Oitavas de final

29/09/08

O dia Mastroianni jogo 3 A guerra dos bastardos

Jurada: Luciana Araujo

Desde que topei apitar um jogo, passei a prestar atenção nos árbitros de futebol. São altivos. O corpo todo se estica quando levantam o braço para apontar que este ou aquele errou num passe. Talvez seja o orgulho de ter o poder de selar uma verdade tendo como base uma regra clara. No jogo literário, onde, inclusive, não há um regulamento, seria derrota anunciada se sentir assim. Que orgulho besta pode existir em anunciar que um livro perdeu ou outro venceu? Se no estádio ou pela TV os torcedores têm de um lance polêmico visões mil para desconstruir uma decisão, que dizer dos ângulos possíveis da comparação entre narrativas? Não defendo que tudo pode ser bom de acordo com este ou aquele ponto de vista, e por isso mesmo, creio, se aceita tecer um julgamento, mas também diria que, se há alguma certeza, antes de começar esta partida, é a de que a competição entre duas obras é uma terceira ficção, sujeita ao gosto dos outros. Outra! Não importa o resultado, haverá sempre um grito de “juiz filho da puta!” no ar. Ainda bem!

Começa a partida! Ou deveria… De um lado, Contramão, de Henrique Schneider. Do outro, Rato, de Luís Capucho. E durante todo o jogo é assim que as obras permanecem, em lados diferentes do campo, sem se cruzarem. Se pegar a contramão é uma imagem clara de seguir contra o fluxo, a de um rato é de evitá-lo, sempre à espreita num canto escuro.

Dizer que são livros opostos seria aproximá-los de modo falso. São tão diferentes que, com uma única bola, o jogo não rola. Os jogadores de um time não se esforçarão para tomá-la do outro. Resta reinventar a forma da disputa. Cada time tem sua própria bola e me mostra o que faz com ela. Um de cada vez.

No aquecimento, Contramão apresenta a superfície do cotidiano do protagonista Otávio Augusto, sem se alongar. Uma vida toda planejada, orientada para o tipo de sucesso que promete como resultado uma boa colocação profissional, carros, roupas caras e uma família de comercial de margarina ao lado de uma mulher que lhe convém. Tudo é casca e verniz até o choque do imprevisto. O jovem promissor atropela um casal de adolescentes em Porto Alegre e, infringindo a primeira regra, não pára para socorrer. Foge.

A partir deste ponto, formalização e acontecimentos ganham o mesmo ritmo. A marca da narrativa é a velocidade, que acelera ainda mais a cada novo imprevisto, focada nas ações do personagem, que se sucedem sem deixar espaço para digressões ou experimentações. A escolha é coerente: seria discrepante se, após o acidente, a maneira como a vida besta daquele homem é descrita nas primeiras páginas passasse a ser explorada via fluxos de consciência ou outra técnica qualquer para revelar uma interioridade mais complexa.

Sem pausa para fôlego, Contramão prende e arrasta, como se o leitor embarcasse na fuga também. Estratégia que se mostra na forma, uma vez que temos um longo capítulo entre os primeiros e os últimos, curtíssimos. O que será que vai acontecer agora? É pergunta que não nos larga. E acontece sempre o mais absurdo. Otávio Augusto vai “atropelando” a vida de quem passa por sua frente e comete crime atrás de crime. Lembrou-me muito a sensação que tive quando assisti ao filme Durval Discos, no qual o dono de uma loja de vinis vai se metendo cada vez mais numa confusão sem volta. A diferença é que no filme as coisas aconteciam por acidente e em Contramão tudo é mais premeditado, mesmo que em questão de minutos. De qualquer jeito, a fuga em Contramão, que termina no Uruguai, também leva a um lugar de onde não se pode mais voltar.

É bem verdade que a discussão sobre gêneros é bastante acalorada, mas arrisco afirmar que Contramão não é um romance. Essa necessidade de manter o inesperado no texto e se ater nas ações de um único personagem sem a construção de um universo está mais para novela. Uma mudança aqui, outra ali, e diria até tratar-se de um roteiro bastante hollywoodiano, com Tom Cruise no papel principal. (Já notaram como ele sempre interpreta o cara bem sucedido que se dá mal para aprender uma lição ou transmiti-la ao público?)

No livro de Schneider paira a mensagem de que o que fez o personagem fugir o colocou frente a frente com o seu próprio destino, mas a reflexão parece isolada pela necessidade de pontuar uma conclusão fácil. Em certos filmes ou telenovelas é um pouco assim: mata-se o malfeitor e todos são felizes para sempre. Não há dúvida quanto ao mérito da narrativa, aliás, muito bem escrita, de carregar de maneira tão impetuosa o leitor, mas ao fechar o livro, como ao sair de certas sessões de cinema, fica a sensação fugaz do entretenimento e nada mais. Muita gente procura algo assim para se distrair, mas será que depois sente a necessidade da releitura da obra e de si mesmo? Não sei.

E já que falei sobre gêneros, Rato, de Luís Capucho, um livro fininho, com apenas 127 páginas, tem peso de romance, pois ganha a luta com o leitor por pontos e não por nocaute, parafraseando Cortázar ao falar sobre a diferença entre romance e conto. O protagonista, que é também o narrador, vive numa cabeça-de-porco, uma casa cujos quartos dona Creuza, sua mãe, subloca para homens solteiros. Cercado pelos moradores, gente de todo tipo e corpo, o jovem vai descobrindo a si mesmo ao vasculhar com os olhos, bundas, paus e pernas de cada um, desejando os jovens e rejeitando os velhos, numa busca obcecada do masculino que, para ele, os de certa idade já perderam.

O masculino, aliás, é uma das chaves de leitura deste romance: até quando o protagonista fala em se abrir como uma mulher, isso não deixa de ser uma visão de homem sobre o feminino. Não à toa, a pensão aluga vagas só para rapazes, o espaço ideal que o protagonista encontra para o gozo com seu novo amante é a casa do Alistamento Militar e a conclusão que chega sobre si diante de sua sexualidade é a de que deve ser um cara bélico para gostar tanto assim de: “Meter a mão na sua cara! Meter o pau no seu cu!” Além disso, a única mulher com um papel de destaque é a mãe.

O romance é por vezes de uma animalidade que nos coloca diante do que se é como corpo em estado bruto, sem o melindre das roupas fazendo ver o que está sob o calção ou por trás da fechadura de porta de banheiro. No entanto, as situações descritas em estado bruto e escancarado são apenas o chão factóide de uma narrativa que traz em seu tecido rasgos de lirismo.

Rato não é um livro que deslumbre ou encante de cara. Usando aqui uma imagem do próprio livro para pensá-lo: o lugar do prazer ao mesmo tempo tem cheiro de merda. O deleite estético se dá pela forma como o autor constrói a revelação cínica que o narrador tem de si mesmo, sempre tão atento aos outros. Um corpo jovem, mas cercado por espaços que estão se deteriorando. Um corpo que só não se sente deslocado quando ele próprio é o cômodo de um outro, e que por isso mesmo parece fadado ao desconforto, a ser rato.

Em sua corrida desenfreada pelo campo, Contramão mostrou vigor e domínio de bola, mas usando dribles manjados. Por isso mesmo talvez fique fácil para o goleiro adivinhar de que lado cair para fazer a defesa - sem contar os chutes para fora na hora da finalização. Já Rato, ao tomar a bola para si, propôs que esquecêssemos dela e prestássemos mais atenção nos movimentos dos jogadores. Com a bola invisível, fico sem saber se houve gol. Mas entre uma corrida com linha de chegada certa e uma coreografia de gestos que leva a algum espaço inexplorado, fico com a segunda. Rato vence por vantagens e desvantagens da busca de uma arte, via um certo Eu de quem não se ousou dizer o nome.

O dia Mastroianni
Rato
de Luís Capucho

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