Oitavas de final

06/09/07

Memorial de Buenos Aires jogo 2 O adiantado da hora

Jurado: Jefferson Maleski

Tive a sorte de ser escalado como o árbitro na disputa de dois romances que buscam explorar a mesma tática de jogo, o estilo policial, o que tornou a partida mais fácil de ser conduzida até o final do tempo regulamentar. Tanto em Memorial de Buenos Aires quanto em O adiantado da hora encontramos exemplos, para o bem ou para o mal, do que a criatividade dos escritores brasileiros é capaz atualmente. Ambos os times atuaram com toques curtos e rápidos, explorando os mistérios da trama e fazendo com que o jogo corresse em ritmo intenso e acelerado. Memorial explorou melhor o tom de mistério que O adiantado e foi mais rigoroso no controle do tempo, valorizando a posse de bola. O adiantado errou muitos passes e acabou perdendo a partida.

O romance O adiantado da hora foi lançado no ano em que Carlos Heitor Cony completou oitenta anos, depois de três anos sem publicar livro algum — o anterior fora O beijo da morte (2003, Objetiva), escrito em parceria com Anna Lee. Se você, assim como eu, já leu alguma obra de Cony antes e gostou, prepare-se: o estilo do autor neste livro está bem diferente dos anteriores.

A trama de O adiantado da hora lembra um roteiro rocambolesco de Carlos Lombardi para uma nova novela das sete. Não que os roteiros de Carlos Lombardi sejam ruins — pelo contrário, costumam ter tantas confusões que se tornam divertidos —, mas os leitores de Cony tendem a ser um pouco mais exigentes. A princípio, o livro não apresenta nada de errado: a estória traz personagens inusitados e uma trama policial com toques de misticismo, se passa em um local paradisíaco que desperta a curiosidade de quem não o conhece e discute um assunto ecológico e atual. Apesar de todas as premissas, o livro não estimula o leitor. Corrijo: o livro não ME estimulou como leitor. Não sei se o motivo seria eu ter lido outros livros bastante divertidos pouco antes, mas não consegui rir de nenhuma tirada do autor. Tampouco sei se o motivo teria sido o estilo da escrita (vocabulário, figuras de linguagem etc.), que comparado com o estilo de novos escritores brasileiros de sucesso leva a pensar que o romance ou quem o escreveu é um (sobre)vivente de outra época. Ou talvez tenha sido o fato de começar a ler um Cony com grandes expectativas. Como ensinava Schopenhauer, grandes expectativas geram grande frustração. Com base em tal filosofia, não se deve exigir demais nem de nós nem dos outros, sob o risco de nunca estarmos satisfeitos com coisa alguma. Não se deve exigir que o escritor sempre se supere. Até porque mesmo grandes autores têm um período de hibernação antes de acordarem na próxima primavera com uma obra-prima desabrochando em suas mentes.

Zé Mário, o protagonista da estória, trabalha como quebra-galho em um escritório de advocacia e é incumbido pelo seu patrão, o Dr. Evandro, de ir a Cabo Frio captar informações sobre uma loira alemã “de coxas teutônicas” e um possível acordo entre brasileiros e alemães para a construção secreta de uma bomba atômica no Brasil. Embora não cite datas, o autor deixa pistas que levam a crer que a estória se passa nos anos 80. As principais questões levantadas no decorrer da trama — se a loira alemã está morta e quem a teria matado, se existe realmente uma bomba atômica secreta e qual seria o motivo que levou o Dr. Evandro a enviar Zé Mário para captar essas informações — não são respondidas: há apenas algumas hipóteses deixadas no ar para a escolha do leitor. Este método pode tanto agradar quanto decepcionar. Aqueles que, igual a mim, gostam de livros com um final memorável ou de uma explicação (mesmo simplória) para os porquês da trama ficarão decepcionados. Não procure por respostas em O adiantado, pois ele não as traz.

Minha sincera opinião, caso me perguntassem se eu levaria um livro de Carlos Heitor Cony para uma ilha deserta, definitivamente seria sim. Porém, não seria este livro.

Memorial de Buenos Aires encerra com maestria a trilogia em que Antonio Fernando Borges homenageia duas de suas principais influências literárias — o autor aplaudira Jorge Luis Borges em Que fim levou Brodie? (1996, Record) e Machado de Assis em Brás, Quincas & Cia (2002, Cia das Letras). O autor admitiu que a idéia de escrever o livro começou pelo título (alusão ao Memorial de Aires, de Machado) enquanto passava de táxi em frente à estátua de Machado de Assis, na entrada da Academia Brasileira de Letras, com um livro sobre Borges em mãos. Machado e Borges (o argentino, não o autor) são figuras constantes e essenciais no livro, mas enquanto Borges aparece como ele mesmo dentro da estória, Machado é apenas citado, comparado e debatido. Borges é o corpo do livro, Machado é a alma.

Os fãs de Marchado e Borges adorarão o livro; os fanáticos o odiarão. Explico: enquanto para os fãs tudo escrito sobre seu ídolo é motivo para relembrar, discutir e aproximar, talvez trazendo novos comentários, pesquisas ou olhares sobre vida e obra dos dois grandes mestres, os fanáticos considerarão uma afronta a mera tentativa de imitá-los — mesmo que em forma de tributo. Ainda bem que os fãs são mais numerosos. Quem já leu as principais obras de Machado e de Borges se deliciará com os inúmeros trocadilhos sutis, referências não tão sutis e pontos de vista do autor. O leitor se sentirá participando de uma brincadeira didática. O autor defende, por exemplo, a hipótese (dele?) de que a qualidade da obra de Machado melhorou exponencialmente após sua estadia em Nova Friburgo para se recuperar de um acidente que quase o deixara cego. O personagem principal compara a sua vida com a de Machado e a de seus personagens: como Machado, sofre do “mal sem cura” ou das “coisas esquisitas” (codinomes machadianos para a epilepsia), da vontade de escrever de maneira perfeita, da solidão; como Bentinho, acredita ter sido traído pela esposa (a dissimulada Marilu) e seu melhor amigo. Em certos momentos, o personagem praticamente assume a identidade do ídolo procurando superar os seus próprios problemas, mas acaba adquirindo outros problemas do mestre.

A trama é narrada em primeira pessoa, na forma de um suposto diário escrito pelo avô do escritor, e descreve a busca em Buenos Aires — entre janeiro e junho de 1939 — por um amigo desaparecido. Cada capítulo relata os fatos do dia (com relevantes páginas avulsas), o que faz a leitura fluir fácil e rapidamente. Durante a jornada, o narrador se envolve com vários tipos insólitos: o escritor Jorge Luis Borges, o fantasma El Inmortal, uma linda mulher que busca uma moeda mágica de vinte centavos, os membros de uma sociedade secreta que deseja fazer alterações no Tempo. O clima de romance policial lembra muito Rubem Fonseca, porém com um tempero bem mais carregado na ficção científica. Os mistérios de Memorial de Buenos Aires não decepcionam o leitor: enquanto alguns não chegam a ser tão misteriosos assim, outros ficam sutilmente em aberto mesmo após o fim do livro. Nesse aspecto em particular, o romance se distancia muito à frente de O adiantado da hora, pois as respostas para os mistérios levantados saciam plenamente o leitor.

O Tempo é o grande tema filosófico (ou seria psicológico?) da estória, começando pelos comentários do escritor sobre o diário do protagonista:

(…) para alívio (ou surpresa?) geral, trata-se de um falso diário: meu avô (de quem herdei o nome completo) nunca empreendeu nenhuma viagem. Muito menos esta. [...] O que torna o diário irremediavelmente insensato é o detalhe de que, no período de tempo aludido, meu avô já se encontrava morto, vítima de um acidente doméstico no Natal de 1938.

A brincadeira com o Tempo continua além da dualidade autor-narrador e entra no enredo: nos debates entre os membros da sociedade secreta Céticos do Tempo, nas possibilidades de se modificar o tempo, como quando se encontra o mesmo personagem em dois lugares diferentes, nas datas repetidas do diário com fatos, pessoas e lugares distintos. Terá sido a loucura do narrador ou uma experiência real de manipulação do tempo? Ou somente um exercício de imaginação? Afinal, qual seria a diferença entre a imaginação e a realidade? Se ambas existem basicamente em nossas mentes, então podem ser escritas, reescritas e abonadas pela História, como declara aquela conhecida máxima nazista: “Uma mentira contada mil vezes torna-se verdade”.

Em uma época em que chovem grandes nomes da História — como Da Vinci, Nietzsche e Dante Alighieri — sendo utilizados em romances, nem sempre por bons escritores, Memorial de Buenos Aires proporciona uma rápida, inteligente e agradável leitura, mesmo para quem não conhece Machado de Assis e Jorge Luis Borges. Memorial é uma máquina do tempo construída por Antonio Fernando Borges. A viagem pode não ser do jeito que você espera, mas mesmo assim vale a pena.

Final de jogo: Memorial 3 x 0 O adiantado. Pode-se dizer que as atuações de ambas as equipes poderiam ter sido melhores, pois ninguém deu espetáculo no campo e ganhou aquele que arriscou mais, inovando nos ataques e defendendo bem os seus pontos de vista. Os torcedores que pagaram o ingresso para ver o Memorial jogando saíram satisfeitos com o chocolate, até porque não esperavam tanto. Já a torcida de O adiantado aguarda com expectativa a melhora nas próximas escalações do técnico Carlos Heitor Cony.

Memorial de Buenos Aires
Memorial de Buenos Aires
de Antonio Fernando Borges

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mesa redonda

Comentários de Lucas Murtinho

Só eu acho estranho definir Antonio Fernando Borges como um Rubem Fonseca embebido em ficção científica? Nunca li nada de Borges, mas ele não me passa essa impressão. Alguém confirma ou desmente o comentário do Jefferson? Quanto a Cony, achei irônico que um autor tão polarizador tenha perdido um jogo julgado por um grande fã. Coisas do esporte.

A eliminação de Mãos de cavalo mostrou que é difícil falar em favoritos, mas me arrisco mesmo assim: boto fé em Memorial de Buenos Aires para ir longe na Copa. Não me perguntem por que, não li o livro e nem sei se ele vai passar das quartas-de-final, é palpite mesmo. Talvez seja o título, que acho genial, ou os reforços de Machado de Assis e do Borges portenho, que impressionam qualquer um. Por outro lado, o caminho rumo ao título não será tranquilo: já na próxima rodada o romance enfrenta ou Leda, de Roberto Pompeu de Toledo — um dos colunistas com o texto mais bem polido do Brasil — ou O movimento pendular, de Alberto Mussa — um dos livros mais votados pelos jurados na hora de decidir os concorrentes à Copa. Há momentos em que o comentarista esportivo não pode escapar do clichê: não tem jogo fácil na Copa.



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