Jurado: Doutor Plausível
A capa de Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi é uma boa introdução ao livro: ao fundo, uma parede de azulejos com uma conhecida imagem católica de Jesus, cortada ao nível do pescoço, com suas mãos perfuradas ladeando seu “Sagrado Coração”; em primeiro plano, uma cabeça de boneca sem olhos repousa em cima de um televisor em q duas mãos remexem alguma tripa numa cirurgia. A capa contrapõe de um lado uma cosmogonia redentora porém mutilada e do outro uma analogia desumanizada e tétrica do Jesus na parede.
Em linhas gerais, Lugares é a história da desintegração psíquica de uma repórter televisiva (cujo nome, Cristina, só aparece no final) após presenciar a conseqüência imediata de um ato bárbaro: durante uma reportagem numa favela carioca, um menino tem as mãos perfuradas a bala e é morto com um tiro na cabeça. Presenciar o incidente desestabiliza a repórter de tal modo q a partir daí até quase o fim do livro vamos acompanhando suas visões e alucinações, enquanto ela supostamente sofre aquilo q em psicanálise chama-se “delírio a céu aberto” - qdo o conteúdo do inconsciente aflora com seus símbolos recônditos e suas interpretações distorcidas e controla as percepções da realidade, sem a mediação de uma neurose.
Juntando o Jesus da capa com sua analogia e a criança inocente de mãos perfuradas, já se vê q estamos em algum âmbito simbólico. Até aí, tudo bem: misture crime, criança, cristianismo e Cristina, e alguns símbolos pouco crípticos já transparecem. O grande problema de Lugares é q o simbolismo pessoal da protagonista toma conta da história em tal grau q a maior parte do tempo não se sabe de q cargas d’água ela está falando. O texto em si é uma colcha de estilos entre o ensaio, a crônica alegórica e a narrativa confessional, contendo uma profusão de declarações em tom aforístico sobre porcos, hidras, museus e outros símbolos do panteão pessoal da repórter; descrições delirantes de uma “Central do Tédio”, um “Porco de Silício”, uma “bolsa de valores social”; fragmentos de reportagens sobre coleta de pessoas como lixo, decapitações (¿lembram-se do Jesus sem cabeça na capa?) e valas q se abrem no chão tragando turistas desavisados. A repórter delira OU sonha OU vê q o espírito da criança morta a acompanha pra todo lado como um encosto; tem uma relação real OU imaginada com o motorista do furgão da emissora (com o talvez emblemático apelido de “Baiano”); expulsa de casa o marido meia-boca OU muda de residência OU é levada a uma clínica de repouso; e muitos outros “isto OU aquilo”: nada se sabe ao certo pois tudo é visto a partir de seu delírio.
De minha descrição, pode parecer q escarneço, mas não: Lugares não é um livro leviano. Muito pelo contrário, é sobriamente sério. Só q, infelizmente, está embebido na seriedade fóbica do Brasil de hoje, uma seriedade perseguida por culpas econômicas, dívidas sociais, delírios de segurança e pelo fascínio mútuo entre ricos e pobres. É preciso levar a sério demais os pânicos fomentados por mitos e pela imprensa pra criar uma repórter carioca (!) q acorda se atualizando com o noticiário policial no rádio (!!) e até hoje só teve medo de parecer feia ou velha, e q de repente e implausivelmente perde totalmente as estribeiras por presenciar a morte de um Jesuzinho, e depois parece se aliviar por ter OU imaginar um êxtase sexual socialmente compensatório com um “Baiano”, e então tece vagas abstrações sobre a saudade irreconciliável de algo insubstituível…
Mas pode haver mais por trás do q li. Só q não conseguiu me interessar. ¿O livro é uma metáfora da humanidade e dos delírios resultantes do assassinato da inocência e dos valores cristãos? Não sei. Ou ¿é o oposto, uma fantasia em q o asqueroso mundo de hoje com sua hipocrisia cristã, suas fobias e culpas, é curado através do valor terapêutico da racionalidade? Vá saber. Ou ¿serei só eu aqui tentando fazer sentido de uma coletânea de ensaios mais ou menos desconexos, escritos segundo a inspiração do momento? Sei lá. O livro é de tal modo áspero e obscuro q me faz querer desvendar seus mistérios tanto qto quero ganhar a vida como psicanalista, dia após dia destrinchando o panteão simbólico individual de cada um q entra da rua.
E é uma pena; de fato, uma grande pena. Porque ainda não falei do assombroso embora inconstante talento de Cecília Gianetti com as palavras. Em particular, o início do livro pega o leitor pelo pescoço. Depois, em meio à modorréia confusa dos delírios e das divagantes orações subordinadas, quase todo capítulo traz uma frase incisiva ou uma escolha de palavras inspirada, um parágrafo fascinante ou uma idéia admirável. Por exemplo, a sacada de intitular os cinco últimos capítulos simplesmente “Cristina”, mostrando a insistência turrona da repórter em recuperar o foco em sua identidade racional, é um achado q me impressionou deveras. Mas a confusão geral pesou demais. Fui levado a imaginar - juntando nossa metáfora da copa e “os 100 metros rasos pra atletas sem senso de direção” do Monty Python - q Lugares é como um time de craques q chutam maravilhosamente bem pra todo lado menos pro gol, um time de gênios da pelota sem treinador nem tática.
Enquanto Lugares, com sua hiper-sensibilidade expressionista, tenta em vão dar forma sintática a um surto psicótico, seu adversário Toda terça utiliza bem o q aprendeu no Curso de Desengano II, cujo currículo ensina q as palavras servem menos pra revelar do q pra esconder o pensamento. A autora é uma chilena de nascimento e família cujos pais migraram pro Rio de Janeiro qdo ela tinha três anos. Crescendo no Rio, estudou numa escola alemã; adulta, estudou na Alemanha e Espanha, e agora se estabeleceu no Rio. Seu livro certamente não poderia ter sido escrito por alguém de formação diferente.
Toda terça está dividido em duas partes por (aparentemente) três narradores. Na primeira parte - q ocupa mais de 90% do livro - cada capítulo com a narradora Laura fazendo análise com o psicoterapeuta Otávio é intercalado por dois ou três capítulos em que um homem de nacionalidade ambígua mas certamente hispânica aparentemente chamado Javier relata sua vida em Frankfurt e seu romance com a alemã Ulrike. Na segunda parte - as 20 páginas restantes - uma terceira narradora junta as duas narrativas anteriores.
As sessões de análise são engraçadíssimas. Saavedra demonstra argúcia nos diálogos e Otávio é um terapeuta singularmente despistado: a paciente diz q perdeu quatro guarda-chuvas numa única semana e ¿ele sequer mexe um cílio? É uma terapia fadada ao fracasso, mas por outro motivo: o q Laura diz ao terapeuta é pontuado pelo q diz ao leitor, e fica óbvio q ela falseia tudo o q diz no consultório, q só está tentando (sem sucesso) seduzir Otávio enquanto lhe dá pistas oblíquas. A narrativa intercalada também está repleta de omissões e obliqüidades. Javier nunca esclarece a ninguém se seu nome é mesmo esse, se é boliviano ou colombiano ou outra coisa, se está ou não apaixonado por Ulrike, se realmente pensa o q opina, se diz o q pensa. Ele vive um resumo das diferenças entre hispânicos expatriados e germânicos: os hispânicos são esquivos e sobrevivem erraticamente nos interstícios da sociedade moderna e racional construída por germânicos práticos e organizados q, é claro, são atraídos pelo sol, suor e sensualidade dos hispânicos. A terceira narradora - suspeitamente soando como Javier - se encontra com Laura no Rio depois de ter estado com Javier na Alemanha. Não é senão na última parte q se desmascaram as distorções proferidas nas duas outras narrativas, e não é senão no último parágrafo, na última frase, q nos é dado conhecer a verdadeira natureza de Laura.
Toda terça pode parecer uma história simples sobre pessoas q estão apenas mentindo, e pode ser lido com enorme interesse e prazer sem sair desse nível. Mas Saavedra não se contenta em apenas contar uma história. A diferença crucial entre Lugares e Toda terça é q no primeiro não há ESPAÇO pro leitor, enquanto o segundo é como um parque com várias opções de lazer.
Daria pra passar semanas relendo esse delicioso e sombrio romance pós-moderno, e tentando formar imagens coerentes rearranjando as peças de seu quebra-cabeça, e talvez todas as imagens resultantes funcionassem. Ou talvez não. De qqer modo, analisar demais os ingredientes do labirinto criado pela escritora chilena radicada no Brasil poderia terminar subestimando sua inventividade literária.
Talvez não seja à toa, talvez seja, q o parágrafo acima é de fato um decalque do começo da crítica do New York Times ao filme Généalogies d’un crime - mencionado obliquamente durante a “terapia” de Laura - do talvez curiosamente também chileno expatriado Raúl Ruiz, q também talvez curiosamente migrou prà França em 1973, ano do nascimento de Saavedra. Além de conter uma duplicidade q tem um importante paralelo em Toda terça, Généalogies tem um alter-ego do diretor q diz num momento crucial: “Les hommes croient vivre des histoires; en realité c’est les histories qui possèdent les hommes.” Toda terça é um entrelaçado tal de influências, intertextos e referências, q parece confirmar essa tese palavra por palavra.

Um exemplo: logo no segundo capítulo (livro com intertexto sempre começa a mostrar as garras no segundo capítulo), Javier vê o filme argentino Moebius, cujo título é uma referência à fita de Möbius. É possível afirmar q um autor q inclui a fita de Möbius num livro vai tentar sua metáfora narrativa. Estruturar um romance como uma fita de Möbius não é idéia nova, mas Toda terça até q se sai muito bem. O livro tem os três elementos da fita: duas histórias paralelas, uma interna e outra externa, e no fim uma reviravolta q coloca a história interna no exterior e a externa no interior. E aí vc tem q ler o livro de novo pra entender um pouquinho mais, &c. O enredo não é meramente circular: os elementos se sobrepõem uns aos outros e às vezes parece q o objetivo da autora, assim como o de Laura ou Javier, é ofuscar a revelação de algo sobre si mesma.
Um outro filme citado obliquamente é El lado oscuro del corazón, com poemas de, entre outros, Mario Benedetti - uruguaio q também talvez curiosamente também fez o primário numa escola alemã (e aparece no filme recitando em alemão). Javier vê com sarcasmo o fato de o público alemão achar “lindo” o protagonista do filme recitar poemas de amor conturbado por contraposições circulares enquanto vaga pelas ruas de Montevidéu e Buenos Aires, tal como ele mesmo parece vagar em Frankfurt.
Também os nomes dos personagens de Toda terça são parte do intertexto. O conto de JLBorges Ulrica, também mencionado obliquamente, é narrado por um Javier Otálora, cujo sobrenome parece ter gerado também Otávio e Laura. As personagens Camilla e Sandra (talvez a mesma pessoa) são quase certamente auto-referências, pois parecem derivar do nome e sobrenome da própria autora: Carola Saavedra. O q tudo isso significa pode ou não estar contido no livro. Há tanta coisa pra se ver e pensar em Toda terça q, acho, eu só poderia escrever uma boa análise após uma terceira leitura.
Mas na verdade Saavedra não precisa de intertexto: ela tem suficientes recursos próprios pra prescindir de artifícios estruturais. Porém, se seu talento for exatamente o intertexto, é difícil ver um próximo livro desvinculado de sua singular experiência de vida.
Apesar de toda essa babação, o livro de Saavedra tem o q pra mim é um problema: esta é uma copa de literatura brasileira, e Toda terça não me parece literatura brasileira. Não digo isso porque a autora nasceu no Chile e “adotou” o português. Se fosse esse um livro em português com clara descendência de ou parentesco com a literatura brasileira e escrito por um egípcio morando em Tóquio, eu diria sem problema q é literatura brasileira. Mas raciocine comigo: Toda terça descende diretamente de Cortázar, é parente de García Márquez, brinca de Borges, intertextualiza com a literatura e o cinema hispânicos, tem ritmos do espanhol, cadências hispânicas, todo um repertório de imagens provindo da e comum na América hispânica; a personagem Laura mora no Rio de Janeiro mas fala de Botafogo como os portenhos falam de Buenos Aires; quando Otávio diz “não sou lacaniano”, a frase tem muito mais ressonância se pronunciada em Buenos Aires, Santiago ou Caracas do q no Rio; Ulrike, apesar de germânica, é uma mulher tipicamente hispânica; a Alemanha q aparece em Toda terça tem pouca coisa além de cursos de espanhol, mostras de cinema hispânico, bares caribenhos, grupos de alemães tocando salsa, senhoras sonhando com aposentadorias em Minorca; grande parte do humor de Javier é o sarcasmo do cucaracha contra o europeu que o trata como um mero detalhe a estudar (se os brasileiros têm complexo de inferioridade, o q os hispânicos têm é um rancor da superioridade: só mesmo um poeta hispânico, tipo Benedetti, poderia escrever todo um poema com o recalcado título e tema “El Sur También Existe”); o final de Toda terça tem uma surpresa q depende de um tabu ou de pudores q podem chocar um país ãã… carola como o Chile, mas q a maior parte das artes narrativas brasileiras já deixou pra trás há muito tempo; o livro tem até sotaque, utilizando palavras e expressões q, tomadas isoladamente, podem até ser usadas em português ocasionalmente, mas q em quantidade são indício de outra coisa: “isso me desesperava”, “essa aura que carregam as pessoas”, “recém começando”, “compartir”, “por casualidade”, e mais, pelas minhas contas, 78 hispanismos igualmente patentes e 35 meio incertos (diga-se q Lugares tem alguns anglismos, tipo a horrenda frase “a lembrança de sua beleza desaparece mais rápido do que ela pode gastar dinheiro no shopping”). Acho q não estaria muito longe da verdade a conjetura de q Saavedra, perante as opções de publicar um livro apenas usual em espanhol ou um livro inovador e instigante em português, preferiu a segunda. Óbvio.
É como se o Boca Juniors tivesse contratado alguns jogadores cariocas e quisesse competir no Brasileirão; mas se o voto popular e os dirigentes desta copa colocaram Toda terça na disputa, ¡que vengan los toros! E sorte da literatura brasileira, digo eu. ¿Por que não? Tem grandes chances de ganhar.
A pergunta com q concluí minha resenha na Copa 2007, “¿Será q ninguém quer o Brasil?” poderia ganhar outra formulação: “¿Será q ninguém quer o brasilês?” É preciso dizer q Toda terça, apesar de descender de Cortázar, utiliza o brasilês com graça e aplomb - embora alguns formacultores possam chiar de seus ãã… “desvios da norma” (hahaha). Mas acho q entre os herdeiros de Graciliano Ramos e Euclides da Cunha TEM q haver potencial prum livro superiormente inteligente e sofisticado com algo novo a dizer, algo q o brasilês está singularmente posicionado pra dizer, sem referência a hispanismos, anglismos e germanismos. Só q… talvez os brasileiros q suprem e controlam o meio editorial já se sintam por demais cosmopolitas e globalizados pra deixar q isso aconteça.
Venceu o Toda terça por 4 a 1. Toda terça fez um pênalti, mas o juiz ladrão apitou o final da peleja antes de Lugares poder cobrar. Vergonhosa atuação do juiz. Mas mesmo se marcasse o gol de pênalti Lugares não ia vencer, ia? Então.





























22/10/08 - 1:02 am
1. seu lucas, lendo só agora a copa, de fato @#$%& os comentários:que saco ler de baixo pra cima e vir do fim pro começo..
2. resenhistas ou comentadores (1) deram uma prova dos livros, do 2º jogo , nada!
3. poxa! ia sacar o graciliano, dr plausível!!!
e fiquei a fim de toda terça (só li bernardo nessa copa) mas , fala sério, a saavedra escreveu em espanhol e traduziu ! !!!!!(máquina sem interrogação) uau!
abraço.
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