<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Copa de Literatura Brasileira</title>
	<atom:link href="http://copadeliteratura.com/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://copadeliteratura.com</link>
	<description></description>
	<lastBuildDate>Mon, 11 Jan 2010 10:21:53 +0000</lastBuildDate>
	<generator>http://wordpress.org/?v=2.9.2</generator>
	<language>en</language>
	<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
			<item>
		<title>Final</title>
		<link>http://copadeliteratura.com/2009/jogo15/</link>
		<comments>http://copadeliteratura.com/2009/jogo15/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 11 Jan 2010 10:21:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lucas Murtinho</dc:creator>
				<category><![CDATA[2009]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://copadeliteratura.com/?p=1104</guid>
		<description><![CDATA[  
Antonio Marcos Pereira
Em um de seus textos Brian Eno tenta defender o valor do infamado termo “pretensão”, dizendo que, nas artes, “a palavra pretensioso tem um significado especial: é a tentativa de fazer algo que o crítico acha que você não tem sequer o direito de tentar”. Na sequência ele diz que as [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img title="Galiléia" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/capas/galileia.jpg" alt="" width="120" height="180" /> <img title="Jogo 15" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/jogos/jogo15.png" alt="" width="396" height="181" /> <img title="Flores azuis" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/capas/floresazuis.jpg" alt="" width="120" height="180" /></p>
<p><strong>Antonio Marcos Pereira</strong></p>
<p>Em um de seus textos Brian Eno tenta defender o valor do infamado termo “pretensão”, dizendo que, nas artes, “a palavra pretensioso tem um significado especial: é a tentativa de fazer algo que o crítico acha que você não tem sequer o direito de tentar”. Na sequência ele diz que as crianças fingem o tempo todo, pretendem ser o que não são e, assim, aprendem — porque não poderíamos expandir o raio de atuação positiva do termo? Há um grão de verdade nisso que me leva a sentir atração por projetos pretensiosos. O autor tenta dar conta da história de um país em dez páginas? Jesus, quero ver isso. Um outro quer esgotar a variedade de poéticas do vernáculo de uma língua? Deus do céu, boa sorte — o resultado ficou bom? Minha tendência é aplaudir o pretensioso porque creio que sem uma certa medida de pretensão não há risco e sem uma certa medida de risco é difícil aparecer Grande Arte, Grande Literatura.</p>
<p>Esses comentários são apropriados para falar de <em>Galiléia</em> porque creio ser assim que o livro impressiona muitos leitores: há pretensão aqui, há o desejo de contar uma saga familiar (matéria que já recebeu investimentos de Lúcio Cardoso, de Raduan Nassar, em uma minissaga, e agora conta com o pseudo-pentateuco <em>in progress</em> do Ruffatto) e de redescrever o Sertão, zona maltratada em nossa geopolítica mas bem tratada em nosso imaginário (embora, talvez, de maneira caricatural e anacrônica, algo que o livro, aparentemente, gostaria de erradicar). Isso não é pouco, e desejar tratar disso é bom, creio: se o objeto é espinhoso, solicita soluções radicais.</p>
<p>Mas, mesmo levando em conta tudo isso, não posso deixar de me surpreender com o dissenso entre minha leitura e a de comentaristas que julgo argutos e decentes, como a <a href="http://copadeliteratura.com/2009/jogo10/">Simone Campos</a> e o <a href="http://copadeliteratura.com/2009/jogo13/">Dr. Plausível</a>. Ao elogiar o livro, ambos valorizam essas pretensões e as interpretam à luz do que prometem, do que poderiam ser e do que efetivamente foram para eles. Para mim, todavia, esse livro é uma falência. Onde Campos reconhece “paixão” percebo antes o tédio de uma estrutura formulaica, de um “projeto literário” de escrever um sertão cosmopolitizado precariamente, onde os celulares são primeiro símbolos de status e só depois meios de comunicação, e onde as pessoas traduzem Radiohead mentalmente. Aliás, essa cena inicial com a tradução de Radiohead produzida por um personagem que “nunca consegui[u] raciocinar em outro idioma além do materno” me fez gargalhar e, com isso, deu início a uma leitura marcada por gargalhadas em momentos que, imagino, se pretendiam matéria de outras coisas, mas certamente não de ridículo. Independente das intenções do autor, e sem nenhuma consideração por sua ascendência sefardita (e, Dr. Plausível, que se registre aqui uma queixa ao seu uso do biográfico: eu também sou neto de um judeu — e de um japonês, e de uma negra, e de um português. Mas e daí? O que isso faria, ou fará, em benefício de qualquer literatura que eu venha a produzir?), o problema maior do livro para mim reside aí: o que ele pretende me pareceu fingimento e não atuação. Não suspendi a descrença em momento algum, li como “técnico” do início ao fim esse livro de anticlímax — que julguei, ainda por cima, saída fácil. Esse autor precisa falhar melhor pra me convencer. Pelo menos um dos personagem me deu as palavras apropriadas para resolver esse comentário: como diz o Adonias, “Ao inferno!”.</p>
<p>Dito isso, e tendo já comentado o <em>Flores azuis</em> <a href="http://copadeliteratura.com/2009/jogo14/">em minha resenha</a>, resta-me apenas desejar que a festa seja boa e farta na casa dos Saavedra, pois boto fé que o livro leva o caneco dessa Copa.</p>
<p><em>Galiléia</em> 0 x 1 <em>Flores azuis</em></p>
<p><strong>Doutor Plausível</strong></p>
<p>Meu voto por <em>Flores azuis</em> é quase uma piada interna. Na CLB passada, <em>Toda terça</em>, o livro de C.Saavedra q <a href="http://copadeliteratura.com/2008/jogo-4">resenhei</a> nas oitavas, e um dos favoritos daquela edição, foi preterido na <a href="http://copadeliteratura.com/2008/jogo-13">semifinal</a> contra <em>O dia Mastroianni</em> pq o resenhista A.Sant&#8217;Anna fez amizade com o autor J.P.Cuenca em Lisboa, e os dois deram umas voltas por lá e até presumivelmente tomaram um café juntos. Pois bem. <em>La</em> Saavedra aprovou minha resenha naquela Copa e me enviou um email agradecendo; a partir daí, fizemos uma amizade virtual e, vejam só, até nos encontramos prum simpático par de horas no café da Livraria Cultura aqui em São Paulo. A piada é justamente q isso não influenciou meu voto, como se verá a seguir.</p>
<p>Gostei bastante de <em>Galiléia</em>, com suas subjacências psicanalíticas e auto-torturas de identidade étnica, sexual, regional e nacional. É um livro atormentado e errático, e sua leitura requer uma aproximação cuidadosa, como tocando em feridas alheias. Claro, tocar em feridas alheias não é do gosto de todos: há profissionais especializados nisso. Mas tem algo de valor ali, algo q só se enxerga depois de acostumar a vista. Apesar de G chutar a bola pra todo lado, há uma certa regularidade patológica nos saltos e <em>non-sequiturs</em> entre as frases, uma regularidade q o olhar atento percebe como atos falhos do narrador, q quer esconder de si mesmo verdades desagradáveis. Mas se o narrador escamoteia de si mesmo sua natureza, vejo tbm q o <em>autor</em> escamoteia uma subjacência judaica, como se ele mesmo estivesse incerto se revela ou esconde o q realmente acha do assunto. Há muita coisa embaralhada em G — tal como faria um paciente pra se proteger de seu terapeuta — e não é tarefa fácil compor uma narrativa coerente e gratificante mesclando a dolorosa hidráulica freudiana com a modernidade distorcida e aberrante no ambiente primitivo do sertão, mais o atavismo biblicômano, mais a mitologia de fantasmas sertanejos. A meu ver, G não conseguiu criar o todo coeso e forte q essa mescla exigia pra se manter em pé. As páginas perdidas fizeram falta.</p>
<p>Arte é controle. Qto menos controle o artesão exerce sobre sua criação, mais os ruídos involuntários tomam conta e mais discutível é o valor da obra. Brito é muito bom no micro-controle: por trás de cada palavra em G, há uma pulsão ou trauma inteligíveis e demonstráveis; mas seu macro-controle é inconsistente e estabanado: visto de longe, G é como uma colcha de retalhos mal costurados com catarses pessoais do autor. Em meu panteão, algo assim não tem chance contra o paciente trabalho de criação e aprofundamento gradual de <em>Flores azuis</em>, onde se nota um mecanismo coerente e bem lubrificado funcionando por trás do mimimi na superfície. FA tem <em>idéias</em> a contrastar com os <em>traumas</em> em G; e são as idéias (e seu controle) o q leva a literatura pra frente, não? Só por isso, FA já levaria meu voto.</p>
<p>Tenho outro motivo. <em>Flores azuis</em> tem em comum com <em>O verão do Chibo</em> uma noção, pra mim, bastante atraente e, digamos, contemporânea, pós-Wittgenstein: a noção de q a gente não pode saber tudo, q tem coisas q a gente, o leitor, nunca vai saber, jamais. O leitor <strong>em</strong> FA e o leitor <strong>de</strong> FA têm em comum sua ignorância sobre a autora das cartas. Quem sabe dum livro (e duma carta) é seu autor; o máximo q o leitor ou a crítica pode fazer é conjeturar, especular e (nalguns casos) mirabolar. ¿Que disse o Bill Murray no ouvido da Scarlett Johansson no final de <em>Lost in Translation</em>? Sei lá; é coisa entre eles, ninguém tem o direito de exigir saber; a história do filme acaba ali. Em FA, a privacidade da autora das cartas já foi suficientemente devassada, aviltada e insultada por Marcos, seu leitor ilegítimo, e não merece ser escancarada no clímax do livro por nosso voyeurismo. Tanto Marcos qto nós começamos o livro sem saber quem é A. e terminamos sem saber, do mesmo modo q começamos e terminamos a vida sem nunca saber o q ela é; mas entre o não-saber inicial e o não-saber final, uma história foi contada: o insabível continua intacto mas uma narrativa se formou. <em>Galiléia</em> tem o mérito de mostrar q nem sequer o narrador sabe por quê diz o q diz, mas R.C.Brito faz isso seguindo uma cartilha freudiana e um <em>script</em> bíblico — duas escolas q se pretendem &#8220;sábias&#8221;. Não saiu ainda o veredicto sobre Freud, mas a modernidade reconhece a empáfia dos livros &#8220;sagrados&#8221;, q fingem ser mais do q apenas narrativas hiperbólicas e se arvoram em tornar sabíveis as intenções do &#8220;autor&#8221;. C.Saavedra — junto com grande parte do q há de melhor hoje — está dizendo, &#8220;Não, não. Baixa a bola. Vc não vai saber, nunca, jamais.&#8221; Nessa limitação ao voyeurismo na essência da leitura — q é o mesmo voyeurismo fundamental da ciência, da psicanálise e da religião – reside o maior trunfo do realismo de <em>Flores azuis</em>: o leitor das cartas e o leitor do livro sofrem o mesmo destino.</p>
<p><em>Galiléia</em> 0 x 2 <em>Flores azuis</em></p>
<p><strong>Luís Augusto Fischer</strong></p>
<p><em>Por não ter lido na íntegra nenhum dos dois participantes desta final, Luís Augusto Fischer preferiu anular seu voto.</em></p>
<p><em>Galiléia</em> 0 x 2 <em>Flores azuis</em></p>
<p><strong>Leandro Oliveira</strong></p>
<p>Ao reler <em>Flores azuis</em> para a final da Copa pude reforçar as qualidades que reconheci na <a href="http://copadeliteratura.com/2009/jogo11/">primeira leitura</a>. <em>Flores azuis</em> é um livro múltiplo, construído de maneira a sugerir várias direções, cabendo, portanto, ao leitor escolher a forma de leitura que mais lhe agradar. Sendo assim, fixei minha atenção em <em>Galiléia</em> para saber se poderia haver um adversário à altura dessa obra que tanto me agradou.</p>
<p>Comecei a ler <em>Galiléia</em> com a expectativa de encontrar um grande romance. A proposta de mistura entre a tradição bíblica e a tradição literária do sertão nordestino parecia ousada e original. Imaginei surgir dali uma atualização do surrado regionalismo, uma parte importante da literatura brasileira que virou motivo de paródia, não agradando mais a muitos leitores. No entanto, após a leitura, vi que essa ousadia estava apenas na proposta, sua execução não acompanha a grandeza do projeto. <em>Galiléia</em> se parece com um carro potente, cuja chave de ignição foi acionada, mas que nunca sai do lugar, um desperdício de combustível. Tudo parece muito artificial, muito longe de construir um cenário adequado ao embate entre tradição e modernidade. Desde o Radiohead traduzido para o português até as passagens bíblicas que estão praticamente transcritas, mudando-se apenas o nome dos personagens, tudo ali parece fora de lugar. É como uma peça de quebra-cabeças forçada a se encaixar num lugar que não o dela. O resultado é uma imagem que, embora com cores aproximadas, mostra sua falha no conjunto. Outro grave problema — também em relação à expectativa criada — é a maneira como são construídos os conflitos familiares. Tudo indica que haverá uma revelação grandiosa, algo que justifique as estranhezas da Galiléia do sertão. Mas ao final não há clímax, é tudo muito raso, os personagens parecem impressos num banner de publicidade: as cores estão lá, em muitos casos até em tamanho real, mas ninguém os confunde com o modelo que emprestou sua imagem. <em>Galiléia</em>, portanto, tornou-se para mim um acúmulo de decepções. No confronto, <em>Flores azuis</em> ganha de goleada.</p>
<p><em>Galiléia</em> 0 x 3 <em>Flores azuis</em></p>
<p><strong>Simone Campos</strong></p>
<p>Tem crítico que não se deixa levar pelo sentimento inicial que um livro suscita nele. Bem, eu deixo. Mas se o livro for bom o suficiente para mudar uma má primeira impressão, como foi <em>Galiléia</em> — que, cruamente, é um funeral no meio do mato —, dou meu braço a torcer feliz, pois isso demonstra que ainda há no mundo o que me surpreenda. <em>Galiléia</em> chegou à finalíssima, passando pelo crivo de jurados tão variados quanto <a href="http://copadeliteratura.com/2009/jogo4/">Felipe Charbel</a>, <a href="http://copadeliteratura.com/2009/jogo13/">Doutor Plausível</a> e <a href="http://copadeliteratura.com/2009/jogo10/">eu mesma</a>.</p>
<p><em>Flores azuis</em> esbarrou na mesmíssima barreira: a ladainha epistolar de uma M.A.D.A. (Mulheres que Amam Demais Anônimas) abandonada não é bem minha ideia de entretenimento. Mas, ao contrário de <em>Galiléia</em>, <em>Flores azuis</em> não conseguiu circunavegar meu preconceito. A substância de <em>Flores azuis</em> — a parte boa e relacionada ao título — está tão concentrada em poucas páginas que você fica imaginando a razão de não ser conto. O caminho até ali e dali em diante apenas me entediou, apesar de replicar os temas de “vazio” e “perfuração”, e apesar do contraponto do personagem Marcos. Descontada uma ou outra imagem batida, Carola Saavedra é competente em usar uma técnica vetorial, com perguntas retóricas e orações longas cheias de vírgulas que nos conduzem (e Marcos) à carta seguinte, e a outra carta, até o fim. Mesmo assim, não me soa plausível alguém ficar fascinado com aquilo a ponto de se perturbar e aguardar ansiosamente a próxima carta. Vi temas e falas parecidos em novelas como as de Manoel Carlos, quando as vejo — não gosto de acompanhá-las. Diria que não sou o público do livro. <em>Flores azuis</em> cumpre o que promete, mas sem grandes virtuosismos nem reversões de expectativa; não nasceu para romance, e sim para conto; não pode com o tranco de uma final de Copa. É <em>Galiléia</em> na cabeça.</p>
<p><em>Galiléia</em> 1 x 3 <em>Flores azuis</em></p>
<p><strong>Beatriz Resende</strong></p>
<p><em>Beatriz Resende não teve tempo de escrever seu texto para a final da Copa.</em></p>
<p><em>Galiléia</em> 1 x 3 <em>Flores azuis</em></p>
<p><strong>Alex Castro</strong></p>
<p><em>Galiléia</em>, de Ronaldo Correia de Brito, e <em>Flores azuis</em>, de Carola Saavedra, são dois romances maduros, trabalhados, firmes, de dois autores a acompanhar com atenção.</p>
<p>A voz masculina do narrador é o grande achado de <em>Flores azuis</em>. Suas dúvidas, suas raivas, sua insegurança, seus comentários sobre mulheres. Tudo perfeito. Se Carola tivesse abandonado as cartas e se dedicado a desenvolver esse personagem, teria nos dado uma maravilhosa visão feminina dos dilemas do homem contemporâneo.</p>
<p>As cartas, confesso, me fizeram ler mais rápido e pular algumas páginas. Além da sensação de que nada estava acontecendo, a voz parecia um pastiche clariceano, um <em>Água viva</em> diluído — inclusive no tema de serem cartas escritas por uma mulher depois do término de um relacionamento.</p>
<p>Por fim, o final me pareceu um pouco previsível e batido. No gênero &#8220;correspondência com correspondentes misteriosos ou que não existem&#8221;, eu prefiro <em>Griffin e Sabine</em> (1991), de Nick Bantock, com certeza um dos livros mais surpreendentes que li nos anos 90, onde a tensão e a dúvida vão crescendo num ritmo insuportável. E penso: como mais esse romance poderia terminar? Ou a correspondente não existia ou então era sua ex-mulher ou a namorada — únicas outras personagens do livro. (Terminar com o narrador se encontrando com a correspondente e começando um belo namoro seria açucarado demais!) Eu terminaria o romance com ele pegando o endereço onde ela supostamente morava e simplesmente tocando a campainha — o resto ficaria por conta do leitor. Mas tenho mania de elipse.</p>
<p><em>Galiléia</em> me segurou na cadeira por várias horas.</p>
<p>A princípio, contrariado. Vamos lá, pensei, mais um romance de um autor nordestino urbano ou urbanizado tecendo reminiscências sobre uma família patriarcal em um Nordeste rural ou de passado idílico ou barbaramente sórdido.</p>
<p>Fui imediatamente remetido à <em>Crônica da casa assassinada</em>, magistral romance de Lúcio Cardoso (tão bom que não é destruído pelo péssimo último capítulo), também história de um casarão familiar onde todos se odeiam e comem todos. Por que escrever <em>Galiléia</em> num mundo onde já existe <em>Crônica da casa assassinada</em>? O que esse livro vai acrescentar? Ou, em outras palavras, o que <em>Galiléia</em> está falando que não foi dito pelos tantos autores que se dedicaram ao gênero &#8220;romance regionalista de 30&#8243;? A não ser que consiga trazer esse gênero ao nosso tempo, o livro periga tornar-se simples pastiche.</p>
<p>Pois então, para mim, o grande trunfo de <em>Galiléia</em> são os fantasmas. A interação dos personagens vivos com seus ancestrais mortos e torturados dá dimensão trágica e temporal ao romance — além de ser algo que não podemos encontrar em Lins do Rego, Ramos, Queiroz, Adonias, Suassuna etc. Os fantasmas fazem de <em>Galiléia</em> não uma história de terror, mas uma história verdadeiramente assombrada.</p>
<p>A outra maneira pela qual um autor pode trazer um gênero petrificado no tempo para sua época é através de referências cronológicas contemporâneas: pegar aquelas fazendas atemporais e insondáveis&#8230; e colocar nelas um computador com Internet. Naturalmente, só isso não basta. E daí que um dos personagens tem email? A questão é como esse novo dado influencia na trama. Nesse quesito, achei muito interessante que um dos personagens seja viciado em Internet (ou melhor, pornografia na Internet), embora isso tenha tido pouco impacto no enredo. O que eu gostaria de ter visto é: de que modo essas fazendas hoje, em 2009, são diferentes do que eram na época dos romances de Adonias Filho e José Lins do Rego?</p>
<p>Minha única crítica real ao livro é quanto às agressividades e silêncios entre os personagens. Todos estão sempre dando patadas uns nos outros aparentemente sem motivo, sentem ódios súbitos e se estapeiam sem aviso prévio, essas coisas. Talvez eu simplesmente venha de uma família muito pacata e isso pareça normal para a maioria dos leitores. Talvez tenha sido a intenção do autor mostrar que essas pessoas têm tanta história passada que mal se suportam, ficam tensas somente de estar perto umas das outras. Mas, mesmo assim, essa agressividade não foi bem preparada e me pareceu sempre forçada. Sobre isso, eu recomendaria uma olhada nos livros de Adonias Filho, uma das prosas mais lindas da língua portuguesa, onde praticamente todos os personagens são quase bichos, de uma brutalidade impressionante mas também verossímil e poética, como se fossem assim porque não podem deixar de ser.</p>
<p>Por fim, pelo escopo, pela ambição, pelas tramas e subtramas, dou meu voto a <em>Galiléia</em> — mas somente por pontos. <em>Flores azuis</em> não fica muito atrás. E, apesar de ter dado a vitória à <em>Galiléia</em>, no dia seguinte fui à biblioteca e o livro que peguei não foi nenhum de Ronaldo Correia de Brito mas sim <em>Toda terça</em>, romance anterior da Carola. Fiquei curioso pra ler mais.</p>
<p><em>Galiléia</em> 2 x 3 <em>Flores azuis</em></p>
<p><strong>Luís Francisco Carvalho Filho</strong></p>
<p>Dois parágrafos, dois bons livros. Tento escolher uma frase capaz de sintetizar, ao meu olhar, cada um deles. “Haverá alguma forma de dizer as coisas sem que elas nos escapem?”, pergunta A., de Carola Saavedra. “Mesmo quando partimos sem olhar para trás, retornamos&#8230;”, sentencia o narrador de Ronaldo Correia de Brito.</p>
<p>Sempre olhei com desconfiança para romances epistolares, sempre me encantei pelo sertão literário. Minha escolha contraria o princípio. Pela naturalidade da escrita, voto em <em>Flores azuis</em>.</p>
<p><em>Galiléia</em> 2 x 4 <em>Flores azuis</em></p>
<p><strong>Fabio S. Cardoso</strong></p>
<p>A final da Copa de Literatura Brasileira tem como protagonistas os autores Carola Saavedra, com seu <em>Flores azuis</em>, e Ronaldo Correia de Brito, com <em>Galiléia</em>. Os estilos, os temas e a forma de contar as histórias — afinal, é disso que se trata, não? — são totalmente distintos. Pode-se dizer, inclusive, que o duelo dos dois romances não poderia alcançar um veredicto plausível, tendo em vista o tempo em que os dois livros acontecem, dando a impressão de que são obras com propostas distintas&#8230; Antes, no entanto, que algum leitor pouco afeito às subjetividades não compreenda a sutileza, o eixo deste parágrafo é o seguinte: o que garantiu a vitória de <em>Flores azuis</em> sobre <em>Galiléia</em> foi a mão do técnico, do professor — isto é, da escritora.</p>
<p>Isso porque <em>Flores azuis</em>, ao apresentar uma história aparentemente corriqueira acerca dos encontros e desencontros dos relacionamentos, consegue conquistar as expectativas do leitor com uma prosa muito bem talhada. Em outras palavras, é como se cada movimento, cada gesto, cada carta deste romance epistolar tivesse sido milimetricamente estudada para proporcionar uma experiência estética e literária única no leitor. Exemplo disso é o mistério que envolve a autoria das cartas, que aguça os sentidos do personagem da narrativa ao mesmo tempo em que mexe com a cabeça de quem quer avançar e descobrir logo quem assina as missivas. Em paralelo a isso, Saavedra abre espaço para tratar das mãos atadas daquele homem que não consegue dar conta de seus relacionamentos com suas mulheres, seja com a ex-esposa, seja com a atual quase-namorada, seja com a filha, que parece vigiá-lo e saber que ele, de fato, é um fraco.</p>
<p>De certa maneira, pode-se entender essa inanição do protagonista resumida na sua incapacidade de descobrir quem assina as cartas. Mais do que isso, de tão impotente que é, não dá conta de resolver qualquer de seus problemas, tornando-os mais insolúveis à medida que tenta resolvê-los. A um só tempo incompreendido e acuado, este homem só encontra refúgio quando se encerra para ler as cartas, como se estas fossem as revelações de seu infortúnio e de sua desilusão.  E o interessante é que o personagem só se torna consciente disso à medida que a leitura avança. E o leitor descobre isso junto, evidentemente.</p>
<p><em>Galiléia</em>, por sua vez, não é menos engenhoso no que se refere à sua construção. Sem maiores pormenores, logo nas primeiras páginas o leitor conhece o que une aqueles três parentes, sangue do mesmo sangue. Próximos e distantes, todos compartilham de lembranças da infância na casa do avô, a quem visitam nessa jornada. Rumo à Galiléia para a festa de aniversário do patriarca da família, aos poucos, os fantasmas, medos, taras e desatinos são confrontados e, com efeito, tem-se uma experiência estética singular com a leitura, algo não óbvio e com qualidade. Lá, em vez de alegria, encontram pesar. Nessa contradição, há virtude literária. Um mérito, sem dúvida.</p>
<p>O ponto-chave é que o livro é pernóstico. Sim, não há dúvida que Ronaldo Correia de Brito domina a técnica para contar uma boa história. Pode, inclusive, se dar ao luxo de esbanjar recursos, tais como elipse, e conjugá-los com as referências da cultura pop, como a música do Radiohead. A questão, no entanto, é que esses elementos, dispostos sem qualquer sentido, tornam-se meros exercícios de estilo. Estilo esse que, novamente, não deixa de ter o seu valor estético, e faz até mesmo que se conheça as qualidades literárias de um escritor. Todavia, neste caso, seu efeito foi menor do que a expectativa gerada, e isso é apenas nocivo à fruição estética e ao prazer de ler um livro.</p>
<p>E é aqui que reside a chave da vitória de <em>Flores azuis</em> sobre <em>Galiléia</em>. Enquanto o primeiro se dedica a fazer de sua narrativa inventiva um ponto fundamental para o andamento da história, o segundo lança mão de recursos que, em linhas gerais, não precisariam ser utilizados. Dito de outra forma, a história de Carola Saavedra não poderia ser contada sem o estratagema epistolar; já as referências estilísticas, as referências da cultura pop, o apelo ao grotesco, são como uma piscadela de olho para o leitor mais informado, como se dissesse: “veja o que posso fazer com este livro!”. Entre o essencial e o pernóstico, a literatura de Saavedra é mais competente que a prosa de Brito.</p>
<p><em>Galiléia</em> 2 x 5 <em>Flores azuis</em></p>
<p><strong>Tiago A.</strong></p>
<p>A essa altura, acho que todo mundo já conhece os plots dos dois livros, o que me me permite ir direto ao que interessa.</p>
<p>Primeiro, vamos pegar <em>Galiléia</em>, que padece daquele velho mal: anuncia sua ambição, e daí não passa. Tem andaimes de grande épico familiar, mas só os andaimes mesmo. Seus personagens não conversam; dão palestras — aliás, a considerarem-se apenas os “diálogos” desse livro, seria possível afirmar, sem leviandade alguma, que o seu autor jamais conversou com um ser humano vivo. A narração monocórdica quer explicar tudo, quer ensinar tudo (de Radiohead à Noruega), quer pegar o leitor pela mão e arrastá-lo pelo sertão. Na mesa de bar que frequento, <em>Galiléia</em> já virou sinônimo de livro chato pelo qual sentimos profunda vergüenza ajena (se algum de nós descreve certo livro com um “É tipo Galiléia” não precisa dizer mais nada depois disso). Puxando pela memória, acho que o elemento que mais me marcou durante sua leitura foi mesmo aquele “<a href="http://copadeliteratura.com/2009/jogo4/#comment-6592">de uma altura bem alta, de uma altura bem alta… alta…</a>”. E não, meus amigos, isso não é um elogio.</p>
<p>Por outro lado, conforme já disse <a href="http://copadeliteratura.com/2009/jogo5/">antes</a>, não me surpreende que <em>Flores azuis</em> tenha chegado a essa final. Ele tem grande qualidade técnica, tem personagens que parecem gente — e tem, sobretudo, a coragem de se posicionar diante de um dos problemas-chave postos a quem quer que queira fazer literatura em nosso dias, que é o seguinte: a que(m) serve narrar? Se A. é chata, insuportável, como disseram algumas de vocês aí, eu continuo achando que isso serve a algum propósito, como bem lembrou alguém, <a href="http://copadeliteratura.com/2009/jogo11/#comment-6895">aqui</a>. <em>Flores azuis</em> me surpreendeu positivamente. Se depender de mim, é o grande campeão desse ano.</p>
<p><em>Galiléia</em> 2 x 6 <em>Flores azuis</em></p>
<p><strong>Felipe Charbel</strong></p>
<p>Gostei de <em>Flores azuis</em>, como já havia gostado de <em>Toda terça</em>. Mas, assim como em <em>Toda terça</em>, vejo em <em>Flores azuis</em> um investimento excessivo em truques e artifícios literários que prejudicam a verdade do texto. O que seria a verdade de um livro de ficção? Não sei. Nem sei se verdade é a melhor palavra. Talvez entenda por verdade o que um livro tem a dizer de um modo que só aquele livro pode dizer (forma e conteúdo se tornando uma terceira coisa). <em>Flores azuis</em> tem isso, mas tem também “sacadas engenhosas” um tanto aborrecidas que parecem querer “justificar” o tratamento realista da matéria. Como a coisa de “desconstruir o romance epistolar” — onde, aliás? O livro aborda a questão dos efeitos produzidos pelas cartas, mas isso significa desconstruir o romance epistolar? E por que o romance epistolar tem que ser desconstruído? —, ou de manter em aberto as possibilidades interpretativas — quem é ele? Quem é ela? Ele é invenção dela? Ela é invenção dele? Ou tudo é uma meta-meta discussão sobre a composição literária?</p>
<p><em>Flores azuis</em> é bom por outras razões. É bom porque seus personagens são críveis, são dignos de pena e admiração, porque seus conflitos têm um quê de universalidade, são conflitos de muitos dos leitores e dos não-leitores do livro. <em>Flores azuis</em> é bom porque é muito bem escrito, porque as cartas de A. são ao mesmo tempo irritantes e reveladoras, cansativas e bonitas, porque em dois capítulos, pelo menos, o livro causa aquele arrepio (seria isso um efeito estético?) que só a grande arte consegue causar. <em>Flores azuis</em> é bom exatamente no que quer encobrir: seu realismo.</p>
<p>Sobre <em>Galiléia</em> já disse o que tinha a dizer na <a href="http://copadeliteratura.com/2009/jogo4/">resenha do jogo 4</a>. O livro tem um projeto complexo, mas uma realização às vezes excessivamente didática. Mesmo as boas intuições, como a definição do sertão como realidade íntima, se perdem na rigidez da estrutura. O livro quer dizer muitas coisas, quer falar de muitas coisas, de Freud, da Bíblia, do sertão, da tragédia, da memória, mas no fim diz muito pouco. <em>Flores azuis</em> diz a si mesmo, <em>Galiléia</em> não. Por isso escolho o livro de Carola Saavedra.</p>
<p><em>Galiléia</em> 2 x 7 <em>Flores azuis</em></p>
<p><strong>Bernardo Brayner</strong></p>
<p>Existem exatas 246 formas de derrubar a minha argumentação ao dar o meu voto para <em>Galiléia</em>, de Ronaldo Correia de Brito. Eu voto no <em>Galiléia</em> por um motivo absolutamente idiota: foi um livro que despertou ódios e paixões. Acho que a literatura brasileira precisa de um pouco disso.</p>
<p>Talvez o momento da leitura também tenha influenciado a minha escolha. Eu li este livro nos dias exatamente posteriores à morte do meu pai. Talvez uma segunda leitura tivesse sido mais crítica. Mas naquele momento o livro sem dúvida fez sentido para mim. A procura da identidade é e sempre será tema de grandes histórias.</p>
<p>A favor de <em>Galiléia</em> ainda há a constante tensão, quase como um conto, só que em muitas páginas. Poucos livros conseguem isso.</p>
<p>Concordo com quem disse que tem passagens forçadas, coisas inverossímeis. Mas, francamente, não lembro de ter lido pelo menos um livro na vida que fosse irretocável, que não tivesse uma palavrinha sobrando ou que pudesse ser mudada. Dizem que <em>Galiléia</em> tem diálogos impossíves de acontecer, mas, creio, o autor nunca quis ser realista. O tom é de tragédia grega.</p>
<p>Não me aprofundarei em temas e estilos porque acho que a esta altura outros o farão bem melhor que eu.</p>
<p><em>Flores azuis</em> também é um ótimo livro. Uma reinvenção do romance epistolar à maneira de Borges, mas com uma autora/personagem quase clariceana, sem dúvida uma escolha proposital para a pulsação do personagem. Por mim seria um vice-campeão daqueles memoráveis, de lembrar em mesa de bar. Acho que Saavedra será uma das maiores ficcionistas brasileiras. Acho mesmo.</p>
<p><em>Galiléia</em> 3 x 7 <em>Flores azuis</em></p>
<p><strong>Fernando Torres</strong></p>
<p>Algumas vezes vi filmes no cinema dos quais todo mundo havia falado tão mal que acabei por me surpreender. <em>Coisas para fazer em Denver quando você está morto</em> é um deles. Por outro lado, a expectativa para alguns filmes era tão grande que acabei por odiá-los.</p>
<p><em>Flores azuis</em> é como um desses filmes que assisti sem expectativa e me surpreenderam. Carola Saavedra escreveu um romance curto, daqueles de se ler em uma tarde de chuva quando estamos em férias. A história é bem amarrada, não há excessos (falei sobre isso <a href="http://copadeliteratura.com/2009/jogo2/">no jogo entre <em>Areia nos dentes</em> e <em>O vencedor está só</em></a>) e fluido. Por sinal, ela usa uma técnica muito semelhante à de Xerxenesky, marcar diferentes vozes narrativas com diferente estilos. E faz muito bem. Posso dizer que ela tem a mesma qualidade técnica de <em>Areia nos dentes</em>, mas marca gols com sua experiência. </p>
<p>Por outro lado, assim como <em>O vencedor está só</em>, <em>Galiléia</em> tem um narrador só a contar a história de diferentes pessoas que povoam o mesmo ambiente. Achei a primeira metade do livro fenomenal, complexa, um romance de verdade. Até certo momento a releitura da literatura regionalista intentada por Ronaldo Correia de Brito me convenceu que tinha futebol para golear. Mas pouco a pouco o romance vai se perdendo, perdendo fôlego, e os nós que pareciam tão justos vão se desatando em direção a um final surpreendentemente sem graça. Como se a expectativa criada na primeira metade não se realizasse na segunda. </p>
<p>Meu voto vai para <em>Flores azuis</em> exatamente por ser um livro regular. Talvez não seja um daqueles livros que te pega pelo estômago, que muda sua forma de ler romances (ou, para alguns, que muda a sua vida — mas minha vida não muda com romances), mas é um livro gostoso de ler, honesto e despretensioso na medida certa.</p>
<p><em>Galiléia</em> 3 x 8 <em>Flores azuis</em></p>
<p><strong>Paulo Polzonoff</strong></p>
<p>Esta final da Copa é, para mim, uma espécie de Íbis x Tabajara FC. <em>Flores azuis</em> e <em>Galiléia</em> são dois livros que eu jamais leria e muito menos compraria. Se alguém me desse de presente, trocava.</p>
<p>Não posso negar, contudo, que a leitura destes dois romances me rendeu um novo olhar sobre esta coisa chamada, alcunhada e injuriada de “literatura brasileira”. Antes de ler <em>Flores azuis</em> e <em>Galiléia</em>, eu me perguntava por que as livrarias reservam uma parte toda especial, geralmente escondidinha e acanhada, para a literatura nacional. Confesso, envergonhado, que eu via isso com alguma revolta. Um resquício de patriotismo que não saiu no banho, talvez.</p>
<p><em>Flores azuis</em> e <em>Galiléia</em> me deram uma explicação para este fenômeno que não é só comercial. Na verdade, tudo é muito simples: literatura brasileira, em geral, não é livro que se queira ler. É livro que se pretende estudar, analisar, discutir. Aquilo que parece um romance é, na verdade, um objeto de estudo — um livro praticamente didático.</p>
<p>Logo, convém mesmo deixar a literatura brasileira bem separadinha daqueles livros que a gente compra porque quer lê-los à noite, antes de dormir, ou na praia. Minha sugestão é que o mercado editorial comece a lançar promoções do tipo “Compre este livro e ganhe uma tese”. Pode dar certo.</p>
<p>A esta altura você deve estar se perguntando o que achei de <em>Flores azuis</em> e <em>Galiléia</em>. Em uma palavra: ruins. Ah, mas você quer saber o que achei da estrutura, do enredo, da composição dos personagens – provavelmente porque você é muito inteligente e não consome livros, e sim Literatura. Sei&#8230; Sobre isso, diria que tudo é muito bonito e evidente — o que é mau sinal. Quando estas questões técnicas aparecem demais num livro, tenho a impressão de que estou vendo o microfone na tela do cinema.</p>
<p><em>Flores azuis</em> é um milímetro pior do que <em>Galiléia</em>. Uma enrolação sem fim. Sub-existencialismo. Frases mal-construídas, uma hesitação entre o coloquialismo e o ruybarbosismo. No mais, é um livro vazio (se serve de consolo, menos vazio do que <em>O livro dos nomes</em>, <a href="http://copadeliteratura.com/2009/jogo1/">aquele</a>). Poderia aqui me alongar nos porquês deste vazio todo, mas acho que o espaço é pouco e a preguiça, muita.</p>
<p>Já <em>Galiléia</em> me causou desgosto no primeiro parágrafo. “Soubemos notícias” doeu em meu ouvido. Engoli em seco, porém, e continuei a leitura para me perceber, já pela metade do livro, me perguntando como <em>Galiléia</em> se sairia se eu resolvesse fazer um escrutínio como <a href="http://www2.uol.com.br/millor/aberto/textos/004/007_02.htm">o que meu caro amigo Millôr Fernandes fez com aquele romance do Sarney</a>. Aliás, será que algum livro desta Copa sobreviveria a uma análise assim cuidadosa? Tenho minhas dúvidas.</p>
<p>O que mais me incomodou em <em>Galiléia</em> foi o artificialismo da linguagem. O que me obriga a repetir: falta à literatura brasileira o teste da oralidade. Qualquer pessoa que leia <em>Galiléia</em> ou <em>Flores azuis</em> em voz alta por uns cinco minutos ficará com a impressão de que acabou de ouvir um menino de cinco anos aprendendo a tocar violino.</p>
<p>Mas sinto que estou me alongando. Neste Íbis x Tabajara FC, o visitante (a.k.a. <em>Galiléia</em>) levou a melhor com um gol contra, de mão, em impedimento, aos 47 do segundo tempo. Se bem que há quem diga que a bola bateu na trave e não entrou inteira&#8230;</p>
<p>P.S.: Os quatro livros que recebi serão doados para a <a href="http://livroseafins.com/biblioteca-pote-de-mel-pegue-um-livro-devolva-quando-quiser/">biblioteca comunitária Pote de Mel, em Curitiba</a> — uma iniciativa do meu amigo Alessandro Martins.</p>
<p><em>Galiléia</em> 4 x 8 <em>Flores azuis</em></p>
<p><strong>Lucas Murtinho</strong></p>
<p>Nunca foi intenção da organização desta Copa de Literatura esconder o caráter injusto dos seus resultados. Pelo contrário: essa injustiça, consequência direta da diferença de gostos dos jurados — e, por tabela, dos leitores em geral — é frequentemente celebrada neste espaço.</p>
<p>Ano passado, a maior injustiça da curta história da CLB foi perpetrada contra <em>Toda terça</em>, de Carola Saavedra, eliminado por <em>O dia Mastroianni</em> simplesmente porque o árbitro do jogo, André Sant&#8217;Anna, é amigo de João Paulo Cuenca, autor do livro vitorioso. <a href="http://copadeliteratura.com/2008/jogo-13">A deliciosa resenha de Sant&#8217;Anna</a> gerou um debate acalorado e deixou decepcionados alguns torcedores ferrenhos do livro de Saavedra. Comentei no meu texto para <a href="http://copadeliteratura.com/2008/jogo-17">a final daquela Copa</a> — vencida por <em>O filho eterno</em>, de Cristovão Tezza — que o campeão poderia ter sido outro caso <em>Toda terça</em> tivesse chegado à final.</p>
<p>Porém, o acaso tem formas de ajeitar mesmo o que julgamos irremediavelmente perdido e nunca foi nossa intenção corrigir: em sua segunda participação na Copa, Carola Saavedra chega à final e leva o título de forma, se não justa, incontestável, vencendo todos os seus jogos de goleada.</p>
<p><em>Flores azuis</em> não é meu romance preferido desta Copa: <em>A arte de produzir efeito sem causa</em>, eliminado por <em>Flores azuis</em> na <a href="http://copadeliteratura.com/2009/jogo14/">semifinal</a>, levou meu troféu particular, seguido de perto por <em>Cordilheira</em>. Quem acompanha os comentários da Copa conhece minhas críticas ao livro de Saavedra: além de, por uma questão de gosto, não ter me envolvido com as cartas escritas por um dos protagonistas do romance, me pareceu que o aspecto alegórico do romance foi aos poucos obscurecendo o aspecto narrativo. Marcos, que prometia ser um grande personagem, se transformou no elemento de um jogo literário que fui obtuso demais para compreender durante a leitura. Talvez venha dessa minha incompetência a sensação de que o personagem deveria ter sido mais importante do que o jogo.</p>
<p>Feitas essas ressalvas, fico mais à vontade para elogiar a espantosa velocidade do amadurecimento de Saavedra enquanto escritora. Talvez seja até inadequado falar em velocidade e mais preciso dizer que ela já surgiu madura, pois <em>Toda terça</em>, seu primeiro romance, também mostrava um domínio técnico que geralmente só encontramos em escritores no auge da forma. Posso não concordar com algumas das direções que o texto de Saavedra toma, mas é impossível negar que a direção tomada pela texto é a desejada pela autora. Saavedra sabe muito bem o que está fazendo, e o faz muito bem.</p>
<p>Em contraste, o melhor de <em>Galiléia</em> são as suas intenções. A proposta de resgatar o romance regionalista brasileiro colocando-o em rota de colisão com elementos urbanos é instigante, mas gerou estranhezas como a já infame tradução da letra de &#8220;Paranoid Android&#8221;, do Radiohead. E a força da história da família Rego Castro é dirimida pelos lapsos da história, que geram a impressão de &#8220;páginas perdidas&#8221; comentada pelo Dr. Plausível na <a href="http://copadeliteratura.com/2009/jogo13/">resenha</a> que pôs <em>Galiléia</em> nesta decisão. Apesar dos acertos ocasionais, o livro de Ronaldo Correia de Brito não engrena. Como previsto por Antonio Marcos Pereira lá no primeiro voto desta final, a festa é de Carola Saavedra.</p>
<p><em>Galiléia</em> 4 x 9 <em>Flores azuis</em></p>
<h3 style="text-align: center;">Campeão</h3>
<p style="text-align: center;"><img title="Flores azuis" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/capas/floresazuis.jpg" alt="" width="120" height="180" /></p>
<h2 style="text-align: center;">Flores azuis</h2>
Note: There is a poll embedded within this post, please visit the site to participate in this post's poll.
<img src="http://copadeliteratura.com/wp-content/plugins/pixelstats/trackingpixel.php?post_id=1104&amp;ts=1268379123" style="display:none;" alt="pixelstats trackingpixel"/>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://copadeliteratura.com/2009/jogo15/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>27</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Jogo 14</title>
		<link>http://copadeliteratura.com/2009/jogo14/</link>
		<comments>http://copadeliteratura.com/2009/jogo14/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 27 Dec 2009 22:58:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Antonio Marcos Pereira</dc:creator>
				<category><![CDATA[2009]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://copadeliteratura.com/?p=1087</guid>
		<description><![CDATA[  
Camaradas, estamos diante de um páreo duro. É o jogo mais difícil que apitei na Copa: me coloca diante de um dilema temido por mim, o de me defrontar com a incompatibilidade entre o juízo de gosto e o juízo de sucesso. Como isso funciona? Um dos livros me agrada mais, se conecta melhor [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img title="Flores azuis" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/capas/floresazuis.jpg" alt="" width="120" height="180" /> <img title="Jogo 14" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/jogos/jogo14.png" alt="" width="396" height="181" /> <img title="A arte de produzir efeito sem causa" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/capas/efeitosemcausa.jpg" alt="" width="120" height="180" /></p>
<p>Camaradas, estamos diante de um páreo duro. É o jogo mais difícil que apitei na Copa: me coloca diante de um dilema temido por mim, o de me defrontar com a incompatibilidade entre o juízo de gosto e o juízo de sucesso. Como isso funciona? Um dos livros me agrada mais, se conecta melhor a uma perspectiva algo modernista que defendo, que valoriza ruptura e risco em literatura — mas creio que não funciona, acho que é um naufrágio. O outro me agrada menos, principalmente por parecer antes conservar e controlar que arriscar o que quer que seja, é corretíssimo a ponto de poder ser considerado escolar — mas a máquina inventada por quem o escreveu funciona, é um sucesso. Os dois estão, todavia, unidos por alguns elementos: o uso de cartas para mobilizar a narrativa, e cartas misteriosas, com remetentes ocultos e propósitos imprecisos, está nos dois, e isso é um acaso feliz, permite a quem compara um certo espaço de manobra. Uma questão de fundo, ligada à incomunicabilidade e a certa impossibilidade de dizer a respeito de algumas experiências-limite ligadas ao afeto, também aparece nos dois livros. Há alusões frequentes à afasia, a problemas de enunciação e seus adjacentes problemas de compreensão: o mundo, com seu remetente oculto, continua a enviar missivas indecifráveis, enigmáticas e desafiadoras a esses dois personagens que fazem a trama de cada livro. E nisso também são semelhantes: são livros de um personagem, retratados em um momento particular de suas vidas, diante de um problema específico, que em ambos os casos está ligado às cartas que recebem. Vamos ao certame!</p>
<p>***</p>
<p>Júnior, foco de <em>A arte de produzir efeito sem causa</em>, tem 43 anos, é casado, pai de um filho adolescente, tem um emprego subalterno e vive numa condição geral de pobre ou, na melhor das hipóteses, esmigalhado nessa zona imprecisa que chama-se de “baixa classe média”. Horror dos horrores no esquema de um <em>ethos</em> masculino tradicional, Júnior é um <em>corno</em> — e, na verdade, um personagem como ele merece maiúsculas, pois trata-se de um Grande Corno, de um sujeito que foi depositado nessa condição de maneira particularmente aviltante e que mostra ter dificuldades para lidar com a questão trágica de fundo: como manter, ou reconstruir, sua identidade como pai, marido e homem diante dessa situação? Observe-se que, apesar de ser matéria constante em nossa tradição narrativa oral (quem nunca ouviu falar de um corneante, ou de um corneado, levante a mão) e de contar com a presença de um autor ilustre como Euclydes da Cunha em suas fileiras, a condição do homem traído pela mulher, o problema da traição afetiva, da corrupção do contrato de fidelidade, ainda aguarda um tratamento ficcional que reposicione devidamente o problema após <em>Dom Casmurro</em>. Afinal, mais de cem anos depois, e levando em consideração tudo que se transformou em matéria de negociações no campo das relações afetivas, algo de novo há de aparecer por essa via — ou não? Mas não é só: o livro de Mutarelli também é um livro paralelo a outro, e essa intertextualidade é dinamizadora da narrativa. Para Júnior, importa decifrar o enigma dos pacotes que recebe, e os pacotes estão ligados — algo óbvio para o leitor informado desde a primeira menção ao assunto — ao <em>Almoço Nu</em>, de Burroughs, e à trama, retirada da biografia do autor <em>beat</em>, que se relaciona ao assassinato de sua mulher, Joan Burroughs, em um suposto acidente (intertextualidade à qual já se dedicou, diga-se de passagem com sucesso, o Joca Terron, em seu <em>Não há nada lá</em> — livro que inclusive no título e no uso de artifícios gráficos valeria a comparação com o do Mutarelli, mas isso são outros quinhentos, essa seria uma outra resenha). Por fim, o autor parece fazer questão de demarcar para si uma condição híbrida — de operar, de alguma maneira, na fronteira entre os quadrinhos que o notabilizaram inicialmente e essa atual condição de autor “literário”. Com isso, produziu um objeto impressionante, um livro cheio de marcadores visuais, rabiscos, diagramas, incisões manuscritas no texto — é um primor de apuro editorial e, aparentemente, de controle autoral: dá a impressão de ter sido feito exatamente como o autor quis que ele fosse apresentado e acabado e isso, creio, há de ser bom.</p>
<p>Ora, partindo do pressuposto de que tudo nesse livro foi disposto de caso pensado, que o autor não é ingênuo, e que apesar de seu título este livro almeja produzir algum efeito em seus leitores, vamos observar alguns trechos:</p>
<blockquote><p>Júnior procura ocultar junto às nódoas do sofá as marcas que suas lágrimas deixam. Infelizmente as lágrimas não mancham o tecido. Não têm cheiro.</p></blockquote>
<p>ou</p>
<blockquote><p>Bruna clica duas vezes no ícone do Explorer, vai do Terra ao Google, digita  “William + Tell”, escolhe a <em>Wikipédia</em> e descobre que foi mesmo uma lenda. E as lendas não deixam herdeiros.</p></blockquote>
<p>ou</p>
<blockquote><p>Sudorese e falta de ar. Deita e é acolhido pela boa mãe. Mamãe depressão.</p></blockquote>
<p>ou</p>
<blockquote><p>Bastaria talvez perceber isso.<br />
Somos uma piada grotesca.<br />
Um  equívoco.</p></blockquote>
<p>ou</p>
<blockquote><p>A arte não é para ser entendida, é para ser sentida. […] Isso não faz sentido, mas saiba que até alguns assassinos em série dizem que as pessoas não conseguem vencer as barreiras morais e por isso não compreendem que o que eles fazem é arte.</p></blockquote>
<p>ou</p>
<blockquote><p>Existem várias formas de afasia. Afasia é a surdez e a cegueira às palavras.</p></blockquote>
<p>Nos trechos citados encontramos todos os elementos que particularizam a voz do autor nesse livro: há uma negociação com o piegas e o brega (lágrimas incolores e inodoras! “Mamãe depressão” acolhendo seu filho!), um esforço didático (descrever o procedimento de busca na internet passo a passo! Discriminar a estratégia correta para apreciação e definição da arte! Esforço “metafórico-sinestésico” para explicar o que é afasia!), uma busca pela formulação lapidar, pela frase memorável (“As lendas não deixam herdeiros”? Como assim? Somos “uma piada grotesca, um equívoco”? Nós <em>quem</em>?). Imagine-se o leitor diante de duzentas  páginas disso: a cada momento em que a narrativa parece ajustar-se a um fluxo movido pelo diálogo, pela interação, ou pelo advento de alguma transformação nos laços entre os personagens, aparece, com firmeza, essa interferência asfixiante do autor, querendo dizer tudo, querendo explicar e produzir sentido a cada passo da narrativa e, ao mesmo tempo, evitando qualquer compromisso com o plano mais amplo de problemas que articula a própria narrativa. O aglomerado desses elementos tornou essa leitura um sofrimento, uma perene negociação com o insuportável, e mais uma dessas situações em que o imperativo moral de chegar até o final foi mais forte que o efetivo desejo de fazê-lo. Os enigmas lançados pelo livro são muitos: Quem envia esses pacotes para o Júnior, e com que propósito? O que ele fará para sair de sua condição? O que o aflige é, efetivamente, uma doença, um problema fisiológico diagnosticável com precisão, como o final do livro parece sugerir — e, com isso, busca-se o perdão de todos os pecados, já que com relação à própria fisiologia ninguém é culpado? Todavia, ao chegar ao final da leitura, o problema não é que esses enigmas permaneçam sem solução — não tenho problema algum com a manutenção da questão, ou do problema, colocado por um trabalho literário —, mas sim que eles pareçam gratuitos, lançados a esmo e, em última instância, <em>despropositados</em>.</p>
<p>Nesse sentido, quando o leitor tenta resolver os problemas que o livro propõe — trabalho sem dúvida seu, e não do autor — e pensa no que fazer com as conexões entre Burroughs, exus asiáticos, a tragédia do corno no Brasil contemporâneo, a vidinha mais ou menos dos semi-fudidos e quase-excluídos em São Paulo e a simultânea falência moral e cognitiva de um membro dessa suposta classe, o resultado é frustrante, possivelmente porque não há mesmo nada, nenhuma articulação subjacente a dar sentido e justificativa para o que foi colocado pelo autor. Estamos, assim, diante de uma máquina-nada, de uma narrativa que não se coloca sequer o problema de resolver a si mesma nos termos em que se construiu. Se quisesse valorizar muito o livro, diria que ele é vitorioso, pois sua vaziez é alegoria da própria ficção — da própria arte de produzir efeitos, eventualmente grandiosos, a partir de muito pouco (lápis e papel, ou equivalentes, e imponderáveis muito relativos como “desejo”  e “trabalho”). Mas nunca diria que a coisa é “sem causa”: há causas, muitas, e talvez seja justamente pela impossibilidade de seu autor em elaborá-las de alguma maneira que sua narrativa é derrotada.</p>
<p>Tendo explicitado minha crença de que o livro não funciona — e discordando, assim, de meus colegas antecessores aqui na Copa, <a href="http://www.copadeliteratura.com/2009/jogo7">Luís Francisco Carvalho Filho</a> e <a href="http://www.copadeliteratura.com/2009/jogo12">Luís Augusto Fischer</a> —, cito agora um trecho do blog que Mutarelli produziu por ocasião de seu envolvimento com o projeto Amores Expressos — como é de conhecimento comum, ele passou um tempo em NY e foi lá que concluiu este <em>A arte&#8230;.</em> No dia em que terminou o livro, <a href="http://blogdolourencomutarelli.blogspot.com/2007/09/10-de-setemb-dois-dias-antes-de.html">escreveu</a>:</p>
<blockquote><p>O ponto onde quero chegar é que anunciei que havia parado de fazer Histórias em Quadrinhos. O trabalho é imenso e não compensa. Já não estava com o mesmo fôlego e tenho certas mágoas em relação a isso. Decidi, então, que iria também parar de desenhar.</p></blockquote>
<p>Esse trecho me pareceu útil e esclarecedor, por reafirmar um elemento característico da manifestação pública de Mutarelli, seu apreço por falar de si, por aludir a uma esfera de foro íntimo em público (“tenho certas mágoas com relação a isso”) e por nos dar razões para lamentar — pois creio que o único momento realmente intenso dessa narrativa é justamente quando o texto cede totalmente lugar à ilustração e, já nos momentos finais, um desenho absolutamente indecifrável, enigmático e magnífico aparece. Há máscaras de buda e de animais, cornetas tibetanas ou equivalentes, mantos drapeados cobrindo corpos invisíveis das nove  entidades insólitas dispostas na página — o efeito é arrepiante, e é uma pena que justo esse lugar, onde o autor parece funcionar melhor, seja o lugar que ele não deseja mais habitar.</p>
<p>***</p>
<p>É, claro, mais fácil a tarefa agora — vou confirmar juízos a respeito de <em>Flores azuis</em> que já apareceram aqui, nas resenhas de <a href="http://www.copadeliteratura.com/2009/jogo5">Tiago A</a> e <a href="http://www.copadeliteratura.com/2009/jogo11">Leandro Oliveira</a>: eles já elaboraram à farta sobre as principais características do livro, citaram trechos relevantes, e não vou repetir esse trabalho. Mas vou sim resumir a opinião deles sobre o livro, <em>cum grano salis</em>, dizendo que <em>aqui há alguma coisa</em>. Pois, por mais que eu tenha me aproximado do livro com má vontade (ao contrário do livro do Mutarelli, que contava de antemão com minha simpatia), por mais que tenha, ao iniciar a leitura, me irritado com o mimimi daquelas cartas e por mais que Marcos, “protagonista”  de <em>Flores azuis</em> (entre aspas, sim, pois parte do engenho do livro está em colocar isto em dúvida, e equilibrar bem a dificuldade de responder à ambivalência entre os dois eixos do livro, representados por Marcos e por “A”) pareça ser um mosca morta — ora, se diante desse tanto de obstáculos o livro ainda leva a melhor nesse jogo é  porque, afinal, há algo aqui.</p>
<p>E o que é mesmo que há?  Não poderia dizer que o livro me transformou, que mexeu com minha visão de mundo, que “reformatou meu cérebro” (Dá-lhe, Muta!) — nada disso, <em>longe disso</em>. Mas, mais uma vez, sou lembrado daquele grande modelo de exercício da crítica que é Anton Ego, o feroz crítico gastronômico de <em>Ratatouille</em>, que já evoquei em <a href="http://www.copadeliteratura.com/2008/jogo-17">minha resenha</a> ao livro do Cuenca na Copa de 2008. Há um momento do filme em que, diante da atitude inquisitiva e expectante do garçom ao lhe perguntar o que deseja, Ego responde que deseja “uma perspectiva”, uma que seja “fresca” mas também “bem marinada”.  Uma <em>perspectiva</em> é o que encontramos em <em>Flores azuis</em>. A manobra da autora é, na execução final, aparentemente de pouco risco, mas isso não quer dizer que a coisa foi menos laboriosa — afinal de contas, é um livro que inclui uma cena de <em>fistfucking</em>, e nem em Nelson Rodrigues eu vi isso antes! Acredito que o conteúdo aparentemente trivial do livro — um cara de classe média, meio <em>kidult</em>, tem de lidar com uma paternidade que não quis exatamente, com uma separação que lhe pegou de surpresa, com a repetição fatal de suas escolhas afetivas e, por causa de uma contingência qualquer, tropeça nas tais cartas, que lhe magnetizam, que servem de depósito para suas próprias fantasias, que a certa altura parecem se dirigir precisamente a ele, e não a esse fortuito outro destinatário das cartas — é parte do que o torna interessante, pois aqui há potência de reconhecer uma alegoria do fazer literário, da relação entre o Autor e seus Leitores (enigmas uns pros outros, inevitáveis uns pros outros), do problema de impor um “teste de realidade” ao material literário (como o que ocorre quando o Marcos decide buscar o suposto destinatário original, fonte primeira do problema e principal responsável por sua possível resolução em factualidade).</p>
<p>Nenhuma excepcionalidade ou marginalidade é necessária para fazer com que reapareça esse negócio: há um que escreve, há outro que lê — e agora? Esse livro, talvez, pretenda tratar disso também — e, sendo o caso, o faz bem, pois os problemas perduram, mas o leitor tem certeza de que nem a autora, nem os personagens são indiferentes à sua resolução, ou estão tão ensimesmados a ponto de serem incapazes de ouvir a voz de qualquer outro, de qualquer alteridade. Há controle e mesmo uma certa frieza no livro — mas há também quem se importe, e isso faz diferença, isso eu aplaudo e louvo. <em>Flores azuis</em> na final da Copa.</p>
<h3 style="text-align: center;">Vencedor</h3>
<p style="text-align: center;"><img title="Flores azuis" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/capas/floresazuis.jpg" alt="" width="120" height="180" /></p>
<h2 style="text-align: center;">Flores azuis</h2>
Note: There is a poll embedded within this post, please visit the site to participate in this post's poll.
<img src="http://copadeliteratura.com/wp-content/plugins/pixelstats/trackingpixel.php?post_id=1087&amp;ts=1268379124" style="display:none;" alt="pixelstats trackingpixel"/>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://copadeliteratura.com/2009/jogo14/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>33</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Jogo 13</title>
		<link>http://copadeliteratura.com/2009/jogo13/</link>
		<comments>http://copadeliteratura.com/2009/jogo13/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 20 Dec 2009 23:36:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Doutor Plausível</dc:creator>
				<category><![CDATA[2009]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://copadeliteratura.com/?p=985</guid>
		<description><![CDATA[  
Competem nesta semifinal um faroeste e um farnordeste. Confesso q fiquei surpreso. Depois de ler seis dos oito livros desta chave, esperava apitar Cordilheira contra O verão do Chibo. Ambos me impressionaram, e eu teria gostado da dúvida enquanto os destrinchasse.
No futebol e na literatura, ganha quem marca gols (qdo não pela moedinha&#8230;) [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img title="Areia nos dentes" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/capas/areianosdentes.jpg" alt="" width="120" height="180" /> <img title="Jogo 13" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/jogos/jogo13.png" alt="" width="396" height="181" /> <img title="Galiléia" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/capas/galileia.jpg" alt="" width="120" height="180" /></p>
<p>Competem nesta semifinal um faroeste e um farnordeste. Confesso q fiquei surpreso. Depois de ler seis dos oito livros desta chave, esperava apitar <i>Cordilheira</i> contra <i>O verão do Chibo</i>. Ambos me impressionaram, e eu teria gostado da dúvida enquanto os destrinchasse.</p>
<p>No futebol e na literatura, ganha quem marca gols (qdo não pela moedinha&#8230;) mas, no caso dos livros, cada leitor tem suas traves num lugar diferente do gramado. (Aliás, o futebol <i>per se</i> seria bem mais divertido se tbm fosse assim.) Em certos jogos, no entanto, qdo um dos times é claramente superior ao outro, mudar a posição das traves não modificaria o desfecho. Claro, uma vitória fácil tbm não traz glória. No caso aqui, embora haja entre <i>Galiléia</i> e <i>Areia nos dentes</i> um claro vencedor, alguns de seus gols são incompreensíveis — daquelas badernas na pequena área qdo a bola rola até a rede ninguém sabe como.</p>
<p><i>Areia nos dentes</i> entremeia um faroeste com zumbis e os problemas pessoais e técnicos do autor desse faroeste. É um livro gostoso de ler, assim como é gostoso ficar em casa numa quarta-feira depois do almoço e assistir à sessão da tarde. Aliás, não duvido q Antônio Xerxenesky tenha feito exatamente isso mais do q a média, tal é sua habilidade em construir, nas partes do faroeste, um estilo q parodia as dublagens empostadas traduzidas do inglês, comuns na tv. Numa única página encontramos: &#8220;O melhor, que diabos, era não pensar sobre a missão. Apenas executá-la. Quão difícil seria penetrar no escuro (&#8230;)?&#8221; (p.13). Aplicado a um faroeste, fica bem engraçado.</p>
<p>O livro tbm é gostoso pq o autor percebeu q, pra narrar um faroeste de uma rixa entre duas famílias — com delegados forasteiros, brigas de pôquer e madames de saloon, terminando numa chacina de zumbis comendo carne humana —, vc não pode se levar a sério; não pode escrever uma prosa tradicional de cabo a rabo — a menos q queira q tua obra vire um daqueles bolsilivros da coleção Oeste Vermelho da editora Monterrey, na boníssima companhia de Brigitte Montfort, a linda espiã milionária gostosa e poliglota. Assim, até pouco mais da metade do livro, Xerxenesky escreveu em vários formatos (relato, diário, script, fluxo de consciência, &#038;c), escolhendo o formato segundo a cena. Já mais pro fim, o formato se estabiliza na prosa tradicional — pois leitor nenhum é de ferro: quer saber o final da história mais do q quer se divertir com brincadeiras de escritor.</p>
<p>Mas…</p>
<p>Dentre essas brincadeiras está a de &#8220;romper os limites da própria literatura&#8221; (segundo a contra-capa). O faroeste dentro de <i>Areia nos dentes</i> é a história criada por um personagem cuja história é criada por um autor cujos personagens o mencionam como autor de um outro livro que é na verdade o próprio faroeste que o personagem está escrevendo. Não sei como isso rompe os limites da literatura; pra mim, o autor da contra-capa está meio desinformado. De qqer modo, são brincadeiras divertidas — de um jeito meio adolescente-descobrindo-espelhos-móveis, mas divertidas assim mesmo.</p>
<p>A melhor brincadeira é a metáfora entre as dualidades pai/filho e autor/personagem na cena em q o pai-autor não consegue fazer o filho-personagem matar o pai-personagem pq não consegue se desresponsabilizar por seu próprio filho (do pai-autor) ter realmente conseguido matá-lo no sentido freudiano de &#8220;matar o pai&#8221; (q todo homem precisa fazer pra se tornar adulto). Por aí se vê q cabem ainda muitas balas no cinturão do jovem Xerxenesky — se disparadas, balas cujas profundezas e complexidades, ainda q não rompam &#8220;limites&#8221; literários, talvez atinjam lugares até bem longe do faroeste e das travessuras com letras e fontes.</p>
<p>Então, sorte nossa q <i>Areia nos dentes</i> não tenha virado bolsilivro: não teria feito o menor sucesso junto àquele público. Mas qdo se vê o rosto pós-imberbe de Xerxenesky na orelha da contra-capa, não há como deixar de pensar q ele foi precipitado ao publicar esse livro, e talvez devesse ter esperado uns 25 anos (e um ou dois filhos difíceis) pra escrever <i>Areia nos dentes</i> <i>comme il faut</i>.</p>
<p>A esta altura do campeonato, é um grande problema um livro ser comparado à sessão da tarde. E realmente (acho q até o literato Xerxenesky concordará), não há como <i>Areia nos dentes</i> chegar à final se seu adversário é esse livro de Ronaldo Correia de Brito, traves deslocadas ou não.</p>
<p>Perto do começo de <i>Galiléia</i>, Adonias fala dos &#8220;livros da biblioteca do avô Caetano, todos parcialmente comidos pelas traças e cupins. Difícil encontrar algum que não tivesse buracos no miolo das folhas, em que não faltassem páginas inteiras, obrigando-me a imaginar o que não conseguia ler&#8221; (p.37). Foi um livro esburacado como esses q RCB tratou de criar: é como se <i>Galiléia</i> tivesse páginas omitidas pelo autor qdo este decidiu seguir a máxima de Bartleby, &#8220;Acho melhor não.&#8221; (p.37), e me obriga agora, como resenhista, a imaginar aquilo q estaria nas páginas expurgadas de <i>Galiléia</i>.</p>
<p>Uma das chaves pra entender muita coisa nesse livro está na orelha da capa: a foto do autor. Sua fisionomia tipicamente cearense é tbm fortemente marcada por ancestrais sefarditas ibéricos. Menciono isso pq me parece necessário q se mencione. Ninguém deixaria de notar a relação entre o livro e a fisionomia do autor se o livro tivesse dezenas de elementos, digamos, filipinos, e o autor fosse claramente um filipino; mas tanto o semblante sefardita qto o tema central de <i>Galiléia</i> passam despercebidos por muitos, como se o Brasil e seus fenômenos tivessem caído prontos do céu, sem longínquos nós, vozes e elos. Pensa-se no Brasil como um caldeirão de etnias e culturas, qdo na verdade está mais prum caleidoscópio. Contra a luz, os elementos de uma ou outra cultura parecem sincretizados; mas vc vira o caleidoscópio um pouquinho e elas se separam em entidades discretas. Qdo Ronaldo Correia fala dos Rego Castro, de Raimundo Caetano, está falando de si mesmo, do lugar de onde veio, dos sefarditas ibéricos q vieram ao Brasil com a colonização holandesa no nordeste, das feridas incuradas e dores ancestrais com q nascem há séculos os descendentes dos cristãos-novos e criptojudeus.</p>
<p><i>Galiléia</i> é uma re-encenação pós-freudiana de cenas do antigo testamento no Ceará. Já não seria banal dizer q os sefarditas q aportaram no Brasil re-encenam infindavelmente os traumas de sexo e sangue das Escrituras, fascinados pela defesa dos mínimos detalhes da honra — como bons nordestinos. Mas <i>Galiléia</i> não pára aí: as dualidades às vezes dolorosamente insintetizáveis q o narrador traz em si mostram q quem carrega os fardos de um povo é o indivíduo. Adonias age como um paciente psicanalítico durante a fase &#8220;inconveniente&#8221; — qdo começa a questionar ostensivamente os familiares e amigos. Como o típico fuinha chato procurando sarna pra se coçar, cutucando os outros pra cutucar a si, sua cabeça é um caos de identidades e pulsões embaralhadas, uma dentro da outra, cada uma exigindo primazia: seu orgulho dos ancestrais sefarditas e a mestiçagem com os indígenas; seu homossexualismo latente e os supostos esqueletos nos armários da família; a atração e repulsa pelos povos nativos; o conforto custoso da cidade e a fúria fácil do sertão; a vontade de saber e de esquecer o q sabe ou pensa q sabe. Adonias é um palco de pulsões e repulsas. Ao se distanciar de seu cotidiano normal, ele narra: &#8220;Desejo voltar, acelero o carro, recuo na poltrona&#8221; (p.8). Não há repouso; nunca. Não há terra santa.</p>
<p>Haverá quem não veja a condição de cristãos-novos dos Rego Castro como <i>leitmotiv</i> em <i>Galiléia</i>. Mas um olhar mais detalhista revela o rio q acompanha a estrada, como o Jaguaribe. Na verdade, é sempre o inverso: a estrada é q acompanha o rio. Dezenas de fios aparentemente soltos amarram bem essa interpretação. • O avô Raimundo Caetano é um cristão-novo atávico. Seu passado sefardita subjaz a toda manifestação pública de cristianismo. Ele se sente &#8220;humilhado&#8221; (p.29) pelo padre q o batizou pois este se recusou a seguir uma tradição nordestina de usar nomes do Antigo Testamento e dar-lhe o nome judeu Abraão. • O tio Salomão, ao opinar q o judaísmo é &#8220;uma forma de ver o mundo&#8230; muito mais do que o culto a uma religião&#8221; (p.25), mostra como entender a escolha de palavras qdo Adonias narra q o avô &#8220;<b>praticou</b> um catolicismo pagão&#8221; (p.23) e &#8220;<b>se declarava</b> um católico apostólico romano&#8221; (p.29). • Da &#8220;História Sagrada, composta de textos seletos do Antigo e do Novo Testamento&#8221; (p.28), Raimundo lê apenas o Levítico e o Livro de Jó; a decadência do nordeste e a do próprio Raimundo é a decadência q Deus impingiu a Jó; mas contrariamente a este — q se viu redimido por sua fé inabalável —, Raimundo perdeu a sua. • Davi, Ismael e Adonias – q vê a trindade cristã como um &#8220;absurdo&#8221; (p.205) —, são três errantes pelo mundo q agora voltam à fazenda Galiléia pra assistir aos últimos estertores do patriarca, mas apenas Ismael — mestiço com índios locais — deseja permanecer. • As reuniões da família à volta do patriarca moribundo (p.204) reproduzem os semi-círculos hierárquicos nas antigas sinagogas do Recife: ao centro, os patriarcas; depois, os homens em geral; coladas às paredes, as mulheres; lá fora, os negros; ao longe, os índios. • No clímax, qdo nenhum conflito termina e nenhuma resolução o consola, Adonias vasculha um baú velho e descobre uma evidência clara de q sua avó está mais pra jucá do q pra judia, apesar de seu sobrenome Fonseca figurar numa listagem de nomes judaicos (p.24). Se a avó não é judia, então tbm ele — ligado à avó pela mãe — certamente não é, pois o sangue judeu se transmite via materna (p.28). A ascendência jucá se materializa nos pés descalços da avó numa foto antiga. &#8220;Os pés machucam meu coração, não suporto a dor&#8221; (p.215). A dor é a de confirmar q vive uma farsa acalentada subliminarmente pela família, de já não ter sequer uma identidade problemática. • Num parágrafo perto do final, Adonias, em Fortaleza, a caminho de volta, tira um sarrinho desconsolado do nordeste futuro, seu futuro, simbolizado nos nomes q o nordestino dá a seus filhos hoje: Maycon, Érick, Claysson. A primeira palavra desse parágrafo (p.234) é o nome Christian…</p>
<p>Perdido em Fortaleza, sem o telefone celular com q tenuamente amarra sua masculinidade à esposa em Recife, Adonias entrega-se a uma farra de rua multissexual e multirracial. &#8220;As pessoas aqui são bonitas, vejo formosura em rostos, cabelos crespos e lisos, pele clara e escura. Nunca mais fecharei meu peito, nem deixarei q a ansiedade me cegue.&#8221; (p.235) Acho q vislumbra um alívio lúdico a meio caminho entre o masculino e o feminino, entre o judeu e o cristão, entre o europeu e o indígena, entre o ir e o voltar. Mas logo lembra q, sem o celular pra contactar seu carona, não sabe como chegará ao aeroporto, e se desespera novamente — novamente se vê completamente perdido. (¡Pega um táxi, Adonias!) (Mas ele não quer pegar um táxi, não quer resolver seus problemas; quer é continuar fuxicando a si e aos outros, viciado na própria terapia.)</p>
<p>De fato, prum judeu errante, ¿o q é &#8220;voltar&#8221;? ¿Será mesmo q é re-encenar infindavelmente aqueles traumas de sexo e sangue das Escrituras e implacavelmente &#8220;repetir o q os antepassados fizeram&#8221; (p.159) em fazendas sertanejas reminiscentes da geografia bíblica? Após &#8220;matar&#8221; Ismael com uma pedrada, Adonias se analisa: &#8220;Depois de viver em outras sociedades, de reconhecer o esforço que elas fizeram <i>para se diferenciar do que nós somos</i>, voltamos à barbárie e praticamos os mesmos atos de sempre&#8221; (p.143).</p>
<p>(Mudando de tom: por mim, como pessoa e como resenhista, já tou de saco cheio com essas repisadas na Bíblia, com toda essa herança cultural desértica, cruel e calhorda de povos semi-selvagens de 2500 anos atrás, depois regurgitada nas calhordices de cristãos e muçulmanos. Ô assunto cansativo. A tradição — especialmente a de usar a própria tradição pra explicar o presente — é a pior prisão da cultura, a prisão q cada grupo humano risivelmente acha <i>necessária</i> pra dar significado à vida. Mas fuxicar infindavelmente todo micro-detalhe do presente como se não passasse de mera manifestação do passado é uma forma de escapismo sublimado, uma preguiça cultural, uma clichecização servil. Não serve mais. Até mesmo o judeu errante hoje não passa de um clichê temático pra gerar questionamentos anacrônicos. Caí numa armadilha, e me envergonho.)</p>
<p>¿Que contêm, então, as páginas expurgadas pelo autor? Melhor dizendo, ¿qual intenção do autor se realiza ao chamar a atenção pro fato de haver páginas expurgadas q ele &#8220;achou melhor não&#8221; publicar? ¿Que é impublicável numa catarse em público? Não pode ser nada muito sério; se fosse, o autor não deixaria tantos indícios. Posso estar absurdamente enganado, claro, mas minha teoria é q RCB não quis publicar seu profundo ressentimento pela decisão de seus antepassados de permanecer no sertão. Admitir isso teria explicitado não só esse ressentimento mas tbm uma aversão pouco elogiável em relação a sua terra natal. O livro todo se baseia numa dissonância entre o orgulho de ser judeu em meio a jucás e a vexação de ser sertanejo em meio a Europas e Nova Iorques. Pode ser uma pena q o politicamente correto esburaqueie uma catarse inteligente, mas é uma pena ainda maior q o Brasil tenha dissonâncias tão profundas, q escamoteá-las possa parecer a opção mais sábia.</p>
<p>De resto, vejo em <i>Galiléia</i> problemas — alguns deles sérios — de coerência narrativa, de unidade conceitual, de estilo (um médico escritor é presa fácil da norma &#8220;culta&#8221;; as melhores partes do livro são qdo os ritmos nordestinos teimam em aflorar apesar dos impulsos assépticos do autor). Estivesse <i>Galiléia</i> jogando contra <i>Cordilheira</i> ou <i>O verão do Chibo</i>, eu teria vacilado um pouco, mas não lhe daria a vitória. Seus gols são muito confusos, alguns de impedimento. Além dos problemas, não é uma obra de criação; é antes a romantização de uma genealogia real, ou a simbolização (ie, a fuga) de uma experiência pessoal — coisas q, em arte, não valorizo acima da criação. No entanto, contra <i>Areia nos dentes</i>, <i>Galiléia</i> leva a vitória pelo descomunal cérebro de seu autor, por ele perceber em si e em seu tema as miríades de ângulos e direções possíveis na formação de um personagem.</p>
<p>Notem, por favor, q minha resenha aqui focou aquilo q <i>imagino</i> estar nas páginas perdidas de <i>Galiléia</i>, nos &#8220;buracos no miolo das folhas &#8230; comidas pelas traças e cupins&#8221;. O livro tem uma dezena de outros aspectos comentáveis. Se a crítica profissional, comercial e acadêmica for esperta e realmente deseja um bom futuro prà literatura brasileira, não vai deixar <i>Galiléia</i> nas prateleiras perdendo ainda mais páginas aos cupins.</p>
<h3 style="text-align: center;">Vencedor</h3>
<p style="text-align: center;"><img title="Galiléia" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/capas/galileia.jpg" alt="" width="120" height="180" /></p>
<h2 style="text-align: center;">Galiléia</h2>
Note: There is a poll embedded within this post, please visit the site to participate in this post's poll.
<img src="http://copadeliteratura.com/wp-content/plugins/pixelstats/trackingpixel.php?post_id=985&amp;ts=1268379124" style="display:none;" alt="pixelstats trackingpixel"/>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://copadeliteratura.com/2009/jogo13/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>25</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Jogo 12</title>
		<link>http://copadeliteratura.com/2009/jogo12/</link>
		<comments>http://copadeliteratura.com/2009/jogo12/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 14 Dec 2009 00:24:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luís Augusto Fischer</dc:creator>
				<category><![CDATA[2009]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://copadeliteratura.com/?p=870</guid>
		<description><![CDATA[  
Duas novelas justinhas em seu formato, sem sobras ou faltas (não anotei qualquer passagem inutilmente obscura, qualquer lance meramente decorativo, nas duas obras), bem editadas, conduzidas com segurança pelos autores; as duas com linguagem adequada aos propósitos de cada relato e aos limites do ambiente social envolvido; nas duas, três figuras reiteradas — [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img title="A arte de produzir efeito sem causa" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/capas/efeitosemcausa.jpg" alt="" width="120" height="180" /> <img title="Jogo 12" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/jogos/jogo12.png" alt="" width="396" height="181" /> <img title="O conto do amor" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/capas/contodoamor.jpg" alt="" width="120" height="180" /></p>
<p>Duas novelas justinhas em seu formato, sem sobras ou faltas (não anotei qualquer passagem inutilmente obscura, qualquer lance meramente decorativo, nas duas obras), bem editadas, conduzidas com segurança pelos autores; as duas com linguagem adequada aos propósitos de cada relato e aos limites do ambiente social envolvido; nas duas, três figuras reiteradas — um homem adulto, seu pai e uma mulher —, o que implica algumas tensões de presença semelhante em ambas (a relação pai-filho, a relação entre o protagonista e uma mulher), ainda que com abismais diferenças de enredo. Duas novelas, enfim, que fariam bom papel em qualquer mercado, em qualquer língua. Como escolher entre elas?</p>
<p>Naturalmente se poderia partir para a averiguação das diferenças marcantes entre as duas. Contardo Calligaris, já por sua experiência pessoal, faz as ações ocorrerem num mundo glamuroso, que se poderia chamar de &#8220;jet-set&#8221; já que de fato os personagens dependem de jatos para se encontrar, entre Nova York e a Itália, com direito a paragens outras, tudo muito limpo e educado, em que os protagonistas não apenas pertencem às classes confortáveis (o protagonista é psicanalista) mas também são cultos, irônicos, sensíveis ao mundo da arte e informados da mais requintada tinta intelectual do Ocidente; seus conflitos radicarão na vida interna de cada um, na sempre difícil lida do indivíduo com as heranças e as conquistas pessoais (e com surpresas do destino, que não cabe mencionar para não roubar o encanto dos futuros leitores). Lourenço Mutarelli, também evocando sua experiência pessoal — os dois são sim representantes dessa onda austeriana que alguns têm chamado de &#8220;autoficção&#8221;, elaboração narrativa algo fantasiada mas tendo por base a empiria da vida dos autores —, dá protagonismo a um zé-ninguém, um sujeito de classe média baixa que deixa o emprego numa revenda de autopeças mas mantém na cabeça números e nomes do catálogo que havia decorado, para voltar a viver com seu pai, habitante de um lamentável apartamento, tudo muito acanhado, muito apertado, sem horizonte, sem grana, gerando um efeito de enclausuramento consistente com o andamento do enredo (o qual vai-se revelando pouco a pouco, quando vamos tendo notícia de que aquela saída da revenda tem a ver com o fim de seu casamento, em mais um momento que não cabe explicitar aqui, em nome do gozo dos candidatos a leitor).</p>
<p>Mas é claro que diferenças de enredo, de mundo social e de geografia não podem decidir a qualidade, que estará sempre em outra parte, não no enredo. Meu critério, então, foi o de superioridade artística, que poderia ser chamado de radicalidade artística: enquanto a sensível, inteligente e psicanaliticamente ousada narrativa de Contardo Calligaris poderia ser traduzida filmicamente quase sem nenhum problema, dada a sua natureza visual (há uma engenhosa trama envolvendo afrescos pintados em uma capela interiorana da Itália, que além de tudo oferece uma interessante eletricidade à leitura, na linha de uma narrativa de suspense) e sua linguagem relativamente transparente, a novela de Lourenço Mutarelli depende de uma linguagem em muitos sentidos poética, espessa de significação (o protagonista vai progressivamente perdendo a capacidade de linguagem, e essa perda é enunciada no plano narrativo de modo icônico, num jogo de grande habilidade e eficiência), que compõe a novela em nível talvez mais importante do que o próprio enredo, de forma que sua obra, para poder falar na língua do cinema, precisaria alterar-se muito, perdendo parte substantiva de sua natureza estritamente literária. Quer dizer: Mutarelli é mais literário do que Caligaris.</p>
<p>Não é pouco o resultado que Mutarelli obtém nessa que é uma obra de sua maturidade literária (para dar um exemplo apenas, esta novela é em muitos pontos superior a <em>O natimorto</em>, novela que era já bastante boa); creio mesmo que se trata de autor com força para permanecer no repertório de leituras válidas e representativas de nosso tempo. Calligaris, de sua parte, está estreando na ficção, e com um acerto que faz prever muita coisa boa. Mas enfim, aí está o voto: Mutarelli segue adiante, Calligaris fica para outra.</p>
<h3 style="text-align: center;">Vencedor</h3>
<p style="text-align: center;"><img title="A arte de produzir efeito sem causa" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/capas/efeitosemcausa.jpg" alt="" width="120" height="180" /></p>
<h2 style="text-align: center;">A arte de produzir efeito sem causa</h2>
Note: There is a poll embedded within this post, please visit the site to participate in this post's poll.
<img src="http://copadeliteratura.com/wp-content/plugins/pixelstats/trackingpixel.php?post_id=870&amp;ts=1268379124" style="display:none;" alt="pixelstats trackingpixel"/>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://copadeliteratura.com/2009/jogo12/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>26</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Jogo 11</title>
		<link>http://copadeliteratura.com/2009/jogo11/</link>
		<comments>http://copadeliteratura.com/2009/jogo11/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 07 Dec 2009 01:51:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leandro Oliveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[2009]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://copadeliteratura.com/?p=858</guid>
		<description><![CDATA[  
Antes do começo do jogo, o autor da resenha e o organizador da Copa gostariam de apresentar aos leitores as mais sinceras e cordiais saudações rubro-negras.
Julgamentos tendem a ser monótonos de tão previsíveis. Em meio a tudo aquilo que nos motiva durante uma leitura, tudo que faz com que nos voltemos para a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img title="Flores azuis" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/capas/floresazuis.jpg" alt="" width="120" height="180" /> <img title="Jogo 11" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/jogos/jogo11.png" alt="" width="396" height="181" /> <img title="O ponto da partida" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/capas/pontodepartida.jpg" alt="" width="120" height="180" /></p>
<p><em>Antes do começo do jogo, o autor da resenha e o organizador da Copa gostariam de apresentar aos leitores as mais sinceras e cordiais saudações rubro-negras.</em></p>
<p>Julgamentos tendem a ser monótonos de tão previsíveis. Em meio a tudo aquilo que nos motiva durante uma leitura, tudo que faz com que nos voltemos para a literatura, surge uma noção caduca de imparcialidade. Dessa noção vem o compromisso com certa coerência racional, com a higienização do nosso pensamento para que surja dali o mais esquemático quadro de virtudes que visa organizar aquilo que foi paixão ou ódio ou indiferença ou qualquer outra manifestação singular que ocorre durante uma leitura. Contrapondo tal método, gostaria de seguir outra direção e indicar aqui o resultado com base em critérios parciais de um ponto de vista pessoal sobre o texto literário. Aqui a analogia com o futebol que nos é trazida à atenção pelo título do concurso não faz o menor sentido porque ao contrário do que ocorre numa partida, cujo vencedor fica óbvio pela leitura do placar, na literatura erros e acertos envolvem um grau de subjetividade que invalida qualquer tentativa de descrição pragmática de suas características.</p>
<p>Tendo em vista tudo isso, é preciso revelar então qual seria a subjetividade que envolve a minha escolha: a capacidade de tirar o leitor de seu estado, movendo-o para outra direção, revigorando a literatura. A tradição literária parece ser costurada como uma delicada colcha de retalhos, onde alguns livros são como tecidos que não combinam, suas cores não tornam mais belo o conjunto. Outros apenas estendem o pano, repetindo linhas, cores ou a harmonia do que já agradava. Os raros são os que criam uma nova beleza, ensinando a ver novas formas e transformando todo o conjunto. A partir desses novos, virão outros similares, que ditarão a tendência do próximo conjunto de cores. São livros assim que me fazem sair de um estado inerte e, por isso, me agradam.</p>
<p><em>O ponto da partida</em>, de Fernando Molica, parece estar na classe de livros que se costuram à tradição literária apenas estendendo-a. O livro possui um enredo tradicional onde o narrador, a partir da vigília para uma cobertura jornalística de homicídio, começa a rememorar alguns eventos de seu casamento e sua carreira. A leve narrativa começa com algumas histórias bem humoradas de um quase lendário repórter, chamado João Carniça. Esse humor do início é interessante porque cativa o leitor, fazendo com que a leitura engrene, e pouco depois, quando o leitor é apresentado ao repórter Ricardo (o narrador da história), o ritmo faz com que a leitura avance fácil e contribui para a boa impressão deixada. Ótimo, se minha expectativa fosse apenas ler um bom livro. Mas <em>O ponto da partida</em> teve o efeito de uma notícia de jornal: depois de lido passa-se a outro, seu conteúdo esquecido.</p>
<p>Não se trata de dizer que é um livro ruim, pelo contrário; mas não atingiu minhas expectativas — que, novamente ressalto, são bem individuais. Algo bastante positivo que encontrei durante a leitura foi o modo como a visão dos dois protagonistas se modifica ao longo da história. Adélia, a ex-mulher do narrador, no começo é descrita de modo a causar imediata antipatia. No entanto, à medida que a narrativa avança, os tons vão mudando, e ao final, mesmo sendo uma criminosa, nutrimos certa simpatia por ela. No caso de Ricardo ocorre o inverso: no início nos afeiçoamos por seu estilo <em>bon vivant</em>, mas à medida que percebemos o quanto de irresponsável há nesse estilo sua imagem vai ficando cada vez mais arranhada. Essa problematização dos personagens, que nos leva a não saber bem como classificá-los, certamente é a maior qualidade do romance. Porém, apesar disso, mesmo com o interesse durante a leitura da narrativa, ao final não senti nenhum envolvimento com os personagens.</p>
<p><em>Flores azuis</em>, de Carola Saavedra, intercala cartas de uma mulher abandonada — que assina as cartas apenas com a inicial “A” — e a história de Marcos, um homem que não entende as mulheres ao seu redor — sua ex-mulher e sua filha. A qualidade da narrativa, principalmente as cartas que transtornam o personagem que as recebe aparentemente por engano, logo chama atenção do leitor, mas outra qualidade torna o livro o vencedor da partida. <em>Flores azuis</em> é um livro que se multiplica, contando pelo menos duas histórias — uma simples história de amor e uma análise sofisticada do jogo literário, tornando o próprio leitor parte da estrutura do romance. Tal trabalho narrativo é feito de um modo que demonstra uma escritora capaz de enxergar a tradição e ampliá-la, dando vigor a um gênero que parecia declinar.</p>
<p>Como já foi dito, o romance possui uma estrutura que intercala cartas e a própria narrativa, e é essa estrutura que permite uma aproximação entre Marcos e cada leitor da obra. Como o protagonista, nós também temos acesso ao conteúdo das cartas e as lemos com curiosidade, estabelecendo assim um jogo literário bem explorado por Saavedra — o que demonstra um exímio domínio técnico da narrativa. Lemos primeiro na sexta carta enviada (p. 92):</p>
<blockquote><p>Talvez você pense isso, que eu seria capaz de construir as mais variadas tramas, as mais complexas teorias, e até um leitor para estas cartas, não seria?</p></blockquote>
<p>E depois, na nona e última carta (p. 148):</p>
<blockquote><p>E não apenas as cartas e seu formato epistolar, mas também outra história, a do leitor dessas cartas. Já te falei disso? Dessa outra história, desse personagem que inventei, esse personagem com uma vida tão diferente da tua, alguém que recebe por engano esse texto destinado a você, abre as suas páginas por descuido ou por curiosidade, e, sem perceber, pouco a pouco, se encanta e se transforma.</p></blockquote>
<p>Os trechos acima sugerem uma multiplicação que torna o leitor das cartas todos os leitores que atravessam as páginas do romance. Essa sugestão indicaria que as cartas extraviadas estariam sendo remetidas não a um Marcos, personagem do romance, mas que o próprio personagem é um elemento compósito dessa alegoria construída por “A.”, a autora desconhecida que preenche os espaços do imaginário comum dos leitores.</p>
<p>É interessante observar nesse jogo literário como existe um trabalho consciente de resgatar elementos da narrativa epistolar e atualizá-los, revestindo-os de características que são ressaltadas na contemporaneidade. Um trabalho em que a escritora se arrisca ao apanhar a malha da tradição e tentar costurá-la com novos tecidos para nos revelar novas cores naquilo que nos acostumamos a ver sempre do mesmo modo. A própria “A.” admite na sétima carta que escreve dialogicamente, levando em conta uma infinidade de textos literários que compõem toda a literatura (p. 108):</p>
<blockquote><p>Sei que aí está a minha maior derrota, ainda que eu me esforce em te dizer algo original, te direi sempre as mesmas coisas, ainda que eu use dos mais variados artifícios e te diga que a cada vez elas mudam porque o tempo e você e o rio que passa, ainda que eu use dos mais variados artifícios e, sedutora, te diga que há algo que nunca foi dito e que te digo agora [...] ainda assim, te direi as mesmas coisas.</p></blockquote>
<p>Enfim, o que mais é preciso dizer? <em>Flores azuis</em> é melhor porque é provocativo. Em dado momento nos é imposta a necessidade de participar do jogo, de reorganizar nossas certezas, de formular hipóteses, de nos mover frente ao romance. Como era isso que procurava durante a leitura dos romances, <em>Flores azuis</em> é o vencedor.</p>
<h3 style="text-align: center;">Vencedor</h3>
<p style="text-align: center;"><img title="Flores azuis" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/capas/floresazuis.jpg" alt="" width="120" height="180" /></p>
<h2 style="text-align: center;">Flores azuis</h2>
Note: There is a poll embedded within this post, please visit the site to participate in this post's poll.
<img src="http://copadeliteratura.com/wp-content/plugins/pixelstats/trackingpixel.php?post_id=858&amp;ts=1268379124" style="display:none;" alt="pixelstats trackingpixel"/>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://copadeliteratura.com/2009/jogo11/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>19</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Jogo 10</title>
		<link>http://copadeliteratura.com/2009/jogo10/</link>
		<comments>http://copadeliteratura.com/2009/jogo10/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 30 Nov 2009 01:56:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Simone Campos</dc:creator>
				<category><![CDATA[2009]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://copadeliteratura.com/?p=854</guid>
		<description><![CDATA[  
O que me chamou a atenção de chofre foi o tanto que O verão do Chibo e Galiléia têm em comum: são ambos livros rurais, usam narradores não-confiáveis, fragmentam a narrativa e&#8230; são do selo Alfaguara. Apesar disso, não podiam ser mais diferentes.
Tem muita coisa certa com O verão do Chibo, muita coisa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img title="O verão do Chibo" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/capas/veraodochibo.jpg" alt="" width="120" height="180" /> <img title="Jogo 10" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/jogos/jogo10.png" alt="" width="396" height="181" /> <img title="Galiléia" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/capas/galileia.jpg" alt="" width="120" height="180" /></p>
<p>O que me chamou a atenção de chofre foi o tanto que <em>O verão do Chibo</em> e <em>Galiléia</em> têm em comum: são ambos livros rurais, usam narradores não-confiáveis, fragmentam a narrativa e&#8230; são do selo Alfaguara. Apesar disso, não podiam ser mais diferentes.</p>
<p>Tem muita coisa certa com <em>O verão do Chibo</em>, muita coisa mesmo — como não ser mais um romance de jovem autor em área urbana com narrador <em>blasé</em> —, mas falta brilho.</p>
<p>Seu narrador tem o vocabulário e as referências literárias de um paulistano de vinte e tantos anos, mas brande acessórios de infância idílica rural — figurinhas, amigos imaginários e insetos amestrados. Entendi. O narrador não é uma criança literal. Na literatura, quase nenhuma é. Penso em <em>Senhor das moscas</em> (William Golding), em João Carlos Marinho e sua Turma do Gordo e em <em>Ranxerox</em> (HQ de Liberatore). Penso também em <em>Escola para bobos</em> (Sokolov). E pensando neles concluo que, em <em>O verão do Chibo,</em> o encaixe ficou forçado.</p>
<p><em>O verão de Chibo</em> foi escrito por dois autores, Emilio Fraia e Vanessa Barbara. Para mim, a costura do texto é aparente. Vejo duas personalidades distintas escrevendo, personalidades essas que talvez nem correspondam a cada autor. Isso não me incomoda, exceto por ter gostado muito mais de uma delas. Parece que uma está tecendo um sentido que a outra destece meio atabalhoadamente.</p>
<p>Gosto de audácia, mas falta recompensar o leitor para seguir aturando a experiência. Faltam pepitas pelo caminho. O livro é chato&#8230; No penúltimo capítulo melhora um pouco. No começo, longas descrições de brincadeiras, com contradições e invenções enxertadas pelo narrador para tentar tornar aquilo mais interessante (ele sabe que está sendo ouvido e julgado). Um milharal, ingrediente de filme de terror, com uma área proibida. Não dá medo, nem entretém: não transcende a página.</p>
<p>Os ingredientes estão todos no lugar. Eu os vejo em seu lugar. Mas escrever um bom livro talvez não seja receita de bolo. Ou talvez seja exatamente que nem bolo: fica ruim sem o ingrediente secreto.</p>
<p>Sobre este ingrediente secreto, suspeito que ele nem possa ser captado por termos como “ter o que dizer” ou “experiência de vida”. O ingrediente secreto está nas entrelinhas; é ele que faz um livro ser melhor ou mais querido que o outro. Há muitos livros <em>importantes</em> sem o ingrediente secreto, mas esses livros não são queridos nem necessariamente bons.</p>
<p>Não quero com isso dar na cabeça do cozinheiro e cozinheira, só dizer que, como nerd, encafifei: então não basta cumprir tudo o que o livro de receitas manda? Não basta ser esforçado e aplicado? Ainda tem que ter mão boa pra massa? Pois é, oficinas literárias, pois é&#8230;</p>
<p>Juro que estou decepcionada com este insight e que queria muito que <em>Chibo</em> fosse ótimo e me arrebatasse.</p>
<p>Leio a sinopse de <em>Galiléia</em>: “três primos atravessam o sertão cearense para visitar o avô, patriarca que definha na sede da fazenda Galiléia”. Penso que aquele livro vai me matar de tédio. Quem quer saber de velório no meio do mato? Eu não.</p>
<p>Mas <em>Galiléia</em> se passa mais na cabeça e nos corações dos homens do que no mato. É bom não ser chauvinista de rejeitar (ou aprovar) um romance pela sinopse ou ambientação — aprendi isso quando li Ruffato (quem quer saber de migrantes?, etc.). Leia pelo menos uma página, aí desista.</p>
<p>Li a primeira página e fui até a 45. Da 45 fui à 65. Da 65 à 117, e da 117 quase ao final. E não, não estava fácil, o livro exigia de mim, eu voltava atrás e conferia coisas — como quem era o narrador daquela vez, e se o que ele falou batia com o que o outro tinha falado. Às vezes, simplesmente pra saborear de novo alguma passagem. Ainda assim, debelei <em>Galiléia</em> em poucas sentadas — ao contrário de <em>Chibo</em>, livro de 115 páginas que me tomou quase o tempo do <em>maisquememória</em> (400 pg.) para ser lido.</p>
<p><em>Galiléia</em> é dois em um: romanção e romancinho. É romanção porque tem um clã — com questões mal-resolvidas que talvez venham de séculos. É romancinho porque é curto (236 pg.) e espiamos esse clã pelo buraco da fechadura, conforme as vozes dos personagens vão se alternando. Formamos nossa própria imagem <em>bullet-time</em>.</p>
<p>Certos filmes antigos nos parecem hoje muito lentos, pois quanto mais nos fomos acostumando à linguagem do cinema, mais as elipses foram sendo toleradas. Hoje, via de regra, um homem não precisa mais ser visto dando um beijo na família, descendo de elevador, entrando no carro, dirigindo, estacionando e trancando o veículo para sabermos que ele foi para o trabalho. Não estamos fascinados com o mero movimento das imagens; exigimos mais. O mesmo aconteceu, talvez por influência, com a literatura: as descrições caudalosas tendem a ser substituídas por símbolos evocativos e/ou referências a um repertório compartilhado. Daí haver tanta Bíblia (e sociologia) no livro.</p>
<p>Atribuo a isso o fato de muitas das cenas de <em>Galiléia</em> — não só as cenas-chave — serem arrebatadoras. Foi nitidamente escrito com paixão, mas Ronaldo Correia de Brito não cometeu o erro de muitos apaixonados com algo a dizer: se empolgar com o próprio virtuosismo e empastelar a execução. Se há algum senão, foi ter pesado um pouco a mão nas referências bíblicas — mas talvez o problema seja comigo, pois na época da leitura estava traduzindo um comentário bíblico.</p>
<p>No momento preciso em que li o final, ele me soou abrupto: <em>e a resolução?</em> Mas no momento seguinte eu já estava revendo toda a forma como tinha lido o livro. Aquilo <em>era</em> a resolução. Adonias não tinha ido à fazenda Galiléia se achar, mas se perder. E, por que não dizer?, me soou de alguma forma um final feliz. Missão cumprida. <em>Galiléia</em> tem o ingrediente secreto.</p>
<h3 style="text-align: center;">Vencedor</h3>
<p style="text-align: center;"><img title="Galiléia" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/capas/galileia.jpg" alt="" width="120" height="180" /></p>
<h2 style="text-align: center;">Galiléia</h2>
Note: There is a poll embedded within this post, please visit the site to participate in this post's poll.
<img src="http://copadeliteratura.com/wp-content/plugins/pixelstats/trackingpixel.php?post_id=854&amp;ts=1268379124" style="display:none;" alt="pixelstats trackingpixel"/>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://copadeliteratura.com/2009/jogo10/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>41</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Jogo 9</title>
		<link>http://copadeliteratura.com/2009/jogo9/</link>
		<comments>http://copadeliteratura.com/2009/jogo9/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 23 Nov 2009 15:56:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Beatriz Resende</dc:creator>
				<category><![CDATA[2009]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://copadeliteratura.com/?p=849</guid>
		<description><![CDATA[  
Difícil duelo gaúcho em partida que só se resolveu nos últimos momentos.
Evidentemente, diante do romance de Daniel Galera — já experiente, premiado, convidado a participar da coleção Amores Expressos — ficamos mais exigentes.
Em Cordilheira, Galera é o mesmo escritor competente das obras anteriores, mas a narrativa tem, na minha opinião como leitora, dois [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img title="Cordilheira" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/capas/cordilheira.jpg" alt="" width="120" height="180" /> <img title="Jogo 9" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/jogos/jogo9.png" alt="" width="396" height="181" /> <img title="Areia nos dentes" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/capas/areianosdentes.jpg" alt="" width="120" height="180" /></p>
<p>Difícil duelo gaúcho em partida que só se resolveu nos últimos momentos.</p>
<p>Evidentemente, diante do romance de Daniel Galera — já experiente, premiado, convidado a participar da coleção Amores Expressos — ficamos mais exigentes.</p>
<p>Em <em>Cordilheira</em>, Galera é o mesmo escritor competente das obras anteriores, mas a narrativa tem, na minha opinião como leitora, dois problemas.</p>
<p>Primeiro, deixar escapar a excelente ideia de apresentar um círculo de autores argentinos como um bando de estropiados, maníacos, perversos. Só faltou um cego. Situação interessante, de algum modo pondo em discussão o tema da vida literária, da relação entre vida e obra. Poderia ser ocasião inteligente de nos fazer pensar sobre as &#8220;igrejinhas&#8221; formadas por escritores, na Argentina e no Brasil. E mais: a misoginia, as visões autocentradas, as vaidades. No entanto, com a solução dos suicídios um tanto gratuitos — especialmente no caso de Holden, autor/personagem — o que se tornara um dos temas prinicpais da obra termina mal resolvido, como se fosse importante demais para a narrativa, que termina não dando conta dele.</p>
<p>Do segundo problema, a culpa é de Flaubert com aquela história de &#8220;<em>Madame Bovary, c’est moi</em>&#8220;. Mesmo assim, o próprio Flaubert recorre a diversos pontos de vista, ou simplesmente fecha a cortina da carruagem no momento em que Emma seria a única narradora possível. O último capítulo de <em>Cordilheira</em>, quando o narrador recupera a palavra de Anita, faz a gente pensar: para que foi complicar o romance com essa voz feminina assumindo a condução da obra? Sempre que um recurso de construção da narrativa se torna gratuito ou pouco rentável, isso incomoda.</p>
<p>Antônio Xerxenesky surge como um escritor hábil e, contrariamente ao que afirma na dedicatória do livro ao pai, bem-humorado. As estratégias narrativas são sempre denunciadas pelo próprio autor, anulando a ideia de &#8220;efeitos especiais&#8221; desnecessários. É assim que Xerxenesky desqualifica a besteirada dos mortos vivos, que vai para segundo plano, e acaba ficando com a velha questão que nos persegue desde a Grécia antiga quando Sófocles escreveu <em>Édipo Rei</em> e foi retomada por Freud para marcar nossas vidas: como é difícil matar o pai. Nesse momento, Miguel e Juan ganham contornos mais nítidos e viram, de fato, personagens, tanto no faroeste como na história do velho aposentado mexicano que se debruça sobre o computador para escrever um livro.</p>
<p>Ao contrário do que pode parecer, não é fácil contar uma história de faroeste no Brasil. No livro de Xerxenesky, a evidência do pastiche se mistura a um gosto pessoal pelo gênero, tributário do cinema americano. Guardando as devidas proporções — para o sucesso não subir à cabeça de nosso autor — este me parece ser o segredo de Philip K. Dick em <em>Blade Runner</em> e de J. G. Ballard em <em>Crash</em> ou <em>Running Wild</em>. Às injunções do gênero, que podem ser óbvias ou limitadoras, os autores mesclam reflexões que vão desde o cotidiano das grandes cidades globais à violência e o sofrimento dos solitários.</p>
<p><em>Areia nos dentes</em> resulta um romance que prende a atenção e diverte, mas deixa um certo travo, arenoso, na garganta do leitor. Apesar disso, o jovem autor promete e levou esse round com sua obra — apresentada, generosamente, por Daniel Galera.</p>
<h3 style="text-align: center;">Vencedor</h3>
<p style="text-align: center;"><img title="Areia nos dentes" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/capas/areianosdentes.jpg" alt="" width="120" height="180" /></p>
<h2 style="text-align: center;">Areia nos dentes</h2>
Note: There is a poll embedded within this post, please visit the site to participate in this post's poll.
<img src="http://copadeliteratura.com/wp-content/plugins/pixelstats/trackingpixel.php?post_id=849&amp;ts=1268379124" style="display:none;" alt="pixelstats trackingpixel"/>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://copadeliteratura.com/2009/jogo9/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>32</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Jogo 8</title>
		<link>http://copadeliteratura.com/2009/jogo8/</link>
		<comments>http://copadeliteratura.com/2009/jogo8/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 15 Nov 2009 22:46:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alex Castro</dc:creator>
				<category><![CDATA[2009]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://copadeliteratura.com/?p=748</guid>
		<description><![CDATA[  
Dizem que esse é um dos jogos mais esperados da copa. Com certeza, é o mais difícil.
Temos dois autores veteranos e conhecidos (ainda que Calligaris seja estreante na ficção), com dois romances curtos e enxutos, corretos e sofisticados, lançados pela mesma editora de primeira linha, centrados na questão da paternidade, e com a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img title="Órfãos do Eldorado" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/capas/orfaos.jpg" alt="" width="120" height="180" /> <img title="Jogo 8" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/jogos/jogo8.png" alt="" width="396" height="181" /> <img title="O conto do amor" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/capas/contodoamor.jpg" alt="" width="120" height="180" /></p>
<p>Dizem que esse é um dos jogos mais esperados da copa. Com certeza, é o mais difícil.</p>
<p>Temos dois autores veteranos e conhecidos (ainda que Calligaris seja estreante na ficção), com dois romances curtos e enxutos, corretos e sofisticados, lançados pela mesma editora de primeira linha, centrados na questão da paternidade, e com a mesma &#8220;surpresa&#8221; no final. Aliás, são tão parecidos que liguei pro Lucas, o organizador da Copa, e perguntei se tinha sido coincidência estarem no mesmo jogo.</p>
<p>Impossível escolher entre eles.</p>
<p>Em <em>O conto do amor</em>, de Contardo Calligaris, um psicanalista italiano radicado em Nova Iorque (como o autor) começa a tentar reconstituir a vida do pai recentemente falecido. Descobre que na década de 30, antes da guerra, seu pai vivera um caso de amor com uma mulher mais velha. Descobre, mais ainda, que seu pai se imaginava a reencarnação de um pintor renascentista menor. Tentando retraçar os passos do pai e entender suas obsessões, o narrador volta à Itália, acaba se envolvendo com uma jovem pesquisadora e, no fim, desenterra uma surpresa.</p>
<p>O livro é bom. Não empolga em momento algum, mas também nunca erra. É uma tentativa correta, mas fria, de unir erudição e sentimento e me fez, mais do que tudo, ter vontade de reler <em>Aqueles cães malditos de Arquelau</em>, de Isaías Pessotti, que atingiu com genialidade tudo o que <em>O conto do amor</em> alcançou com competência.</p>
<p>Em <em>Órfãos do Eldorado</em>, de Milton Hatoum, temos a história da decadência de Armindo Cordovil, filho de um rico empresário da borracha de Manaus, desde seu nascimento em berço de ouro até a velhice miserável. Assim como em <em>O conto do amor</em>, a figura do pai também é fundamental: é em relação ao pai que Armindo sempre se define. Destaque também para Estiliano, melhor amigo do pai e que cuida de Armindo até sua velhice; Florita, sua empregada-concubina-escrava; e Dinaura, uma efêmera amada, uma mulher fugidia que atormenta Armindo por toda sua vida, da riqueza à pobreza. No final, desenterra uma surpresa.</p>
<p>O livro é bom. Não empolga em momento algum, mas também nunca erra. De fato, não tenho críticas.</p>
<p>Impossível escolher entre ambos. São corretos, sem erros, sem empolgação. Obras maduras de autores maduros. Histórias de homens que se voltam ao passado e aos seus pais, na tentativa de descobrir quem são, e acabam tendo&#8230; a mesma surpresa.</p>
<p>Não sei escolher. Gostaria que a Copa permitisse empates. Na obrigação de escolher um, escolho <em>O conto do amor</em>, do Calligaris, pelo simples fato de eu ter me envolvido mais com a história &#8211; provavelmente porque me sinto mais próximo da Itália renascentista do que da Amazônia <em>fin de siècle</em>.</p>
<p>Mas é uma vitória por pontos. Pouquíssimos pontos.</p>
<h3 style="text-align: center">Vencedor</h3>
<p style="text-align: center;"><img title="O conto do amor" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/capas/contodoamor.jpg" alt="" width="120" height="180" /></p>
<h2 style="text-align: center">O conto do amor</h2>
Note: There is a poll embedded within this post, please visit the site to participate in this post's poll.
<img src="http://copadeliteratura.com/wp-content/plugins/pixelstats/trackingpixel.php?post_id=748&amp;ts=1268379124" style="display:none;" alt="pixelstats trackingpixel"/>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://copadeliteratura.com/2009/jogo8/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>73</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Jogo 7</title>
		<link>http://copadeliteratura.com/2009/jogo7/</link>
		<comments>http://copadeliteratura.com/2009/jogo7/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 09 Nov 2009 01:27:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luís Francisco Carvalho Filho</dc:creator>
				<category><![CDATA[2009]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://copadeliteratura.com/?p=697</guid>
		<description><![CDATA[  
Quando um certo dr. Plausível indicou meu nome para participar da Copa de Literatura, minha vontade era dizer não. A ideia de uma copa me fez lembrar o mundo do futebol, o mata-mata muitas vezes decidido “injustamente”. A escapada oportunista de um perna-de-pau, o gol fora de casa, a retranca intransponível, a contusão, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img title="A arte de produzir efeito sem causa" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/capas/efeitosemcausa.jpg" alt="" width="120" height="180" /> <img title="Jogo 7" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/jogos/jogo7.png" alt="" width="396" height="181" /> <img title="Jonas, o copromanta" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/capas/jonascopromanta.jpg" alt="" width="120" height="180" /></p>
<p>Quando um certo <a href="http://drplausivel.blogspot.com/">dr. Plausível</a> indicou meu nome para participar da Copa de Literatura, minha vontade era dizer não. A ideia de uma copa me fez lembrar o mundo do futebol, o mata-mata muitas vezes decidido “injustamente”. A escapada oportunista de um perna-de-pau, o gol fora de casa, a retranca intransponível, a contusão, o erro de arbitragem, a falta de inspiração, a sorte, o azar, tudo isso pode determinar a derrota do melhor time para uma equipe tecnicamente inferior. Diferente de um campeonato por pontos corridos, onde prevalece no fim, em tese, a organização, a regularidade, a força do elenco, a capacidade efetiva dos times vencedores.</p>
<p>No plano literário, a perspectiva parece até irresponsável. Por que um livro deve vencer outro e seguir na disputa? A escolha de uma obra entre duas por um jurado, escolhido sabe-se lá por quê, teria, sempre, a marca da subjetividade, do arbítrio. Por outro lado, ainda que eu olhe para tudo e para todos com dose extremada de ceticismo, não sou crítico profissional nem amador. Não domino o instrumental necessário para a tarefa, e sempre que me arrisquei, confesso, me arrependi.</p>
<p>Mas tenho outro defeito. Não sei dizer não. E aqui estou, destinado a escolher entre dois livros: <em>Jonas, o copromanta</em>, de Patrícia Melo, e <em>A arte de produzir efeito sem causa</em>, de Lourenço Mutarelli, autores interessantes, bem sucedidos e que, se tiverem um mínimo de juízo, devem se lixar para a minha opinião.</p>
<p>Estabeleci um critério de antemão. Venceria a disputa o autor que provocasse em meu espírito maior estranhamento.</p>
<p>Para minha surpresa, os personagens centrais das duas obras veem as letras “dançando” em seus sonhos&#8230; Amargurados, obcecados ou destruídos, tentam solucionar enigmas desprovidos de lógica e caem no vazio aparente da loucura. As duas obras tangenciam a vida de escritores: Rubem Fonseca, em <em>Jonas, o copromanta</em>; William S. Burroughs, em <em>A arte de produzir efeito sem causa</em>. Pura coincidência? Lucas Murtinho que explique o jogo que me foi dado. Até nas ilustrações dos dois livros — editados em 2008 pela Companhia das Letras — uma convergência de formas pode ser percebida:</p>
<p style="text-align: center;"><img title="A arte de produzir efeito sem causa - Ilustração de Lourenço Mutarelli" src="http://copadeliteratura.com/wp-content/uploads/2009/09/Jogo7-Imagem2.jpg" alt="" width="120" height="180" /> <img title="Jonas, o copromanta - Ilustração de Elisa Cardoso/Máquina Estúdio" src="http://copadeliteratura.com/wp-content/uploads/2009/09/Jogo7-Imagem1.jpg" alt="" width="120" height="180" /></p>
<p>Jonas, funcionário burocrático da Biblioteca Nacional, prevê o futuro a partir da observação criptográfica e dos desenhos diários das próprias fezes, que coleciona em álbum, e sente-se plagiado pelo escritor Rubem Fonseca (transformado em personagem de Patrícia Melo), perseguindo-o pelas ruas do Rio de Janeiro para desmascarar o que considera um complô formado para invadir sua mente e se apropriar de seu dom.</p>
<p>O personagem de Lourenço Mutarelli, o Júnior, funcionário de loja de autopeças, larga tudo, mulher, emprego, volta para a casa do pai; perdido no infortúnio da traição, mergulha na bebida, no delito, no sono e, inconscientemente assombrado pelo espectro de Burroughs, na observação mórbida de letras e palavras que se multiplicam até o infinito.</p>
<p>Li os dois livros simultaneamente, como se o embaralhar do jogo ajudasse a decidir. Eu me senti obrigado a ler, ainda, o conto de Rubem Fonseca que serve de pano de fundo para a história de Patrícia Melo, “Copromancia” (<em>Secreções, excreções e desatinos</em>, Companhia das Letras, 2001).</p>
<p>E para evitar a perspectiva de um apressado estranhamento em relação a uma das duas obras (o adivinhar pelo exame das próprias fezes pode soar para o leitor da resenha como algo por si só extraordinário, esquisito, e saliento que o livro de Patrícia Melo não é escatológico), abro parênteses para registrar que a copromancia não é invenção de Rubem Fonseca.</p>
<p>Na Internet está <i>(N.E.: Estava. O link a seguir leva a uma página que reproduz parte do conteúdo do site citado.)</i> o <a href="http://www.humornaciencia.com.br/pseudo/copromancia.htm">site da Associação Copromântica Brasileira</a>, criado para evitar que esta “digna profissão” fique “à mercê de aproveitadores inescrupulosos ou mesmo de pessoas voluntariosas, mas totalmente despreparadas”. Verifiquei, admito que um pouco espantado, a existência — cúmulo do corporativismo — de Projeto de Lei de Iniciativa Popular, seguido de abaixo-assinado, com o objetivo de regulamentar a profissão do “copromante”, assim considerado, para fins legais, “aquele que estabelece juízos a partir do estudo das configurações de massa fecal de qualquer espécie, calculando e elaborando cartas fecais”, com reserva de mercado estabelecida para a análise da “interrelação entre cartas fecais na avaliação de relacionamentos entre pessoas, entidades jurídicas e nações”. Apesar de se tratar de “ciência e arte de raízes bastante antigas”, pré-históricas, caso o Congresso Nacional aprove a iniciativa estaremos caminhando para a queda da última trincheira no processo de erosão da privacidade que atinge os nossos tempos. A quebra do sigilo fecal.</p>
<p>Mente, portanto, o personagem do conto de Rubem Fonseca quando afirma que “copromancia” é “palavra inexistente em todos os dicionários”, palavra que compusera “com óbvios elementos gregos”, assim como mente o Rubem Fonseca construído por Patrícia Melo, que alega ter criado um “neologismo que uniu duas ideias em latim, fezes e adivinhação”. Se a palavra <em>copromancia</em> não está nos dicionários disponíveis, não é por não existir. Uma explicação razoável para o esquecimento está no mais antigo léxico de nosso idioma, o <em>Vocabulario Portuguez &amp; Latino</em>, de Raphael Bluteau, editado em Coimbra entre 1712-1728, texto precioso e disponível no <a href="http://www.ieb.usp.br/online/index.asp">site do Instituto de Estudos Brasileiros da USP</a>: “da supersticiosa e falsa arte de adivinhar se acham nos autores muitas outras espécies, que passo em silêncio, por serem matéria indigna da curiosidade de um cristão” (verbete “Adevinhação”).</p>
<p>Mas vamos voltar aos dois livros.</p>
<p>Jonas é o narrador da obra de Patrícia Melo, capaz de sentenciar de forma elegante sentimentos que costumam escapar da percepção comum: “É fácil ser impreciso e confundir as pessoas”. Quanto tempo demora a saudade, o luto? “O resto da vida. Aumenta. Diminui, mas nunca desaparece. Nunca.” Narrador capaz de contar (assim como o personagem de Rubem Fonseca, o original) tudo o que se passou com Jonas até o desfecho que o leitor desconhece. O que particularmente me incomoda em <em>Jonas, o copromanta</em> é justamente esse narrador tão lúcido, suficientemente distanciado do abismo que se oferece diante dos próprios pés, a reconstituir sonhos, pensamentos, diálogos e gestos como se fora a memória de terceira pessoa.</p>
<p>Diferentemente, a trajetória de Júnior é lançada pelo narrador onipresente, terceira pessoa mesmo, que a tudo observa descrevendo os sonhos, pensamentos, diálogos e gestos do protagonista. O que particularmente me incomoda em <em>A arte de produzir efeito sem causa</em> é justamente uma espécie de reforço narrativo do que o ouvido absoluto do escritor já havia captado. “Estão tirando coisas de dentro de mim. Eu preciso ir”, diz Júnior ao amigo. Por que então o narrador deve surgir e realçar que “um parasita destrói o seu cérebro”?</p>
<p>O narrador criado por Mutarelli é também capaz de sentenciar de forma elegante sentimentos que costumam escapar da percepção comum: “Nenhum sentimento se compara ao de ser perdoado”.</p>
<p>Mas é na descrição objetiva da cena e nos diálogos mais corriqueiros e ingênuos que a obra de Lourenço Mutarelli se apresenta forte e, por isso, provoca o meu estranhamento. “Quando eu era novo, tudo era mais simples. Não tinha tanta doença”, ou “Tem coisas que é melhor não mexer”, ou “Às vezes não parece que tudo se repete?”. Observem este trecho e os grifos que tive a ousadia de fazer em duas pequenas frases que, no meu olhar, poluem:</p>
<blockquote><p>Júnior acorda tamanho é o silêncio. Sente-se bem. O relógio do vídeo não marca a hora. Todos dormem. Não há café na garrafa. Júnior lava o rosto, escova os dentes com o dedo e penteia o cabelo com as mãos. Não muda de roupa porque as suas roupas estão guardadas no quarto do pai. Procura não fazer barulho ao sair. Chama o elevador. Enquanto espera, percebe uma rachadura no piso. Uma linha sinuosa que parte de uma coluna e avança quase até as escadas. O elevador demora. Júnior desce de escada. Percebe que a rachadura se repete a cada piso. <em>Uma discreta ameaça</em>. O porteiro não está na guarita para abrir o portão. Júnior espera. Ansioso por um café e pelo primeiro cigarro, anda até o portão. Passa o braço pela grade e aperta o interfone preso do lado de fora. <em>Está dentro e fora</em>. Em poucos segundos o porteiro surge correndo. Abotoando as calças.</p>
<p>— Vai sair?</p>
<p>— Eu só toquei porque não tinha você.</p>
<p>— Então não vai sair?</p>
<p>— Não, quer dizer, vou. Só estou falando isso para você não pensar que estou do lado de lá chegando. Para não pensar que toquei para entrar. Entendeu?</p>
<p>— O senhor já está dentro. Por que eu ia pensar isso?</p>
<p>— Não é isso. É que eu toquei de fora, entendeu?</p>
<p>— O senhor vai ou não vai sair?</p>
<p>— Vou.</p>
<p>O porteiro aciona o botão que destrava a saída. Júnior, por um momento, parece ausente e permanece ali parado [...].</p></blockquote>
<p>Seria mesmo necessário ressaltar a “discreta ameaça” ou o estar “dentro e fora”?</p>
<p>Talvez um dos maiores desafios literários seja a transposição para o papel do mistério que habita a insanidade. Ler não é como ir ao cinema, onde a música, o som (inclusive do silêncio), os efeitos especiais etc. permitem uma experiência sensorial mais fácil. Houve um instante, lendo <em>A arte de produzir efeito sem causa</em>, em que senti aquele arrepio que só o medo pode provocar. Por isso, ele leva o meu voto.</p>
<p>Pelo menos aqui, vence Lourenço Mutarelli e perde Patrícia Melo. Ao jurado, as batatas.</p>
<h3 style="text-align: center">Vencedor</h3>
<p style="text-align: center;"><img title="A arte de produzir efeito sem causa" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/capas/efeitosemcausa.jpg" alt="" width="120" height="180" /></p>
<h2 style="text-align: center">A arte de produzir efeito sem causa</h2>
Note: There is a poll embedded within this post, please visit the site to participate in this post's poll.
<img src="http://copadeliteratura.com/wp-content/plugins/pixelstats/trackingpixel.php?post_id=697&amp;ts=1268379124" style="display:none;" alt="pixelstats trackingpixel"/>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://copadeliteratura.com/2009/jogo7/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>36</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Jogo 6</title>
		<link>http://copadeliteratura.com/2009/jogo6/</link>
		<comments>http://copadeliteratura.com/2009/jogo6/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 05 Nov 2009 01:33:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fabio S. Cardoso</dc:creator>
				<category><![CDATA[2009]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://copadeliteratura.com/?p=838</guid>
		<description><![CDATA[  
No sexto jogo da Copa da Literatura Brasileira, Acenos e afagos, de João Gilberto Noll, e O ponto da partida, de Fernando Molica, travaram um duelo bastante disputado, pois ambos os livros apresentaram virtudes que sobrepuseram seus eventuais vícios. A princípio, a obra de João Gilberto Noll levava certa vantagem, sobretudo porque o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img title="O ponto da partida" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/capas/pontodepartida.jpg" alt="" width="120" height="180" /> <img title="Jogo 6" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/jogos/jogo6.png" alt="" width="396" height="181" /> <img title="Acenos e afagos" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/capas/acenoseafagos.jpg" alt="" width="120" height="180" /></p>
<p>No sexto jogo da Copa da Literatura Brasileira, <em>Acenos e afagos</em>, de João Gilberto Noll, e <em>O ponto da partida</em>, de Fernando Molica, travaram um duelo bastante disputado, pois ambos os livros apresentaram virtudes que sobrepuseram seus eventuais vícios. A princípio, a obra de João Gilberto Noll levava certa vantagem, sobretudo porque o autor é daqueles que se pode considerar adepto de uma literatura vistosa, dessas que conseguem encantar o leitor e o amante dos romances tanto pelo lirismo como pelo estilo bem acabado, extremamente calculado, que sabe exatamente onde quer chegar. De sua parte, Fernando Molica é um autor com repertório literário mais modesto, sem esbanjar tantos recursos estilísticos; em contrapartida, é detentor de uma narrativa bastante envolvente, dessas que conquistam o leitor já no primeiro parágrafo. É como se fossem escolas diferentes, o que só poderia produzir um grande jogo. E nessa disputa, contrariando os prognósticos, <em>O ponto da partida</em>, de Fernando Molica, foi o vencedor.</p>
<p>A chave para a vitória, para utilizar o jargão dos comentaristas de futebol, está justamente na maneira como Molica conduziu sua história, tratando de um tema aparentemente banal: a crise de meia-idade de um jornalista carioca, apaixonado por Nelson Cavaquinho, que durante um plantão na madrugada revisita sua trajetória profissional, sua vida afetiva e seu relacionamento com os filhos. Nessa jornada rígida e ordinária, o protagonista Ricardo Menezes consegue cativar o leitor porque, homem desprovido de qualidades, mostra-se demasiadamente humano. Assim, mesmo sendo um personagem um tanto amargurado e vivendo (a suspeita é deste juiz) uma espécie de depressão silenciosa, escondida apenas pelos picos de euforia, Menezes não deixa de encarar seus problemas, numa postura divertidamente iconoclasta.</p>
<p>Até aí, alguém pode dizer, isso não sustenta a supremacia de um livro. De fato, não. Todavia, é necessário ressaltar que o autor constrói uma galeria de personagens à altura do protagonista. O sucesso da caracterização é tamanho que em determinado momento o leitor pode crer que as histórias do livro são desses casos fortuitos do cotidiano, algo como uma seleção do que não coube nos jornais. Que fique claro: a despeito da verossimilhança, trata-se de uma obra de ficção, obviamente arrematada por um autor experiente no ofício de articular boas histórias e que não deixa o leitor perder o interesse pela sequência dos acontecimentos. Assim, seja nos diálogos, seja no encadeamento dos capítulos, Fernando Molica é hábil em construir um relato bastante conciso e objetivo, mas, principalmente, um romance que cumpre seu papel de fazer o leitor desfrutar o texto. Assim, se é verdade que em determinados momentos o autor faz com que o leitor reflita sobre as escolhas que os homens, e mulheres, fazem em sua vida para ter mais status, qualidade de vida e dinheiro, também é verdade que ele propõe isso de forma suave e lúdica, deixando sedimentadas as impressões para o leitor. É nesse quesito de, digamos, cumprimento de proposta autoral que o livro de Molica bate o de João Gilberto Noll.</p>
<p>Para quem não sabe, João Gilberto Noll é um dos grandes romancistas brasileiros, mencionado em antologias da literatura brasileira, e um dos autores de prosa vivos mais traduzidos para fora do país. A celebração em torno de João Gilberto Noll se dá porque ele é um autor que se propõe a elaborar uma literatura decididamente mais sofisticada, com um projeto literário a ser seguido. No caso da obra em questão, <em>Acenos e afagos</em> se destaca (a começar pelo título) por ser um romance dotado de uma voz poética bastante peculiar, que pode ser identificada já na maneira como o narrador se dispõe a contar sua história para o leitor.</p>
<p>Esse narrador, protagonista de inúmeras aventuras e desventuras eróticas, a todos relata sobre seus desejos, sua volúpia e sua busca quase incessante pelo prazer carnal. Para ele, nada é mais importante do que agradar seu parceiro: ao mesmo tempo em que se torna a mulher de um engenheiro cuja conduta é misteriosa, ele também assume o papel de homem na intimidade homoerótica. Essa ambivalência causa um nó na cabeça do protagonista, que se vê envolto em inúmeros dilemas morais e existenciais, a ponto de sua fala ser absolutamente errática, caótica, muito embora a organização das ideias seja absolutamente bem feita.</p>
<p>Nessa perspectiva, há de se notar um elemento, a meu ver desnecessário, que compõe a obra de Noll. Trata-se do apelo ao grotesco, um recurso utilizado em demasia pelo autor, que, de forma consciente, arremata o estilo desse livro com uma linguagem chula que usa e abusa dos palavrões para dar cor ao personagem. A mensagem é clara. Experiente no domínio da palavra, JGN tem como objetivo chocar e causar espécie junto ao leitor. A esse respeito, não é descabido lembrar de que Nelson Rodrigues qualificava tal estratagema como a doença infantil do palavrão. Eis um ponto bastante curioso: em <em>Acenos e afagos</em> a verve poética é apimentada por um memorial erótico que em dados momentos, pela riqueza de detalhes, se assemelha aos blogs de garotas de programa que tanto fizeram sucesso na internet neste início de século XXI. Ora, se é verdade que a boa literatura não se faz com bons sentimentos, também é certo que nem tudo é literatura. Assim, quando o narrador revela que, torturado, tinha seu desejo sexual fora de controle, a ponto de deixar a companhia do filho para buscar prazeres proibidos, o leitor tem a impressão de que esse tipo de enredo está mais para filmes de gosto duvidoso nas altas horas da madrugada do que para narrativa ficcional de qualidade.</p>
<p>Esse elemento, no entanto, é acessório. Em verdade, o ponto que faz de <em>Acenos e afagos</em> um livro inferior em relação à obra de Molica é precisamente a condução da narrativa, que no caso da obra de JGN se assume como sofisticada, mas não consegue trazer o leitor comum para seu livro. Quer dizer, o autor até tenta isso com as descrições sexuais em série, mas logo essa arte de causar efeito torna-se estéril. Em outras palavras, Noll acaba por estimular, aguçar e apimentar a imaginação do público, mas, comparado ao texto de Molica, suas inventivas são inócuas e sem sentido.</p>
<p>Se se comparar os textos, há de se notar que ambos os protagonistas passam por experiências extenuantes em sua trajetória. Sim, leitor, são argumentos e histórias totalmente distintos um do outro. Todavia, constata-se que tanto o narrador-protagonista de JGN quanto o herói de Fernando Molica atravessam momentos de tensão ao resgatar suas escolhas, tomar novas decisões e enfrentar novos desafios. Como num jogo em que as duas equipes têm atletas de alto rendimento em ótimas condições, a peleja fica bem interessante ao leitor. Mesmo nesse ponto, contudo, a vantagem é para a obra de Molica, porque a distribuição das personagens ajuda a compor um painel mais rico para a história, enquanto o protagonista de JGN torna-se um contínuo de si mesmo, enredado em suas próprias angústias, e o livro parece claramente tomar a opção da parte em detrimento do todo. No conjunto, o romance de Molica é mais coeso e, sim, mais elaborado.</p>
<p>Entre o estilo vistoso de Noll e a prosa objetiva de Molica, neste embate, <em>O ponto da partida</em> vence <em>Acenos e afagos</em>. De um modo geral, é evidente que nem todos os confrontos entre essas duas escolas teriam esse mesmo resultado. Mas num jogo como esse os detalhes importam mais do que o favoritismo inicial.</p>
<h3 style="text-align: center;">Vencedor</h3>
<p style="text-align: center;"><img title="O ponto da partida" src="http://copadeliteratura.com/images/2009/capas/pontodepartida.jpg" alt="" width="120" height="180" /></p>
<h2 style="text-align: center;">O ponto da partida</h2>
Note: There is a poll embedded within this post, please visit the site to participate in this post's poll.
<img src="http://copadeliteratura.com/wp-content/plugins/pixelstats/trackingpixel.php?post_id=838&amp;ts=1268379124" style="display:none;" alt="pixelstats trackingpixel"/>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://copadeliteratura.com/2009/jogo6/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>22</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>

<!-- Dynamic page generated in 1.717 seconds. -->
<!-- Cached page generated by WP-Super-Cache on 2010-03-12 04:32:04 -->
