Jurado: Felipe Charbel
Embora diferentes em quase tudo, pode-se dizer que Era no tempo do rei, de Ruy Castro, e Na multidão, de Luiz Alfredo Garcia-Roza, têm o Rio de Janeiro como um dos protagonistas.
Era no tempo do rei, ambientado nos anos seguintes à chegada da corte joanina ao Brasil, convida o leitor a percorrer ruas e vielas da cidade numa época em que o Rio de Janeiro, pouco mais que um povoado colonial, ainda não despertara a atenção de pintores e viajantes como Debret e Rugendas para sua paisagem “pitoresca” e “exótica”, repleta de escravos de ganho, índios botocudos, vendedoras de quitutes com cestos na cabeça, capitães-do-mato, folguedos e lundus - um Rio pintado na medida como cartão de visitas de um Império Tropical. Já a cidade de Na multidão é uma decadente metrópole do início do século XXI: ruas largas e abarrotadas de gente que vai de um lado a outro sem se fazer notar, sinais de trânsito que abrem e fecham rapidamente, letreiros piscando, pessoas indistinguíveis lotando vagões do metrô como autômatos; uma cidade que lentamente se descaracteriza, onde um reduto bucólico como o Bairro Peixoto, encravado na pândega de Copacabana, se faz, por força das circunstâncias, paisagem “pitoresca” e “exótica” da contemporaneidade.
Não se pode dizer que seja a mesma ambiência, por não se tratar da mesma cidade.
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Em Na multidão, o delegado Espinosa, protagonista de outros livros de Garcia-Roza, se vê diante de uma situação atípica. Uma senhora, Dona Laureta, o procura na delegacia para uma conversa; como ele se encontra ocupado, ela decide voltar mais tarde; meia hora depois, é atropelada numa das ruas mais movimentadas de Copacabana; algumas testemunhas dizem que Dona Laureta pode ter sido empurrada, mas ninguém tem certeza. São estes os elementos que compõem o quadro inicial de Na multidão, e que levam o prudente delegado, com auxílio do detetive Welber e do inspetor Ramiro, ao encontro da enigmática figura do bancário Hugo Breno, responsável pelo atendimento dos pensionistas na agência da Caixa Econômica a que Dona Laureta havia comparecido na manhã de sua morte.
Hugo Breno leva uma vida aparentemente pacata: discreto, quarenta e poucos anos, mora sozinho num apartamento em Copacabana, próximo da agência bancária em que trabalha. É considerado por seus colegas um funcionário exemplar, que não falta nem se atrasa. Além disso, tem uma vida regrada: exercita-se todos os dias na praia, dorme cedo, não fuma, não bebe. Alguns de seus hábitos, porém, chamam a atenção dos investigadores, principalmente os longos passeios pelas ruas movimentadas de Copacabana e do centro da cidade na hora do rush.
No meio da multidão, Hugo pode seguir sem ser percebido, observar sem se fazer ver. Como reflete em determinado momento, quando está diluído entre outros, o “indivíduo humano pode tanto se perder no fundo homogêneo como se diferenciar mantendo-se sujeito”. Somos levados a saber que Hugo Breno “procurava a multidão como lugar de multiplicidade, e não de unidade. Buscava singularidades, sendo ele uma delas. Não queria se sentir ‘um igual’; fazia absoluta questão de ser uma diferença, uma singularidade irredutível.”
Esse desejo de diferenciação, paradoxalmente, leva “o suspeito de ser suspeito” Hugo Breno a se esconder na massa. Os passeios diários pelas ruas lotadas e as viagens de ida e volta em vagões apertados do metrô são para ele revigorantes: sentir-se “mais um” desperta em Hugo Breno a vontade de emergir, de mostrar ao mundo que seus atos podem, sim, ser dignos de nota, como os do delegado Espinosa.
A trama de Na multidão ganha força com a obsessão do delegado por vestígios opacos do passado (ou seriam produtos arbitrários de sua imaginação?), vindos à tona sem razões evidentes ou explicações imediatas. Movendo-se entre esquecimento e lembrança, Espinosa destrincha resíduos que aparentemente não têm nexo algum com o caso, se é que se pode efetivamente chamar de caso a situação da morte de Dona Laureta. Ele não se vê diante de dados de um quebra-cabeça lógico cuja articulação racional levará à solução do mistério. Espinosa procura alguma coisa dentro de si; como não é capaz de encontrá-la em suas recordações conscientes, tenta “enganar” seus bloqueios psíquicos revisitando monumentos de seu passado, quase nunca aqueles da história oficial. Os indícios que Espinosa busca na praça central do Bairro Peixoto, em prédios da vizinhança ou em seu próprio apartamento são imateriais e permeiam o universo oblíquo de suas memórias de infância: ele luta para recordar algo, mas a luta acaba sendo frustrante porque Espinosa não sabe do que deve se lembrar.
Essa busca, se dá ao livro originalidade, acaba, em alguns momentos, levando a divagações quase conceituais sobre a natureza da memória, da multidão e do individualismo contemporâneo, como se a insinuação de tais elementos não fosse suficiente e o leitor precisasse ser conduzido por algo mais que as motivações dos personagens e os desenlaces da trama. Sensação recrudescida por diálogos nem sempre inspirados, que contribuem para o excesso de rigidez formal ao invés de amenizá-lo.
Talvez por seu caráter intimista, falta a Na multidão o dinamismo de O silêncio da chuva; sua premissa, embora sedutora, não é tão cativante quanto a de Vento sudoeste. Em linhas gerais, o projeto acaba sendo mais atraente que sua realização.
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Se Na multidão é um livro contido, de movimentos suaves, Era no tempo do rei caracteriza-se pelo excesso de personagens e situações, além de mostrar uma tendência ao anedótico que por vezes parece exagerada, como se a narrativa tivesse a obrigação de ser espirituosa a todo o momento. Talvez com o intuito de tornar a leitura ligeira e palatável, o autor optou por um vocabulário repleto de expressões de curiosa sonoridade, como “patuscadas”, “peralvilho”, “estróina” e “flibusteiro”, entre outras. Embora contribuam para dar um tom picaresco à narrativa, elas muitas vezes parecem revelar preocupação demasiada com a fabricação de um clima de leveza, produzindo certa sensação de artificialidade. É o caso, também, dos constantes gracejos do narrador:
Acontece que Portugal e Inglaterra eram aliados de quinhentos anos - uma aliança tão antiga que, quando começou, a numeração de seus henriques e manuéis ainda estava no zero.
Ou então:
Enfim, ser meirinho era uma profissão tão chã que qualquer estarola podia desempenhá-la. Mas era também uma das mais necessárias, pela quantidade de processos que, graças ao excesso de advogados, corria pelo Rio e precisava de quem lhes entregasse as intimações e registrasse a frase fatal. Esta, por sinal, era repetida tantas vezes ao dia e em tantos quadrantes da cidade que até os papagaios a sabiam de cor. “Dou-me por citado! Dou-me por citado!”, viviam dizendo os louros nos poleiros.
Entre uma anedota e outra, o livro oscila entre a descrição minuciosa de uma época e o desenvolvimento de um enredo pouco atraente, envolvendo a perda de um medalhão pelo jovem Pedro, príncipe herdeiro e futuro monarca, e sua tentativa de recuperar a valiosa peça em colaboração com o garoto Leonardo (personagem que o autor busca em Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida), além de uma intriga política ligada ao paradeiro do medalhão e aos famosos conflitos entre D. João e Carlota Joaquina. Emprego o verbo oscilar porque em nenhum momento ação e crônica se enlaçam para dar qualidade e fornecer elementos uma à outra.
Nesse aspecto, Na multidão dá um banho em Era no tempo do rei: a Copacabana apropriada/inventada por Garcia-Roza fornece elementos para a urdidura da atmosfera de solidão e individualismo que permeia o livro, contribuindo para a criação de coerência ficcional e assim permitindo ao leitor entrar na narrativa como se fosse um observador atento e calado, como se visualizasse e sentisse a presença dos personagens. Em Era no tempo do rei, os longos relatos sobre a cidade e seus costumes, embora valiosos e bem tecidos, mostram-se quase sempre finalidades em si mesmos, panos de fundo excessivamente trabalhados sobre os quais desfilarão personagens “borrados” e pouco convincentes. Isso dificulta a percepção do centro da narrativa, o ponto de apoio em torno do qual detalhes e digressões adquirem sentido.
Também contribuem para a sensação de ausência de um centro narrativo as excessivas referências a figuras pouco importantes para a trama principal, apresentadas quase sempre em aborrecida estrutura de cascata: Vidigal é exposto em minúcias até que se faça menção a Mademoiselle Didi, que então é delineada com pormenores até a aparição do Dr. Wooster. O círculo se completa com o retorno a Vidigal (que dos três é o único com papel decisivo), sem que o excurso tenha colaborado para a compreensão de seu caráter ou para o esclarecimento de algo que o leitor deva conhecer.
A excessiva atenção dada à cidade, a seus costumes e habitantes, acaba por deslocar a ênfase que deveria ser atribuída ao par principal, Pedro e Leonardo, que carecem de maior desenvolvimento psicológico. Em nenhum momento o leitor chega a conhecê-los de fato. Um sempre é pensado em referência ao outro, num paralelismo rígido e esquemático:
Depois de limpar os dentes com palitos tirados de um paliteiro de ouro, meteram-se em camisolões de seda e dormiram. Leonardo, estranhando a princípio os tecidos frescos e escorregadios que o cobriam, sonhou com o luxo do palácio; Pedro, relembrando a emocionante fuga pelo alto dos Arcos, sonhou com a luxúria das ruas - nunca mais iria querer outra vida.
O nobre que sonha em ser plebeu e o plebeu que almeja ser nobre, mesmo que por um dia. Fora isso e alguns detalhes insignificantes, como a notícia de que ambos foram criados sem as avós e não sabiam ler ou escrever direito aos 12 anos, poucas informações relevantes são fornecidas - a não ser o fato de que, em alguma medida, eles representam uma espécie de microcosmo da nação:
…Leonardo preferia ser como o Brasil: vagabundo, alegre, virador, esperto, sensual - e de que importava o futuro se o presente era tão generoso?
…Pedro estava a caráter, como estaria pela vida afora, em seu papel de azougue, xucro e irresistível, grosso e fino, puro e depravado, que nem o Brasil.
Apesar de tudo, existem bons momentos em Era no tempo do rei: os cuidadosos retratos das ruas, assim como da Quinta da Boa Vista e do Paço Imperial; o olhar aguçado para os costumes citadinos e a vida cotidiana; a passagem em que Pedro e Leonardo encantam-se pelas belas ciganas Moira e Esmeralda; e especialmente os momentos envolvendo Bárbara dos Prazeres, ex-amante do rei desterrada no Brasil, assassina de marido e amante, prostituta que enlouqueceu por ter memórias incompatíveis com seu destino desgraçado. Sua história cativa, desperta interesse e compaixão. Cabe até mesmo a pergunta: as luzes não poderiam ter ficado mais tempo sobre ela?
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Em um jogo morno, típico de início de temporada, Na multidão joga o suficiente para vencer com segurança o confuso Era no tempo do rei, sem dar espetáculo. O placar é de 2×0, e poderia ter sido “mais elástico”, não fosse a rigidez quase esquemática que em diversos momentos faz de Na Multidão um livro um tanto aborrecido que, diante de um adversário mais qualificado, poderia inclusive ter perdido “para si mesmo”.

Na multidão
de Luiz Alfredo Garcia-Roza




























06/10/08 - 1:40 pm
A resenha é regular e a partida é uma pelada.
{ Citar este comentário } { Comentar }06/10/08 - 2:16 pm
Cara, a resenha conseguiu atingir o objetivo: brochou todo o meu interesse em ler ambos os livros.
Valeu.
1 abraço.
{ Citar este comentário } { Comentar }06/10/08 - 4:55 pm
Os cacoetes de jornalista do Ruy Castro aparecem em todos os seus os livros, para o bem e para o mal, e a resenha os aponta com clareza. São obras divertidas de se ler. Gosto, nem tudo na vida é angústia e profundidade. Mas, mesmo sem ler Na Multidão (fiquei com vontade), aposto que o resultado não foi zebra.
{ Citar este comentário } { Comentar }07/10/08 - 2:22 pm
Olá
{ Citar este comentário } { Comentar }Sou suspeita pra comentar já que sou fã do improvavel delegado carioca, boa pinta, educado, sensível, culto e com nome de filósofo, Espinosa, da série de romances policiais de Garcia-Roza. Na verdade a boa resenha me fez pensar : será que são mesmo romances policiais as ficções deste autor? É que muitas vezes o personagem principal de ‘Achados e perdidos’, ‘Espinosa sem saída’, ‘Janela em Copacabana’, ‘Perseguido’, ‘Silêncio da chuva’, ‘Vento sudoeste’ e ‘Na multidão’ raciocina e desvenda os crimes c/ a sensibilidade de um psicanalista.
Reforcei meu desinteresse no livro do badalado escritor de biografias e dou pontos ao escolhido livro do discreto psicanalista.
Um abraço.
07/10/08 - 11:04 pm
Realmente, no meio de um livro ambientado na colônia, a menção ao Brasil “vagabundo, alegre, virador, esperto, sensual” é aquela mesma piscadela de sempre, como um cacoete de ator. O livro de Garcia-Roza parece mais honestamente circunspecto.
{ Citar este comentário } { Comentar }08/10/08 - 12:16 am
Patrícia,
concordo contigo: os romances do Garcia-Roza fogem bastante de certos aspectos do romance policial tradicional, especialmente o Na Multidão, até mesmo porque o raciocínio lógico não é o ponto forte do Espinosa.
Dr. Plausível,
o livro do Ruy Castro me pareceu muito superficial. Penso em autores como Di Benedetto e Pynchon, que têm um cuidado extremo ao construir personagens, situações e linguagem em seus romances ambientados num passado distante. Essa preocupação é, pra mim, condição decisiva para um bom romance histórico. Em Era no Tempo do Rei, a linguagem é um simulacro feito de expressões curiosas, os personagens são caricaturais e as situações são tão presas ao enredo que deixam a trama completamente quadrada. Não me apaixonei pelos dois livros. Na verdade, sequer gostei verdadeiramente deles, mas Na Multidão, pelo menos, é um livro bem feito, bem trabalhado, com um ponto.
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