Oitavas de final

16/10/08

O filho eterno jogo 8 Cão de cabelo

Jurado: Jonas Lopes

Cão de cabelo é o primeiro romance de Mauro Sta. Cecília. Antes o carioca já havia escrito dois volumes de poesia, uma peça e, sobretudo, letras de música — letras para canções de Barão Vermelho e Roberto Frejat (como as insuportáveis “Por você” e “Amor pra recomeçar”; Frejat, aliás, comparece com um comentário algo bizarro na contracapa, comparando a forma do texto ao trato de Michael Jordan com a bola de basquete…). Na orelha, a colega de editora Ana Paula Maia relata que Sta. Cecília pediu a ela que escrevesse a apresentação, dizendo: “Pega leve, esse é meu primeiro romance.” Ana Paula comenta que ele, no entanto, não pegou leve. Pois é. Não pegou leve no lugar-comum, o grande protagonista de Cão de cabelo. É difícil passar por qualquer página do livro sem tropeçar num clichê dos grandes, desses de fazer cair um leitor que passeia desatento pelas páginas.

A começar pela história em si. Lelo Costa, o narrador, está afundado na miséria moral em um quarto, numa “ressaca monstro”. Quer apenas “garantir o álcool cicatrizante de cada noite”. Além da sua decadência, faz referência à canção que o transformou em celebridade, o hit que deu a Lelo os 15 minutos de fama, reportagem na televisão, matéria na Veja, liderança nas paradas de sucessos (”passamos na época até o rei Roberto Carlos”). O país inteiro, ele adverte, cantou a sua música, “do porteiro à dondoca”. O nome da música? “A chave do teu coração”. Pois Lelo não gosta de rock - o que por um lado até diminui o lugar-comum da história, que tem um tremendo potencial para Meu nome não é Johnny do morro; o seu negócio é a música brega, romântica, de Odair José e Waldick Soriano. Ele se diz um “apreciador de canções”.

Começam, em um flashback, as lembranças da ascensão e queda de Lelo Costa. Você já ouviu coisa parecida antes. Menino favelado, mãe empregada doméstica “dos bacanas” (”coitada da mamãe, uma sofredora”), não conheceu o pai. Conseguiu bolsa em uma escola particular, graças à patroa da mãe. No colégio, evidentemente, sofreu preconceito dos colegas endinheirados, que olhavam para ele com desconfiança. Lelo larga os estudos, vai trabalhar em um banco e logo começa a namorar uma colega. Até que reencontra um amigo de infância, que voltou músico do interior. Juntos, compõem em poucas horas (ah, a ficção…) a canção que transformaria suas vidas. Quincas Espírito Santo, um conhecido ídolo pop, grava “A chave do teu coração”. Lelo e seu parceiro Beto recebem uma fortuna de direitos autorais, pela execução nas rádios e na propaganda de uma loja de móveis populares. Vem a inevitável decadência: drogas, mulheres, orgias, gastos inúteis, desagregação familiar. Daria um filme nacional de segunda categoria.

Justiça seja feita, Cão de cabelo tem qualidades. Mauro Sta. Cecília conseguiu encontrar uma voz interessante para seu narrador, um discurso coloquial que soa extremamente verossímil e também natural, não-forçado, o que é difícil. E o livro flui com bastante rapidez. Só que os méritos não apagam a força dos clichês. Dá para fazer um levantamento deles. O clichê do artista “simples”: “é música pra gente humilde que come costela, dobradinha, torresmo, lingüiça, bebe cachaça”. O clichê do sonho de ascensão social: “pode parecer bobagem, mas eu queria fazer Direito para ajudar a melhorar o mundo, que fosse mais justo, essas coisas”. O clichê do bon vivant: “passei longos anos sem nada, nada, nem ninguém. De repente, duas meninas legais ao mesmo tempo. Legais e que gostavam de sexo, porra.” O clichê do pobre guloso: “porque almoço de pobre, quando é festa, além de gostoso, tem sempre quantidade”. Tem até o clichê politicamente incorreto: “ainda bem que eu tinha aprendido a comer de palitinho e até a gostar de peixe cru, com Marta, que adorava tudo do oriente, menos pau pequeno”. E, claro, nenhum desses clichês é dito com ironia.

Sta. Cecília finaliza Cão de cabelo com um tom trágico que contrasta com o restante do livro. Não convence a forma como a trajetória de Lelo Costa caminha para a decadência. Pois se o autor encontrou a voz de seu narrador, a caracterização é rasa, superficial. Como se um bacana (para usar a linguagem de Lelo), sentado no boteco da Zona Sul, olhasse para o morro e resolvesse mimetizar a vida de um favelado. Não convence.

Cristovão Tezza é o oposto do seu adversário. É um escritor experiente, com três décadas de carreira nas costas. Recorrendo à metáfora futebolística da Copa de Literatura, é como se Tezza fosse um clube de considerável tradição, com um ou outro título no currículo, enquanto Sta. Cecília seria o time pequeno que acaba de subir da segunda divisão e vai brigar, sem muito sucesso, para não cair. Tezza passou por duros anos de aprendizado, tanto que renega seus primeiros trabalhos. Por certo, ele foi melhorando com o tempo. Seus romances mais antigos, mesmo o cultuado Trapo, carecem de coesão e maturidade, pecam pela indecisão entre a linguagem culta e a coloquial, carregam um quê de maldito que soa a rebeldia sem causa. Tezza, porém, evoluiu até atingir sua melhor fase.

Que começou em 1998, com Breve espaço entre cor e sombra, permeado por digressões sobre artes plásticas e variações de pontos de vista. Nele, o escritor trocou a emoção dos primeiros livros por uma abordagem mais cerebral. Manteve a fórmula em O fotógrafo, de 2004. A vocação ensaística (o pano de fundo da história é a eleição presidencial de 2002) se aprofunda, a trama se adensa (o romance se passa em apenas um dia) e os pontos de vista se multiplicam (Tezza é um dos principais especialistas brasileiros na obra do teórico da polifonia literária Mikhail Bakhtin). O filho eterno é seu melhor livro porque mais equilibrado: pela primeira vez emoção e técnica aparecem em doses iguais.

Em O filho eterno, Tezza também enfrenta pela primeira vez em sua obra um fantasma antigo: o seu filho Felipe, que nasceu com síndrome de Down. A chegada de Felipe não ocorreu no momento mais adequado. Cristovão era um marmanjo de quase trinta anos que ainda penava para encontrar um caminho na vida. Não terminara o curso de letras e nunca tinha trabalhado com carteira assinada. Sonhava em ser relojoeiro em uma pequena cidade do Paraná, ao mesmo tempo em que trabalharia na sua ficção. Publicara um livro que agora detestava, enquanto escrevia outros e recebia cartas de rejeição de editoras. Manuscrito na gaveta, ele partia para a próxima, sem saber muito bem onde nem como. E então, nesses tempos de incerteza, surge um filho com Down. Ou “mongolismo”, como se dizia na época.

O risco era enorme: o resultado do livro poderia ser um relato piegas do filho que fez o pai deixar as trevas e ver o quanto a vida é bela — ele é que ainda não percebera. Não é o caso. O filho eterno é amargo, pessimista, desencantado. O narrador é cruel: com Felipe, com o mundo e principalmente consigo mesmo. Tezza declarou em entrevistas que o seu modelo de narrativa foi Juventude, livro de memórias de J. M. Coetzee. Como o sul-africano, o brasileiro apela para uma prosa seca e distanciada na terceira pessoa, cedendo lugar em algumas digressões para a primeira, confundindo as duas vozes. Fora Coetzee, outras duas influências perceptíveis: Thomas Bernhard (o austríaco está na epígrafe), pelo mau humor e a raiva, e, naturalmente, Kenzaburo Oe, cuja obra-prima autobiográfica A questão pessoal também fala de um pai que rejeita o filho defeituoso.

A rejeição a Felipe é brutal — o narrador chega a desejar a morte do filho, como uma forma de salvação para a sua vida. Ele vê Felipe como uma aberração que tira da sua vida a normalidade. Debate consigo o conceito de normal e anormal — a idéia do anormal, do errado, incomoda-o. E incomoda porque não consegue aceitar a si próprio. Despreza a sua situação financeira, envergonha-se por depender do salário da esposa, lamenta não conseguir publicar os livros que se acumulam na gaveta, pena por fracassar na tentativa de ensinar ao filho qualquer coisa. Naquela criança relativamente inútil espelha-se um pai que se considera um fracasso (palavra repetida dezenas de vezes no texto). Para aceitar Felipe, precisava se aceitar. Quando começa a fazer isso — perceber que o emprego de professor em uma faculdade pública não é uma vergonha para seu espírito contestador e que seus romances começam a ser publicados e a repercutir —, torna-se o que a sociedade costuma imaginar como pessoa normal. Pode agora assumir os sentimentos pelo rebento, de quem depende emocionalmente — um sumiço de Felipe quase o leva a loucura. Essas mudanças não vêm acompanhadas de um afrouxamento moral — o que faz de O filho eterno tão bom. O pai continua cínico e cético como no passado. Deixa, contudo, o “seu Nietzsche” na infância. Como o menino que não entende definições como “hoje”, “amanhã” ou “semana que vem”, vai apenas viver o que vier.

O filho eterno
O filho eterno
de Cristovão Tezza

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