Jurada: Olivia Maia
O livro de Luiz Antonio de Assis Brasil foi o primeiro que li. Confesso que comecei na leitura um pouco perdida. Era um papo de música, notas musicais, ouvido absoluto. Parecia uma história que falaria muito aos amantes da música, e talvez a mim não pudesse falar tanto assim. E ia pensando que o outro, O segundo tempo, do gaúcho Michel Laub, pudesse ser o contrário, porque falava de futebol, e pelo menos de futebol eu entendo. Fui anotando coisas enquanto lia. Que o autor talvez falhasse em passar toda essa música para os muito leigos, mas que havia momentos na escrita que eram sensacionais. Por isso continuava interessada, porque a cada capítulo me surpreendia uma frase, um parágrafo, que estava exatamente onde deveria estar e dava aquela satisfação que dá um texto bem escrito a quem isso é importante. E a música cumpria seu papel. Aquele personagem só poderia viver da música e pela música, e sua vida vai tomando os rumos mais inesperados.
Mas a verdade, o que fui descobrindo, é que Música perdida é um livro para se ouvir em silêncio. E eu, que nada sei de música que não as porcarias que escuto, fui me deixando envolver pela narrativa, e pelas péssimas escolhas do protagonista, tão talentoso. Morre seu pai, e morrem seus dois mentores da música, de certa forma os três que seguravam um pouco o talento que deveria crescer. E então a música se perde, e eu não podia mais parar de ler. Não anotava mais nada. Segui adiante para um final daqueles que te faz prender um pouco a respiração, que é para a gente se preparar melhor para sair daquela história e voltar ao nosso mundo. O final era previsível? Não sei tanto se previsível, mas era o final que a gente fica torcendo para que aconteça. E é um final que redime todas as péssimas escolhas daquele personagem, mas ao mesmo tempo quase que não o salva da mediocridade na qual tinha se enfiado.
O livro é feito de capítulos curtos, separados em blocos. No início de cada bloco de capítulos há uma narrativa no tempo presente, do fim da vida do personagem. Com essas narrativas você vai descobrindo aos poucos como será o desfecho da história, e isso só aumenta a expectativa para saber como tudo aquilo vai acontecer, e por quê. O final era previsível? O final estava lá a todo momento. O final era o menos importante.
E Luiz Antonio de Assis Brasil não faz muito esforço para explicitar a relação da música com a vida. No final de cada um desses blocos do livro há um breve capítulo onde ele conta qualquer coisa sobre a arte da música, sobre instrumentos, etc. Um texto quase acadêmico e mui sutil, e que aparentemente nada tem a ver com o resto da história. Mas a relação entre música e vida fica toda muito clara, sem que nada precise ser dito com todas as letras.
Quando comecei a ler O segundo tempo — e no segundo tempo da partida — fiquei com uma sensação de que era uma narrativa muito gaúcha. Não sei se era, era. Quero dizer. Sabia já que o escritor era gaúcho, podia ser só impressão. Mas era. Quê? Alguma coisa no ritmo, no tempo das palavras. Um ritmo de bate-papo, de coloquializar. Um amigo gaúcho apontou: é uma ginga, que não vai muito além em termos de ação. Pode ser. Círculos. Esse mesmo amigo também falou: Porto Alegre é pequena, tem muito espaço pra cabeça da gente.
Música perdida também não tem tanta ação, e apesar do escritor ser mineiro o personagem passa a maior parte da vida no Sul. Então era algo acima do tema. Era a narrativa. Mas era algo a não se preocupar. Consideração menor, ainda que curiosa, a quem interessar.
Mas encarei o livro, e. Acho que me decepcionei. Porque na verdade todos os círculos parecem forçados. O personagem-narrador vai revelando seu dilema e os problemas de sua família aos poucos, numa narrativa bem circular, em que a cada final de capítulo ele conta de repente qualquer coisa nova que irá desenvolver no capítulo seguinte, e tudo quando leva o irmão mais novo para assistir o Gre-Nal do século. E eles torcem para o Grêmio. Eu não sabia que o Grêmio perdia quando comecei a ler, mas alguém me contou quando estava lá pro meio do livro e a diferença que fez é que comecei a ver mais certo o rumo que aquilo provavelmente tomaria.
Eu diria: um livro que deixa andaimes. O narrador faz relações entre futebol e a vida, e tudo parece sempre um pouco forçado. Aliás, as relações que ele faz com a idade dos personagens também. Fica bonito na escrita, mas parece tão vazio. Ele diz “reparei no movimento, gente de bermuda nos bares, a mesa é de lata e as vozes são muitas e você faz questão de ouvi-las porque tem apenas quinze anos”. E as tentativas de fazer futebol e vida se unirem como se fosse natural, ou dizer que quem ganha um irmão sabe disso ou daquilo. Não convence, ainda que fique aquele texto interessante e bem escrito, mas vazio, oco, despropositado. E mais pro final ele faz questão de colocar: “Você ainda não entendeu por que o futebol é importante nessa história? Só um jogo como o Gre-Nal do século seria capaz de deixar Bruno assim”. Quer dizer, claro que eu entendi, era tudo que o personagem estava dizendo a todo momento. Sim? Andaimes.
Curioso pensar que Música perdida foi um livro em que anotei algumas coisas no começo, como se me perguntando se o livro era só aquilo, como uma criança que reclama que não entendeu a questão do livro de matemática mas nem se deu muito o trabalho de ler direito. Para então descobrir que era muito mais. O segundo tempo só fui anotar no final. E então me frustrando com o que estava lendo, dessa vez perguntando-me se era sempre só aquilo e me dando conta que era mesmo. São dois livros que relacionam a vida a alguma paixão, cada qual da sua maneira e com temas distintos. Mas no livro de Michel Laub essa relação ficou forçada e pouco convincente, e a verdade é que o futebol parece só um pretexto mal colocado. Foi o futebol, como também poderia ser uma escalada nas montanhas ou uma partida de xadrez. Poderia ser qualquer outra coisa, e por que o Gre-Nal do século? Ou é alguma coisa que só os gaúchos e gremistas poderiam entender? Isso eu não vou poder responder. Em Música perdida não poderia ser nada além da música, e os acontecimentos estão todos muito bem encaixados, o livro não poderia ficar sem nenhum dos seus capítulos.
Vence Música perdida, em uma partida um tanto quanto desigual. Comecei a ler O segundo tempo duvidando que poderia ganhar do outro. Eu diria que Luiz Antonio de Assis Brasil foi muito mais habilidoso na construção da narrativa. Foi muito mais sutil e muito mais direto. Que Michel Laub talvez não tivesse outra forma de contar aquela história que não rodeando o assunto, segurando o leitor pela manga da camisa para que fosse acompanhado até o fim. Em Música perdida isso não foi necessário. O narrador diz “vem” e a gente vai.

Música perdida
de Luiz Antonio de Assis Brasil


Comentários de Lucas Murtinho
E lá se foi a possibilidade de o vencedor da primeira CLB ser um romance sobre futebol. Maldita Olivia.
Luiz Antonio de Assis Brasil é uma espécie de senhor Miyagy da Copa: muitos dos autores concorrentes fizeram sua oficina literária e Por que sou gorda, mamãe? é até dedicado a ele (e a mais um monte de gente, o que tira um pouco do peso da homenagem). Ao mesmo tempo, é um livro pouco comentado, que por pouco não ficou de fora da Copa. Um azarão que conhece as manhas de muitos dos favoritos e joga com segurança e tranquilidade. Olho nele.
E o Laub? Eu gosto do sujeito desde que li sua declaração de que a obra inteira de Shakespeare não tem a importância de uma queda de meio ponto no índice Dow Jones. Escritor costuma ser um bicho muito convencido da importância da literatura e é saudável encontrar um que leva o que faz menos a sério. Mas deixar andaimes soltos pelo romance não se faz. Aliás, levei um bom tempo para entender o que a Olivia quis dizer com isso. Sou o tipo de leitor que precisa de uma frase para lembrar qual é o tema central do livro.



























19/10/07 - 3:03 pm
Leia-se ‘admitir’ e os parabéns são pela muito bem escrita e analisada resenha. ;P
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