Jurado: Antonio Marcos Pereira
Fodas, fodeções, fudidos, filhos-da-puta, escrotos: tais elementos abundam nas duas narrativas desse certame. Tanto Flávio Braga em O que contei a Zveiter sobre sexo quanto André Sant’Anna em O Paraíso é bem bacana levam o leitor a um universo onde o sexo move a trama e no qual, movidos pelo sexo ou pelo desejo de sexo ou por suas manifestações oblíquas e disfarçadas, os personagens passeiam por surubas, sessões de sado-masoquismo e exibições de rematada escrotidão e grandeza épica. O resultado do jogo é o mesmo de um hipotético encontro entre o XV de Piracicaba — em qualquer época— e o São Paulo na época de Telê Santana. Braga só pode comparecer em uma Copa de Literatura a partir de uma definição muito caridosa de “literatura”: seu livro é um equívoco do começo ao fim e, incrível, mesmo depois do fim. Já Sant’Anna produziu um belo exercício de literatura, dando um legítimo show de bola, cheio de lances que hão de contaminar a memória das gerações futuras. Meninos, eu vi: foi uma goleada.
Vamos começar por O que contei a Zveiter sobre sexo. Ao longo de mais de trezentas páginas, Braga expõe as aventuras de João, um sujeito que só pensa ‘naquilo’. Sua trajetória é marcada única e exclusivamente por seu desejo de fazer sexo, que sobrepuja todos os demais. A tudo ele se rende para fazer sexo, e sempre se atrapalha por causa disso. E, depois de fazer uma vez, ele quer fazer de novo, com outra, de outra maneira. Todas as circunstâncias de sua vida dignas de serem narradas ou resultam em sexo, ou partem de sexo, ou são entremeadas por sexo. Ele transa com putas, trabalha como cafetão e gigolô, tenta escrever um roteiro para um filme pornô, come a ex-amante do próprio pai e trepa com a própria mãe. No meio do caminho, encontra tempo para fazer um curso de Letras — fato inócuo que não resulta em uma carreira nem em desenvolvimentos adicionais da trama, funcionando apenas como uma espécie de indulto para a expressão rebuscada que o personagem utiliza para se relatar. A certa altura, ficamos sabendo que o relato é estimulado por sua relação como cliente de um psicanalista heterodoxo, o Zveiter do título.
O mote é semelhante ao do lapidar A consciência de Zeno — até o título do livro de Braga lembra o romance de Italo Svevo. Mas onde Svevo faz o inesquecível Zeno ser a vítima perene de suas trapalhadas e expô-las ao escrutínio de um psicanalista para que nós possamos, no processo, escrutinar a nós mesmos e nossas neuroses e impasses existenciais, o João criado por Braga é um personagem tão monocórdico em sua única obsessão que torna improvável qualquer processo de identificação. Sem identificação, sem uma relação minimamente empática com o personagem, arrastei essa leitura movido por uma idéia quase cristã de que a redenção final sempre é possível. Não foi; pelo contrário, no posfácio o livro ainda naufraga mais. Um trecho típico:
O sentimento envolvendo Renata era de grandeza intelectual, como se seus conhecimentos participassem de nossa vida afetiva. É claro que era excelente o nível de nossas conversas, e ela me instruía bastante. Nossos intercursos eram pontuados por observações interessantes sobre o homem e a natureza, o idealismo em Kant, a questão da linguagem em Lacan ou Nietzsche e a pós-modernidade. Como eu não tinha nenhuma base, muitas vezes misturava tudo. Para sublimar minha inferioridade patente, eu me esforçava ao máximo para lhe dar prazer. Cada sessão de sexo envolvia muitos orgasmos. Renata me procurava várias vezes por semana.
Há momentos em que o personagem assume mais claramente seu lugar de ensaísta e filósofo de alcova:
O sexo pode ser pura alegria. Há quem gargalhe antes do coito, à simples perspectiva do gozo. Durante a ação: sisudez e formalidade interior que vai nos invadindo e por fim estamos desesperados de paixão. Isso, naturalmente, durante uma relação desejada. Há realismo na afirmação contracultural ligando drogas, sexo e rock-and-roll. O sexo pode ser festa, pura alegria… e viciar como droga.
Há, por fim, momentos que são só sacanagem:
— Ai, malvadinho, me deixou excitada, me penetra, vai…
— Não. Só retirei sua mordaça para ouvir seus gritos.
Arranquei o esparadrapo da vagina num único movimento. Ela gemeu e girou o corpo, provocando um ajuste do nó de forca.
— Me penetra — suplicou.
As lágrimas rolaram.
Retirei da bolsa dois pepinos grandes onde eu esculpira aríetes dentados e os enfiei lentamente em sua vagina e ânus. Ela gemeu alto, fui forçado a amordaçá-la, novamente.
Sacanagem, entenda-se bem, com o leitor. “Grandeza intelectual”? “Sisudez e formalidade interior”? “Aríetes dentados”? Com quem ele pensa que está falando? Só pode ser um caso de pressuposição de um leitor estúpido, um leitor idiota, um leitor tão escroto quanto esse personagem indigente até em sua vilania, incapaz de provocar em mim um momento sequer de alegria. Imagino que Braga, como qualquer autor, deseja que seus leitores suspendam a descrença, comprem a idéia, se importem com os personagens e suas tribulações. Mas, salvo o caso de um leitor estúpido ideal, é difícil acreditar que alguém minimante familiarizado com a leitura efetivamente creia em João, no que faz, como faz. A pseudo-sofisticação da retórica do personagem, o uso de gêneros distintos (a certa altura, lemos trechos de um roteiro pornô ordinário, tradicional, e em seguida o roteiro supostamente elaborado, “cabeça”, criado por João) e a incorporação de situações retiradas de outros romances (há um momento em que João emula, de maneira resumida, os passos trágicos da ascensão e queda de Humbert Humbert, o narrador de Lolita) pressupõem um leitor com um certo histórico, uma certa familiaridade com produções literárias mais sofisticadas. Mas não consigo conceber um leitor bem-informado apreciando essa narrativa na qual nada funciona. Há um paradoxo: o leitor ideal do livro deve ser capaz de identificar e julgar interessante o trabalho intertextual do autor, que obviamente importa para ele. Mas um leitor com esse tipo de formação dificilmente será seduzido por uma narrativa tão unidimensional. Como a narrativa não tem a mínima condição de sustentar o interesse de um leitor mais criterioso, imagino que Braga privilegiou, em seu projeto de leitor ideal, alguém muito semelhante a seu personagem: um sujeito mal-informado e meio tosco, mas ávido de alguma respeitabilidade intelectual. Especulando, pensei que poderia ter lido sobre um personagem com questões a respeito da forma de seu desejo, mas li apenas sobre um escroto que fode, e que fodeu a minha paciência. Que pena — que pena que li.
Mas, como o que é ruim sempre pode piorar, eis que piora. Pois há um posfácio. Ora, o paratexto é um recurso poderoso: pode balizar uma leitura, alterar o campo semântico de um texto, instruir o leitor a respeito de sua tarefa interpretativa. O posfácio de Zveiter me diz que seu autor busca atrelá-lo a Cervantes, Nabokov, Petrônio, Bocaccio. Quanto a isso, nenhum problema: uma das alegrias da literatura há de ser poder escolher de quem você é filho, poder usar da predileção para afirmar sua genealogia. Mas é preciso fazer jus a sua genealogia de eleição, estar à sua altura em alguma medida — nem que seja pela intensidade com que se quebra a cara. E Braga nem chega perto disso: ele não corre risco algum. Nesse livro que fala de sexo mas que é curiosamente privado de qualquer momento de ousadia, talvez seja notável apenas o fato de Braga não ser capaz nem de produzir um diálogo profícuo com a tradição literária à qual ele se remete no posfácio, nem de recusar o diálogo com essa mesma tradição.
Quando Nabokov, criador de personagens incrivelmente vis e infinitamente fascinantes, nos apresenta às obsessões sexuais de Humbert Humbert ou de Charles Kinbote, sabemos que estamos diante de figuras lastimáveis, escravos narcisistas do próprio desejo. Mas eles nos capturam, nos comovem, nos fazem rir — enfim, mobilizam quem lê. E desde que li Aspectos da teoria da sintaxe nunca havia passado por uma experiência de leitura tão tediosa e pouco recompensadora quanto esse Zveiter. Será matéria de orgulho para mim vê-lo naufragar no que espero ser a maior goleada dessa Copa.
***
Em O Paraíso é bem bacana estamos diante de outra espécie de animal. Talvez seja o primeiro Bildungsroman de um fudido na história da literatura. Pois é o que se narra aqui: a história da formação de um fudido que, qua fudido, cumpre seu destino trágico — ou seja, se fode.
Se em seu livro anterior, Sexo, Sant’Anna escreveu um pequeno tratado de nenhuma virtude para demonstrar que cada um fode como pode, aqui vemos que o exercício continua, em um certo sentido, o mesmo: em que pesem todas as distinções formais e temáticas que separam os dois livros, um jeito de ler O Paraíso é considerá-lo um longo texto que proclama que cada um se fode como pode. Com uma estrutura algo semelhante à da segunda parte de Os detetives selvagens, de Bolaño, o livro de Sant’Anna é construído a partir de inúmeros fragmentos em que os personagens falam de si ao falarem de sua relação com Mané, menino pobre de Ubatuba. Aliás, pobre não: fudido. Negro, sem pai, mãe alcoólatra, péssimo na escola, Mané custa até a aprender a bater punheta. Depois de alguns jogos de glória pelo Santos sub-17, ruma para a Alemanha com um contrato para jogar futebol na Gringolândia. Lá, descobre a promessa das setenta e duas virgens que aguardam o mártir da Intifada, se torna Muhammad e, enfim, escolhe: o Mané, que “era otário demais para ser um filho-da-puta”, que “não estava entendendo nada”, que “não sabia o que era status”, que “era incapaz de sentir orgulho por qualquer coisa que tivesse feito”, que era “incapaz de interpretar qualquer interpretação vinda das outras pessoas” e que talvez nem “soubesse o que é um ser humano”, decide se tornar um “marte”. E pronto.
Como dar conta de um personagem assim? As mil e uma vozes que fazem esse livro são muito, muito distintas: há a psicóloga do Santos; há o primeiro treinador; há policiais na Alemanha; há um trompetista brasileiro jogado em Berlim; há os colegas escrotíssimos da escola do Mané em Ubatuba; há a mãe do Mané; há o patrício e conselheiro auto-intitulado do Mané na Alemanha, o Uéverson. E há o narrador, que fala basicamente de e sobre o Mané. Há vozes excelentes: Sant’Anna tem um ouvido bom para a fala popular, captura e aposta em nuances relevantes. Seus fudidos e seus escrotos falam como tais, não se vê ênclise nessa terra, e as concordâncias e regências são erráticas. Mas a voz está lá, audível, palpável, cheia de erros de acordo com a norma gramatical mas sempre interessante, viva:
Mané era um pretinho, viadinho. Ele ficava aqui na porta, olhando pra dentro com cara de esfomeado. Tinha um colega aqui, o Carioca, que gostava de menino, dava dinheiro pra eles comerem a bunda dele. O Carioca sempre oferecia de pagar um lanche pra esse Mané.
É porque é tudo mocréia. Se elas conhecesse o negão aqui, elas largava esses véu e essas roupa preta e ia fazer fila pra dar uma bimbada. No fundo eles, os turco todo, só quer saber de sacanagem. Aqueles folheto do Mané era cheio de sacanagem. Os cara ia ganhar não sei quantas esposa quando morresse, tudi virgem, tudo cabaço. Na rua, eles fica fazendo pose pose de sério, as mulher tudo fingindo que é santa. Mas, embaixo daquela roupa, deve tá tudo com as buceta se derretendo.
Agora eu tenho remorso porque Deus abriu meus olhos, mas na hora, naquela época, o pessoal iam chutando mesmo, por causa da inveja que nós tinha. Era por causa que o Mané era bom no futebol, era melhor que nós tudo.
O narrador está sempre dizendo “Mas não”: esse verdadeiro leitmotiv do livro fala também do que talvez justifique esse pandemônio de vozes. Mané é um conjunto de contingências — nenhuma essência o explica, nenhuma estrutura subjacente o resolve. Ele só sai quicando ao sabor das circunstâncias, e dá no que dá. Poderia ser de outro jeito. “Mas não”: é isso mesmo:
Era para o Mané ter uma noite e tanto. Era para o Mané se deitar e ficar pensando em tudo aquilo que estava acontecendo na vida dele, do Mané. Era para o Mané fazer planos, sonhar com um futuro glorioso, ele, o Mané, lá, na Europa, cercado de mulheres lindíssimas, louras, européias, cheio de dinheiro, morando numa mansão, [...] conquistando títulos internacionais, vencendo a Copa do Mundo, entrando para a história do futebol mundial, entrando para a história. Era para o Mané até ter uma insônia saudável, uma insônia feliz, uma insônia realizada.
Mas não.
[...]
O Mané, prestes a entrar num futuro grandioso, estava com medo de perder um almoço - um bife, um ovo frito, uma fatia de queijo derretido, duas folhas de alface, um tomate, um bocado de maionese, uma garrafa tamanho médio de guaraná.
Esse eterno movimento que recupera um misto de possibilidade e interdição gera um efeito curioso: é como se a vida que o livro narra estivesse sempre à beira de se transformar em outra, como se Mané estivesse sempre à beira de se transformar em outro. Mas, assim como muitos, ele só repete a si mesmo, sempre, até o fim.
Mané principalmente ignora e erra. Mas também deseja. Logo, também sofre. E, é claro, como todos, há de morrer. Seria um erro definir esse livro como um romance de formação incompleto ou falho: seu personagem é incompleto e falho — mas quem não é? Sant’Anna acertou a mão bonito no livro e, mesmo pesando várias coisas que me desagradaram no processo — a extensão exigente demais, o desequilíbrio qualitativo das vozes narrativas (quanto menos povão, menos verossímil) — no final da leitura me dei conta de que em vários momentos havia gargalhado, em outros momentos havia me comovido e também, no meio das mil outras coisas que o livro evocou, me importei com Mané. O que quer dizer que pensei com, por, através do personagem criado por Sant’Anna. E isso é literatura. Sem nenhum posfácio-escudo de grandes autores, Sant’Anna certamente invocou aqui os autores que leu, os autores aos quais paga tributo — como escrever a não ser assim? Penso em autores como Machado de Assis, Flaubert, John dos Passos, Faulkner, Sherwood Anderson, e no já citado Bolaño. É possível ver no livro de Sant’Anna o reaproveitamento de estratégias formais e peculiaridades temáticas inicialmente forjadas ou exploradas por esses nomes. Em minha leitura eles comparecem, todos aqui, nessa sessão espírita dos diabos, encarnados em Mané, suas virgens, sua vida fudida de glórias paradisíacas às avessas. Faz tempo que não leio uma coisa de literatura brasileira pra curtir tanto assim.
Apito final, jogo encerrado com uma goleada épica: 10 a zero pro Mané-Sant’Anna. Show de bola

O paraíso é bem bacana
de André Sant’Anna

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Comentários de Lucas Murtinho
Antes de ler a resenha do Antonio eu tinha duas opiniões sobre O paraíso é bem bacana: é um azarão na Copa de Literatura; não deve ser um bom livro. Prestei tão pouca atenção ao romance de André Sant’Anna que escrevi uma grande bobagem no meu comentário ao terceiro jogo da Copa, quando disse que O segundo tempo era o único participante que falava sobre futebol. O Jefferson me corrigiu rapidamente, mas continuei vendo O paraíso é bem bacana como um coadjuvante que não iria muito longe na competição.
Depois de ler a resenha do Antonio, meus dois preconceitos foram jogados no lixo. Agora considero O paraíso é bem bacana um sério candidato ao título e quero lê-lo assim que possível. E uma resenha que me faz mudar tão radicalmente de idéia merece meu respeito. Posso até acabar não gostando do romance de Sant’Anna, mas Antonio Marcos Pereira é desde já um dos meus críticos literários preferidos.
Graças ao endosso entusiasmado do árbitro, O paraíso é bem bacana passa com moral à próxima fase da Copa de Literatura. Seu adversário nas quartas de final será As sementes de Flowerville, que, apesar de ser um dos favoritos ao título, ganhou seu primeiro jogo no sorteio e foi duramente criticado pelo Doutor Plausível. O que duas semanas atrás pareceria uma barbada virou um jogo duro, que será apitado por Jonas Lopes. Mas antes ainda vamos definir os outros jogos das quartas de final. No próximo jogo, apitado por Eduardo Carvalho, Pelo fundo da agulha e Bóris e Dóris disputam o direito de enfrentar Música perdida.
***
Os mais atentos talvez tenham notado, na nossa lista de jurados, duas substituições importantes. Os árbitros das semifinais, Paulo Polzonoff e Francisco José Viegas, não poderão participar da Copa; entram em campo em seus lugares Simone Campos e Luiz Biajoni. Boa sorte aos que foram, sejam bem-vindos os que chegam.



























20/11/07 - 2:04 pm
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