Oitavas de final
Jurado: Doutor Plausível
A capa de Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi é uma boa introdução ao livro: ao fundo, uma parede de azulejos com uma conhecida imagem católica de Jesus, cortada ao nível do pescoço, com suas mãos perfuradas ladeando seu “Sagrado Coração”; em primeiro plano, uma cabeça de boneca sem olhos repousa em cima de um televisor em q duas mãos remexem alguma tripa numa cirurgia. A capa contrapõe de um lado uma cosmogonia redentora porém mutilada e do outro uma analogia desumanizada e tétrica do Jesus na parede.
Em linhas gerais, Lugares é a história da desintegração psíquica de uma repórter televisiva (cujo nome, Cristina, só aparece no final) após presenciar a conseqüência imediata de um ato bárbaro: durante uma reportagem numa favela carioca, um menino tem as mãos perfuradas a bala e é morto com um tiro na cabeça. Presenciar o incidente desestabiliza a repórter de tal modo q a partir daí até quase o fim do livro vamos acompanhando suas visões e alucinações, enquanto ela supostamente sofre aquilo q em psicanálise chama-se “delírio a céu aberto” – qdo o conteúdo do inconsciente aflora com seus símbolos recônditos e suas interpretações distorcidas e controla as percepções da realidade, sem a mediação de uma neurose.
Juntando o Jesus da capa com sua analogia e a criança inocente de mãos perfuradas, já se vê q estamos em algum âmbito simbólico. Até aí, tudo bem: misture crime, criança, cristianismo e Cristina, e alguns símbolos pouco crípticos já transparecem. O grande problema de Lugares é q o simbolismo pessoal da protagonista toma conta da história em tal grau q a maior parte do tempo não se sabe de q cargas d’água ela está falando. O texto em si é uma colcha de estilos entre o ensaio, a crônica alegórica e a narrativa confessional, contendo uma profusão de declarações em tom aforístico sobre porcos, hidras, museus e outros símbolos do panteão pessoal da repórter; descrições delirantes de uma “Central do Tédio”, um “Porco de Silício”, uma “bolsa de valores social”; fragmentos de reportagens sobre coleta de pessoas como lixo, decapitações (¿lembram-se do Jesus sem cabeça na capa?) e valas q se abrem no chão tragando turistas desavisados. A repórter delira OU sonha OU vê q o espírito da criança morta a acompanha pra todo lado como um encosto; tem uma relação real OU imaginada com o motorista do furgão da emissora (com o talvez emblemático apelido de “Baiano”); expulsa de casa o marido meia-boca OU muda de residência OU é levada a uma clínica de repouso; e muitos outros “isto OU aquilo”: nada se sabe ao certo pois tudo é visto a partir de seu delírio.
De minha descrição, pode parecer q escarneço, mas não: Lugares não é um livro leviano. Muito pelo contrário, é sobriamente sério. Só q, infelizmente, está embebido na seriedade fóbica do Brasil de hoje, uma seriedade perseguida por culpas econômicas, dívidas sociais, delírios de segurança e pelo fascínio mútuo entre ricos e pobres. É preciso levar a sério demais os pânicos fomentados por mitos e pela imprensa pra criar uma repórter carioca (!) q acorda se atualizando com o noticiário policial no rádio (!!) e até hoje só teve medo de parecer feia ou velha, e q de repente e implausivelmente perde totalmente as estribeiras por presenciar a morte de um Jesuzinho, e depois parece se aliviar por ter OU imaginar um êxtase sexual socialmente compensatório com um “Baiano”, e então tece vagas abstrações sobre a saudade irreconciliável de algo insubstituível…
Mas pode haver mais por trás do q li. Só q não conseguiu me interessar. ¿O livro é uma metáfora da humanidade e dos delírios resultantes do assassinato da inocência e dos valores cristãos? Não sei. Ou ¿é o oposto, uma fantasia em q o asqueroso mundo de hoje com sua hipocrisia cristã, suas fobias e culpas, é curado através do valor terapêutico da racionalidade? Vá saber. Ou ¿serei só eu aqui tentando fazer sentido de uma coletânea de ensaios mais ou menos desconexos, escritos segundo a inspiração do momento? Sei lá. O livro é de tal modo áspero e obscuro q me faz querer desvendar seus mistérios tanto qto quero ganhar a vida como psicanalista, dia após dia destrinchando o panteão simbólico individual de cada um q entra da rua.
E é uma pena; de fato, uma grande pena. Porque ainda não falei do assombroso embora inconstante talento de Cecília Gianetti com as palavras. Em particular, o início do livro pega o leitor pelo pescoço. Depois, em meio à modorréia confusa dos delírios e das divagantes orações subordinadas, quase todo capítulo traz uma frase incisiva ou uma escolha de palavras inspirada, um parágrafo fascinante ou uma idéia admirável. Por exemplo, a sacada de intitular os cinco últimos capítulos simplesmente “Cristina”, mostrando a insistência turrona da repórter em recuperar o foco em sua identidade racional, é um achado q me impressionou deveras. Mas a confusão geral pesou demais. Fui levado a imaginar – juntando nossa metáfora da copa e “os 100 metros rasos pra atletas sem senso de direção” do Monty Python – q Lugares é como um time de craques q chutam maravilhosamente bem pra todo lado menos pro gol, um time de gênios da pelota sem treinador nem tática.
Enquanto Lugares, com sua hiper-sensibilidade expressionista, tenta em vão dar forma sintática a um surto psicótico, seu adversário Toda terça utiliza bem o q aprendeu no Curso de Desengano II, cujo currículo ensina q as palavras servem menos pra revelar do q pra esconder o pensamento. A autora é uma chilena de nascimento e família cujos pais migraram pro Rio de Janeiro qdo ela tinha três anos. Crescendo no Rio, estudou numa escola alemã; adulta, estudou na Alemanha e Espanha, e agora se estabeleceu no Rio. Seu livro certamente não poderia ter sido escrito por alguém de formação diferente.
Toda terça está dividido em duas partes por (aparentemente) três narradores. Na primeira parte – q ocupa mais de 90% do livro – cada capítulo com a narradora Laura fazendo análise com o psicoterapeuta Otávio é intercalado por dois ou três capítulos em que um homem de nacionalidade ambígua mas certamente hispânica aparentemente chamado Javier relata sua vida em Frankfurt e seu romance com a alemã Ulrike. Na segunda parte – as 20 páginas restantes – uma terceira narradora junta as duas narrativas anteriores.
As sessões de análise são engraçadíssimas. Saavedra demonstra argúcia nos diálogos e Otávio é um terapeuta singularmente despistado: a paciente diz q perdeu quatro guarda-chuvas numa única semana e ¿ele sequer mexe um cílio? É uma terapia fadada ao fracasso, mas por outro motivo: o q Laura diz ao terapeuta é pontuado pelo q diz ao leitor, e fica óbvio q ela falseia tudo o q diz no consultório, q só está tentando (sem sucesso) seduzir Otávio enquanto lhe dá pistas oblíquas. A narrativa intercalada também está repleta de omissões e obliqüidades. Javier nunca esclarece a ninguém se seu nome é mesmo esse, se é boliviano ou colombiano ou outra coisa, se está ou não apaixonado por Ulrike, se realmente pensa o q opina, se diz o q pensa. Ele vive um resumo das diferenças entre hispânicos expatriados e germânicos: os hispânicos são esquivos e sobrevivem erraticamente nos interstícios da sociedade moderna e racional construída por germânicos práticos e organizados q, é claro, são atraídos pelo sol, suor e sensualidade dos hispânicos. A terceira narradora – suspeitamente soando como Javier – se encontra com Laura no Rio depois de ter estado com Javier na Alemanha. Não é senão na última parte q se desmascaram as distorções proferidas nas duas outras narrativas, e não é senão no último parágrafo, na última frase, q nos é dado conhecer a verdadeira natureza de Laura.
Toda terça pode parecer uma história simples sobre pessoas q estão apenas mentindo, e pode ser lido com enorme interesse e prazer sem sair desse nível. Mas Saavedra não se contenta em apenas contar uma história. A diferença crucial entre Lugares e Toda terça é q no primeiro não há ESPAÇO pro leitor, enquanto o segundo é como um parque com várias opções de lazer.
Daria pra passar semanas relendo esse delicioso e sombrio romance pós-moderno, e tentando formar imagens coerentes rearranjando as peças de seu quebra-cabeça, e talvez todas as imagens resultantes funcionassem. Ou talvez não. De qqer modo, analisar demais os ingredientes do labirinto criado pela escritora chilena radicada no Brasil poderia terminar subestimando sua inventividade literária.
Talvez não seja à toa, talvez seja, q o parágrafo acima é de fato um decalque do começo da crítica do New York Times ao filme Généalogies d’un crime – mencionado obliquamente durante a “terapia” de Laura – do talvez curiosamente também chileno expatriado Raúl Ruiz, q também talvez curiosamente migrou prà França em 1973, ano do nascimento de Saavedra. Além de conter uma duplicidade q tem um importante paralelo em Toda terça, Généalogies tem um alter-ego do diretor q diz num momento crucial: “Les hommes croient vivre des histoires; en realité c’est les histories qui possèdent les hommes.” Toda terça é um entrelaçado tal de influências, intertextos e referências, q parece confirmar essa tese palavra por palavra.

Um exemplo: logo no segundo capítulo (livro com intertexto sempre começa a mostrar as garras no segundo capítulo), Javier vê o filme argentino Moebius, cujo título é uma referência à fita de Möbius. É possível afirmar q um autor q inclui a fita de Möbius num livro vai tentar sua metáfora narrativa. Estruturar um romance como uma fita de Möbius não é idéia nova, mas Toda terça até q se sai muito bem. O livro tem os três elementos da fita: duas histórias paralelas, uma interna e outra externa, e no fim uma reviravolta q coloca a história interna no exterior e a externa no interior. E aí vc tem q ler o livro de novo pra entender um pouquinho mais, &c. O enredo não é meramente circular: os elementos se sobrepõem uns aos outros e às vezes parece q o objetivo da autora, assim como o de Laura ou Javier, é ofuscar a revelação de algo sobre si mesma.
Um outro filme citado obliquamente é El lado oscuro del corazón, com poemas de, entre outros, Mario Benedetti – uruguaio q também talvez curiosamente também fez o primário numa escola alemã (e aparece no filme recitando em alemão). Javier vê com sarcasmo o fato de o público alemão achar “lindo” o protagonista do filme recitar poemas de amor conturbado por contraposições circulares enquanto vaga pelas ruas de Montevidéu e Buenos Aires, tal como ele mesmo parece vagar em Frankfurt.
Também os nomes dos personagens de Toda terça são parte do intertexto. O conto de JLBorges Ulrica, também mencionado obliquamente, é narrado por um Javier Otálora, cujo sobrenome parece ter gerado também Otávio e Laura. As personagens Camilla e Sandra (talvez a mesma pessoa) são quase certamente auto-referências, pois parecem derivar do nome e sobrenome da própria autora: Carola Saavedra. O q tudo isso significa pode ou não estar contido no livro. Há tanta coisa pra se ver e pensar em Toda terça q, acho, eu só poderia escrever uma boa análise após uma terceira leitura.
Mas na verdade Saavedra não precisa de intertexto: ela tem suficientes recursos próprios pra prescindir de artifícios estruturais. Porém, se seu talento for exatamente o intertexto, é difícil ver um próximo livro desvinculado de sua singular experiência de vida.
Apesar de toda essa babação, o livro de Saavedra tem o q pra mim é um problema: esta é uma copa de literatura brasileira, e Toda terça não me parece literatura brasileira. Não digo isso porque a autora nasceu no Chile e “adotou” o português. Se fosse esse um livro em português com clara descendência de ou parentesco com a literatura brasileira e escrito por um egípcio morando em Tóquio, eu diria sem problema q é literatura brasileira. Mas raciocine comigo: Toda terça descende diretamente de Cortázar, é parente de García Márquez, brinca de Borges, intertextualiza com a literatura e o cinema hispânicos, tem ritmos do espanhol, cadências hispânicas, todo um repertório de imagens provindo da e comum na América hispânica; a personagem Laura mora no Rio de Janeiro mas fala de Botafogo como os portenhos falam de Buenos Aires; quando Otávio diz “não sou lacaniano”, a frase tem muito mais ressonância se pronunciada em Buenos Aires, Santiago ou Caracas do q no Rio; Ulrike, apesar de germânica, é uma mulher tipicamente hispânica; a Alemanha q aparece em Toda terça tem pouca coisa além de cursos de espanhol, mostras de cinema hispânico, bares caribenhos, grupos de alemães tocando salsa, senhoras sonhando com aposentadorias em Minorca; grande parte do humor de Javier é o sarcasmo do cucaracha contra o europeu que o trata como um mero detalhe a estudar (se os brasileiros têm complexo de inferioridade, o q os hispânicos têm é um rancor da superioridade: só mesmo um poeta hispânico, tipo Benedetti, poderia escrever todo um poema com o recalcado título e tema “El Sur También Existe”); o final de Toda terça tem uma surpresa q depende de um tabu ou de pudores q podem chocar um país ãã… carola como o Chile, mas q a maior parte das artes narrativas brasileiras já deixou pra trás há muito tempo; o livro tem até sotaque, utilizando palavras e expressões q, tomadas isoladamente, podem até ser usadas em português ocasionalmente, mas q em quantidade são indício de outra coisa: “isso me desesperava”, “essa aura que carregam as pessoas”, “recém começando”, “compartir”, “por casualidade”, e mais, pelas minhas contas, 78 hispanismos igualmente patentes e 35 meio incertos (diga-se q Lugares tem alguns anglismos, tipo a horrenda frase “a lembrança de sua beleza desaparece mais rápido do que ela pode gastar dinheiro no shopping”). Acho q não estaria muito longe da verdade a conjetura de q Saavedra, perante as opções de publicar um livro apenas usual em espanhol ou um livro inovador e instigante em português, preferiu a segunda. Óbvio.
É como se o Boca Juniors tivesse contratado alguns jogadores cariocas e quisesse competir no Brasileirão; mas se o voto popular e os dirigentes desta copa colocaram Toda terça na disputa, ¡que vengan los toros! E sorte da literatura brasileira, digo eu. ¿Por que não? Tem grandes chances de ganhar.
A pergunta com q concluí minha resenha na Copa 2007, “¿Será q ninguém quer o Brasil?” poderia ganhar outra formulação: “¿Será q ninguém quer o brasilês?” É preciso dizer q Toda terça, apesar de descender de Cortázar, utiliza o brasilês com graça e aplomb – embora alguns formacultores possam chiar de seus ãã… “desvios da norma” (hahaha). Mas acho q entre os herdeiros de Graciliano Ramos e Euclides da Cunha TEM q haver potencial prum livro superiormente inteligente e sofisticado com algo novo a dizer, algo q o brasilês está singularmente posicionado pra dizer, sem referência a hispanismos, anglismos e germanismos. Só q… talvez os brasileiros q suprem e controlam o meio editorial já se sintam por demais cosmopolitas e globalizados pra deixar q isso aconteça.
Venceu o Toda terça por 4 a 1. Toda terça fez um pênalti, mas o juiz ladrão apitou o final da peleja antes de Lugares poder cobrar. Vergonhosa atuação do juiz. Mas mesmo se marcasse o gol de pênalti Lugares não ia vencer, ia? Então.





Mais uma vez, é ao perdedor que a resenha me instiga a leitura.
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Nossa Senhora! Melhor resenha até agora fácil, fácil; e ainda mais bacana que a da Copa anterior pelo próprio autor.
Parabéns, Dr.!
Discordo do Rodrigo e digo que gostaria de ler ambos os livros, principalmente o vencedor.
Dá-lhe Copa!
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Realmente a melhor resenha até agora.
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Gostei da resenha. Principalmente pq tive vontade de ler os dois livros.
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Resenha excelente mesmo, mostrou os valores e defeitos que o autor viu em cada um dos livros e as motivações de sua escolha. Pra gente aprender como fazer.
E fiquei interessado em ler Toda Terça.
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Bravo, Dr. Plausível.
Diferente do Rodrigo acima, minha vontade ficou restrita ao vencedor.
Resgate me pareceu algo como o “Estorvo”, do Chico. Estou certo? Confesso que esses delírios fóbicos podem ser interessantes no início, mas depois me entediam bastante.
Se Saavedra chega perto de ser um Cortázar com camisa do Flamengo, fico com ela.
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Leia-se acima “‘Lugares’ me pareceu algo como o ‘Estorvo’”, e não Resgate.
De onde tirei ‘Resgate’, meu Deus? Ato falho?
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Excelente resenha, realmente. Também discordo do Rodrigo: acho que os dois livros foram bem delineados, deixando por nossa conta a vontade – ou o desafio – de lê-los ou não.
(Não me senti com a menor vontade de ler nenhum desses aí de cima, e não por culpa do excelente resenhista, é claro)
À propósito, ao ler as resenhas da Copa até agora, a impressão que tenho é a de que alguns livros flertam com um ou outro tipo de experimentalismo (ousadias formais, temas marginais, fluxos de consciência, etc) em menor ou maior grau. Ou talvez isso nem possa ser chamado de “experimentalismo”, não sei… deixo isso para os críticos aqui presentes.
Não estou sabendo me explicar, então vou direto ao ponto: cadê a velha e boa história com começo, meio e fim, e cuja cada página lida “chame” a seguinte; aquela história que, quando a interrompemos devido a outros afazeres, permaneça gritando por nós, por haver despertado em nós o interesse – interesse mesmo – pelo destino de seus personagens?
Na minha humilde opinião cada um escreve o que quer (dããã), e experimentalismos (palavrinha marrenta…) fazem parte da “parada”. Só que – talvez seja a lua, sei lá – eu gostaria de ver mais livros que despertassem mais “prazer” e menos “indagações”. Que trouxessem alguma satisfação óbvia, ainda que fugidía, mais do que me deixassem… intrigado.
Curiosamente, e ao contrário da maioria que opinou aqui, entre os livros citados até agora os que me despertaram alguma vontade de ler foram “O Dia Mastroianni” e “Contramão”, justamente por aquilo que para alguns (lembro de ter lido algo a respeito nas resenhas sobre eles) seria uma fraqueza (ou falha, ou defeito): a despretensão. Tratam-se, pelo que entendi, de histórias que fluem, e que acompanhamos sem maiores dificuldades e até com alguma curiosidade sobre seu desenlace.
Repito, nada contra experimentalismos, literatura marginal (ou pseudo), desestruturações, fluxos de consciência, etc. Apenas acho que, para se arriscar nessa seara, basta escrever; mas para fazê-lo realmente “bem” é preciso ter muito, mas muito “cojones”´e muita, muita competência. Acho que poucos o fazem com a maestria – e é preciso a meu ver maestria realmente para esse tipo de literatura, sob o risco de ser apenas pastiche. Admirável, a ousadia de quem tenta e faz. Aliás, faz porque quer e danem-se os outros – ao menos é legal imaginar que a coisa se passe assim. Mas para ser realmente bom nesses estilos (outra palavrinha escrota) tem que ser “o” (ou “a”) cara. E pouquíssimos o são.
É apenas a opinião algo confusa de um acompanhante fiel dessa Copa.
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Claudio, assino embaixo e reconheço firma. Esse debate, aliás, também rolou na primeira Copa, principalmente no jogo apitado pelo Jonas Lopes (link: http://copadeliteratura.com/2007/jogo12), que termina com a frase: “Dosar essa pretensão é um dos grandes desafios dessa geração de autores.”
Suspeito que muitos autores potencialmente bons estragam livros – às vezes carreiras inteiras – tentando escrever de uma forma vista como mais válida do que outras, validade ancorada numa teórica dificuldade extra. Mas quem já sentou à mesa com um papel e uma caneta na mão – ou um computador diante dos olhos – sabe como é difícil inventar uma boa história e personagens interessantes. E justamente por isso, apesar de eu ter gostado muito da resenha da Luciana, acho que “Contramão” merecia uma melhor sorte na Copa: a preocupação principal do livro é prender o livro, e ele consegue fazê-lo muito bem. Pode parecer pouco, mas é mais do que muito livro com excesso de pretensão.
Por outro lado, outras histórias “com começo, meio e fim, e cuja cada página lida “chame” a seguinte”. Os dois romances do próximo jogo, por exemplo, entram nessa categoria. A amostra inicial da Copa talvez estivesse um pouco enviesada para o lado do experimentalismo.
Abraços,
Lucas
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É por aí mesmo, Lucas.
Você está certíssimo ao afirmar, referindo-se a Contramão (mas que deveria servir para qualquer outro), que “a preocupação principal do livro é prender o leitor”.
Não discuto que esse objetivo possa ser atingido através da linguagem (ou a forma, ou a estrutura, ou qualquer coisa que o valha) dita experimental. Mas para isso tem que ser realmente fera, muito fera. Expresso isso com a maior tranquilidade, porque sou simplesmente embasbacado por Borges, Calvino, Guimarães, Clarice, etc. Autores cuja forma e experimentação eram peças-mestras de sua obra. Mas eram Borges, Calvino, Clarice e Guimarães, cara…
Acho que a forma só pode se sobrepor ao conteúdo quando ela mesma – a forma – tem vigor, qualidade, excelência, magia para isso. Daí a forma passa a ser a própria essência da obra, nem por isso obscurecendo o conteúdo, porém trazendo-o ao lado, com um outro brilho.
Estou esperando pelos livros “palatáveis” que virão por aí. É claro também que não basta ser facilmente legível para ser merecedor de elogios. Como disse você, “… é difícil inventar uma boa história e personagens interessantes”.
Um abraço.
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Nossa, eu fiquei querendo muito ler toda terça. Assim, do tipo quero descer agora no almoço passar numa livraria e comprá-lo. Agora que maldade, heim, doutor fala maravilhas do livro, pra depois dizer que justamente essas qualidades o fazem não parecer muito literatura brasileira, he. ôxi tristeza que me dá. (não pelo doutor, tristeza pela literatura brasileira, claro)
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¡Obrigado a todos pelos elogios!
Mas ¡eu sabia q tinha faltado dizer algo!
Rodrigo disse:
“Mais uma vez, é ao perdedor que a resenha me instiga a leitura.”
Acho q se poderia chamar isso de “efeito copa”: o resenhista, já sabendo quem vai ganhar o jogo, procura ressaltar as qualidades do perdedor e não se esforça tanto pra ressaltar as do ganhador. Vejo agora q é preciso ressaltar algo sobre os dois livros.
Pode ser q um morador do Rio entendesse melhor a geografia social de Lugares. Mas ¿sabe qdo vc acorda e não lembra bem o q sonhou? Após ler esse livro 2 vezes não me ficou nada, exceto talvez a vaga sensação de ter entrado e saído pelo pesadelo de outra pessoa enquanto eu dormia (q não deixa de ser um efeito interessante…).
Claudio Faria,
Outra coisa q preciso ressaltar é q vc pode ler Toda terça inteirinho, se divertir pacas, mas literalmente não ver nada disso q comentei e ter exatamente a percepção de uma “velha e boa história com começo, meio e fim, e cuja cada página lida ‘chame’ a seguinte”. Todo esse intertexto tá escondido; por exemplo, nenhum dos títulos dos filmes é mencionado diretamente, mas suas premissas aparecem em conversas informais. Foi só na 2ª leitura q desconfiei de algo a mais.
Em resumo, tou torcendo bastante por Toda terça.
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De longe a melhor resenha da copa. As outras três me deixaram com a sensação de q algo estava faltando ainda, meu primeiro voto de partida justa. Parabens Dr. Plausível.
Acho q as ressalvas feitas ao “hispanismo” do vencedor cabe muito bem, justamente para dar um aparato maior para o julgamento do publico. Enquanto os outros resenhistas ao meu ver trabalharam de modo muito mais hermético, como se a resenha fosse mera obrigação da copa, essa resenha veio para servir de instrumento para analise dos leitores; fazendo-me crer que os comentários não sejam só para “quebrar-o-pau”(que são necessários, rs), mas também para discutir impressões e pontos de vista.
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Só para esclarece: gostei da resenha. Menos do que a da Luciana, mas gostei. O motivo que me fez querer ler o Lugares foi a seguinte afirmação do resenhista: “quase todo capítulo traz uma frase incisiva ou uma escolha de palavras inspirada, um parágrafo fascinante ou uma idéia admirável.” Infelizmente, narrativas muito espaçosas ou pretensiosas, às vezes deixam de lado uma função lírica da literatura que acho indispensável. Por outro lado, sinto menos falta da leitura de um “delicioso e sombrio romance pós-moderno”, de seus divãs, psicanalistas e referências artístico-conceituais. De qualquer modo, foi feliz o resenhista em saber apresentar cada um dos livros em sua complexidade, evitando simplificações, no mais das vezes, injustas.
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Cláudio, novamente para esclarecer: quando eu digo “me instiga” é porque estou deixando por minha própria conta a opção de ler Lugares, prioritariamente em relação ao Toda Terça. Se eu quisesse generalizar teria dito apenas “a resenha instiga”.
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[O comentário #13309 será citado aqui]
Ok, Rodrigo, desculpe-me se pareceu que eu não aceitei sua opinião. Foi apenas uma opinião diferente, e agora percebo que até mesmo precipitada. Um abraço.
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Gostei muito de Toda Terça, e gostei muito da resenha do Dr. Plausível, que me fez querer ler o livro de novo, atentando para relações sutis e movimentos que não havia percebido inicialmente. Mas discordo da passagem em que ele diz que “o livro de Saavedra tem o q pra mim é um problema: esta é uma copa de literatura brasileira, e Toda terça não me parece literatura brasileira”.
Qual o ser da literatura brasileira, que possa caracterizá-la como tal? A literatura brasileira só existe como dado empírico, ou seja, livros publicados por autores nascidos ou de alguma forma vinculados culturalmente ao Brasil. Toda atribuição de valor a esse dado empírico, para mim, é mero rótulo.
Toda Terça é um livro muito sensível, com um tom bem aguçado para a ironia, um livro que faz o leitor querer ir adiante, chegar ao fim. Nesse sentido ele é até bem modernão, por isso não entendi porque foi chamado de pós-moderno. É literatura da boa, só isso.
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Concordo com o comentário abaixo. Tb li Toda Terça e achei muito bom. Não é nem um pouco pretensioso, ao contrário, é seguro de si, sabe do seu potencial. O esmero da narrativa é envolvente. No que tange à discussão desse jogo, penso que o livro de Saavedra é um bom exemplo da soma entre forma e conteúdo. Ainda que não tenha nenhuma revolução estilística ou conteúdo embasbacante, o livro é de um cuidado muito, muito acima da média atual. Vitória mais que merecida, óbvia.
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Ufa! Finalmente uma boa resenha. Já estava ficando desconfiada da arbitragem desta Copa. Fico feliz pela vitória do “Toda terça”. É meu livro predileto entre os concorrentes.
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Também gostei da resenha, embora tenha me incomodado a FORMA da escrita. Em outras palavras: boa análise, mal escrita.
Ah, e descordo TOTALMENTE de que o “Lugares” não dá espaço para o leitor. Pelo contrário: dá muito espaço, só que incomoda, mexe com os nossos fantasmas, a ponto de não querermos reconhecê-los. Talvez por isso perca essa copa, claro.
Vamos ver se me faço entender: o livro tem uma linguagem que PODE incomodar o leitor (como disse o resenhista, às vezes é lírico e às vezes usa subordinadas, como uma associação de idéias – claro, isso se explica pela “situação” da protagonista); o assunto é incômodo (grosso modo, a violência urbana e seus efeitos na classe média); a maneira como o assunto é tratado é incômoda (novamente, como o resenhista disse, não é realista, mas expressionista, o que é muito RARO na ficção contemporânea). O leitor tem três opções, acredito: correr com medo de si mesmo; achar que aqueles fantasmas todos são da protagonista, ‘tadinha, e que ele vive dentro de uma redoma plausível e para ele aquilo tudo é implausível; ou embarcar em uma viagem que é, sim, dolorosa.
Enfim, talvez o problema seja exatamente fazer um livro “sério”, “relevante” – e isso não combina com uma copa, claro.
Alfred.
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“A diferença crucial entre Lugares e Toda terça é q no primeiro não há ESPAÇO pro leitor,”
Autores com a CG só querem uma coisa do leitor: reverência. Quer ouvir: “nossa, como você é ousada, incômoda, inovadora e visceral, fiquei passado. E você quer dinheiro do estado para seus projetinhos, pode contar com o meu apoio”.
O comentário anterior satisfaz alguns desses elogios. Fico imaginando o resenhista lutando contra a profundidade de Lugares…, “não esse livro vai mudar minha vida, não tenho a coragem”.
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[O comentário #13366 será citado aqui]
Acho que prefiro então sair correndo de mim mesma… (se ainda der tempo, agora que já li Lugares).
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Quer dizer, João Soares Alfred, que as únicas três opções diante de Lugares são 1) fingir que não é com você, 2) fingir que não é com você, 3) embarcar numa viagem com seus profundíssimos e dolorosíssimos fantasmas? Me desculpe, mas realmente não foi comigo; meus fantasmas são outros. Não que eu não possa gostar de um livro que não seja espelho, mas pra isso ele precisa ser no mínimo inteligível. As viagens da personagem eram tão impenetráveis, que eu começava a viajar também (pra longe dela) e de repente me dava conta de ter lido duas páginas sem haver registrado absolutamente nada. Minha impressão? É um livro da autora para a autora, e talvez para um círculo de conhecidos. Um livro piada-interna, digamos assim. Ou dor-profunda-interna séria e relevante, se você preferir.
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Felipe,
Sobre Toda terça, concordo com vc e com o Dado . Aliás, acho q eu mesmo teria dito o q vcs disseram, se não tivesse me atido ao q me intrigou no livro.
Agora, sobre a atribuição de valor àquele dado empírico, tenho isto a dizer:
Na resenha, acho q não valorizei ou desvalorizei Toda terça enquanto literatura. Num parêntese sobre uma pulga atrás da orelha, apenas questionei a adequação desse livro na categoria “literatura brasileira”. J.Austen e P.G.Wodehouse são inquestionavelmente lit. inglesa; Dostoiévski é inquestionavelmente lit. russa; Flaubert é inquestionavelmente lit. francesa; &c &c, mas o atributo “nacionalidade da literatura” transcende (ie, é mais do q) a nacionalidade do autor ou a língua q usa – entendida meramente como instrumento q um acidente de nascimento colocou em sua boca. Transcende pq cada frase desses autores descende de outras frases da mesma língua e por sua vez germina naturalmente outras frases nela. Além de deverem sua identidade à língua, seus livros também contribuem pra essa mesma identidade, e estão encaixados nessa identidade. Mais do q isso, o jeito de pensar desses autores é quase inseparável de suas línguas e das tradições dessas línguas.
Não vejo isso em Toda terça. Por trás do vernáculo usado, enxergo o espanhol nitidamente, como enxergo nitidamente o inglês por trás de livros traduzidos (e pelo desconforto q me causa, não leio traduções). Não é só uma questão de palavras e expressões mas de cadências de idéias, repertórios de sensações, &c. É muito difícil de explicar: só lendo muita literatura hispânica (no original) pra entender o q quero dizer.
Por não “descender” (nesse sentido fechado) do português, não vejo Toda terça contribuindo prà indentidade brasileira como Emma, Madame Bovary, e Crime e Castigo e milhares de outros livros, cada um a seu modo, se encaixam em e contribuíram prà identidade de suas línguas. O Brasil pode ser visto como uma colcha de retalhos ou um caldeirão de várias culturas, mas a identidade hispano-americana é já suficientemente desenvolvida e distinta pra ser confundida com a brasileira.
Toda terça é um grande livro. O leitor atento pode lê-lo em diversos níveis, isoladamente ou todos ao mesmo tempo. Verá q nada ali aparece por acaso, ou pra encher lingüiça. Minha resenha é quase e apenas um guia de pesquisa pra começar a entender a estrutura mental q o engendrou. Com esse livro, Carola Saavedra entrou definitivamente em meu panteão pessoal.
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Alfred,
Vc obviamente entendeu Lugares melhor do q eu, talvez por ter mais acesso às premissas da autora.
No entanto – e independentemente de qualificar o livro como hermético –, vi tudo isso q vc disse aí, claramente, mas como potencial e não como realização. Quero dizer q Lugares tentou mas não conseguiu. Basta com dizer q foi a capa (q comecei a resenha descrevendo) o q me permitiu começar a montar algum sentido a partir do q li.
Tua acusação de q um livro “sério” e “relevante” não “combina” com a copa soa como despeito, pois com certeza não é verdade. Se não por outro motivo, certamente pq é possível ser sério e relevante, mas simplesmente não conseguir se fazer entender, inviabilizando a coisa toda.
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pensei que não encontraria críticos com argumento nesta Copa, me enganei. Mesmo não concordando com várias coisas escritas pelo Dr. Plausível, é verdade, ele é plausível. E melhor ainda, ele não fugiu das críticas — acatou e rebateu. O que, em regra, deveria fazer parte do debate. Parabéns.
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Diz-se: o grande escritor x é inquestionavelmente literatura inglesa; o grande escritor y é inquestionavelmente literatura francesa; e o z é, russa. Não será o contrário? As literaturas inglesa, francesa, russa, não se tornaram inglesa, francesa e russa por causa dos autores? Se estes autores não tivessem nascido, seria a literatura a eles associada, a eles associável?
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Dr., essa classificação das literaturas pelo critério nacional teve seu momento, sua validade, sua razão de ser, mas, como disse o Mauro Judice aí embaixo, trata-se de uma via de mão dupla. Quando penso nessa discussão, me lembro daquele texto do Machado, “instinto de nacionalidade”, onde ele mostra seu aborrecimento com os que buscavam em índios e coisas do tipo uma especificidade literária brasileira. Machado, por exemplo, busca suas “frases”, para empregar uma expressão que você usou, em Shakespeare, Montaigne, Victor Hugo, Sterne, etc., e o que tem ali de particular, de local (o tal do Rio de Machado), só se tornou literatura através dele, inexistindo antes como aspectos literários de uma nacionalidade específica.
A definição pelo critério da nacionalidade já fez o maior sentido, mas hoje me parece um argumento sonolento. Outro dia, ouvi uma entrevista da Saavedra no programa do Juca Kfuri na CBN. Ele a definiu como “autora chilena”, e ela, educadamente, e com um indefectível sotaque da zona sul carioca, disse que se formou como escritora no Rio, etc., e ele então destacou as viagens que ela fez, e ela novamente fez questão de marcar seu lugar entre os autores brasileiros. Por que? Ela, inclusive, cita em várias entrevistas que suas referências mais fortes são Bolaño, Walser, entre outros. Uma baita salada, que acaba saindo muito melhor que os rótulos de escritora brasileira, chilena, multicultural ou qualquer outra coisa. Porém, volto a dizer, sua resenha foi excelente, cheia de sutilezas e leituas sagazes. Muito bom.
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Mauro e Filipe,
“As literaturas inglesa, francesa, russa, não se tornaram inglesa, francesa e russa por causa dos autores?”
Claro, mas meu ponto ali foi q a língua precede o autor, como também o sucede. E q a língua não é apenas um vocabulário de palavras e estruturas, mas tbm um modus operandi mental. Línguas diferentes têm assuntos diferentes, e falam de assuntos iguais de um modo diferente, com uma cabeça diferente. Existe entre a língua e a cultura uma alimentação mútua. Certas idéias simplesmente não ocorrem em certas línguas. Acreditar no oposto é característica de literaturas nacionais menos expressivas, talvez como auto-defesa; mas ninguém se destaca por ser igual.
Até gosto bastante do Machadão. Mas ter como escritor-mor do Brasil e patrono da ABL um cara q imitava Sterne sempre me pareceu meio bruzundanga.
¡E obrigado pelos comentários!
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caro Dr. Palusível,
você já leu Machado de Assis?
Já leu Sterne?
Você come merda?
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[O comentário #13516 será citado aqui] Completamente desnecessário isso. Incapacidade mental ou emocional de se expressar sem agredir ou arrogância vazia?
Acho ótimo que a Copa propicie pontos de vista tão díspares e interessantes, mas de uma forma ou de outra todos aqui acrescentam, instigam, discutem, debatem. Todos participam, enfim.
Não precisamos de idiotas aqui. Sugiro que o ID desse sujeito seja identificado e bloqueado, a fim de evitar que percamos tempo e o foco com quem não importa.
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Zé Bucket,
Sim, sim, não.
Cláudio,
Obrigado, mas acho q exagerei um pouco: onde se lê “um cara q imitava Sterne” leia-se um cara q imitou Sterne”.
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[O comentário #13516 será citado aqui]
Isto é o que chamamos de intolerância e que fez muitos estragos na literatura e na sociedade história afora.
Se não tem capacidade para contra argumentar, faz perguntas mais produtivas.
Dr. Plausível, por favor,
Em que momento as obras de Machado e e Sterne se cruzam?
à propósito, só que não teve Hepatite A pode responder que não comeu merda. Eu comi e me dei mal.
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Marco,
A influência de Sterne sobre Machado é bem conhecida. Veja, por exemplo, isto:
http://www.idelberavelar.com/abralic/trabalhos/Darlan2.doc
O livro em q ele imita Sterne mais abertamente é Memórias póstumas de Brás Cubas, em q usa até recursos tipográficos, capítulos vazios, longas reticências e outras idéias (e idéias estruturais) idênticas às surgidas com The life and opinions of Tristram Shandy.
Outra coisa é q Tristram Shandy é escrito como uma tentativa de autobiografia por um velho e, enquanto Brás Cubas dá um passo a mais e faz a autobiografia escrita por um defunto, note, no entanto, q esse é um dado artificialmente embutido em Brás Cubas, pois o fato de o protagonista estar já morto não faz diferença alguma na trama ou em como escreve suas memórias: elas igualmente poderiam ter sido escritas por um velho caquético, como fez Sterne. Machado apenas pegou idéias criadas por Sterne e adaptou-as a seu estilo de romances pra senhorinhas sobre intrigas conjugais temperadas de sarcasmo. Mas, carente de uma mente mais complexa e abrangente, fez um livro derivativo e certamente muito menos interessante, e mais corriqueiro, do q o de Sterne.
E o Machadão é considerado o paradigma máximo da lit. brasileira. Desculpe, mas tem gente bem mais merecedora.
Claro q Brás Cubas não deixa de ser um livro interessante em meio a outros livros interessantes dele. Mas já passou da hora de virar essa página interessante.
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Ah, esqueci de dizer q o próprio Machado declara abertamente sua dívida a Sterne na introdução do Brás Cubas.
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Quanto ABL eu não sei se ela merece um patrono como Machado de Assis, mas Machado de Assis merece ser patrono porque além da vasta obra dele e de sua influência na literatura brasileira, ele foi “sócio-fundador” da ABL.
Agora “Escritor-mor do Brasil” é forte. Tomara que ninguém mereça este título.
Não esperava uma resposta a pergunta, eu só estava exemplificando, de qualquer forma eu gostei.
Talvez o Sr. Zé “chuta” Balde queira responder.
Em tempo, acredito que “imitar” tem uma importância que transcende à literatura. “Imitar” é um mecanismo de assimilação que tem importância cultural, educacional e evolucionista. Ninguém deve ser crucificado por “imitar”.
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a provocação chula foi apenas isso, provocação chula. o objetivo simples foi tirar o “juiz” de sua confortável posição. outros questionaram seus critérios e como ele não conseguiu responder a contento, terminou sua resposta com a “cagada” que foi dizer que o machadinho imitava o sterne. o problema está na ignorância entre não saber diferenciar imitação de influência. se o brasileiro usou de recursos popularizados, mas não inventados por sterne, tanto faz. Na verdade ouso dizer que, fora os recursos tipográficos, machado conseguiu expandir, aprofundar, torcer algumas coisas que ele aprendeu com sterne, tendo feito o mesmo com muitos outros escritores. O que explica apenas uma coisa, como qualquer razoável escritor, machado era um bom leitor, assim como o foram shakespeare, cervantes, sterne(que aliás foi MUITO influenciado por cervantes, imitou né?), joyce, beckett ou coetzee.
dizer que machado de assis imitou sterne é julgamento bem apropriado a quem faz tais ligações a nacionalidades. Curioso, nesse ponto, como ficam a ficção de Conrad, Henry James, só para citar dois nomes.
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e quando diz que “carente de uma mente mais complexa e abrangente, fez um livro derivativo e certamente muito menos interessante, e mais corriqueiro, do q o de Sterne”, ele apenas não consegue ler que são dois escritores com propósitos bem distintos, e o erro fatal é tentar ler um livro de machado de assis como deveria ter sido escrito por sterne. machado serve-se do modelo de sterne para chegar a lugares completamente distintos, sterne nunca se interessou especialmente pelas ambiguidades morais e outras carcaterísticas psicológicas que foram centrais à obra de machado de assis. sterene foi maior? certamente. apenas dr. aprazível está lendo um machado de assis que não existe.
curioso é que a resenha da copa está boa, mas o que percebo aqui é um desejo de aparecer: VAMOS DERRUBAR OS ÍCONES. Mostrar a VERDADE. O pior é que ele diz que já chegou a hora de virar a página, sem perceber que certo tipo de “crítico” já usou os mesmos argumentos míopes anteriormente e que ele descortina com o peso da novidade.
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Zé Balde, é mesmo preciso uma provocação chula para atingir o objetivo assumidamente simples de tirar o juiz da sua posição confortável? Nos seus dois últimos comentários você provou ser capaz de articular idéias relativamente sofisticadas, e concordo com você mais do que com o Doutor no debate Machado vs. Sterne, mas isso só piora as coisas: se já é ruim saber da existência de tanta gente que, incapaz de trocar idéias, passa o tempo trocando xingamentos, é ainda pior saber da existência de quem troca xingamentos por achar que isso é uma boa idéia.
Randall Munroe já comentou o assunto com, é claro, muito mais talento do que eu: http://www.xkcd.com/438/.
Abraços,
Lucas
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Aê Zé Bucket,
Legal, teu aparte. Tá explicado. Tenho nada a emendar; apenas uma coisa a corrigir:
“como ele não conseguiu responder a contento, terminou sua resposta … dize[ndo] que o machadinho imitava o sterne”
Não foi bem isso o q aconteceu. O q questionei ali não foi o valor intrínseco de Machado, mas a valoração q se faz dele.
A questão começou com eu não achando Toda terça um livro “brasileiro” pq não o vejo, por assim dizer, brotando das entranhas do português ou (apesar de todos seus outros inegáveis predicados) dando uma contribuição à língua – p.ex., com expressões memoráveis, colocações impactantes, &c q “brotassem” de seu domínio do português.
Mauro e Felipe pareceram entender q eu estava falando da nacionalidade do autor e/ou da nacionalidade da literatura ou até mesmo da nacionalidade da língua. Não. Eu estava falando da língua mesma, de seus processos, das idéias cuja expressão cada uma delas facilita e das q dificulta.
Ao dizer q Machado imitou (ou, segundo vc, foi influenciado por) Sterne, enfatizei o aspecto bruzundanga da valoração q se faz dele, do aspecto meia-boca em ter como o principal ícone da literatura brasileira um escritor q deveu tanto à criatividade facilitada por outras línguas e à audácia possibilitada por outras culturas. Se não tivesse fundado a ABL, ¿teria ainda o status q tem? Acho q não.
Nesse aspecto, Machado é como Tom Jobim, tido como o supra-sumo da música brasileira. Foi um gênio, não há dúvida, mas a verdade é q ele deve mais ao jazz do q ao samba.
Este seu olhar é baseada em Ain’t misbehaving de Fats Waller;
Samba de uma nota só, em I got rhythm de Gershwin
Wave é um twelve-bar blues. Centenas de outras coisas dele foram iniciadas no jazz, com outros propósitos.
¿Invalida a genialidade de ambos? Claro q não. Mas há q pôr os pingos nos is pra lembrar q, em literatura, o Brasil ainda carece de alguém da estatura de Cervantes, Shakespeare, Proust &c q dignifique o brasilês.
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Continuando (não colei o final):
E digo “dignificar” num sentido mais “complexo e abrangente” e mais adulto do q epítetos do tipo “escreve bem”, “é um ótimo escritor”, “sabe contar uma história” e coisas do tipo, q parecem saídas de trabalhos escolares.
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[O comentário #13577 será citado aqui]
concordo com você Lucas, mas a leitura daquele parágrafo casou com meu humor azedo do momento. e nem peço desculpas.
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o que não me conforma é que, além de produzir raciocínios toscos, ele ainda se esconde atrás de pérolas como “Se não tivesse fundado a ABL, ¿teria ainda o status q tem? Acho q não.” Claro, quem vai perder tempo de contestar um exercício de leitura histórica tão arguto.
e meu velho, tom jobin usou idéias de gershwin, que beleza. Um idiota deveria saber que o que gershwin mas fez na vida foi usar coisas dos outros, especialmente do que ele via os negros do harlem produzindo e outras milhões de exemplos que você pode facilmente encontrar. É claro que Gershwin é gênio e Jobin o imitador. É claro que a produção do brasileiro é limitada à imitação da música norte-americana, você até tem a nobra companhia do Tinhorão para defender algumas dessas coisas. Curioso é usar Gershwin, que sofreu EXATAMENTE as mesmas acusações por seus ROUBOS de melodias, ritmos e outros elementos da música popular para suas composições (algo aliás que sempre foi corriqueiro e continuou a ser). Tom Jobim não deve ao jazz nem ao samba, ele apenas sabia ouvir e servir-se do que lhe fosse mais convenientes para fazer suas criações.
O problema é que se você for seguir seus critérios para julgar um artista usando o que você disse de Machado de Assis ou Jobin, vai sobrar muito pouca coisa, na verdade quase nada. Risquemos toda a história da arte do séc. XX e mais quase tudo que se produzia anteriormente à idade média, onde critérios de autoria e originalidade eram bem mais difusos que sua “ética do gênio”.
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Se o Zé Balde tivesse um mínimo de educação sería um comentarista invejável. Mas fica mais legal e “muderno” ser bad-boy, grosseiro, agredir… fazer o quê, né?
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[O comentário #13604 será citado aqui]
pode bater que eu mereço.
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[O comentário #13604 será citado aqui]
pode bater que eu mereço.
mas bad-boy? nahhhhh.
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Zé você parece estar resmungando de BALDE. Percebo que conhecimento não lhe falta. QI também não é o problema. O seu problema é emocional. Você é o que chamamos cientificamente de um”Retardado Emocional”. Você sofre de Bipolaridade com preponderância de Temperamento Forte.
Que tal uma consulta?
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Zé Bucket disse:
“o que não … é que, além de … ele ainda … como … Claro, quem vai … tão …”
[exemplo de leitura debalde]
Vc parece tar propositalmente desentendendo o q tou dizendo. Ponho ênfase numa coisa e vc vê ênfase noutra. Então deixa pra lá. Ninguém vai resolver nada aqui. Esforço embalde.
Outrossim, é bom conversar com gente inteligente* como vc, q argumenta bem e com traquejo, embora teu assunto seja outro.
Deixa pra lá. Tá tudo bem.
*q intelige
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Dr. Plausível,
Não é muito “plausível” chamar o Zé “Chuta” Balde de Zé Bucket. Temos que elevar o nível.
Sobre que livro estamos discutindo mesmo?
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Apesar de descobrirmos, tardiamente, que Zé Balde também sabe argumentar. Não se pode perder de vista que, quem merece parabéns, é Dr. Plausível por saber manter sempre uma postura digna, diante dos mais variados golpes. Os golpes baixos e também os que expõem fragilidades no seu argumento. Mas sempre educado e aberto ao diálogo. E já foi assim na copa passada.
A sua resenha o revela um sujeito inteligente e que gosta de ser reconhecido como. Mas a sua postura nos comentários demonstra uma maturidade que o coloca acima daqueles que clamam, sofrem, se angustiam e perdem a linha, tudo isso para serem considerados: inteligentes. Parabéns.
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parabéns, pela resenha doutor.
E diante de tanta fúria do Rambo do Balde,
que independente de estar com razão ou não, só deve estar desamado ou apegado demais a suas convicções, pena!
fica uma balinha para adoçar essa amargura de Otário.
abç.
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O zé balde foi mal-educado, mas por causa disso os contra-argumentos dele acabaram ficando sem resposta. E ainda não entendi o que o Tom Jobim tem a ver com a crítica-no-meio-de-elogios do doutor.
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[O comentário #13655 será citado aqui]
quem colocou o Tom na roda foi o próprio Dotô.
bjmeliga
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A primeira menção ao Machado aqui foi pelo Felipe Charbel q dele citou um ensaio criticando o uso do indígena pra emprestar especificidade à lit. brasileira. Uma das coisas q Machado diz ali é q a nacionalidade de um autor não tá em seus temas, p.ex. q o fato de (exagerando) um escritor chinês escrever em mandarim um livro ambientado na Jamaica não torna esse livro jamaicano. Claro q não. Vejo agora q a lista q fiz sobre os hispanismos em Toda terça deu a impressão de q defendo a tese oposta, de q minha intenção era dizer algo como “um livro transbordando de hispânicos e assuntos hispânicos não deveria ser classificado como lit. brasileira”. Nada disso. Na conclusão do parágrafo tá minha interpretação da listagem toda: “Acho q não estaria muito longe da verdade a conjetura de q Saavedra, perante as opções de publicar um livro apenas usual em espanhol ou um livro inovador e instigante em português, preferiu a segunda.” E quem lê nas entrelinhas vai entender aquilo q eu realmente – pra ser absolutamente justo com a afiada inteligência, afinada sensibilidade e afiançado talento de Saavedra – não posso dizer.
Ponto.
O Tom Jobim entrou na história como paralelo musical ao Machado (e o zé balde não pode reclamar do paralelo, pelo menos, já q reclama da profusão de metáforas futebolísticas aqui). O zé balde acha q tou falando do valor intrínseco do um e do outro; me acha pregado numa “ética do gênio” (¿de onde diabos tirou isso?). \ö/ Mas tou falando, sim, da idolatria crédula e desparametrizada (ai) do público consumidor brasileiro. Dizem q em terra de cego quem tem um olho é rei. Essa tese foi certeiramente derrubada por H.G.Wells numa ficção, mas é diariamente confirmada na realidade brasileira.
Gente como Zuza Homem de Melo, q deveria saber do q tá falando, não acha nada de mais alguém considerar Jobim “o maior compositor brasileiro do século XX”. Não, não foi. Adoro as melodias dele; toco coisas dele quase todo dia. Mas foi um compositor formulaico q usou rotineiramene fórmulas estruturais, harmônicas e rítmicas criadas por outros. Foi um bom melodista, e tinha boas cartas em seu baralho – p.ex, já fazer parte de uma elite econômica qdo se pôs a compôr, ou o fato de q as fórmulas estruturais e harmônicas q imitou haviam surgido nos Euá, q foi (surprise!)seu maior consumidor.
Como exemplo de seu abjeto formulaiquismo, veja as dezenas de sucessos seus calcados de fórmulas do jazz. Só o tema “Ain’t misbehaving” de Fats Waller rendeu “Samba do avião”, “Este seu olhar”, “Só em teus braços”, “Discussão”, “Eu sei q vou te amar”.
[Se vc toca um instrumento, pode cantarolar qqer uma dessas músicas com a harmonia abaixo, originalmente criada por Waller:
| C7+ | C#dim* | Dm7 | D#dim | Em7 | E7 | F7+ | Bb7 | Em7 | &c
(*nalgumas melodias, toque Ebdim nesse compasso)]
O leigo diria, “Nossa, o cara tem q ser muito fera pra tirar tanta música bonita de uma idéia só.” Mas… não. O q Jobim fazia já era feito *todo dia* por qqer jazzista mezzo informado havia mais de 20 anos, e continua sendo feito todo dia. Os jazzistas chamam de “heads” as novas melodias compostas sobre uma cadência harmônica de outra pré-existente; às vezes modificam a harmonia segundo fórmulas bem conhecidas, fórmulas q Jobim aprendeu deles (por exemplo rearmonizar “D7 | G7″ pra “Ebm7 Ab7 | Db7+”). “Samba de uma nota só”, baseada em “I got rhythm” de Gershwyn é um exemplo. O “Jazz theory book” de Mark Levine lista 36 heads famosas baseadas em “I got rhythm”; aqui vai uma curtíssima amostra:
• de C.Parker: Anthopology, Moose the mooch
• de S.Rollins: Oleo
• de D.Ellington: Cottontail
• de T.Monk: 52d St. theme
• de M.Davis: The theme
• de D.Gillespie: Good bait
Ou seja, juntanto as criações e métodos dos jazzistas, do João Gilberto e de seus letristas, Jobim fez coisas interessantes mas nada de excepcional. Coisa corriqueira no jazz. [Eu mesmo faço isso: dia desses compus um baião baseado em "A foggy day".] Portanto, se um músico medianamente competente como Jobim goza de todo esse status no Brasil (se fosse euaense, lá ele seria apenas mais um), só pode ser pq o próprio brasileiro médio não tem dados pra entender o q realmente tá acontecendo. ¿Jobim criou boas melodias? Sim. Mas tem gente crédula e despistada q o coloca no mesmo patamar q Villa-Lobos. O Heitor tá vários patamares acima do Tom.
Voltando à literatura, Machado é como Jobim: um artista medianamente competente, às vezes imitador de talentos superiores ao seu, q goza de alto status em sua terra simplesmente pq ali não parece haver nada maior. O problema da lit. brasileira é q ainda não apareceu um Villa-Lobos pro Jobim q é o Machado; ainda não apareceu um escritor (por assim dizer) sinfônico, cuja profundidade intelectual, cuja abrangência humana e cuja virtuosidade técnica encontrem sua razão-de-ser na língua brasileira.
Pode parecer q tou puxando a sardinha pro meu lado, mas acho q tive muita sorte ao ser escalado pro jogo com Carola Saavedra. Ela tem o intelecto, a abrangência e o talento. Resta saber até q ponto vai seu comprometimento com a língua brasileira.
Espero q meu ponto tenha ficado mais claro.
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“Voltando à literatura, Machado é como Jobim: um artista medianamente competente, às vezes imitador de talentos superiores ao seu, q goza de alto status em sua terra simplesmente pq ali não parece haver nada maior. O problema da lit. brasileira é q ainda não apareceu um Villa-Lobos pro Jobim q é o Machado; ainda não apareceu um escritor (por assim dizer) sinfônico, cuja profundidade intelectual, cuja abrangência humana e cuja virtuosidade técnica encontrem sua razão-de-ser na língua brasileira.”
Dizer que Machado de Assis está para a literatura brasileira como Tom Jobim está para a música brasileira é um despautério sem tamanho.
Até concordo com boa parte do que foi dito sobre o Jobim, mas sobre o Machado, em compensação…
Bem, se o Machado foi mesmo apenas um “artista medianamente competente, às vezes imitador de talentos superiores ao seu”, ele tinha uma capacidade assombrosa de enganar as pessoas quanto ao tamanho de seu talento. Afinal, o que mais explicaria o fato de ele constar no livro Gênio, de Harold Bloom, enquanto este último se esquece de Sterne? Ó pobre Bloom, que pena que sua parca inteligência não o atentou para o que o sábio Dr. Plausível veio compartilhar conosco, meros ignorantes influenciados pelo senso-comum em torno do nome de Machado de Assis. Sim, pois não sabemos a diferença entre influência e pastiche. Mesmo os radicais modernistas brasileiros, apesar de atacarem alguns aspectos da obras Machado de Assis (alienação, elitismo, etc.) com certa freqüência, não conseguiram questionar sua qualidade literária. Quem dera houvesse alguém com plausibilidade entre eles.
Além disso, fugindo do assunto Machado de Assis, acho estranho que ninguém ainda tenha tentado citar Guimarães Rosa, afinal esses debates sobre o melhor escritor brasileiro sempre caem nesse Fla x Flu literário. Talvez JGR esteja em baixa entre os leitores, ou talvez seja tão óbvio que as pessoas até se esquecem, ou, ainda, talvez o Doutor Plausível tenha intimidado a todos com sua incrível demostração de erudição, e ninguém quer colocar mais lenha nessa fogueira de vaidades. Pena que o Dr. ainda não usou seu conhecimento abismal para combater os argumentos do Zé Balde a favor do Machado.
Ó Doutor Plausível, rogo seu perdão por mim e pelas ignaras criaturas que aqui tentaram defender Machado de Assis, esse vil plagiador. Rendemos-te gória nesse momento, pois sabemos que pecamos, Ó Grande Doutor Risível. Por obséquio, perdoai-nos.
Mais uma coisa: sobre o brasilês, deixo Roberto Bolãno responder por mim:
“Hace poco, Nélida Piñon, celebrada novelista brasileña y serial killer de lectores, dijo que Paulo Coelho, una especie de Barbusse e Anatole France en versión telenovela de brujos cariocas, debía ingresar en la Academia brasileña, puesto que había llevado el idioma brasileño a todos los rincones del mundo. Como si el “idioma brasileño” fuera una ciencia infusa, capaz de soportar cualquier traducción, o como si los sufridos lectores del metro de Tokio supieran portugués. Además, ¿qué es eso de “idioma brasileño”? Idea tan desmesurada como si habláramos del idioma canadiense o australiano o boliviano.”
Bom, pelo menos adorei a resenha. E sim, eu entendi o ponto de vista do Doutor, apesar de discordar dele, como já devem ter notado.
Tem mais não.
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“Pena que o Dr. ainda não usou seu conhecimento abismal para combater os argumentos do Zé Balde a favor do Machado.”
Não vou combater argumentos com q concordo em princípio. Cheguei mesmo a dizer não tinha nada a emendar ao q ele havia dito. Não há controvérsia sobre o aspecto q ele focalizou. Vc mesmo fala do “talento” do Machado, de sua “qualidade literária” e deve achar q Machado escrevia bem, foi um ótimo escritor, &c, opiniões q compartilho abertamente. Já disse q gosto bastante do Machado.
Mas uma coisa é gol de pênalti e outra e gol de placa.
Tenho uma pergunta pra vc e pra quem quiser responder. É uma pergunta sincera:
Imaginando q MdA não seja tua alma gêmea, isto é, q vc seja um leitor médio, ¿o q vc aprendeu lendo seus romances? Quero dizer, não o q vc aprendeu sobre estilo, sobre “escrever bem” \ö/ ou sobre o século XIX, &c, mas ¿o q vc aprendeu sobre o ser humano, o q vc aprendeu sobre si mesmo lendo Machado de Assis? Mais especificamente ¿o q é possível aprender com ele q não se teria aprendido melhor e mais profundamente com outros escritores?
E por favor, tire o ácido de tua interpretação do q escrevo; tire o ácido de tua resposta. Tamos aqui só conversando.
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quase nada a acrescentar diante de tamanha demonstração de erudição (com todo o ácido que eu tiver direito já que você tem o direito de exibir suas punhetas musicais).
só uma coisinha, dentro de seus mesmos critérios Villa-Lobos nem era grande coisa, vez que seu principal mérito foi adaptar padrões europeus às melodias brasileiras, servindo-se especialmente das idéias sobre ritmo de um Stravinsky combinadas aos padrões da música afro-brasileira, que também não foi ele quem criou… mas eu nem concordo com isso.
ah, e dentro de sua perspectiva um Miles Davis também não foi grande coisa, pois é notório como ele serviu-se das músicas e talentos alheios para suas próprias criações.
por exemplo, cinco dos músicos que você citou como criadores de heads à partir da melodia do fats weller são muito superiores a ele, em minha modesta e desqualificada opinião. e dane-se que ele criou primeiro, ainda bem que alguém melhorou.
mas no fim, nada disso é importante e já se fugiu demais do propósito da copa. a questão é quecolocando na balança, meu problema é com sua perspectiva. as coisas às quais você dá peso para qualificar um artista e se tom jobim é o melhor, ou não isso não me interessa e sua erudição e capacidade de ‘enfileirar’ nomes e fazer suas próprias composições, ou demonstrar notação, não ajudam em nada seu argumento.
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zé,
Talvez seja sintomático q vc defenda o Machado tão acirradamente: quase não entende o q lê. ¿Não acabo de dizer q compor heads não tem nada de mais? e q não tou falando dos atributos do artista mas da miopia de quem o idolatra?
A Carlene ali embaixo escreve quatro linhas e ¿vc consegue desentender metade?
Chega.
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Muita testosterona no ar.
Já tá virando disputa do macho-alfa por território.
Pena.
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Gente, será mesmo possível que ninguém consiga encontrar argumentos para justificar a grandeza de Machado? Uma idéia tão unânime só consegue ser defendida por ofensas, distorções e figuras de autoridade? Pode ser que eu tenha perdido algo nas entrelinhas, mas foi o que li até agora: Zé Balde “provocando” o Doutor Plausível à base de palavrões e confundindo influência com derivação, o Velho Branco sacando Harold Bloom da cartola para decretar o talento de Machado. O único argumento de verdade foi o do Zé Balde ao dizer que as obras de Sterne e Machado tinham objetivos bem diferentes, mas ele foi logo abandonado em nome de xingamentos novos. Uma pena.
Tentando voltar a uma discussão mais interessante, e usando como mote uma pergunta do próprio Plausível: acho que há muito a aprender na obra de Machado, Doutor. Não sei se todos concordam comigo, mas, talvez por causa do seu humor e da sua crueldade implacáveis, Machado acaba sendo um caso bastante particular de cínico esperançoso. Apesar daquela última frase devastadora – “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria” – a vida de Brás Cubas é bem mais do que uma miséria sem fim. Há uma teimosia nos personagens de Machado em seguir em frente, apesar dos pesares, que para mim é admirável. Claro, ele pode ser puramente cruel, como no conto “O caso da vara” ou na solteirona de Quincas Borba que simplesmente não consegue se casar; mas em geral o espírito machadiano é o do final de “Conto de escola”, com o narrador esquecendo a dor das palmatórias e a vingança contra o colega delator graças ao tambor que marca o passo de um desfile de fuzileiros. Os horrores do mundo, pequenos e grandes, mas a vida que segue. No susto, acho que a lição de Machado para mim é essa.
Abraços,
Lucas
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Doutor Plausível (tente imaginar — fica engraçado — eu dizendo “plausível” com esse meu sotaque de paranaense — apesar de que paranaense não tem sotaque próprio, os que moram mais para o sul, como eu, puxam para a fala gaúcha, e os que moram mais para o norte para a paulista), desculpe pelo ácido, o único ácido que eu desejo nesse momento é o lisérgico (quero escrever sobre pôneis voadores e sequóias microscópicas…).
Sou meio burro para enumerar coisas que aprendi com autores (e poderia tentar me desculpar dizendo que isso soa à auto-ajuda, Oprah Winfrey, literatura e pragmatismo… mas não). Não consigo nem fazer uma lista de coisas que eu aprendi com Thomas Mann, e olha que os livros dele têm idéias até não mais poder, mesmo o curto Morte em Veneza é um catatau em conteúdo.
Mas vou responder assim: prefiro Nabokov ou Borges a Dostoiévski. Tirem as conclusões que quiserem (o que vocês aprenderam com Nabokov ou Borges?).
E o Doutor fica oscilando. Uma hora ele diz que Machado foi um ótimo autor (se não me engano, chegou até a dizer genialidade), outra que ele era um artista medianamente competente. Para mim, entre essas duas classificações há uma certa diferença de “patamares”.
Lucas, tirar o Bloom da cartola foi mesmo um misto de covardia e preguiça. Prometo que não faço mais isso. Gostei de sua explicação sobre o que aprendeu com o Machado. Outra coisa que eu acho interessante é a crítica dele ao positivismo, darwinismo, etc. através do humanitismo. No humanitismo, a guerra era vista de uma ótica otimista (seleção natural, etc. assim como no evolucionismo e tal), e a visão de Machado me parece diferente. Como você falou, Machado de Assis parece apoiar o ato de seguir em frente apesar dos problemas, mas acho que não o de ficar resignado ante eles a ponto de achá-los necessários para que a vida continue e até tenha sua graça.
Por exemplo, a seguinte frase:
“Vida é luta. Vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal.”
Vi várias pessoas citando-a fora de contexo, como se essa fosse a opinião do Machado, o que não faz muito sentido, pois, se não me engano, a seguinte frase foi proferida por Quincas Borba e fazia parte do humanitismo. Logo, eu acho que a frase pode fazer parte da sárita do Machado, e parece que vários leitores esquecem-se disso. Talvez se trate até de uma frase ambígüa. Ou talvez eu esteja viajando e a frase tenha mesmo o sentido que as pessoas normalmente lhe concedem. Agora embananou tudo. Alguém explica essa merda, por favor.
Vou dormir e amanhã eu penso sobre isso, humpf.
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Coisa boa de não ter um QI muito alto é se permitir achar esse ou aquele autor genial… e perder tempo com essas discussões bizantinas de que o Machado é genial, plagiador, ou baboseiras que tais.
Embora eu goste muito de ver porrada (cadê a Stella?), o que mais me facina nesse debate é como se consegue fazer tanta espuma com tão pouco sabão… Quando eu era adolescente eu me achava meio anormal porque todo mundo comentava os episódios do Kung Fu e eu achava aquilo um pouco menos que uma merda.
Parece que os menos agraciados têm muito com o que se distrair.
Que inveja…
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[O comentário #13703 será citado aqui]
Comentador, coisa boa de não ter QI muito alto é achar que os outros não têm QI muito alto.
Abraços,
Lucas
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Lucas,
Achei ótima tua resposta. Mas minha pergunta (a MEU ver) tinha um foco ligeiramente diferente. Vc diz aí algo q Machado mostra sobre a vida e não sobre a pessoa.
Revi esses dias os 6 livros principais dele, e continuo com minha impressão de q o Brasil ainda carece de um grande escritor, de um escritor sinfônico q compreenda e abranja o humano com uma complexidade imparcial: em Machado, as ações dos protagonistas não têm conseqüências; ou melhor dizendo: o protagonista é sempre alguém à mercê de impulsos próprios ou alheios, e a narrativa é uma série de fatalidades, não de decisões. Nada se aprende sobre o ser humano: apenas sobre o destino. A exceção é Guiomar, em A mão e a luva, e se aquela pergunta fosse feita a mim, eu diria q desse livro (talvez por tê-lo lido na adolescência) aprendi q o romantismo é uma mentira: dada uma escolha, as pessoas podem titubear mas suas decisões costumam ser calculistas.
E não deixa de ser um pouco troncho q esse q chamam de “o maior escritor brasileiro” seja um pessimista fatalista cínico e sarcástico, q desenrola suas narrativas (Machado não tem tramas) como um funcionário público: intrigas permeadas de name-dropping (no caso, menções a livros, escritores e filósofos europeus e gregos). Machado ocupa o cargo pq ele não pode ficar vago.
Só quero salientar aqui (antes q me xinguem, e não pra q não me xinguem) q meu foco central é a língua em si: entrei na copa pq me pareceu uma oportunidade de me perguntar ¿o q há de peculiar, universal e ainda oculto no ser humano q a língua portuguesa/brasileira está singularmente posicionada pra perceber, expressar (ou até melhor: sugerir) e explorar?
Não tou querendo forçar a barra. Só tou me explicando.
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Lucas, vc parece que não entendeu o tal artigo. Tanto os que empregam seu tempo em debater quem é o melhor jogador, o Romário ou o Ronaldinho, como os que dicutem quem é o melhor candidato a Marta ou o Kassab, os que discutem se o Machado era gênio ou plagiador e se era melhor ou pior que o Guimarães Rosa, TODOS se acham mais inteligentes do que são.
Os que acham que os que cuidam dessas baboseiras representam diferentes estágios evolutivos da humanidade certamente estão mais acima – como é óbvio (pra vc não deve ser, relaxa) – e não podem ser classificados como “incompetent individuals”…
Portanto, vc desce um degrau e eu continuo te olhando mais de cima.
))))
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Comentador, talvez eu tivesse facilitado as coisas citando apenas essas duas frases, tiradas de um estudo citado no artigo:
“People who lack the knowledge or wisdom to perform well are often unaware of this fact. That is, the same incompetence that leads them to make wrong choices also deprives them of the savvy necessary to recognize competence, be it their own or anyone else’s.”
Em outras palavras, não se surpreenda diante de um estúpido que se acha inteligente. E duvide das pessoas que declaram estar degraus acima das outras: estatisticamente, a maior parte delas está errada.
Abraços,
Lucas
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Comentador,
Pelo jeito, quem não pegou o tchã do artigo foi vc.
“Despite the fact that students in the top quartile fairly accurately estimated how well they did, they also tended to overestimate the performance of others.”
Ou seja, os competentes se auto-avaliam bem. São os incompetentes q se acham superiores. A sorte dos incomp. é q os comp. tendem a ser otimistas: qdo se aventa a possibilidade de os incomp. serem bem menos comp. do parecem aos realmente comp., estes pensam “Não, peraí, ninguém pode ser TÃO incompetente.”
Em tempo:
Com algumas exceções, a questão aqui não é se achar mais inteligente do q se é. Tamos apenas conversando, com algumas exceções.
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Dr. Plausível, os expoentes só superestimam a capacidade dos outros antes de ver o que eles escrevem nas provas.
Eu, por exemplo, influenciado pelo seu estilo ágil de escrever – o senhor é de fato um artista – sempre tenho a esperança de que o senhor diga algo que se aproveite (em termos de reflexão), muito embora o senhor insista em me demonstrar que são vãs minhas expectativas.
Veja que depois de vistos os fiascos dos testes, os inteligentes só se admiram de como gente burra sabe disfarçar bem… Ademais, a inteligência é uma medida da capacidade de avaliação da realidade. Esses expoentes a que o artigo faz referência não devem estar assim tão no topo. Devem ser topo pra quem escreveu o artigo, não pra mim.
Lucas, meu filho, vc já viu esse pessoal que fica falando dos pobres de espírito sem se dar conta que estão falando deles próprios? Então?!… Será que vc consegue fechar esse raciocínio?!
E sobre a estatística, veja que, de todos os que dizem que vão ganhar sozinhos na mega-sena, a imensa maioria não ganha, mas de vez em quando tem um que ganha. Não é porque a esmagadora maioria está errada que nenhum vai ganhar. Não é porque um monte de gente burra se acha inteligente que um inteligente de fato não vá se achar. É fato que a maioria está errada e que a maioria tem QI abaixo de 180… mas a maioria não é todo mundo.
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Comentador, o negócio é que para levar o dinheiro da loteria o sujeito precisa mostrar o bilhete premiado no balcão. Enquanto a única evidência da sua inteligência superior forem as suas declarações a respeito, fico com a estatística.
Abraços,
Lucas
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É um resultado justo. A superioridade de Carola que demonstra manejo técnico e narrativo, construção segura do romance não foram esquecidas pelo comentador, Dr. Plausível. Portanto, parabens.
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Fiquei satisfeita com a explicação da opinião do Dr. Plau. Não conheço o Tom Jobim nem o Machado de Assis muito a fundo, mas o Dr. me ajudou a ver as similaridades entre os dois. Sempre achei os dois chatos e vazios. (e sei muito bem que essa não é uma opinião unânime, obrigado, não precisam me lembrar) Não consigo ouvir o primeiro nem ler o segundo sem bocejar. É um cantinho e um violão pra cá, uma enxurrada de referências clássicas pra lá. Me deixa com fome. Eu reconheçp que os dois “soam” gostoso, mas eles parecem mesmo dedicados a impressionar pelo estrangeirismo. É isso, me deixam com fome.
Ah, e o ze balde não me entendeu mesmo. Mais um ponto, doutor!
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Comentador,
Vc tá esquecendo q tamos aqui só conversando. Se vc chega numa conversa e põe em dúvida a inteligência de quem já está na conversa, não pode reclamar de q não lhe façam caso. Vc tá agindo como um adolescente q acha q já sabe todas e já entendeu tudo.
Duas outras coisas fugiram a teu entendimento até agora: (1) aqui somos (mormente) todos adultos, e espero q vc saiba o q isso implica; e (2) escrever – especialmente escrever na internet, ie, por nada – é um ato deliberado, proposital, talvez mais deliberado e proposital do q escrever livros. Se uma persona sem sutileza (como o “zé balde”) ou sem simancol (como o “comentador”) lê as resenhas e comentários sem basear sua compreensão nesses dois pontos, o mais das vezes não vai perceber entrelinhas, subentendidos, indiretas – truques q adultos q sabem ler com atenção o q foi escrito com deliberação tbm sabem q podem estar contidos na escolha de um artigo indefinido (“um gênio”) ou de uma analogia à primeira vista descabida ou de um tempo verbal menos específico. Civilização implica em respeito em geral, e respeito pela diversidade em particular, mas não um respeito q me impeça de dizer o q penso – daí as entrelinhas.
Deixo vc com uma citação da quadrinista inglesa Posy Simmons:
Question: How do academics make polite conversation?
Answer: Very carefully.
Carlene,
Obrigado.
Se vc não leu ainda, recomendo Toda terça. Conheço poucos escritores atuais com tão sofisticado “senso de entrelinhas”.
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Dr.
E quem vc acha que chegaria mais perto dessa identidade brasileira na escrita? Jorge Amado? Guimarães Rosa?
Quéque tu me diz?
1 abraço.
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Dr. Plausível tem direito a desconsiderar Machado de Assis. Qualquer um tem o direito, porque é preciso relativizar nossos valores para proceder uma investigação de realidades estabelecidas e questionar sua validade no âmbito da cultura. Porque o valor deste conceito manutenciona outros valores em que se baseiam determinadas pressões para um determinado tipo de comportamento uniformizador, nivelando a cultura por baixo e evitando a discussão sadia. É direito de todo leitor eleger seu panteão de autores. Em meu caso Osman Lins é um autor que seria maior que muitos. Talvez sua grandeza excedesse tanto – em minha visão – que embaçasse o brilho de consagrados.
Compará-lo com outra manifestação artistica me parece arriscado. Portanto, inadequado. Porque o instrumental para uma conversa saudável se esgotaria, pois nem todos os comentários possuiriam a capacitação tanto musical quanto literária para uma aproximação dos fenômenos.
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[O comentário #13757 será citado aqui]
Não vejo tanto uma questão de “identidade brasileira” qto de “intelecto humano através do brasilês”.
Ler principalmente em inglês talvez tenha elevado além do razoável minha expectativa do q é ter idéias se infiltrando no cérebro pelos olhos. Fico muito frustrado lendo ficção em português. Antes de entrar na CLB, acho q não lia nada em português havia mais de 15 anos. Pegava um livro numa estante algures, lia uns parágrafos… aqui e ali, uma idéia vagamente nova ou fracamente sináptica, logo embrutecida ou esmaecida por lugares-comuns e um tíbio desejo de ser legalzinho ou artístico ou erudito. Não é por pouco q nomes e citações, estruturas e estilos originados em inglês ou filtrados pelo inglês apareçam com tanta freqüência na literatura brasileira, ou q haja tantos anglófilos deslumbrados entre os literati tupis.
Nesse aspecto de encontrar na língua o q ela pode dizer, acho q a coisa mais interessante acontecida no Brasil (e muito interessante, por sinal) foi um único poema de João Cabral de Melo Neto chamado Fábula de um arquiteto. Ali ele eliminou diversos entraves gramaticais do português q dificultam a explicitude, e as idéias pulam da página com clareza, uma clareza remontada pelo leitor.
Pra mim, não há beleza nas palavras. O q elas tem de belo não vem da emoção mas do intelecto. Talvez eu teja esperando q se tire água de pedra: talvez o português simplesmente não tenha nascido pra ser explícito e sináptico – daí sua vocação pro comércio, a sátira e a evasiva. Mas às vezes vejo alguns autores encontrando no português vislumbres de uma vocação pràs arduidades do intelecto sem a pomposidade eruditóide e sem se perder em rocoquices: Graciliano Ramos é um caso. Outro caso … sardinhas, por favor aproximem-se … talvez um dia Carola Saavedra.
Sei lá. Hoje acordei meio blé.
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Dr. Plausível,
Por motivos óbvios, em nenhum momento eu esperava ou queria “entrar na conversa”.
A contribuição que eu tinha pra dar era aquela. Minha esperança: que esse pessoal que se sente desça do delírio. Que a disputa de quem é mais Roberto Carlos ou Sidney Magal, Pelé ou Biro-biro, Marlene ou Emilinha, São Paulo ou Corínthians, Machado de Assis ou Guimarães Rosa, são no final a mesma coisa.
Acredito piamente que a verdade liberta e permite que se ande pra frente.
Se o senhor acha a informação que eu lhe dei ofensiva, por algum motivo, tem todo o direito
de se exasperar e revidar como quiser… “estatísticamente” é isso que eu devia esperar. Fico com a sensação de dever cumprido.
Mas ficaria muito mais satisfeito se o senhor me surpreendesse! Tipo assim… entendendo!…
Eu tava lendo o “elo há” no seu blog e vejo que a senhor passou a falar de gente burra… eu acho isso um grande progresso. Antigamente o senhor era mais politicamente correto. Depois passou a falar dos tronhos e daí foi um passo pra descobrir a existência dos burros. Noto, porém, que não rezou pela própria cartilha, lembra?
“Civilização implica em respeito em geral, e respeito pela diversidade em particular, mas não um respeito q me impeça de dizer o q penso – daí as entrelinhas.”
Voltando ao “Elo há” como é que o senhor explicaria aos envolvidos que a história não passa de gente burra namorando, gente burra sequestrando e gente burra reportando?
Esperaria que eles um dia acordassem e se dessem conta? O mundo não seria melhor se num lampejo divino os burros protagonistas vissem o que eram e desistissem dessa ópera trágico-bufa? Mas não dá pra contar com lambejo divino e eu acho que as pessoas nunca são informadas do quão burras elas são. Acho que a primeira abordagem deve ser sempre informá-las disso. Vai que elas entendem!? Deixo as entrelinhas pro senhor…
Eu tenho uma imagem na minha cabeça do casal Sartre e Beauvoir sendo entrevistado em São Paulo, e a Simone com seu cigarrinho inseparável e ar solene e irritado a achar para todos os lados.
Vejo no senhor uma versão tupiniquim do casal Sartre Beauvoir e espero que o senhor ainda veja o ridículo disso tudo – e pare de culpar a coitada da língua portuguêsa
por nossas mazelas.
E para finalizar: sou um grande admirador seu, embora não pareça.
Saudações
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comentador,
Obrigado pelos comentários, mas acho q vc devia ter posto isso no blogue.
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1. seu lucas, lendo só agora a copa, de fato @#$%& os comentários:que saco ler de baixo pra cima e vir do fim pro começo..
2. resenhistas ou comentadores (1) deram uma prova dos livros, do 2º jogo , nada!
3. poxa! ia sacar o graciliano, dr plausível!!!
e fiquei a fim de toda terça (só li bernardo nessa copa) mas , fala sério, a saavedra escreveu em espanhol e traduziu ! !!!!!(máquina sem interrogação) uau!
abraço.
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