia (o que é um jeito de rir de mim mesmo, provavelmente). Eu gosto de Lem e Borges por várias razões, mas uma delas certamente é que eles jogam esse jogo paródico que vc parece ter visto aí no livro do Mussa.
Agora, de fato vcs estão interessados em abrir a caixa de Pandora da definição do literário? Eu mesmo passei de raspão por esse problema em minha resenha, mas acho que é assunto bom pra isso, pra se passar de raspão, e usá-lo eventualmente para falar de gosto, de preferência, de prazer e de enriquecimento da experiência. O prolongamento da discussão em torno da natureza do literário ou vai tornar o papo demasiado acadêmico (o que tb me interessa, mas que exige muito, creio, para se fazer efetivamente interessante) ou será uma solução de compromisso como a do Lucas (que resolve tudo, pois não complica nada – e talvez a graça inicial do debate esteja justamente em sua grande complicação).
Longe de mim querer censurar a conversa. Mas, todas as vezes que tentei bater o martelo do juízo final com relação a um gênero, um modelo, uma opção literária e julgá-la de pouco valor colocando-a fora da literatura, logo me arrependi. E talvez haja algo aí, nesse arrependimento, que fala do problema que há aí pra mim: se batemos o martelo, acabou a conversa. E, quando o assunto é literatura, acho que a conversa é melhor que o juízo final.
{ Comentar }08/10/07 - 8:56 pm
PS André, não quer enviar seu exemplar do Movimento Pendular pra mim? Troco pelo meu exemplar do Zveiter.
{ Comentar }08/10/07 - 9:05 pm
PS 2 Fui olhar qto estava custando o Movimento Pendular (pois suspeito que o André repudiará minha sugestão de barganha) e vi que, em um sebo online, classificaram o livro na estante de Antropologia.
{ Comentar }08/10/07 - 9:12 pm
Mussa, um de meus autores favoritos, o Antonio di Benedetto, tb dedicou um livro (pequeno, mas muito bom) ao tema do triângulo amoroso, “El Pentagono”. Um jeito de descrever o livro é dizer que ele é uma exploração de variações em torno do tema do triângulo, vários contos mais ou menos integrados por um eixo narrativo. Vc conhece esse livro? De acordo com a descrição que o André fez do seu, parece ser algo nessa praia.
{ Comentar }08/10/07 - 9:23 pm
Parabéns ao Alberto Mussa que conquistou vários leitores pela elegância em participar do debate, apesar da crítica negativa do André. Acho que, de certa forma, ele acabou ganhando esta rodada.
{ Comentar }08/10/07 - 9:31 pm
Falou-se aí que tudo que tem ficção é literário. Mas muita coisa de não-ficção é literatura também. Algumas autobiografias podem ser colocadas no mesmo patamar de importância (e estilo) da ficção dos autores, caso de Origem (Thomas Bernhard), Antes do Fim (Ernesto Sabato), Infância (Graciliano), Istambul (Orhan Pamuk), A Pessoa em Questão (Nabokov) e muitos outros..
{ Comentar }08/10/07 - 10:55 pm
Oi Antonio Marcos, primeiro, obrigado pelo seu interesse, obrigado aliás, a todos, fico até meio sem ter o que dizer.
Quanto ao Di Benedetto, conheço Zama e Os Suicidas, dois livros muito bons. Não conheço este O Pentágono, engraçado que costumo acompanhar as resenhas, gosto muito da literatura latino-americana, e não me lembro de ter lido nada sobre este. Saiu a tradução brasileira?
A idéia do pendular é um pouco parecida. Só que o fio que une as narrativas está na teoria do narrador, nos comentários que ele faz a respeito das histórias.
Fico aqui torcendo pra você gostar do livro.
abraço a todos
{ Comentar }09/10/07 - 12:22 am
Eu gostei muito de “O movimento pendular”, achei-o um livro interessantíssimo na sua proposta e no seu desenvolvimento e lamento a sua eliminação na Copa, embora respeite o parecer do crítico. Como não li “Leda” não posso opinar com propriedade sobre o embate, mas se alguém tiver interesse em conhecer uma impressão diferente a respeito do livro de Alberto Mussa, convido a ler algumas linhas que escrevi sobre ele no começo do ano no Digestivo Cultural. Basta fazer um clique neste link:
http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=2240
Abraços!
{ Comentar }09/10/07 - 8:03 am
Tenho acompanhado meio em distância esta Copa – uma iniciativa histórica em minha opinião – e eis que me emociono aqui por dois motivos: a seriedade do André Gazola, sua postura imparcial e principalmente pela atitude honesta em busca de um trabalho profissional que é a ‘critica literária’.
E por fim, concordo que o autor está de parabéns sim, pela elegância pertinente somente aos grandes escritores.
Parabéns, Alberto Mussa!
{ Comentar }09/10/07 - 8:31 am
Antonio, realmente essa troca não me parece muito atraente
. Isso de discutir, solidamente, o que é literatura, como você bem destacou, quase sempre torna o debate muito enfadonho, mas creio que com o respeito que estamos vendo aqui, a discussão está interessante.
Jonas, quanto ao seu comentário, vou ilustrar com uma frase do próprio livro ganhador: Toda biografia é uma fraude. Mostrando que, de qualquer forma, toda biografia tem um pouco de ficção.
{ Comentar }09/10/07 - 11:41 am
Recomendo a vocês que leiam a resenha crítica sobre o livro do Mussa em questão feito pelo Luis Eduardo Matta que acaba de comentar logo acima e que li há algum tempo. Excelente. Aliás, prestem atenção ao que ele tem a dizer também sobre o movimento que lidera: LPB, Literatura Popular Brasileira, ao qual me sinto francamente integrado.
{ Comentar }A respeito disto, gostaria de fazer breve consideração. Poucas vezes vi gente mais elegante, sensível e culta discutir como aqui, Jefferson, Antônio, Doutor, as meninas, os Murtinho… enfim, todos os resenhistas e muitos comentaristas como o Stephen, muitos. Certa ocasião, vi um desenho, ou guache, onde figuravam Nathaniel Hawthorne e Hermann Melville, fumando cachimbo, junto a uma lareira, à meia luz, sóbrios, serenos, discutindo sobre a vida. Pensei: Deus, imagine-se sobre o que conversavam. Quando poderemos encontrar um papo à altura da alta metafísica qual a entretida por estes dois? E, no entanto, sem exagero, encontro neste site conversas que me fazem lembrar os emintenes escritores norte-americanos. Daí, o texto do Luis Eduardo Matta e a indagação. Gente tão brilhante não teria muito a dar no sentido de elaborar (sem se esquecer da grande arte) uma literatura para integrar o enorme contingente que não pode ler algo mais acessível, porém profundo? Notem que esta mass media (como chamava McLuhan) é produzida e controlada pelos indivíduos mais arrivistas, desqualificados, capitalistas do mundo. Acho que precisamos usar a inteligência desta maravilhosa rapaziada que aqui vemos neste blog, por exemplo, para mudar este quadro. E mudar este país.
09/10/07 - 2:18 pm
Ao Cláudio: o comportamento do Mussa é justamente o oposto daquele próprio ao “Homem cordial”. Se você se refere ao conceito desenvolvido pelo Sérgio Buarque, acho que não entendeu direito o espírito da coisa.
Abraços!
Walter.
{ Comentar }09/10/07 - 3:45 pm
Walter,
Não é bem isso. É que em outro debate critiquei a truculência de um dos juizes da Copa, por considerar que uma certa expressão utilizada por ele ao referir-se a um dos autores havia sido grosseira. Outros também criticaram, já outros mais, não. Ocorre que um dos leitores soltou um “brasileiro é burro mesmo” por, penso eu, achar que os que criticavam estariam pregando algo parecido com o “politicamente correto” (aargghh). Na verdade – e aí está o Mussa para comprovar – podemos discordar, podemos ser contundentes, podemos ser até ferinos, sem que para isso haja necessidade de ofender a quem quer que seja.
Aí, no meio desse imbroglio, alguém soltou o conceito de “Homem Cordial”, a meu ver de forma bastante distorcida. Por isso fiz alusão a isso mais acima, da mesma forma, distorcida também.
É só. Mas já passou, ok? Um abraço.
Aproveitando: não custa repetir, essa Copa é bem legal. Só lamento que vários bons autores tenham ficado de fora. Que a próxima Copa venha logo.
{ Comentar }10/10/07 - 9:39 am
Alberto, sou um dos leitores potenciais conquistados pela sua intervenção aqui na Copa. Apesar de saber que simpatia não é talento, fiquei com muita vontade de ler o seu livro. Mais, até: fiquei com vontade de gostar do seu livro. Muito obrigado pela participação.
Jonas, a minha definição é fechada mesmo: literatura é ficção, não-ficção é outra coisa. O que não quer dizer que um seja melhor do que o outro: pelo contrário, a idéia é justamente poder usar o termo “literatura” sem que esteja implícito qualquer juízo de valor. Senão, como o Antonio disse, a conversa não acaba nunca – o que, como o Antonio também disse, pode não ser tão mau. Mas enfim.
Claudio, também acho uma pena a ausência de alguns livros na Copa, mas não tem jeito: são dezesseis vagas, e vai ter sempre um décimo-sétimo de fora. Mas, se tudo correr bem, ano que vem tem mais – com a safra 2007 da literatura brasileira, que eu estava achando um pouco fraca mas trouxe boas surpresas.
Abraços,
Lucas
{ Comentar }10/10/07 - 8:16 pm
Lucas, eu que agradeço. E gostaria muito de conhecer sua opinião. Como já disse aqui, vou fazer uma viagem amanhã, e não terei computador. Só voltarei a acompanhar a copa em novembro. Até lá, quem sabe você já não tenha comcluído a leitura?
{ Comentar }forte abraço
13/10/07 - 7:33 pm
Acabei ontem de ler o Reparação de McEwan. Excelente! Certo, o século XX e sua valorização excessiva do mental está ali: a perspectivação, a metalinguagem como estrutura (através de fina campintaria, note-se), os deslocamentos de realidade (inclusive pela relatividade da memória do narrador); os daimons, conforme denominou Bloom, tanto no sentido dos fantasmas interiores das personagens, quando de sua capacidade de desdobrarem-se em “eus”. De fato, o romance moderno está lá e sua fundamental contribuição à literatura. Com uma diferença. Mc Ewan não se acanha ou se intimida em mostrar os bons sentimentos, como compaixão, perdão, ética, solidariedade… Quanto tempo, eu não via em livro um amor pungente entre homem e mulher! Pois, os maus sentimento, ódio, desprezo, violência, arrogância, ah, estes podem ser explorados nos livros à exaustão. Aí o escritor não resvala em narrativa assertiva, piegas, panfletária e, horror dos horrores, em moral! Os escritores de hoje têm medo de Bloom: “avançamos par uma Era Teocrática em literatura”; de Kundera: “é interdita toda a moral em literatura”; de Antônio Cândido: “a literatura reivindica sua independência e não se presta a qualquer fim edificante”. Para desviar desta terrível armadilha, os escritores dissimulam os sentimentos humanos atrás de cinismos, de visões caóticas e deprimentes de vida, de afetada perplexidade ou de uma prosa sensacionalista (como a brutalista), de um realismo mais árido, no dizer de Briony. O que isto tem a ver com a Copa? Tudo. Os ótimos resenhistas me deixaram entrever que os romances do campeonato pecam por formalismo oco e deixam de lado as emoções positivas. Melhor fariam se escrevessem histórias menos pretensiosas – ao menos, se aproximariam do leitor médio (carente de opções de leitura de nível). Não nego, o ideal, obviamente, é a soma do dois: a abordagem dos grandes dramas humanos imanentemente ligada à elaboração formal, estética. Para mim, o romance Reparação é a concretização dessa possibilidade. Deve ser para a Copa um parâmetro – não paradigma – ao tanto que consigo penetrar a questão.
{ Comentar }17/10/07 - 8:07 am
[...] traz um belo decálogo x 3. Escrito por Alberto Mussa (é, aquele mesmo cujo livro eu desclassifiquei, na Copa de Literatura Brasileira), Miguel Sanches Neto e Michel Laub (outro participante de Copa), traz respectivamente à [...]
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