Oitavas de final
Jurada: Carol Bensimon
Rio de Janeiro. Aquele do mar azul que o morro vê enquanto arranca o dedo de um traidor. Aquele de quem, não querendo participar do organograma da violência mas já participando, faz vista grossa ou se esconde com o dinheiro que tem. Mas em Os insones, de Tony Bellotto, pode ser lugar também de tipos idealistas como Samora, jovem negro de classe média que abandona a vida de privilegiado e sobe o morro para flertar com o tráfico, através do bando de Mara Maluca, a fim de estabelecer um contato com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Enquanto isso, Sofia, outra adolescente de classe média cheia de ideais, desaparece.
Kyoto. Aquela da solidão das multidões, dos doces de feijão, dos rituais delicados e um tanto incompreensíveis. Dos poemas de Basho. Em Rakushisha, de Adriana Lisboa, o confronto com essa cultura distante é um catalisador para as transformações psicológicas das personagens. Haruki, brasileiro, descendente de japoneses, é contratado para ilustrar o Diário de Saga, de Basho, e viaja ao Japão em busca das paisagens que inspiraram o poeta do século XVII. Acompanha-o Celina, a mulher que, numa tarde de chuva, o aborda no metrô do Rio: esse livro estranho, é japonês ou chinês?
Claramente parte da tão em voga “estética da favela”, Os insones tenta criar a sua marca particular adicionando ao cenário da violência urbana uma dose de idealismo. Samora e Sofia, os dois consumidores vorazes de um apanhado de clichês da esquerda (creio que propositalmente), mostrarão ao leitor que mesmo as boas intenções são aos poucos consumidas por um intrincado jogo de interesses e agressividade. Com um ritmo ágil, muito diálogo e ações que começam distantes umas das outras e se cruzam ao longo da trama, a estrutura que convida a uma leitura interessada não é suficiente para garantir o bom funcionamento da narrativa. Há momentos imperdoáveis — e são muitos — de descrença generalizada em relação às personagens, o que leva a uma quebra constante do pacto de leitura.
É difícil aceitar, por exemplo, que Samora, um jovem definido muito categoricamente como alguém que busca um mundo mais justo, mal saído de seu luxuoso apartamento da Zona Sul, encare com naturalidade o fato de alguém sofrer na sua presença uma mutilação com uma faca de cozinha. E que esse dedo mutilado seja posto, ainda muito naturalmente, num vidro de formol, como um troféu. E que tudo isso aconteça porque o sujeito havia roubado os CDs de Samora.
A maneira como a família de Sofia encara o seu desaparecimento tampouco é convincente, como prova o trecho reproduzido abaixo.
Lílian tentava não perder seus hábitos. Os hábitos eram seu último refúgio. Tirou o CD de Ray Charles do CD-player e colocou outro, uma versão orquestrada de “Summertime”. Felipe estava no quarto. Tavinho tinha ido buscar comida num restaurante japonês. Lílian calçou a luva de borracha. Regou as plantas. Aparou com a tesoura algumas folhagens da jardineira da janela. Pensou intensamente em Sofia e depois de regar todos os vasos da sala teve a sensação de que conseguiu esquecê-la por alguns instantes. Sentiu-se culpada por isso. Tavinho chegou com sushis e sashimis em recipientes plásticos. Várias duplas de sushi de ovas de ouriço.
Nota-se, claro, tentativas do autor em demonstrar que as personagens passam por um momento delicado de suas vidas (Lílian tentava não perder seus hábitos. Os hábitos eram seu último refúgio), mas o fato de uma mãe ter disposição para regar plantas, comer sushi e ouvir música enquanto sua filha pode até mesmo estar morta deixa-nos por demais desconfiados. A mesma inverossimilhança toca o ex-marido de Lílian, pai de Sofia, que, durante o período em que a filha está desaparecida, arruma uma nova namorada, fuma maconha, faz sexo e joga o celular ao mar (e se a filha ligasse? E se houvesse novidades sobre o caso?).
Não é que se exija sempre densidade psicológica — os thrillers se concentram mais nas ações do que nos agentes dessas ações, não há nada de errado com isso, é apenas uma opção estética — mas é necessário um mínimo de coerência, ainda mais quando a obra se pretende tão calcada no mundo real. Além do mais, uma vez que a trama de Os insones está baseada numa situação limítrofe, num risco permanente, parece obrigatório que o texto e o trabalho de linguagem venham a refletir esse universo tenso, violento e sombrio, o que não acontece.
Trabalho de linguagem — embora eu desconfie dessas expressões referentes à literatura, continuo a utilizar todas elas — é o que não falta em Rakushisha. Como dizia um professor meu: nas primeiras páginas de um livro, pega-se o leitor ou pelo conflito exposto, ou pela forma. Portanto, se o livro de Adriana Lisboa demora para dizer a o que vem, que história estamos lendo e o que esperar dela, o texto, bem cuidado e fluido, garante o interesse do leitor.
No punho direito, a pequena cicatriz da mordida do cocker spaniel, o cão que há muito já se tornou um punhado de ossos delicados e uma leve memória, uma memória vagando sozinha pela superfície do mundo, fantasma do impulso, eco daquele jeito que era o seu jeito de existir: mordendo. A pequena cicatriz quase nada no punho direito de Yukiko, onde outros ossos e outros músculos e outros impulsos regem o movimento. O tecido da calça da Haruki, onde o movimento se imprime e projeta cataclismas de felicidade. O corpo sabe ser feliz por contra própria. O corpo prescinde dessas bobagens da alma.
É uma narrativa com umas belas sacadas, e que vai e volta no tempo, entre o Rio de Janeiro (outro Rio de Janeiro) e o Japão. Há algo na atmosfera do texto que lembra um conto, não um romance ou uma novela. Há muitas lacunas, e é como se olhássemos tudo através de uma névoa, como se as pessoas flutuassem em vez de pisar no chão. O gesto mais banal é carregado de poesia e significado — o que às vezes, é verdade, pode ser um pouco cansativo.
De fato, o livro perde a força do meio para o fim. Parece-me que esse é o preço que a obra, sustentada pela riqueza e apuro da linguagem, paga por pecar no quesito estrutura: quando nos acostumamos à prosa da autora e ela não nos seduz como inicialmente seduzia, percebemos com mais clareza que não há um conflito impulsionando a narrativa. Ou melhor: há um conflito, mas este se revela apenas no final, e poucos indícios, ao longo do texto, nos preparam para tanta carga dramática. Outro fato também me causou certo incômodo: há muitos trechos do diário do poeta japonês Basho misturados com o diário de Celina, e tenho a impressão de que eles nada acrescentam à narrativa.
Ainda assim, não há dúvida de que Rakushisha emplaca mais acertos do que Os insones, e parte deste para o próximo confronto.





Li Rakushisha, e no que se refere a ele, considero a resenha da Carol bastante correta. Apenas discordo de sua opinião em relação às citações do poeta Basho: realmente não acrescentam nada à obra, mas tampouco creio que seja essa sua função. Utilizando uma imagem poética, diria que as (belas) citações seriam como flores espalhadas aqui e ali, que ao fim até realçam o clima “japonês” do texto.
Mas quanto ao livro em si, concordo plenamente com sua avaliação. É inegável que ele perde a força no fim e também que esse final revelador tem sua carga dramática enfraquecida pela forma como o caminho até ele foi pavimentado.
Em julho, antes mesmo da Copa começar, postei aqui que ” o que achei fraco foi o prório cerne da história. A ida dos dois quase-desconhecidos ao Japão me pareceu um pouco descabida. Nem tanto pelo convite e sua aceitação súbitas, mas… se a questão era transportá-los ao Japão, o motivo me pareceu meio forçado. A ida dele, mais do que a dela, apesar de profissionalmente, a dele se justificar. Mas ele foi, voltou… e daí?
Sou apenas um leitor, e não crítico. E como leitor, achei o livro com altos e baixos. Sem arrependimento por tê-lo lido, mas também sem saudade ao terminar.”.
Gostei de que Rakushisha tenha ganho essa partida.
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Estranhar que, no livro, as personagens mostram pouco interesse pelo drama de outros seres humanos? Ora, acaso não sabe que são personagens, meras criações mentais, que não encontram respaldo na realidade, que não precisam ser cheios de sentimentos, como nós, seres humanos? A beleza da arte se encerra justamente nestas criações puramente fictícias. Veja a ficção científica, por exemplo, que cria robôs sem uma gota de sentimento. Incrível o poder imagético dos autores, não? Fico imaginando onde vão buscar tanta criatividade.
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Até entendo o que o Mauro quer dizer, mas no exemplo específico dado pela Carol a questão me parece um pouco diferente. Não me parece que ela tenha exigido ou esperasse que os personagens mostrassem reações ditas habituais diantes de situações extremas. A meu ver ela deixa claro isso:
” Não é que se exija sempre densidade psicológica (…) mas é necessário um mínimo de coerência, ainda mais quando a obra se pretende tão calcada no mundo real.”
Pelo que entendi, segundo ela o Bellotto não conseguiu passar convincentemente (ou seria “adequadamente”?) a idéia de que a família tentava tocar a vida em frente apesar da tragédia. Não li o livro, mas o exemplo destacado por ela – e quero crer que não seja um exemplo deslocado do contexto – dá razão à sua argumentação. A imagem é muito mal transmitida.
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Obrigado pelo esclarecimento, Faria. Mas “o Belloto não conseguiu passar convincentemente a idéia de que a família tentava tocar a vida em frente apesar da tragédia” ou o Belloto quis passar que a família era indiferente à tragédia? Em tempo, gostei da resenha.
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Concordo com o Claudio, Mauro.
Entendo o que você diz, mas a crítica da Carol está bem contextualizada com a proposta do livro do Bellotto. Se há em Os insones uma abordagem realista, nada mais justo que seus personagens sejam retratados de foram coerente com esta proposta – mesmo que superficialmente.
No mais, gostei da resenha. Foi concisa e deu argumentos bem definidos do porquê da vitória de Rakushisha.
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[O comentário #13712 será citado aqui]
Oi Mauro. Não entendi que a familia era indiferente. Tanto que a mãe da menina se sente até culpada por ter deixado de pensar nela por alguns instantes.
Um abraço.
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Ótima resenha, Carol.
Só não entendi uma coisa: o problema com Os insones ¿é a inverossimilhança ou a acochambradura? Quero dizer, tua objeção a coisas como o pai jogar o celular no mar ¿é pq soa inverossímil ou pq foi colocada ali gratuitamente pra q algo posterior na trama parecesse verossímil?
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