Copa de Literatura Brasileira

Oitavas de final

O dia Mastroianni jogo 2 A guerra dos bastardos

Jurado: Eduardo Nasi

O senhor me desculpe, viu, por começar ensebando, mas no lugar em que eu trabalho tem um fumódromo. A propósito: eu parei. Fazer o quê? Já proibiram de fumar nos pubs ingleses e nos cafés franceses. Há essa campanha mundial contra o cigarro, um inferno. Diz que o único lugar do mundo em que ainda se fuma com sossego é a Grécia. Aqui, nem no fumódromo se tem tranqüilidade. Todo mundo sabe que, mais cedo ou mais tarde, alguém vai cortar a mamata.

Fumódromos são ambientes muito interessantes. Tenho pra mim que eles não deveriam existir. Quem fuma sabe o quanto um fumódromo é uma bosta; quem não fuma os odeia; quem os inventou não se acusa. E, ao mesmo tempo, eles estão espalhados por aí, provando com suas paredes sólidas que tem gente que está disposta a entrar numa câmara de gás e ficar com cheiro de cinzeiro para manter o hábito gostoso que é fumar. Fumódromos são um último refúgio.

Nesse fumódromo lá de onde eu trabalho tem uma TV e um sofá. É lá que o pessoal se aconchega para ver o digestivo Video Show ou uma que outra partida de futebol. Foi lá que, outro dia, eu vi uns pedaços de um programa de luta livre. Era uma coisa bem esquisita. Um dos combatentes era um ogro deformado gigante especializado em boxe, sumô e outra modalidade dessas de moer gente. Do outro lado, tinha um rapazote mirrado que era faixa de alguma cor (azul, será?) que indicava a sabedoria suprema em uma arte marcial que eu não sei sequer pronunciar, muito menos lembrar qual é.

Resultado: o magrelo deu uma canseira no fortão que, lá pelas tantas, caiu.

Assistindo à luta, me dei conta que esta minha partida não tem absolutamente nada a ver com um jogo de futebol. Eu, que não acompanho nem final de Copa do Mundo, sei que a paridade é um troço pra lá de importante. Unhas são roídas quando um dos times fica com um jogador a menos no campo. Dois a menos e tem gente prometendo a mãe pra Belzebu se o adversário não aproveitar o deslize pra fazer uns gols.

Aqui é o contrário que se vai ver. Curiosamente, a contraposição começa pelo design da capa. A de A guerra dos bastardos é preta e vermelha, com uma mão em tom de sépia. A de O dia Mastroianni é toda sépia, com uma lagosta vermelha. Daí pra frente, a situação só fica mais complicada.

Cuenca é solar. Ana Paula, sombria. Cuenca é felliniano. Ana Paula, um noir sujo carioca. Cuenca é onírico. Ana Paula, tão real quanto um soco nos bagos. Por aí vai. Em comum entre os dois, só o tempo-espaço: ambos são cariocas, ela de 1977, ele de 1978.

A guerra dos bastardos é o tal do grandão da luta: um romance noir truculento, massudo. Até seu tamanho, entre um livro comum e um pocket, visualmente evoca a figura de um baixinho parrudo e invocado. Mas é ele que acaba derrubado justamente pela agilidade e pela leveza do adversário.

Com o perdão do comentário clichê, mas, vá lá, é coisa que tem que ser dita: o grande erro de Ana Paula Maia é também a sua maior virtude: sua escrita enérgica, o tal do soco nos bagos. Para dar a porrada, a autora usa tanta força que acaba se perdendo. Quando acerta, é na mosca. Quando erra, Ana Paula vê seu texto ser tomado por clichês.

O resultado é que seus capítulos parecem criados com ansiedade: começam geralmente densos, concisos, fortes – e aí Ana Paula se revela quase uma virtuose da pulp fiction. Mas, no decorrer da leitura, a energia vai se dissipando, o tom abranda, a tensão se reduz. É quando o texto parece mais relaxado, mais descompromissado (mas não largado), que Ana Paula tem seus melhores momentos.

Impossível negar que há méritos nessa escrita transloucada de Ana Paula Maia. Há, sim, a começar pelo vigor da autora, pela imensa energia que entrega para a sua obra. Se o livro tem lá suas escorregadas, o que as causou também é nítido: Ana Paula tem uma força criativa monstruosa, genuína, uma voz própria que não fala baixo – mas que carece de controle, de aparo. O resultado é que a trama fica apenas verborrágica – Ana Paula parece se perder nas palavras, e leva o leitor pela mão até seus trechos labirínticos.

Mas essa é uma partida de contrastes, e a justaposição de O dia Mastroianni com A guerra dos bastardos também revela o defeito de Cuenca: o livro é tão redondo que se aproxima perigosamente de uma certa perfeição estética. Tanto que recai num outro clichê literário: é dos que se pega e não se consegue largar. Porque é da natureza do livro que ele flua, que seja líquido, que desça rápido – assim foi concebido, e assim ficou.

Juntando isso com o tom onírico-hollywood-felliniano da história, a novela quase causa uma impressão de que não está ali: é nuvem, devaneio ou ilusão.

Mas fica só no quase.

Porque o humor – leve, divertido, constante – logo quebra essa impressão. Mais que o riso, é o sorriso que O dia Mastroianni provoca que redime João Paulo Cuenca. E dá a ele a vitória desta partida.

O dia Mastroianni
O dia Mastroianni
de João Paulo Cuenca

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15 comentários

    Com esta resenha, fiquei louco para ler o livro de Ana Paula.

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  • meu deus, meu deus, MEU DEUS!!! o que é essa resenha desse nasi? porque não fazemos uma copadacríticaliteráriabrasileira?? só não vale homem com homem, mulher com mulher, e critico escritor com escritor jornalista.

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  • Uma sugestão, Lucas: que a gente possa consultar o resultado da enquete(“O resultado do jogo X foi justo?”) sem necessariamente votar. Tenho escolhido uma ou outra opção apenas para saber o placar, mesmo sem ter lido os livros.

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  • Olá

    Não tinha pensado em ler nenhum dos 2 livros. O de Cuenca não me atraia por que não digeri muito bem seu ‘Corpo Presente’. O de Ana Paula Maia também não tinha me despertado interesse por que ando numa fase mais cor-de-rosa nas minhas leituras. Mas a resenha também me deu vontade de ler ‘A guerra dos Bastardos’.
    Um abraço

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  • Já que a analogia futebolística não só está valendo como é o mote da Copa, sinto-me à vontade para comentar que nestas duas primeiras partidas aconteceu aquilo que se costuma vituperar no futebol de verdade:

    O Juiz resolveu aparecer mais do que o jogo.

    Mas que siga a Copa, grande iniciativa.

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  • Aconteceu com alguns dos que já comentaram e também aconteceu comigo: deu mais vontade ler o perdedor do que o vencedor. Aliás, não seria lógico falar mais a respeito do vencedor (sobre ele são poucas palavras)?

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  • Seguindo o comentário do Julio, não seria bom também falar mais sobre os livros? Porque na resenha há um pouco sobre a escrita dos dois autores, mas não há uma frase sequer sobre o quê eles escreveram.

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  • Poxa, boiei nessa resenha. O Mulatinho e a Renata têm toda razão. E adiciono uma coisa: a resenha se parece bastante com a descrição da “escrita transloucada de Ana Paula Maia”: começa toda inspirada, cheia de idéias, parece q vai ser uma resenha longa e prazerosa. cheia de meandros, fazendo paralelos com vícios e lutas… e aí vai definhando, falando de estilo e nada de conteúdo… e aí o juiz olha o relógio… dá os descontos… um único parágrafo com uma descrição genérica do vencedor… e o juiz apita o final da peleja.

    Essa resenha “tem uma força criativa monstruosa, genuína, uma voz própria que não fala baixo – mas que carece de controle, de aparo. O resultado é que a trama fica apenas verborrágica”…

    Nasi, longe de mim prescrever resenhuras, mas acho q todos gostaríamos de saber por que vc gostou mais de um q do outro, e não como.

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  • Se for pra fazer paralelos com futebol, mesmo sabendo que por aqui já tiveram aqueles que foram contra a isso, me pareceu de modo bizarra que a partida se deu da seguinte maneira: de uma lado aquele time que tem ótimos jogadores, e é realmente uma equipe excelente, mas acaba pegando aquele time mais ou menos que sempre fica no meio da tabela e nunca vislumbra grandes coisas dentro do campeonato, além é claro, do objetivo de permanecer mais um ano na primeira divisão. A partida ocorre nos conformes, o bom time pressiona, joga bem como sempre, mas no fim perde, de um a zero, com um gol de penalti mal marcado ou um impedimento que o bandeirinha não viu.

    Mesmo sabendo de antemão que o dia Mastroianni iria ganhar, quando o resenhista avisou que “o grandão iria sucumbir ao baixinho habilidoso”; lendo o que viria a seguir, comecei a ter impressão de que houve algum equívoco, já que os bons adjetivos dados Ás Guerras dos Bastardos me fizeram acreditar que: ou As Guerras dos Bastardos era realmente melhor que o seu adversário e ganharia, ou que a argumentação para a vitória do outro viria em seguida, nenhum nem outro.
    Sendo assim, junto-me aos pedidos anteriores para que o resenhista fale um pouco mais sobre o por que da vitória do livro menos elogiado e comentado e não o contrário. Acho que um paragrafo elogiando o humor de O dia Mastroianni no final, não serve como justificativa para a vitória.

    Posso até estar sendo chato, mas a partir do que li na resenha também fiquei com uma vontade grande de ler As Guerras dos Bastardos e sinceramente ignorei a possibilidade de ler O dia Mastroianni, não por achar fraco, mas simplesmente por não ter argumentos, ao menos não os vejo nessa resenha, que me façam ter essa vontade. Se foi essa intenção, meu caro, parabéns.

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  • Pior resenha que eu já li na vida: “Os livros são azuis, vestidos de bolinhas amarelas, e tem um monte de letrinhas dentro” – MAS SOBRE O QUE ELAS FALAM?

    V.S.F
    (em sigla, para que não cortem o comentario)

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  • Fiquei preocupado: a segunda rodada da CLB perde por uma diferença de 60 comentários com relação a primeira rodada (71 x 11). O que aconteceu? Os analistas estão desestimulados?
    Palpite para a próxima rodada:
    Rato 3 X 1 Contramão
    Rato: comum
    Contramão: lugar-comum

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  • Pareceu-me que o Juíz apreciou o vigor e a vitalidade da escrita da na, contudo, faltou-lhe ser mais cuidadosa (com o texto?). E Como estamos numa copa, oba, passa o seguinte o time tem um ataque do cacete, mas não cuidou bem do meio campo e da defesa, acabou levando um contra-ataque mortal.
    E levou um gol de um time burocrático, que nada mais fez que jogar o joguinho, sem grandes jogadas criativas. Sem nenhuma ameaça ao oponente. Mas levou.
    Lembrei-me da copa de 82, que perdemos com um jogo vigoroso.
    Li esse romance do Cuenca e me ficou exatamente essa impressão. É bonzinho, bonzinho e só.
    Não levanta a galera.
    O Guerra dos Bastardos não li, por enquanto, tá guardado esperando. Mas da resenha do Nasi, veio a curiosidade de ver em jogo a tal escrita vigorosa, bem como seus erros.
    valeu!!!!!!

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  • Fiquei decepcionado.

    O Nasi é um bom resenhista (para quem gosta de quadrinhos, basta dar uma olhada nos reviews dele pro universohq.com), mas essa partida foi insossa até dizer chega.

    Parece que ficou um ar de receio em elogiar mais o vencedor e, para compensar a derrota d’A Guerra dos Bastardos, tome elogios ao livro da Maia.

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  • Engrosso a lista dos que estranharam a resenha. Deu mais vontade de ler o livro perdedor. Isso, no mínimo, é estranho.

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  • Concordo. Cueca é lindo.

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