Final

Antonio Marcos Pereira
Em um de seus textos Brian Eno tenta defender o valor do infamado termo “pretensão”, dizendo que, nas artes, “a palavra pretensioso tem um significado especial: é a tentativa de fazer algo que o crítico acha que você não tem sequer o direito de tentar”. Na sequência ele diz que as crianças fingem o tempo todo, pretendem ser o que não são e, assim, aprendem — porque não poderíamos expandir o raio de atuação positiva do termo? Há um grão de verdade nisso que me leva a sentir atração por projetos pretensiosos. O autor tenta dar conta da história de um país em dez páginas? Jesus, quero ver isso. Um outro quer esgotar a variedade de poéticas do vernáculo de uma língua? Deus do céu, boa sorte — o resultado ficou bom? Minha tendência é aplaudir o pretensioso porque creio que sem uma certa medida de pretensão não há risco e sem uma certa medida de risco é difícil aparecer Grande Arte, Grande Literatura.
Esses comentários são apropriados para falar de Galiléia porque creio ser assim que o livro impressiona muitos leitores: há pretensão aqui, há o desejo de contar uma saga familiar (matéria que já recebeu investimentos de Lúcio Cardoso, de Raduan Nassar, em uma minissaga, e agora conta com o pseudo-pentateuco in progress do Ruffatto) e de redescrever o Sertão, zona maltratada em nossa geopolítica mas bem tratada em nosso imaginário (embora, talvez, de maneira caricatural e anacrônica, algo que o livro, aparentemente, gostaria de erradicar). Isso não é pouco, e desejar tratar disso é bom, creio: se o objeto é espinhoso, solicita soluções radicais.
Mas, mesmo levando em conta tudo isso, não posso deixar de me surpreender com o dissenso entre minha leitura e a de comentaristas que julgo argutos e decentes, como a Simone Campos e o Dr. Plausível. Ao elogiar o livro, ambos valorizam essas pretensões e as interpretam à luz do que prometem, do que poderiam ser e do que efetivamente foram para eles. Para mim, todavia, esse livro é uma falência. Onde Campos reconhece “paixão” percebo antes o tédio de uma estrutura formulaica, de um “projeto literário” de escrever um sertão cosmopolitizado precariamente, onde os celulares são primeiro símbolos de status e só depois meios de comunicação, e onde as pessoas traduzem Radiohead mentalmente. Aliás, essa cena inicial com a tradução de Radiohead produzida por um personagem que “nunca consegui[u] raciocinar em outro idioma além do materno” me fez gargalhar e, com isso, deu início a uma leitura marcada por gargalhadas em momentos que, imagino, se pretendiam matéria de outras coisas, mas certamente não de ridículo. Independente das intenções do autor, e sem nenhuma consideração por sua ascendência sefardita (e, Dr. Plausível, que se registre aqui uma queixa ao seu uso do biográfico: eu também sou neto de um judeu — e de um japonês, e de uma negra, e de um português. Mas e daí? O que isso faria, ou fará, em benefício de qualquer literatura que eu venha a produzir?), o problema maior do livro para mim reside aí: o que ele pretende me pareceu fingimento e não atuação. Não suspendi a descrença em momento algum, li como “técnico” do início ao fim esse livro de anticlímax — que julguei, ainda por cima, saída fácil. Esse autor precisa falhar melhor pra me convencer. Pelo menos um dos personagem me deu as palavras apropriadas para resolver esse comentário: como diz o Adonias, “Ao inferno!”.
Dito isso, e tendo já comentado o Flores azuis em minha resenha, resta-me apenas desejar que a festa seja boa e farta na casa dos Saavedra, pois boto fé que o livro leva o caneco dessa Copa.
Galiléia 0 x 1 Flores azuis
Doutor Plausível
Meu voto por Flores azuis é quase uma piada interna. Na CLB passada, Toda terça, o livro de C.Saavedra q resenhei nas oitavas, e um dos favoritos daquela edição, foi preterido na semifinal contra O dia Mastroianni pq o resenhista A.Sant’Anna fez amizade com o autor J.P.Cuenca em Lisboa, e os dois deram umas voltas por lá e até presumivelmente tomaram um café juntos. Pois bem. La Saavedra aprovou minha resenha naquela Copa e me enviou um email agradecendo; a partir daí, fizemos uma amizade virtual e, vejam só, até nos encontramos prum simpático par de horas no café da Livraria Cultura aqui em São Paulo. A piada é justamente q isso não influenciou meu voto, como se verá a seguir.
Gostei bastante de Galiléia, com suas subjacências psicanalíticas e auto-torturas de identidade étnica, sexual, regional e nacional. É um livro atormentado e errático, e sua leitura requer uma aproximação cuidadosa, como tocando em feridas alheias. Claro, tocar em feridas alheias não é do gosto de todos: há profissionais especializados nisso. Mas tem algo de valor ali, algo q só se enxerga depois de acostumar a vista. Apesar de G chutar a bola pra todo lado, há uma certa regularidade patológica nos saltos e non-sequiturs entre as frases, uma regularidade q o olhar atento percebe como atos falhos do narrador, q quer esconder de si mesmo verdades desagradáveis. Mas se o narrador escamoteia de si mesmo sua natureza, vejo tbm q o autor escamoteia uma subjacência judaica, como se ele mesmo estivesse incerto se revela ou esconde o q realmente acha do assunto. Há muita coisa embaralhada em G — tal como faria um paciente pra se proteger de seu terapeuta — e não é tarefa fácil compor uma narrativa coerente e gratificante mesclando a dolorosa hidráulica freudiana com a modernidade distorcida e aberrante no ambiente primitivo do sertão, mais o atavismo biblicômano, mais a mitologia de fantasmas sertanejos. A meu ver, G não conseguiu criar o todo coeso e forte q essa mescla exigia pra se manter em pé. As páginas perdidas fizeram falta.
Arte é controle. Qto menos controle o artesão exerce sobre sua criação, mais os ruídos involuntários tomam conta e mais discutível é o valor da obra. Brito é muito bom no micro-controle: por trás de cada palavra em G, há uma pulsão ou trauma inteligíveis e demonstráveis; mas seu macro-controle é inconsistente e estabanado: visto de longe, G é como uma colcha de retalhos mal costurados com catarses pessoais do autor. Em meu panteão, algo assim não tem chance contra o paciente trabalho de criação e aprofundamento gradual de Flores azuis, onde se nota um mecanismo coerente e bem lubrificado funcionando por trás do mimimi na superfície. FA tem idéias a contrastar com os traumas em G; e são as idéias (e seu controle) o q leva a literatura pra frente, não? Só por isso, FA já levaria meu voto.
Tenho outro motivo. Flores azuis tem em comum com O verão do Chibo uma noção, pra mim, bastante atraente e, digamos, contemporânea, pós-Wittgenstein: a noção de q a gente não pode saber tudo, q tem coisas q a gente, o leitor, nunca vai saber, jamais. O leitor em FA e o leitor de FA têm em comum sua ignorância sobre a autora das cartas. Quem sabe dum livro (e duma carta) é seu autor; o máximo q o leitor ou a crítica pode fazer é conjeturar, especular e (nalguns casos) mirabolar. ¿Que disse o Bill Murray no ouvido da Scarlett Johansson no final de Lost in Translation? Sei lá; é coisa entre eles, ninguém tem o direito de exigir saber; a história do filme acaba ali. Em FA, a privacidade da autora das cartas já foi suficientemente devassada, aviltada e insultada por Marcos, seu leitor ilegítimo, e não merece ser escancarada no clímax do livro por nosso voyeurismo. Tanto Marcos qto nós começamos o livro sem saber quem é A. e terminamos sem saber, do mesmo modo q começamos e terminamos a vida sem nunca saber o q ela é; mas entre o não-saber inicial e o não-saber final, uma história foi contada: o insabível continua intacto mas uma narrativa se formou. Galiléia tem o mérito de mostrar q nem sequer o narrador sabe por quê diz o q diz, mas R.C.Brito faz isso seguindo uma cartilha freudiana e um script bíblico — duas escolas q se pretendem “sábias”. Não saiu ainda o veredicto sobre Freud, mas a modernidade reconhece a empáfia dos livros “sagrados”, q fingem ser mais do q apenas narrativas hiperbólicas e se arvoram em tornar sabíveis as intenções do “autor”. C.Saavedra — junto com grande parte do q há de melhor hoje — está dizendo, “Não, não. Baixa a bola. Vc não vai saber, nunca, jamais.” Nessa limitação ao voyeurismo na essência da leitura — q é o mesmo voyeurismo fundamental da ciência, da psicanálise e da religião – reside o maior trunfo do realismo de Flores azuis: o leitor das cartas e o leitor do livro sofrem o mesmo destino.
Galiléia 0 x 2 Flores azuis
Luís Augusto Fischer
Por não ter lido na íntegra nenhum dos dois participantes desta final, Luís Augusto Fischer preferiu anular seu voto.
Galiléia 0 x 2 Flores azuis
Leandro Oliveira
Ao reler Flores azuis para a final da Copa pude reforçar as qualidades que reconheci na primeira leitura. Flores azuis é um livro múltiplo, construído de maneira a sugerir várias direções, cabendo, portanto, ao leitor escolher a forma de leitura que mais lhe agradar. Sendo assim, fixei minha atenção em Galiléia para saber se poderia haver um adversário à altura dessa obra que tanto me agradou.
Comecei a ler Galiléia com a expectativa de encontrar um grande romance. A proposta de mistura entre a tradição bíblica e a tradição literária do sertão nordestino parecia ousada e original. Imaginei surgir dali uma atualização do surrado regionalismo, uma parte importante da literatura brasileira que virou motivo de paródia, não agradando mais a muitos leitores. No entanto, após a leitura, vi que essa ousadia estava apenas na proposta, sua execução não acompanha a grandeza do projeto. Galiléia se parece com um carro potente, cuja chave de ignição foi acionada, mas que nunca sai do lugar, um desperdício de combustível. Tudo parece muito artificial, muito longe de construir um cenário adequado ao embate entre tradição e modernidade. Desde o Radiohead traduzido para o português até as passagens bíblicas que estão praticamente transcritas, mudando-se apenas o nome dos personagens, tudo ali parece fora de lugar. É como uma peça de quebra-cabeças forçada a se encaixar num lugar que não o dela. O resultado é uma imagem que, embora com cores aproximadas, mostra sua falha no conjunto. Outro grave problema — também em relação à expectativa criada — é a maneira como são construídos os conflitos familiares. Tudo indica que haverá uma revelação grandiosa, algo que justifique as estranhezas da Galiléia do sertão. Mas ao final não há clímax, é tudo muito raso, os personagens parecem impressos num banner de publicidade: as cores estão lá, em muitos casos até em tamanho real, mas ninguém os confunde com o modelo que emprestou sua imagem. Galiléia, portanto, tornou-se para mim um acúmulo de decepções. No confronto, Flores azuis ganha de goleada.
Galiléia 0 x 3 Flores azuis
Simone Campos
Tem crítico que não se deixa levar pelo sentimento inicial que um livro suscita nele. Bem, eu deixo. Mas se o livro for bom o suficiente para mudar uma má primeira impressão, como foi Galiléia — que, cruamente, é um funeral no meio do mato —, dou meu braço a torcer feliz, pois isso demonstra que ainda há no mundo o que me surpreenda. Galiléia chegou à finalíssima, passando pelo crivo de jurados tão variados quanto Felipe Charbel, Doutor Plausível e eu mesma.
Flores azuis esbarrou na mesmíssima barreira: a ladainha epistolar de uma M.A.D.A. (Mulheres que Amam Demais Anônimas) abandonada não é bem minha ideia de entretenimento. Mas, ao contrário de Galiléia, Flores azuis não conseguiu circunavegar meu preconceito. A substância de Flores azuis — a parte boa e relacionada ao título — está tão concentrada em poucas páginas que você fica imaginando a razão de não ser conto. O caminho até ali e dali em diante apenas me entediou, apesar de replicar os temas de “vazio” e “perfuração”, e apesar do contraponto do personagem Marcos. Descontada uma ou outra imagem batida, Carola Saavedra é competente em usar uma técnica vetorial, com perguntas retóricas e orações longas cheias de vírgulas que nos conduzem (e Marcos) à carta seguinte, e a outra carta, até o fim. Mesmo assim, não me soa plausível alguém ficar fascinado com aquilo a ponto de se perturbar e aguardar ansiosamente a próxima carta. Vi temas e falas parecidos em novelas como as de Manoel Carlos, quando as vejo — não gosto de acompanhá-las. Diria que não sou o público do livro. Flores azuis cumpre o que promete, mas sem grandes virtuosismos nem reversões de expectativa; não nasceu para romance, e sim para conto; não pode com o tranco de uma final de Copa. É Galiléia na cabeça.
Galiléia 1 x 3 Flores azuis
Beatriz Resende
Beatriz Resende não teve tempo de escrever seu texto para a final da Copa.
Galiléia 1 x 3 Flores azuis
Alex Castro
Galiléia, de Ronaldo Correia de Brito, e Flores azuis, de Carola Saavedra, são dois romances maduros, trabalhados, firmes, de dois autores a acompanhar com atenção.
A voz masculina do narrador é o grande achado de Flores azuis. Suas dúvidas, suas raivas, sua insegurança, seus comentários sobre mulheres. Tudo perfeito. Se Carola tivesse abandonado as cartas e se dedicado a desenvolver esse personagem, teria nos dado uma maravilhosa visão feminina dos dilemas do homem contemporâneo.
As cartas, confesso, me fizeram ler mais rápido e pular algumas páginas. Além da sensação de que nada estava acontecendo, a voz parecia um pastiche clariceano, um Água viva diluído — inclusive no tema de serem cartas escritas por uma mulher depois do término de um relacionamento.
Por fim, o final me pareceu um pouco previsível e batido. No gênero “correspondência com correspondentes misteriosos ou que não existem”, eu prefiro Griffin e Sabine (1991), de Nick Bantock, com certeza um dos livros mais surpreendentes que li nos anos 90, onde a tensão e a dúvida vão crescendo num ritmo insuportável. E penso: como mais esse romance poderia terminar? Ou a correspondente não existia ou então era sua ex-mulher ou a namorada — únicas outras personagens do livro. (Terminar com o narrador se encontrando com a correspondente e começando um belo namoro seria açucarado demais!) Eu terminaria o romance com ele pegando o endereço onde ela supostamente morava e simplesmente tocando a campainha — o resto ficaria por conta do leitor. Mas tenho mania de elipse.
Galiléia me segurou na cadeira por várias horas.
A princípio, contrariado. Vamos lá, pensei, mais um romance de um autor nordestino urbano ou urbanizado tecendo reminiscências sobre uma família patriarcal em um Nordeste rural ou de passado idílico ou barbaramente sórdido.
Fui imediatamente remetido à Crônica da casa assassinada, magistral romance de Lúcio Cardoso (tão bom que não é destruído pelo péssimo último capítulo), também história de um casarão familiar onde todos se odeiam e comem todos. Por que escrever Galiléia num mundo onde já existe Crônica da casa assassinada? O que esse livro vai acrescentar? Ou, em outras palavras, o que Galiléia está falando que não foi dito pelos tantos autores que se dedicaram ao gênero “romance regionalista de 30″? A não ser que consiga trazer esse gênero ao nosso tempo, o livro periga tornar-se simples pastiche.
Pois então, para mim, o grande trunfo de Galiléia são os fantasmas. A interação dos personagens vivos com seus ancestrais mortos e torturados dá dimensão trágica e temporal ao romance — além de ser algo que não podemos encontrar em Lins do Rego, Ramos, Queiroz, Adonias, Suassuna etc. Os fantasmas fazem de Galiléia não uma história de terror, mas uma história verdadeiramente assombrada.
A outra maneira pela qual um autor pode trazer um gênero petrificado no tempo para sua época é através de referências cronológicas contemporâneas: pegar aquelas fazendas atemporais e insondáveis… e colocar nelas um computador com Internet. Naturalmente, só isso não basta. E daí que um dos personagens tem email? A questão é como esse novo dado influencia na trama. Nesse quesito, achei muito interessante que um dos personagens seja viciado em Internet (ou melhor, pornografia na Internet), embora isso tenha tido pouco impacto no enredo. O que eu gostaria de ter visto é: de que modo essas fazendas hoje, em 2009, são diferentes do que eram na época dos romances de Adonias Filho e José Lins do Rego?
Minha única crítica real ao livro é quanto às agressividades e silêncios entre os personagens. Todos estão sempre dando patadas uns nos outros aparentemente sem motivo, sentem ódios súbitos e se estapeiam sem aviso prévio, essas coisas. Talvez eu simplesmente venha de uma família muito pacata e isso pareça normal para a maioria dos leitores. Talvez tenha sido a intenção do autor mostrar que essas pessoas têm tanta história passada que mal se suportam, ficam tensas somente de estar perto umas das outras. Mas, mesmo assim, essa agressividade não foi bem preparada e me pareceu sempre forçada. Sobre isso, eu recomendaria uma olhada nos livros de Adonias Filho, uma das prosas mais lindas da língua portuguesa, onde praticamente todos os personagens são quase bichos, de uma brutalidade impressionante mas também verossímil e poética, como se fossem assim porque não podem deixar de ser.
Por fim, pelo escopo, pela ambição, pelas tramas e subtramas, dou meu voto a Galiléia — mas somente por pontos. Flores azuis não fica muito atrás. E, apesar de ter dado a vitória à Galiléia, no dia seguinte fui à biblioteca e o livro que peguei não foi nenhum de Ronaldo Correia de Brito mas sim Toda terça, romance anterior da Carola. Fiquei curioso pra ler mais.
Galiléia 2 x 3 Flores azuis
Luís Francisco Carvalho Filho
Dois parágrafos, dois bons livros. Tento escolher uma frase capaz de sintetizar, ao meu olhar, cada um deles. “Haverá alguma forma de dizer as coisas sem que elas nos escapem?”, pergunta A., de Carola Saavedra. “Mesmo quando partimos sem olhar para trás, retornamos…”, sentencia o narrador de Ronaldo Correia de Brito.
Sempre olhei com desconfiança para romances epistolares, sempre me encantei pelo sertão literário. Minha escolha contraria o princípio. Pela naturalidade da escrita, voto em Flores azuis.
Galiléia 2 x 4 Flores azuis
Fabio S. Cardoso
A final da Copa de Literatura Brasileira tem como protagonistas os autores Carola Saavedra, com seu Flores azuis, e Ronaldo Correia de Brito, com Galiléia. Os estilos, os temas e a forma de contar as histórias — afinal, é disso que se trata, não? — são totalmente distintos. Pode-se dizer, inclusive, que o duelo dos dois romances não poderia alcançar um veredicto plausível, tendo em vista o tempo em que os dois livros acontecem, dando a impressão de que são obras com propostas distintas… Antes, no entanto, que algum leitor pouco afeito às subjetividades não compreenda a sutileza, o eixo deste parágrafo é o seguinte: o que garantiu a vitória de Flores azuis sobre Galiléia foi a mão do técnico, do professor — isto é, da escritora.
Isso porque Flores azuis, ao apresentar uma história aparentemente corriqueira acerca dos encontros e desencontros dos relacionamentos, consegue conquistar as expectativas do leitor com uma prosa muito bem talhada. Em outras palavras, é como se cada movimento, cada gesto, cada carta deste romance epistolar tivesse sido milimetricamente estudada para proporcionar uma experiência estética e literária única no leitor. Exemplo disso é o mistério que envolve a autoria das cartas, que aguça os sentidos do personagem da narrativa ao mesmo tempo em que mexe com a cabeça de quem quer avançar e descobrir logo quem assina as missivas. Em paralelo a isso, Saavedra abre espaço para tratar das mãos atadas daquele homem que não consegue dar conta de seus relacionamentos com suas mulheres, seja com a ex-esposa, seja com a atual quase-namorada, seja com a filha, que parece vigiá-lo e saber que ele, de fato, é um fraco.
De certa maneira, pode-se entender essa inanição do protagonista resumida na sua incapacidade de descobrir quem assina as cartas. Mais do que isso, de tão impotente que é, não dá conta de resolver qualquer de seus problemas, tornando-os mais insolúveis à medida que tenta resolvê-los. A um só tempo incompreendido e acuado, este homem só encontra refúgio quando se encerra para ler as cartas, como se estas fossem as revelações de seu infortúnio e de sua desilusão. E o interessante é que o personagem só se torna consciente disso à medida que a leitura avança. E o leitor descobre isso junto, evidentemente.
Galiléia, por sua vez, não é menos engenhoso no que se refere à sua construção. Sem maiores pormenores, logo nas primeiras páginas o leitor conhece o que une aqueles três parentes, sangue do mesmo sangue. Próximos e distantes, todos compartilham de lembranças da infância na casa do avô, a quem visitam nessa jornada. Rumo à Galiléia para a festa de aniversário do patriarca da família, aos poucos, os fantasmas, medos, taras e desatinos são confrontados e, com efeito, tem-se uma experiência estética singular com a leitura, algo não óbvio e com qualidade. Lá, em vez de alegria, encontram pesar. Nessa contradição, há virtude literária. Um mérito, sem dúvida.
O ponto-chave é que o livro é pernóstico. Sim, não há dúvida que Ronaldo Correia de Brito domina a técnica para contar uma boa história. Pode, inclusive, se dar ao luxo de esbanjar recursos, tais como elipse, e conjugá-los com as referências da cultura pop, como a música do Radiohead. A questão, no entanto, é que esses elementos, dispostos sem qualquer sentido, tornam-se meros exercícios de estilo. Estilo esse que, novamente, não deixa de ter o seu valor estético, e faz até mesmo que se conheça as qualidades literárias de um escritor. Todavia, neste caso, seu efeito foi menor do que a expectativa gerada, e isso é apenas nocivo à fruição estética e ao prazer de ler um livro.
E é aqui que reside a chave da vitória de Flores azuis sobre Galiléia. Enquanto o primeiro se dedica a fazer de sua narrativa inventiva um ponto fundamental para o andamento da história, o segundo lança mão de recursos que, em linhas gerais, não precisariam ser utilizados. Dito de outra forma, a história de Carola Saavedra não poderia ser contada sem o estratagema epistolar; já as referências estilísticas, as referências da cultura pop, o apelo ao grotesco, são como uma piscadela de olho para o leitor mais informado, como se dissesse: “veja o que posso fazer com este livro!”. Entre o essencial e o pernóstico, a literatura de Saavedra é mais competente que a prosa de Brito.
Galiléia 2 x 5 Flores azuis
Tiago A.
A essa altura, acho que todo mundo já conhece os plots dos dois livros, o que me me permite ir direto ao que interessa.
Primeiro, vamos pegar Galiléia, que padece daquele velho mal: anuncia sua ambição, e daí não passa. Tem andaimes de grande épico familiar, mas só os andaimes mesmo. Seus personagens não conversam; dão palestras — aliás, a considerarem-se apenas os “diálogos” desse livro, seria possível afirmar, sem leviandade alguma, que o seu autor jamais conversou com um ser humano vivo. A narração monocórdica quer explicar tudo, quer ensinar tudo (de Radiohead à Noruega), quer pegar o leitor pela mão e arrastá-lo pelo sertão. Na mesa de bar que frequento, Galiléia já virou sinônimo de livro chato pelo qual sentimos profunda vergüenza ajena (se algum de nós descreve certo livro com um “É tipo Galiléia” não precisa dizer mais nada depois disso). Puxando pela memória, acho que o elemento que mais me marcou durante sua leitura foi mesmo aquele “de uma altura bem alta, de uma altura bem alta… alta…”. E não, meus amigos, isso não é um elogio.
Por outro lado, conforme já disse antes, não me surpreende que Flores azuis tenha chegado a essa final. Ele tem grande qualidade técnica, tem personagens que parecem gente — e tem, sobretudo, a coragem de se posicionar diante de um dos problemas-chave postos a quem quer que queira fazer literatura em nosso dias, que é o seguinte: a que(m) serve narrar? Se A. é chata, insuportável, como disseram algumas de vocês aí, eu continuo achando que isso serve a algum propósito, como bem lembrou alguém, aqui. Flores azuis me surpreendeu positivamente. Se depender de mim, é o grande campeão desse ano.
Galiléia 2 x 6 Flores azuis
Felipe Charbel
Gostei de Flores azuis, como já havia gostado de Toda terça. Mas, assim como em Toda terça, vejo em Flores azuis um investimento excessivo em truques e artifícios literários que prejudicam a verdade do texto. O que seria a verdade de um livro de ficção? Não sei. Nem sei se verdade é a melhor palavra. Talvez entenda por verdade o que um livro tem a dizer de um modo que só aquele livro pode dizer (forma e conteúdo se tornando uma terceira coisa). Flores azuis tem isso, mas tem também “sacadas engenhosas” um tanto aborrecidas que parecem querer “justificar” o tratamento realista da matéria. Como a coisa de “desconstruir o romance epistolar” — onde, aliás? O livro aborda a questão dos efeitos produzidos pelas cartas, mas isso significa desconstruir o romance epistolar? E por que o romance epistolar tem que ser desconstruído? —, ou de manter em aberto as possibilidades interpretativas — quem é ele? Quem é ela? Ele é invenção dela? Ela é invenção dele? Ou tudo é uma meta-meta discussão sobre a composição literária?
Flores azuis é bom por outras razões. É bom porque seus personagens são críveis, são dignos de pena e admiração, porque seus conflitos têm um quê de universalidade, são conflitos de muitos dos leitores e dos não-leitores do livro. Flores azuis é bom porque é muito bem escrito, porque as cartas de A. são ao mesmo tempo irritantes e reveladoras, cansativas e bonitas, porque em dois capítulos, pelo menos, o livro causa aquele arrepio (seria isso um efeito estético?) que só a grande arte consegue causar. Flores azuis é bom exatamente no que quer encobrir: seu realismo.
Sobre Galiléia já disse o que tinha a dizer na resenha do jogo 4. O livro tem um projeto complexo, mas uma realização às vezes excessivamente didática. Mesmo as boas intuições, como a definição do sertão como realidade íntima, se perdem na rigidez da estrutura. O livro quer dizer muitas coisas, quer falar de muitas coisas, de Freud, da Bíblia, do sertão, da tragédia, da memória, mas no fim diz muito pouco. Flores azuis diz a si mesmo, Galiléia não. Por isso escolho o livro de Carola Saavedra.
Galiléia 2 x 7 Flores azuis
Bernardo Brayner
Existem exatas 246 formas de derrubar a minha argumentação ao dar o meu voto para Galiléia, de Ronaldo Correia de Brito. Eu voto no Galiléia por um motivo absolutamente idiota: foi um livro que despertou ódios e paixões. Acho que a literatura brasileira precisa de um pouco disso.
Talvez o momento da leitura também tenha influenciado a minha escolha. Eu li este livro nos dias exatamente posteriores à morte do meu pai. Talvez uma segunda leitura tivesse sido mais crítica. Mas naquele momento o livro sem dúvida fez sentido para mim. A procura da identidade é e sempre será tema de grandes histórias.
A favor de Galiléia ainda há a constante tensão, quase como um conto, só que em muitas páginas. Poucos livros conseguem isso.
Concordo com quem disse que tem passagens forçadas, coisas inverossímeis. Mas, francamente, não lembro de ter lido pelo menos um livro na vida que fosse irretocável, que não tivesse uma palavrinha sobrando ou que pudesse ser mudada. Dizem que Galiléia tem diálogos impossíves de acontecer, mas, creio, o autor nunca quis ser realista. O tom é de tragédia grega.
Não me aprofundarei em temas e estilos porque acho que a esta altura outros o farão bem melhor que eu.
Flores azuis também é um ótimo livro. Uma reinvenção do romance epistolar à maneira de Borges, mas com uma autora/personagem quase clariceana, sem dúvida uma escolha proposital para a pulsação do personagem. Por mim seria um vice-campeão daqueles memoráveis, de lembrar em mesa de bar. Acho que Saavedra será uma das maiores ficcionistas brasileiras. Acho mesmo.
Galiléia 3 x 7 Flores azuis
Fernando Torres
Algumas vezes vi filmes no cinema dos quais todo mundo havia falado tão mal que acabei por me surpreender. Coisas para fazer em Denver quando você está morto é um deles. Por outro lado, a expectativa para alguns filmes era tão grande que acabei por odiá-los.
Flores azuis é como um desses filmes que assisti sem expectativa e me surpreenderam. Carola Saavedra escreveu um romance curto, daqueles de se ler em uma tarde de chuva quando estamos em férias. A história é bem amarrada, não há excessos (falei sobre isso no jogo entre Areia nos dentes e O vencedor está só) e fluido. Por sinal, ela usa uma técnica muito semelhante à de Xerxenesky, marcar diferentes vozes narrativas com diferente estilos. E faz muito bem. Posso dizer que ela tem a mesma qualidade técnica de Areia nos dentes, mas marca gols com sua experiência.
Por outro lado, assim como O vencedor está só, Galiléia tem um narrador só a contar a história de diferentes pessoas que povoam o mesmo ambiente. Achei a primeira metade do livro fenomenal, complexa, um romance de verdade. Até certo momento a releitura da literatura regionalista intentada por Ronaldo Correia de Brito me convenceu que tinha futebol para golear. Mas pouco a pouco o romance vai se perdendo, perdendo fôlego, e os nós que pareciam tão justos vão se desatando em direção a um final surpreendentemente sem graça. Como se a expectativa criada na primeira metade não se realizasse na segunda.
Meu voto vai para Flores azuis exatamente por ser um livro regular. Talvez não seja um daqueles livros que te pega pelo estômago, que muda sua forma de ler romances (ou, para alguns, que muda a sua vida — mas minha vida não muda com romances), mas é um livro gostoso de ler, honesto e despretensioso na medida certa.
Galiléia 3 x 8 Flores azuis
Paulo Polzonoff
Esta final da Copa é, para mim, uma espécie de Íbis x Tabajara FC. Flores azuis e Galiléia são dois livros que eu jamais leria e muito menos compraria. Se alguém me desse de presente, trocava.
Não posso negar, contudo, que a leitura destes dois romances me rendeu um novo olhar sobre esta coisa chamada, alcunhada e injuriada de “literatura brasileira”. Antes de ler Flores azuis e Galiléia, eu me perguntava por que as livrarias reservam uma parte toda especial, geralmente escondidinha e acanhada, para a literatura nacional. Confesso, envergonhado, que eu via isso com alguma revolta. Um resquício de patriotismo que não saiu no banho, talvez.
Flores azuis e Galiléia me deram uma explicação para este fenômeno que não é só comercial. Na verdade, tudo é muito simples: literatura brasileira, em geral, não é livro que se queira ler. É livro que se pretende estudar, analisar, discutir. Aquilo que parece um romance é, na verdade, um objeto de estudo — um livro praticamente didático.
Logo, convém mesmo deixar a literatura brasileira bem separadinha daqueles livros que a gente compra porque quer lê-los à noite, antes de dormir, ou na praia. Minha sugestão é que o mercado editorial comece a lançar promoções do tipo “Compre este livro e ganhe uma tese”. Pode dar certo.
A esta altura você deve estar se perguntando o que achei de Flores azuis e Galiléia. Em uma palavra: ruins. Ah, mas você quer saber o que achei da estrutura, do enredo, da composição dos personagens – provavelmente porque você é muito inteligente e não consome livros, e sim Literatura. Sei… Sobre isso, diria que tudo é muito bonito e evidente — o que é mau sinal. Quando estas questões técnicas aparecem demais num livro, tenho a impressão de que estou vendo o microfone na tela do cinema.
Flores azuis é um milímetro pior do que Galiléia. Uma enrolação sem fim. Sub-existencialismo. Frases mal-construídas, uma hesitação entre o coloquialismo e o ruybarbosismo. No mais, é um livro vazio (se serve de consolo, menos vazio do que O livro dos nomes, aquele). Poderia aqui me alongar nos porquês deste vazio todo, mas acho que o espaço é pouco e a preguiça, muita.
Já Galiléia me causou desgosto no primeiro parágrafo. “Soubemos notícias” doeu em meu ouvido. Engoli em seco, porém, e continuei a leitura para me perceber, já pela metade do livro, me perguntando como Galiléia se sairia se eu resolvesse fazer um escrutínio como o que meu caro amigo Millôr Fernandes fez com aquele romance do Sarney. Aliás, será que algum livro desta Copa sobreviveria a uma análise assim cuidadosa? Tenho minhas dúvidas.
O que mais me incomodou em Galiléia foi o artificialismo da linguagem. O que me obriga a repetir: falta à literatura brasileira o teste da oralidade. Qualquer pessoa que leia Galiléia ou Flores azuis em voz alta por uns cinco minutos ficará com a impressão de que acabou de ouvir um menino de cinco anos aprendendo a tocar violino.
Mas sinto que estou me alongando. Neste Íbis x Tabajara FC, o visitante (a.k.a. Galiléia) levou a melhor com um gol contra, de mão, em impedimento, aos 47 do segundo tempo. Se bem que há quem diga que a bola bateu na trave e não entrou inteira…
P.S.: Os quatro livros que recebi serão doados para a biblioteca comunitária Pote de Mel, em Curitiba — uma iniciativa do meu amigo Alessandro Martins.
Galiléia 4 x 8 Flores azuis
Lucas Murtinho
Nunca foi intenção da organização desta Copa de Literatura esconder o caráter injusto dos seus resultados. Pelo contrário: essa injustiça, consequência direta da diferença de gostos dos jurados — e, por tabela, dos leitores em geral — é frequentemente celebrada neste espaço.
Ano passado, a maior injustiça da curta história da CLB foi perpetrada contra Toda terça, de Carola Saavedra, eliminado por O dia Mastroianni simplesmente porque o árbitro do jogo, André Sant’Anna, é amigo de João Paulo Cuenca, autor do livro vitorioso. A deliciosa resenha de Sant’Anna gerou um debate acalorado e deixou decepcionados alguns torcedores ferrenhos do livro de Saavedra. Comentei no meu texto para a final daquela Copa — vencida por O filho eterno, de Cristovão Tezza — que o campeão poderia ter sido outro caso Toda terça tivesse chegado à final.
Porém, o acaso tem formas de ajeitar mesmo o que julgamos irremediavelmente perdido e nunca foi nossa intenção corrigir: em sua segunda participação na Copa, Carola Saavedra chega à final e leva o título de forma, se não justa, incontestável, vencendo todos os seus jogos de goleada.
Flores azuis não é meu romance preferido desta Copa: A arte de produzir efeito sem causa, eliminado por Flores azuis na semifinal, levou meu troféu particular, seguido de perto por Cordilheira. Quem acompanha os comentários da Copa conhece minhas críticas ao livro de Saavedra: além de, por uma questão de gosto, não ter me envolvido com as cartas escritas por um dos protagonistas do romance, me pareceu que o aspecto alegórico do romance foi aos poucos obscurecendo o aspecto narrativo. Marcos, que prometia ser um grande personagem, se transformou no elemento de um jogo literário que fui obtuso demais para compreender durante a leitura. Talvez venha dessa minha incompetência a sensação de que o personagem deveria ter sido mais importante do que o jogo.
Feitas essas ressalvas, fico mais à vontade para elogiar a espantosa velocidade do amadurecimento de Saavedra enquanto escritora. Talvez seja até inadequado falar em velocidade e mais preciso dizer que ela já surgiu madura, pois Toda terça, seu primeiro romance, também mostrava um domínio técnico que geralmente só encontramos em escritores no auge da forma. Posso não concordar com algumas das direções que o texto de Saavedra toma, mas é impossível negar que a direção tomada pela texto é a desejada pela autora. Saavedra sabe muito bem o que está fazendo, e o faz muito bem.
Em contraste, o melhor de Galiléia são as suas intenções. A proposta de resgatar o romance regionalista brasileiro colocando-o em rota de colisão com elementos urbanos é instigante, mas gerou estranhezas como a já infame tradução da letra de “Paranoid Android”, do Radiohead. E a força da história da família Rego Castro é dirimida pelos lapsos da história, que geram a impressão de “páginas perdidas” comentada pelo Dr. Plausível na resenha que pôs Galiléia nesta decisão. Apesar dos acertos ocasionais, o livro de Ronaldo Correia de Brito não engrena. Como previsto por Antonio Marcos Pereira lá no primeiro voto desta final, a festa é de Carola Saavedra.
Galiléia 4 x 9 Flores azuis
Campeão




“Esta final da Copa é, para mim, uma espécie de Íbis x Tabajara FC.”
Acho que foi o tom predominante nas resenhas.
Na edição passada, fiquei com a impressão de que alguns jurados foram mal escolhidos. Nessa, apesar de não ter lido quase nenhum dos candidatos, o tom comedidamente elogioso e brochadão das resenhas, deixa a impressão de que nenhum dos livros são lá muito recomendáveis (o que me afastou definitivamente), o que é assustador.
Poucas resenhas me deixaram com vontade de lê-los e, curiosamente, o problema não parece ser de nenhum dos resenhistas: todas me pareceram corretas e algumas são brilhantes. Mas ninguém se mostra lá muito empolgado.
No final das contas, ficou a impressão de que o fator determinante foi a temperatura das batatas. Batatas.
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A CLB é boa por lembrar q tanta gente diferente pode dizer tantas coisas diferentes sobre o mesmo assunto, e todas elas são verdade. E mais: q essa coletânea de verdades seja ela mesma apenas uma pitada da verdade inteira. Entendi perfeitamente o q todos disseram, e concordei. No âmbito humano, a verdade é esquizofrênica.
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Polzonoff em chamas. E com razão.
Abraço.
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Cada um acha o que quer, imagina o que pode e deduz o que consegue dos escritos de terceiros.
Só fico pensando naqueles tempos em que perdíamos no vestibular porque não interpretávamos “direito” o que o autor “quis dizer”… Muitos perderam a oportunidade de estarem nas “Cadeiras” de Literatura justamente por isso.
Então…
É isso…
Galiléia ou Flores Azuis?
Tanto um quanto o outro foram lidos, apreciados, julgados e literaturados por nomes importantes e um deles foi gol.
Pelas falas, ficaria com os dois…
Pelas filas com Flores Azuis
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Discordo do PP. Você pega os trechos de Flores Azuis e ali está uma prosa bem cuidada. Mas não faria sentido ter um ritmo de poesia ou de teatro. Fazer prosa como poesia torna tudo muito artifical (ele não reclamou da artificialidade?). Romance não é narrativa oral, por favor!
Além de teses, a literatura brasileira serve para alguns fazerem carreira reclamando dela.
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Apostei em Galiléia, mas acabei concordando com o resultado final.
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dos que li, o melhor livro desta copa foi orfãos do eldorado, do milton hatoum, que inesplicavelmente ficou pelo caminho.
flores azuis é uma aguinha com açucar, sinceramente.
se isso é o que temos de melhor…
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Na internet o que se consagrou é essa crítica de sarau de interior. O sujeito escolhe alguns trechos e esculhamba. Depois inventa que o livro é isso e aquilo. Tudo sem historicidade, discussão de linguagem, sem argumentação nenhuma. Depois fala mal dos personagens, mas nunca explica por quê. É tudo na base da sensação imediata, se fosse para escrever uma crítica da empadinha do bar do seu Joaquim os argumentos não seriam muito diferentes.
Se falta literatura nos livros, falta estudo e cuidado nas críticas. O Witgenstein escrevia “os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo”. O mundo aqui tá bem pequeno.
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Discordo do camarada Wittgenstein.
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Não não, Lauro, sarau de interior sempre teve. O q se consagrou na Internet foi o comentário naso-empinante de quem ainda não entendeu NADA, achando q toda página da Internet tem q ser uma reunião de catedráticos cuspindo conhecimentos e espumando explicações.
Ou alguém sabe conversar ou não sabe.
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Bem… nao li o concorrente, apenas o campeao, e já contei o que acho dele.
Pelo jeito, porém, a grande final mesmo foi o jogo anterior… muito mais emocao na geral.
Enfim, sinceros parabéns à Carola; Flores rendeu muita diversao por aqui na Copa; só isso já lhe confere grande mérito; e ainda que eu tenha minhas críticas, sonho com o dia em que serei hábil como ela com as palavras…
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com as palavras e com o ponto-e-vírgula!
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terminou…terei q ler FLores, senão vou ficar com o gosto da água com açúcar na boca.
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A minha opinião é de que faltou André Sant’Anna nessa copa. Tanto concorrendo como jurado.
Mas o Flores Azuis é um bom livro.
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Concordo com o camarada Doutor Plausível.
Percebo duas incompreensíveis tendências na caixa de comentários da CLB (desde a passada): Comentaristas que vêem no próprio exercício crítico, um mal em si:
“E você, sabichão? Quem-é-você pra dar pitaco no trabalho de ___?”.
Comentaristas que são chegados num TOTEM, que exigem o MONUMENTO, não se contentando com menos do que “Livros Que Mudam A Minha Vida”; “Livros Que Apontam Um Novo Caminho Pra Literatura Brasileira”; “Livros Que Revolucionam A Linguagem”…
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Só li mesmo o Flores Azuis, então fiquei feliz com o resultado. Sem entrar no mérito do Galiléia claro.
Como a Bruna disse aí em cima, FA é um bom livro. Talvez não tão forte quanto o vencedor do ano passado, Filho Eterno, mas ainda assim foi a obra que mais barulho causou nesta Copa bastante nivelada. As discussões, no geral, foram bem interessantes e, creio eu, respeitosas – foi legal conhecer a indignação da Bruna e da Clarice perante o sucesso do FA na maioria da ala masculina (e obrigado pela citação, Tiago A.).
No mais, é muito bom ver uma autora jovem, talentosa e inteligente como a Saavedra ganhar de medalhões como o Hatoum, Scliar e, ora vejam só, até do Paulo Coelho. Que o Dr. Plausível transmita minhas felicitações a ela
Obrigado ainda ao Lucas. E que a Copa 2010 não tarde em começar.
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Por mais exagerado o comentário do Polzonoff, realmente nenhum dos concorrentes desperta um desejo incontrolável de ir à livraria, muito menos de passar uma noite em claro lendo com paixão.
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Posso ter me excedido. Mas o que me incomoda muito são as declarações generalistas: “literatura brasileira é isso ou aquilo.” Acho muito reducionista e pouco aberto ao diálogo mesmo.
De resto, tb senti falta do livro do André Sant’Anna e do Nuno Ramos. Abs.
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O que me incomoda essencialmente no comentário do Polzonoff é esse apelo de que a literatura só lida com o “bem escrever”, entendendo isso essencialmente como a fluência. Como fica o Moby Dick nessa (ou alguém aqui vai me dizer que aquela enorme descrição dos cetáceos tem alguma coisa fácil. Fora as elocubrações entre a razão e o imponderável. O que dizer das conversas de Dimitri e Alieksei Karamazov sobre religião?
Acho que às vezes o complexo de vira lata e a vontade de só absorver o que é pop ou consagrado fecha as outras portas para o diálogo que a literatura pode abrir.
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Lauro,
Ah, agora tá mais claro. Acho q vc tem q apreciar q todas estas resenhas contêm subentendidos.
A CLB tem tido uma certa inconsistência em sua razão de ser, resultando em diferentes pressupostos dos diversos resenhistas e dos diversos leitores. ¿A CLB é pra falar de livros, ou é pra divulgar livros? ¿É pra pressupor uma conversa entre leitores dos livros, ou entre prováveis compradores dos livros? Desde a primeira copa, acho q o resenhista tem q pressupor em seus leitores um pleno conhecimento dos livros (e, se não pressupõe, deve fornecer esse conhecimento). Não importa se a grande maioria dos resenhistas ou leitores aqui ainda não leu tais livros: o resenhista deve pressupor q tá falando com pessoas q já os leram. Até pq, nas discussões q se seguem, desaparece todo pudor contra estragar o prazer alheio. Só assim se pode realmente conversar sobre o livro.
Nesta copa, a maior parte das resenhas felizmente partiu desse pressuposto, e ainda mais nesta final. Então, qdo vc reclama q o resenhista “escolhe alguns trechos e esculhamba … Tudo sem historicidade, discussão de linguagem, sem argumentação nenhuma … nunca explica por quê … [e faz] declarações generalistas”, vc dá deixando de considerar os pressupostos E os subentendidos.
Tá claro q qqer resenhista tem pressupostos ainda mais pressupostos do q os da CLB. Alguns pressupostos chegam ao nível de preconceitos (e preconceitos q abomino). Mas até estes têm sua razão de ser; e, sobre um assunto tão ãã “inútil” como literatura, posso discordar pontualmente de uma ou outra opinião, mas a maior crítica q posso fazer contra qqer uma é q ela não tá clara. Não acho q foi o caso aqui.
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Aliás, entre essas resenhas só acho q uma única coisa precisa ser emendada. M.A.D.A. não tá legal. Em vez de “mulheres”, poderia ser “fêmeas”, aí ficaria F.A.D.A.
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Doutor, se essas fêmeas em lugar de amarem, odiarem, daí é F.O.D.A.
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Comentário suuuper Flores Azuis
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Dr. Plausível, só escrevo pra dizer que acompanho a Copa desde a edição do ano passado e sempre pego ótimas dicas de leitura por aqui. Mas, por maior que seja a fluência, eu sou frontalmente contra a qualquer medida em defesa da ignorância. Sempre me cheira uma saída para justificar a falta de comprometimento, pra dizer o mínimo. De qualquer forma, peço desculpas, acho que fui muito injusto com vários dos críticos e dos comentaristas aqui.
De qualquer forma, o livro é legal pra mim quando me faz pensar, quando rende conversa sobre as coisas do mundo. Se rende tese ou não, eu sinceramente não vejo isso como problema.
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HAHAHAHAHAHA ¡Tudo a ver!
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Ops, a risada foi sobre as mulheres q odeiam.
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Lauro,
“ou frontalmente contra a qualquer medida em defesa da ignorância. Sempre me cheira uma saída para justificar a falta de comprometimento, pra dizer o mínimo”
¿Vc se refere ao quê? Por favor, fale claro e explique, q aí eu entendo (e outros tbm).
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Oi, Lucas!
Adorei ! Já linkei lá no meu blog. Depois dá uma passadinha lá para conferir!
Beijos e sucesso!!!
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