Oitavas de final

08/10/07

O movimento pendular jogo 7 Leda

Jurado: André Gazola

Realmente não era minha intenção trazer à tona esta tão batida discussão, que costuma levantar defensores e agressores inflamados, com argumentos apaixonados e até escandalosos. Mas creio que é inevitável. O que é literatura?

Leda narra a história do professor Adolfo Lemolene, fã número 1 do grande escritor Bernardo Dopolobo. Tamanha é sua admiração que Lemolene decide escrever a biografia do ídolo. Depois de grandes dificuldades e um longo tempo de espera, o professor consegue finalmente a autorização de Dopolobo, que se mostra bastante animado, colaborando com horas e horas de entrevistas e descrições de sua trajetória.

Lemolene revive cada passo do escritor: refaz suas viagens, recria seus conflitos, sofre o mesmo tipo de acidente e até tem um caso com a mesma amante. Todo seu esforço faz com que o primeiro volume da biografia seja um sucesso. Dopolobo, atingido em cheio pela fama de seu biógrafo, passa a evitá-lo e, em um golpe de puro ardil, publica a biografia de Lemolene. O grande conflito fica em torno de quem é o mais famoso e talentoso, além do medo crescente que sente Dopolobo ao verificar que talvez seu biógrafo saiba mais de sua vida do que si mesmo.

A possibilidade de utilização do conceito de livro dentro de livro quando escrevemos sobre escritores foi muito bem explorada por Pompeu de Toledo. A obra de Dopolobo ilustra concretamente a vida do seu autor. Por exemplo, na versão condensada de A busca vã imperfeição, principal livro do escritor, somos levados a um universo paralelo que nos faz entender diversos aspectos psicológicos fundamentais do personagem. Aliás, essa é exatamente a melhor qualidade que pude observar na narrativa: os personagens são muito bem formados psicologicamente. Dopolobo, o famoso e excêntrico escritor, encontra na fama um modo de dar sentido à própria vida, que considera banal como a de qualquer ser humano. Porém, sua biografia faz perceber o quanto essa vida — impregnada por misteriosos segredos de sua infância — influencia sua obra. Lemolene, o professor e pesquisador que vai até o fim com todos seus ideais, mantém seus princípios mesmo quando se torna famoso, mas incorre num deslize que se torna fatal.

O movimento pendular é um estudo profundo sobre o adultério e suas mais diversas formas, através da teoria dos triângulos amorosos. O autor dá exemplos de cada triângulo através de pequenas histórias de traição. Entre essas histórias, encontramos fatos que remetem à lingüística histórica, à sociedade brasileira dos séculos XVIII e XIX e ainda a narrativas fantásticas, mitos que fazem parte de antigas e poderosas culturas e que culminam com casos de adultério.

O livro me soou como um trabalho acadêmico, e o apêndice final só confirma esse fato. São listados todos os tipos de triângulo, com seus nomes específicos — como triângulo centrífugo, triângulo ofídico, triângulo ególatra — e um pequeno parágrafo com mais exemplos do tipo de triângulo em questão. É nesse sentido que faço o questionamento do parágrafo inicial. Será um estudo acadêmico merecedor de ser chamado literatura?

Mesmo como estudo acadêmico, O movimento pendular tem seus defeitos. O autor se prolonga demasiadamente no estudo dos triângulos, o que torna a narrativa bastante monótona e confusa em várias passagens. As histórias que entrelaçam cada estudo, apesar de narrarem mistérios evolventes em alguns casos, não ilustram de forma clara o tipo de adultério analisado. Algumas delas até parecem um tanto inverossímeis, embora o autor deixe no ar a pergunta sobre quais seriam verdadeiras e quais seriam ficcionais. Há no início do livro a afirmação de que apenas uma delas é falsa, mas no final o autor aponta a possibilidade de apenas uma ser verdadeira.

Devido à análise da teoria dos triângulos, que torna o estudo quase uma questão matemática, o trabalho ficou com aparência artificial, contribuindo ainda mais para renegar sua literariedade.

O motivo principal para eleger Leda à próxima fase da Copa de Literatura Brasileira é exatamente por não considerar O movimento pendular merecedor do adjetivo “literário”. Apesar disso, não pretendo tirar o mérito de Toledo, que conseguiu reproduzir com grande originalidade o orgulho de um ser humano tão habituado com a fama que não consegue prosseguir normalmente com sua vida no momento em que se vê nas sombras de um simples professor talentoso, que se ergue apoiando-se em suas costas.

VENCEDOR

Leda, de Roberto Pompeu de Toledo
Leda
de Roberto Pompeu de Toledo

Qual concorrente da CLB 2008 merece uma segunda chance na repescagem?

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Comentários de Lucas Murtinho

O que é literatura? A minha resposta para essa grande questão é pequena: literatura é qualquer história de ficção escrita. Se um dia você foi um pouco flexível com a verdade numa redação sobre as suas férias (esse é o maior clichê de redação do mundo, mas alguém lembra de escrever uma redação com esse tema?), você escreveu uma obra de literatura. Ruim, provavelmente, mas literatura. E é esse o ponto: chegar a uma definição simples e abrangente, que não dependa do gosto do freguês.

Ou seja, eu dificilmente eliminaria um romance da Copa por ele não ser literário o bastante. Mas entendo o que o André quis dizer, embora eu apresentasse a questão em outros termos: um romance é o melhor veículo para apresentar teorias sobre o comportamento humano? André acha que não, e chegou à conclusão de que O movimento pendular não se sustenta enquanto literatura. O que me deixa curioso para ler o livro e conferir por mim mesmo. Mas, no escuro, os argumentos da resenha são convincentes: um estudo exemplificado por histórias que podem ou não ser ficcionais é literatura no meu livro, mas perde para um romance com personagens bem desenvolvidos e uma trama bem arranjada.

Leda, portanto, passa para a próxima fase, na qual Memorial de Buenos Aires e o jurado Marco Polli o esperam. Semana que vem, a primeira fase da Copa termina com um jogo que promete: o pelo menos fisicamente grande Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, enfrenta Os vendilhões do templo, do pelo menos reputadamente grande Moacyr Scliar. Bruno Garschagen apita.



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