Copa de Literatura Brasileira

Final

O dia Mastroianni jogo 17 O filho eterno

Jurado: Lucas Murtinho

Como na primeira edição da CLB, um livro chega à final aos trancos e barrancos enquanto o outro surge como franco favorito, tendo vencido todos os seus jogos com autoridade de campeão. Mas ao contrário da Copa passada, em que os dois finalistas me pareceram mais ou menos equivalentes em qualidades e defeitos, desta vez não tenho dúvidas sobre quem merece ganhar: a decisão entre um livro bom — O filho eterno, de Cristovão Tezza — e outro menos do que isso — O dia Mastroianni, de João Paulo Cuenca — é fácil. “Bom”, porém, pode parecer pouco para uma obra tão elogiada quanto O filho eterno, e me encontro agora na desagradável posição de apontar os defeitos de um romance do qual gostei.

Vi dois problemas em O filho eterno. O primeiro é que o desejo do autor de escrever bem é tão proeminente quanto o fato de ele realmente escrever bem. Quando comentei isso com o Alex Castro ele tirou um sarro da minha cara: “Pois é, eu também acho que o problema do Pelé era que ele claramente queria mostrar pra todo mundo que sabia jogar bola”. Aceito a crítica mas mantenho a posição: a busca da imagem perfeita e da frase primorosa é evidente demais em O filho eterno, e acabou me distraindo da perfeição e do primor mesmo quando eles foram alcançados. Mais grave ainda, tal busca me distraiu da história contada por Tezza, funcionando como uma barreira entre o leitor e o duro retrato que o autor compõe de um personagem óbvia e sabidamente inspirado em si mesmo: o perfeccionismo de Tezza reduz o impacto emocional da sua narrativa. O segundo problema que enxerguei no romance, aliás, também causa uma redução de impacto emocional: é a quantidade de vezes que o narrador-autor divaga, delira, pensa em outra coisa — a quantidade de vezes, enfim, em que ele evita tratar do assunto central do livro, da difícil convivência com e aceitação do seu filho que sofre de síndrome de Down. Por mais que eu tenha gostado de finalmente descobrir por que os dias da semana têm nomes tão ridículos em português, por exemplo, fiquei com a impressão de que informações desse tipo entraram no romance apenas para que Tezza não precisasse ir tão longe no seu autoexame quanto muita gente acredita que ele foi.

Mas falo desses problemas apenas para explicar a modicidade do meu elogio diante de tantos leitores — incluindo alguns jurados da Copa — que colocam O filho eterno entre os melhores romances brasileiros da década ou mesmo de todos os tempos. Não vou tão longe, mas não hesito em dizer que se trata de um livro acima da média e de um excelente cartão de visitas para quem, como eu, não conhecia a obra de Tezza. Mais do que isso, e para fazer eco às apreciações encontradas em alguns dos textos que seguem abaixo, O filho eterno é um romance adulto, no sentido de ser uma obra madura cujos defeitos não se encontram em elementos básicos como seu conteúdo, sua forma ou a adequação entre ambos. Voltando à metáfora futebolística que felizmente teima a permanecer viva na Copa, O filho eterno é como o hexa/tricampeão São Paulo: um clube com estádio próprio, finanças em dia, elenco talentoso, equipe técnica estável e grande torcida. Nem todos os passes saem certos e nem todos os jogos são vitórias por goleada, mas o poder de fogo do time é inegável e ele será sempre um sério candidato ao título. Passando para uma menos usada metáfora escolar, O filho eterno é um aluno que, ainda que não tire dez, certamente passará com tranquilidade de ano.

Havia outros clubes estruturados ou alunos aplicados nesta Copa — O sol se põe em São Paulo e Toda terça são os meus dois exemplos — mas por um acidente como os que sempre acontecerão em torneios deste tipo o outro finalista não é um deles: O dia Mastroianni está mais para o meu querido e esquizofrênico Flamengo ou para o aluno desligado conversando no fundo da sala. A resenha do Sérgio Rodrigues me fez reconsiderar alguns pontos do meu primeiro e extremamente negativo julgamento de O dia Mastroianni: o romance tem uma lógica interna, um conjunto de objetivos que se propõe a atingir, e consigo entender por que alguns leitores pensam que ele os atingiu. Mas ainda julgo que nem os objetivos valiam a pena nem a execução foi satisfatória. Concordo relutantemente com Rodrigues quando ele diz que O dia Mastroianni é puro exercício de estilo, e senti ao lê-lo o despojamento criativo de que André Sant’Anna falou na sua resenha. Mas o exercício de estilo só deixa de ser isso, mero exercício, quando é levado ao limite e explora novas possibilidades (como Finnegans wake, para citar o único exemplo que me vem à mente neste instante): se não é o caso, seu lugar é na gaveta de rascunhos do autor, à espera de um conteúdo que lhe dê razão de ser. Mais grave ainda — mas menos sujeito a uma discussão argumentada e por isso menos interessante — a meu ver nem mesmo como exercício de estilo banal O dia Mastroianni é digno de nota. Há alguns erros entre os consideráveis acertos, e foram poucos os momentos em que as múltiplas sacadas de Cuenca me deixaram sinceramente admirado: na maior parte do tempo elas me pareceram malabarismo com palavras, algo que eu não poderia fazer mas que ainda assim não me prende a atenção por mais de cinco minutos. Talvez se Cuenca tivesse trocado as bolas de tênis por serras elétricas — se houvesse algum risco ou alguma novidade no que ele fez. Mas não há.

Faltou, portanto, um adversário à altura de O filho eterno para animar esta final. Pelo menos o meu voto ele leva fácil.

O dia Mastroianni 0 x 1 O filho eterno

Jurado: Luiz Antonio de Assis Brasil

Cuenca: Eis aí um livro que, para além da avaliação de sua qualidade estética, merece uma consideração de natureza cultural. É o retrato do modo de vida de certo segmento de nossa sociedade — ligado a determinada faixa etária e econômica e a uma certa tabela de valores sociais e pessoais. Todas minhas cautelas restritivas indicam que não é um “retrato de época” tout court; isso seria erigir o livro à condição de metonímia epocal, o que não é bom para nenhum livro nem para a literatura. Em outras palavras, O dia Mastroianni deve ser entendido em seu contexto, e nesse contexto ele funciona, e funciona bem, e merece seu espaço.

Contudo, peçam-me para falar sobre esse livro daqui a dez anos.

Tezza: O livro de Tezza tem tudo para ser considerado como literatura; e sou levado a dizer isso porque: a) o texto é, poético, forte, elegante, persuasivo; b) o conteúdo tem drama humano e emoção. É certo que fala de uma questão específica (e dolorosa, no caso), mas qualquer romance trata de uma questão específica. Não há literatura em abstrato. A literatura tem temas, e vive em função dos temas. Por isso considero ociosa a discussão sobre o que vale mais, neste romance. Ele é literatura na sua integralidade, e pronto. E dizer que é literatura significa dizer, implicitamente, que é boa literatura.

O dia Mastroianni 0 x 2 O filho eterno

Jurado: Sérgio Rodrigues

O desequilíbrio de forças desta partida final chega a ser um pouco aflitivo, embora os dois times sejam inegavelmente profissionais.

O dia Mastroianni é uma novela curta que se dedica a fazer graça (muita) e provocar reflexão (pouca) sobre a suposta irrelevância da literatura no mundo de hoje. O filho eterno é um romance suculento que desmente de forma avassaladora a tese da irrelevância da literatura no mundo de hoje.

O livrinho de João Paulo Cuenca é ligeiro e assumidamente imaturo, ainda que construído com inteligência e sustentado por um domínio técnico da prosa bem acima da média nacional — um bom divertissement. O livraço de Cristovão Tezza dá um show de maturidade, tanto emocional quanto literária, e faz do domínio técnico um instrumento, não um fim. Sem tratar a literatura como mero veículo para o confessional, nem por isso desiste de iluminar o que está fora dela: o viver, que, como se sabe, é muito perigoso.

O resultado é mais que previsível. A O dia Mastroianni resta o consolo de ser derrotado por um livro que, até onde me foi dado ler, tem raros adversários à altura na literatura brasileira dos últimos anos.

O dia Mastroianni 0 x 3 O filho eterno

Jurado: Antonio Marcos Pereira

Há um momento em Ratatouille no qual o feroz crítico gastronômico Anton Ego expõe seu credo a respeito da crítica, suas funções, seus imperativos. É um credo como qualquer outro — é relativo, é idiossincrático, é matéria de debate e não determina leis imutáveis. Mas funciona bem para mim, e volta e meia reflito sobre os desafios implícitos em sua aparente simplicidade moral, e sobre o que ali me parece ser o elogio de uma potência da crítica à qual gostaria, como comentador de literatura, de fazer jus: refiro-me ao momento em que Ego, após dizer da relativa facilidade do trabalho do crítico enquanto aquele que fala contra, que impõe reparos, diz que há momentos nos quais um crítico realmente arrisca algo, e isso ocorre na descoberta e na defesa do novo. O mundo é muito injusto com os novos talentos, as novas criações, e o novo precisa de amigos.

A minha grande tristeza nessa final da Copa 2008 é que me vejo mais uma vez impossibilitado de ser amigo do novo, de estar ao lado de uma produção que arrisca algo e, assim, de arriscar junto, de apostar em outras formas de fazer e ler literatura. Acreditando que uma construção como a literatura não está ainda dada, ou pronta, mas está se fazendo e transformando diante de nossos olhos e por nosso próprio empenho, sempre cobro de mim mesmo evitar ter um único fiel da balança, julgar de uma maneira muito unilateral os produtos que me aparecem e que solicitam meu juízo. Quero poder ouvir alguma vozinha miúda e ainda incerta sobre a tradição com a qual conversa, e quero aprender com o que essa voz pode ter a me dizer. Ano passado, um trabalho muito eloqüente, de grande potência — O paraíso é bem bacana, de André Sant’Anna — foi deixado de lado por uma resenha que julguei obnubilada e nostálgica. Resultado: levou o caneco um livro que me lembrou a seleção em tempos de Parreira: o Música perdida, do Assis Brasil. E dessa vez, apesar de minha simpatia programática e apriorística com o que ele respresenta no certame, não tem jeito de favorecer o livro do Cuenca, O dia Mastroianni.

Cuenca representa bem para mim “o novo”: é um cara jovem e não tem atrás de si uma carreira tão longeva, nem seu livro tem uma trajetória tão eivada de prêmios quanto a de O filho eterno. Queria que o livro do Cuenca fosse o precário e talvez precoce investimento na salerosidad às expensas da respeitabilidade, o advento de uma literatura neo-dada com caipirinha, a celebração do dandismo como opção ainda legítima, um dandismo de pobre, um dandismo carioca e nosso. Queria que a citação do Oswald na epígrafe indicasse que se seguiria uma máquina de comer cultura nas páginas vindouras, algo que pudesse dizer melhor, e em outra chave, menos marcada pela chatura do Oswald, que pegamos a cultura européia e o tédio do flâneur mastroiânico e fizemos disso outra coisa, um novo fruto sob o sol. Queria, enfim, muitas coisas desse livro, mas não pensem que queria demais, ou que já sabia o que queria: a cobrança maior, talvez a única cobrança, é que o livro me desse algo que não tenho ainda, que me mostrasse algo estranho a mim e, assim, cumprisse quem sabe uma das funções atribuíveis a esse negócio, que tem a ver com uma dimensão de aprendizado.

Mas que nada: o livro é mais do mesmo, e é só onanismo mesmo: Cuenca captura um bom tema, e encontra uma matriz interessante (Mastroianni, Fellini) para tratar dele. Mas seu autor assume muito pouco risco, circunavega o próprio umbigo, flerta com a ficção de si e resolve seu dilema criativo com algo (ai!) à guisa de metaficção. O pouco risco está em toda parte: nas marcas de bom gosto distribuídas pelo livro, no ethos bom moço traduzido nos desenhos, nas letras graúdas, na afetação inofensiva do discurso dos personagens, nas séries sincopadas de elementos díspares e nas referências oblíquas a elementos da cultura contemporânea dos antenados — tudo parece cortejar justamente aqueles que, supomos, seria o alvo da crítica operada pelo livro, essa geração ao mesmo tempo destituída e abundante à qual tenho a dúbia fortuna de pertencer.

O dia Mastroianni falha, creio, justamente por isso: ao ser demasiado inofensivo, não consegue dizer nada, apesar de aparentemente desejar ser um livro sobre algo — algo como a impossibilidade de escrever hoje, o peso da tradição e da influência, a dificuldade de escrever o tédio com leveza e o delírio com ludicidade. Eu gostaria de ter lido um livro com esse temário, que talvez produziria uma resolução interessante para uma dicotomia que aparece nos tratamentos mais amplos da ficção brasileira contemporânea que julgo mais interessantes, a que toma uma estética da delicadeza como paralela a uma estética da transgressão — mas esse não é o livro que o Cuenca escreveu. É, todavia, o livro que creio que ele poderia ter escrito, e que acredito que ele escreverá — mas essa altura especulativa vai me aproximar demasiado de mãe Dinah, e é melhor abrir mão dela.

Sobre o Tezza e seu livro já falei à farta em minha resenha; outros comentaristas fizeram o mesmo, e pelo visto ele vai somar mais este modesto prêmio imaterial à sua longa galeria de premiações. Mas reitero: ao escolhê-lo mais uma vez vencedor, lamento — e não porque seu livro seja privado de merecimento, como deve estar claro para quem leu meus comentários a respeito. Lamento porque, mais uma vez, mesmo querendo muito ser amigo do novo, não pude sê-lo.

O dia Mastroianni 0 x 4 O filho eterno

Jurado: André Sant’Anna

O filho eterno, de Cristovão Tezza, é um livro sensacional! É a história de um jovem escritor, que podia ter escolhido uma profissão na vida, mas preferiu percorrer os árduos caminhos da arte, escrevendo livros, mesmo que, para isso, tivesse que ser sustentado pela esposa e, ainda por cima, tem um filho com síndrome de Down, passando pelos inúmeros conflitos que isso acarreta, como o sentimento de culpa inicial pela rejeição ao filho “defeituoso” até o amor que surge e, finalmente, pauta a relação de pai e filho daí por diante. É uma história sensacional, que tinha tudo para se tornar piegas, não fosse a categoria do escritor em ir além dos fatos propriamente ditos. O Tezza é um escritor sensacional, que domina a técnica, além de contar com grande criatividade e honestidade na hora de desenvolver sua visão de mundo. Eu, que gosto muito de futebol, me emocionei muito com o final do livro, com aquela perspectiva de não saber o que pode acontecer no segundo seguinte, nos gramados e na vida. Para que se tenha a certeza de que O filho eterno é um livro sensacional, basta ver as críticas publicadas nos principais jornais do país, os prêmios conquistados pelo Tezza este ano, além das resenhas sensacionais escritas pelos juizes desta Copa de Literatura Brasileira. Fora isso, o Tezza também é mais ou menos meu amigo. Fomos jurados juntos em um outro prêmio literário aí, vimos juntos um filme chinês aí, batemos uns papos legais num boteco aí etc.

Meu voto final vai para O dia Mastroianni, de João Paulo Cuenca, que é um livro sensacional, embora não se possa dizer que é mais sensacional do que O filho eterno, de Cristovão Tezza. Meu voto em O dia Mastroianni não é um voto de amizade. É um voto político contra a opinião formada, contra as resenhas plausíveis, contra o Vinicius Jatobá, a favor da aventura e da irresponsabilidade, essas porra.

O dia Mastroianni 1 x 4 O filho eterno

Jurado: Alex Castro

Confesso que não entendi muito bem O dia Mastroianni. Ou melhor, até entendi a proposta. Li as resenhas vitoriosas sobre o livro na Copa. Mas não entendi por que isso é bom. Ok, é um livro debochado, que brinca com a linguagem, etc. etc., mas e daí? No final, produziu-se boa literatura ou só uma boa piada interna, pra ser entendida pelo pequeno círculo de jovens autores contemporâneos? Veja bem: não é que eu leve a literatura a sério, deus me livre! O mais maravilhoso do romance é ser o único gênero literário que comporta sua antítese, sua paródia: uma tragédia nunca poderá ser anti-trágica, um épico não pode ser anti-épico, mas um romance pode ser um anti-romance, uma crítica de si mesmo. E, sim, entendo que foi isso que Cuenca quis fazer. E ficou até divertido. Mas e daí? Qual o conteúdo além disso? Era só a piada interna ou tinha mais? Se era só mesmo a piada interna, valeu a pena? Correndo o risco de ser repetitivo: sim, entendi a proposta do autor, sim, li tudo e acho que ele executou essa proposta muito bem, mas, ok, e daí? O filho eterno, por outro lado, e por tudo que falei em minha resenha do jogo 12, que não vou repetir aqui, é talvez o livro do ano. Cuenca demonstrou que tem talento mas ficou fazendo embaixadinhas pra arquibancada; Tezza partiu pro gol e fez um atrás do outro, verdadeira goleada. Sinceramente, não tem comparação.

O dia Mastroianni 1 x 5 O filho eterno

Jurada: Simone Campos

O dia Mastroianni é realmente uma masturbação (assumidíssima), no sentido de que não é autobiografia, mas idealização. É a fantasia de uma malandragem que tudo perdoa com invólucro sociológico (o menino de rua, o mendigo) e fashion (a bebida certa, a roupa certa) numa cidade híbrida com muitas moças bonitas. O problema é que o ideal máximo do ego só costuma ser proveitoso para o ego. O autor preparou toda uma pré-defesa: o título, a definição do mesmo puxada da cartola no começo, a epígrafe sobre onanismo, os interlúdios com um ser superior que lhe desqualifica em maiúsculas — e o final. Mas escolher uma estrutura sob medida para justificar a ausência de fio narrativo não vai fazer (como não faz) o leitor se conectar ao livro. Mesmo lendo com tempo de sobra, topei com um palavrório derramado e um excesso de referências que me lembrou estudar química tarde da noite antes da prova: ruído, puro ruído. No final, O dia Mastroianni melhora um pouco, mas nessa altura do campeonato… É um problema parecido com o do livro do Backes que critiquei (jogo 11). Reitero que a literatura nacional hoje tem muito autor dominador pra pouco leitor submisso.

O filho eterno também é um produto do ego, mas ao contrário de Mastroianni o material não parece ter sido colhido em benefício apenas do autor. Longe de mim querer glorificar o sofrimento do escritor ou a tragédia em detrimento da comédia; é simplesmente que em O filho eterno há coesão e molejo narrativos. O leitor consegue acompanhar a história e goza também. Isso, quem escreve sabe, demanda sensibilidade, empenho e persistência. Meu voto fica com O filho eterno.

O dia Mastroianni 1 x 6 O filho eterno

O jurado do jogo 10, Vinicius Jatobá, decidiu não participar da Copa e, portanto, não votou nesta final.

Jurado: Leandro Oliveira

O dia Mastroianni, embora seja um bom livro, é um livro que escolhe seu público — possivelmente aqueles que não acompanham o cenário literário nacional não perceberão uma série de ironias do texto e a motivação por trás de algumas cenas do enredo. Já O filho eterno é um livro que, além de não escolher seu leitor, seduz aqueles que não conhecem seu enredo ou o trabalho do autor, emocionando sem recorrer aos usuais artifícios de linguagem que fabricam falsos sentimentos que duram apenas uma página. O segredo do livro de Tezza é manter o equilíbrio, numa primeira parte mais distante, com um narrador mais cruel, e numa segunda mais próxima, com um narrador mais compassivo. O equilíbrio e a integração entre elementos da obra vão além ao ambientar a ação dos acontecimentos em um Brasil em transição, saindo de um longo período de ditadura e tendo diante de si problemas graves a serem solucionados, como a hiperinflação. O filho eterno é sem dúvida um dos grandes livros da literatura brasileira e por isso meu voto é dado a ele.

O dia Mastroianni 1 x 7 O filho eterno

Jurado: Jonas Lopes

João Paulo Cuenca sofre do mal que vem contaminando boa parte da produção dos jovens autores brasileiros: excesso de umbiguismo. Voltado para o próprio ego, desperdiçando a qualidade da prosa em favor de um humor frívolo (transgressão atrasada em quase um século), o autor não conseguiu fazer de O dia Mastroianni muito mais do que uma piadinha sem graça de final de noite. E o pior, tentando fazer de conta que ironiza as bobagens, os lugares-comuns. No diálogo entre o protagonista, Pedro Cassavas, e uma entidade misteriosa (sua consciência?), esta última brada: “Estamos cansados de narrativas que se curvam sobre si mesmas escritas por narradores autoconscientes em crise”. E, um pouco depois: “Essa literatura inútil e umbiguista não serve nem como vanguarda, ‘embora tenha todos os defeitos do vanguardismo’”.

Acontece que conhecer as próprias limitações, embora seja um bom começo, não significa necessariamente que se conseguiu driblá-las — a ironia não possui tal poder reparador. Daí as piadinhas pobres, a trama banal e sem frescor, a forma datada de tratar o erotismo (como se fosse um escândalo e estivéssemos em 1936). O que Cuenca e alguns de seus companheiros de geração parecem não ter compreendido ainda é que é possível, sim, falar de juventude ou boemia sem soar adolescente. Fellini, evocado no romance desde o título, que o diga.

Quanto a O filho eterno, repito as qualidades ressaltadas no jogo 8 sem me estender muito para não cair na redundância. Além de ser o melhor trabalho de Cristovão Tezza até hoje — evolução natural de O fotógrafo e Breve espaço entre cor e sombra —, é também um dos principais romances brasileiros recentes. O escritor radicado em Curitiba deixou para trás a irregularidade e encontrou o ponto certo entre energia e reflexão, ajudado pelo manejo eficiente do discurso indireto na narração — a terceira pessoa se confunde com a primeira, aproximando e afastando o leitor, mascarando uma possível confissão e, ao mesmo tempo, tratando com distância apaixonada o protagonista, a ponto de muita gente achar que de fato se trata apenas de um livro sobre um filho com síndrome de Down…

Tezza, não sem razão, levou a maioria dos prêmios que disputou por O filho eterno. Seria um concorrente sério mesmo em uma lista com os melhores da década. Nada mais natural, portanto, que seja o merecedor do troféu da CLB. A se lamentar apenas não ter tido na final um adversário à altura, como o teriam sido, por exemplo, Bernardo Carvalho ou Marcelo Backes.

O dia Mastroianni 1 x 8 O filho eterno

Por incompetência do organizador, a jurada do jogo 7, Carol Bensimon, não recebeu os livros da final em tempo hábil para dar o seu voto.

Jurado: Fabio Silvestre Cardoso

Assim como um torneio de futebol, em que a trajetória nem sempre é triunfal e pode reservar surpresas, esta Copa Brasileira de Literatura alcança o jogo final com a disputa entre O filho eterno, de Cristovão Tezza, e O dia Mastroianni, de João Paulo Cuenca. Pode-se afirmar que o duelo marca o choque entre duas gerações de escritores, do mesmo modo que duas formas de escrita, duas vozes narrativas, dois estilos. Nesse sentido, Cristovão Tezza representa uma escola mais tradicional, filiada ao estilo mais clássico da construção das histórias. Começo, meio e fim. De sua parte, João Paulo Cuenca está alinhado a uma tendência mais contemporânea da narrativa, utilizando recursos não apenas da literatura, mas, sobretudo, do discurso das mídias, do cinema e da televisão que aparecem desde o título do livro (sobre isso, a propósito, comentarei mais adiante). Esse detalhe é importante para que se possa entender por que o livro de Tezza está muito à frente da obra de Cuenca. Para este árbitro-resenhista, trata-se de uma conta muito simples: enquanto Tezza se expressa com uma voz que se destaca pela qualidade provada pela experiência, Cuenca gera uma literatura que ainda carece de voz própria, algo escrita automática, muito dependente que é dos recursos utilizados ao longo do livro.

Nesse aspecto, a virtude da obra de João Paulo Cuenca é dialogar com os leitores de seu tempo, tanto no que se refere ao tema (a saber, a errante saga de Pedro Cassavas e seus amigos cujo mote de vida é aproveitar a vida como se não houvesse amanhã) quanto no que tange ao estilo sobremaneira coloquial com o qual o narrador se direciona ao leitor. Há momentos de extrema qualidade, como quando um dos personagens ri de seus pares escritores, fazendo troça de certa intelectualidade e afins. O problema de O dia Mastroianni é o fato de que tais qualidades ora se perdem, ora são rapidamente substituídas por novas piadas rápidas, numa tentativa de não deixar o ritmo da história cair na mornidão. Por essa razão, o ritmo é frenético, o que compromete a digestão sadia do livro.

Já em O filho eterno, Cristovão Tezza também dialoga com os temas de seu tempo ao trazer para a ficção um caso, a um só tempo, de ordem privada e bastante polêmico. Em síntese: como um pai lida com um filho que tem síndrome de Down? Não, não se trata de um livro de auto-ajuda, tampouco de um estudo científico sobre o tema. O que se lê, em vez disso, é uma obra de rara profundidade e delicadeza. Profundidade porque o autor não fica no lugar-comum de apresentar de que maneira o personagem central aprendeu a conviver com suas condições especiais, para usar um jargão politicamente correto. Delicado, neste caso, porque sem cair no discurso das patrulhas, o autor é certeiro ao tratar de um drama desse tamanho com sutileza e agressividade nos momentos certos. Surpresa: o pai e a mãe não são vítimas perfeitas, posto que também têm dúvidas, emoções e tantos outros pensamentos imperfeitos acerca do filho, que, aos poucos, também conquista seu território no livro.

À medida que se desenvolvem, O filho eterno e O dia Mastroianni ganham contornos definitivos acerca do caráter de seus respectivos protagonistas. No caso de Tezza, um homem assumidamente imperfeito, temendo o futuro imediato por não saber o que fazer, como deve reagir, o que pensar. Do lado de Cuenca, Pedro Cassavas se projeta como o homem ideal de seu tempo, despreocupado que está com o mundo à sua volta, só interessado no prazer mais imediato, e isso pode ser sexo, drogas e rock’n'roll. Por tudo isso, o drama construído por Tezza é mais sensível do que a jornada elaborada por João Paulo Cuenca. Não necessariamente devido ao tema ou à natureza da história, mas, especialmente, em virtude da maneira como o autor de O filho eterno molda desde os personagens centrais até a elegância com a qual ele conta uma história que poderia ser facilmente vilipendiada. Num torneio com autores de seu status, o livro de Cuenca poderia ser considerado vencedor. Nesse tipo de confronto, no entanto, não há surpresa em declarar a obra de Tezza como a detentora do triunfo desta Copa da Literatura Brasileira.

O dia Mastroianni 1 x 9 O filho eterno

Jurado: Felipe Charbel

“Comecei como poeta. Quase sempre acreditei, e continuo acreditando, que escrever prosa é de um mau gosto bestial. E digo isso a sério.” Lembrei-me dessa frase de Roberto Bolaño enquanto relia o primeiro capítulo de O filho eterno, especialmente a passagem em que o narrador evoca a perda do sentimento do sublime, que ainda jovem o afasta da poesia e o aproxima da prosa ficcional. “É preciso ter força e peito para chamar a si a linguagem do mundo, sem cair no ridículo”, diz o narrador. No livro de Tezza, a conquista da linguagem do mundo é tematizada pela mobilização de tópica recorrente no gênero romance de formação: a busca, lenta e muitas vezes indistinguível, do estilo como substância-mundo capaz de articular literariamente a experiência vivida.

Em O filho eterno, porém, não é o mergulho interior, o distanciamento subjetivo ou a busca de uma improvável originalidade romântica o que movimenta o narrador em sua evocação do passado, mas a tentativa de fazer aparecer, a contrapelo, a íntima relação entre modelagem de si e aprendizado da alteridade. Esta preocupação se revela na lenta aquisição, pelo protagonista, da consciência de que a conquista da linguagem do mundo só pode se dar por meio de atrito com o chão áspero, para empregar imagem imortalizada por Wittgenstein. É assim, ao rés do chão, que a construção nada naturalizada da especularidade entre pai e filho é abordada em O filho eterno — para o pai, um exercício constante de se colocar no lugar do filho e então voltar a si mesmo incorporando diferenças.

A aspereza do contato com o chão se revela, também, na crueldade empregada pelo narrador na urdidura da imagem, predominante em boa parte do livro, de um humanista-bárbaro viajando ao fundo do ego. Trata-se de alguém que “ainda não sabia”, ou “não podia saber” — mantras recorrentes que margeiam um sentido quase agostiniano de conversão, a dissipação das sombras que encobrem a verdade. Curioso é que tal conversão, embora não se concentre exclusivamente num único momento, possui um claro “grau zero”: uma experiência at the limits do protagonista, a “maior vertigem de sua existência, a rigor a única que ele não teve tempo (e durante a vida inteira não terá) de domesticar numa representação literária”, a saber, o momento em que recebe a notícia de que o filho era portador de síndrome de Down. O sublime sai pela porta da frente e entra pela porta dos fundos, o que contribui, em meio a descrenças e ceticismos, para o delineamento de um “sentido de fim” levemente otimista, horizonte talvez inalcançável onde as coisas possam afinal fazer algum sentido.

O filho eterno é não apenas o melhor livro brasileiro de 2007. Trata-se de um grande livro de ficção, desses que terei vontade de revisitar muitas vezes. Em todos os sentidos, ele é bem diferente de O dia Mastroianni. Uma conversão literária como a de Tezza, efetivo deslocamento “do mundo da mensagem para o mundo da percepção”, não possui lugar no universo ficcional de João Paulo Cuenca, concebido, como nota Sérgio Rodrigues em sua resenha, como “linguagem pura”. Um livro sem referente — o que não deixa de ser uma boa premissa.

O principal problema de O dia Mastroianni é o excesso de excesso. Não basta o recurso ao meta-ficiconal; é preciso ser meta-meta-ficciconal e debochar da meta-ficção. Não basta a escatologia; é preciso ridicularizar os que argumentam contra a idéia de que nojeiras podem ser fins-em-si, descolados de qualquer critério de coerência ficcional. É muito importante, quase um imperativo categórico, ser moderninho, ou melhor, pós-moderninho.

O dia Mastroianni tem (poucos) bons momentos: o título é ótimo; o verbete de abertura é inspiradíssimo, embora prometa o que o restante do livro se recusa a cumprir; a atmosfera de não-lugar é bastante original, e alguns diálogos entre Pedro Cassavas e Tomás Anselmo são repletos de agudezas. É fato que João Paulo Cuenca sabe escrever. Mas isso basta? No geral, tive a impressão de que o autor quer doutrinar pela negativa, como se dissesse “não nos resta nada, então vamos radicalizar e dar boas risadas”. Boas risadas, não as dei. O que se pretendia leve tornou-se um fardo insuportável. A afetação do livro é tanta que minou minhas sinceras tentativas de distanciamento crítico. O universo ficcional de O dia Mastroianni permaneceu completamente opaco. Com receio do que talvez viesse a encontrar, preferi deixá-lo quieto. Afinal, quem merece aquela voz em caps lock, bradando anti-verdades desconstruídas e espertinhas?

O dia Mastroianni 1 x 10 O filho eterno

Jurado: Doutor Plausível

Meu voto vai pro livro do Cuenca. Não gostei de O dia Mastroianni. Gostei de O filho eterno. Portanto, preciso explicar meu voto.

Julgo livros aqui pela regra A-002b de meu calvinball: pra mim, a trama dum livro na CLB deve ser inventada, ou pelo menos aparentar isso. Tou atrás de invenções do intelecto humano expressas em língua portuguesa. A participação de O filho eterno [OFE] na Copa se baseia não numa invenção mas num artifício, num recurso. Acho q apenas um leitor BEM desavisado leria esse livro como ficção; nas primeiras páginas, já fica óbvio tratar-se de um documentário. Aliás, um efeito curioso do livro é q ele todo tem o estilo de um documentário sem narrador, desses q acompanham um sujeito pra cima e pra baixo.

Em múltiplas passagens, Tezza impacta pela franqueza de suas fraquezas humanas. O autor usou interessantemente o recurso de falar do ‘eu’ como um ‘ele’ pra simultaneamente confessar e ausentar-se, mas a tentativa de apresentar OFE como romance não me convenceu: o livro nunca transcende além de sua concepção original — um depoimento sobre uma paternidade dolorida mesclado com cenas memorialistas, q pode muito bem ter começado como artigo pruma revista. Não é um romance; é, talvez, uma inovação: um demeterpes — depoimento memorialista em terceira pessoa.

É bem vindo um livro sobre mongolismo pelos olhos de um pai, ainda mais um q parece tão disposto a confessar o inconfessável. Mas muita coisa me irrita em OFE. Menciono algumas: a oscilação entre indicativo presente e pretérito na mesma cena; o name-dropping de grandes figurinhas carimbadas das artes, da literatura e da filosofia; os ganchos gratuitos entre a narrativa sobre o filho e as memórias do pai; a semelhança, em informação e tom, com a ampla literatura sobre mongolismo — desde manuais pra pais até fóruns na internet — em q são moeda corrente as angústias, as peculiaridades, o trabalho multiplicado, as revelações inesperadas (internas e externas), o desejo latente de alívio, o questionamento da própria normalidade, a lenta aceitação da pessoa do mongolóide junto com a descoberta de sua singularidade.

Adiciono a isso não outra irritação mas uma decepção — dada a expectativa — em ler uma prosa apenas mediana (embora admiravelmente regular) e circunscrita num raio de ação intelectual mais estreito do q eu esperava, com oportunidades perdidas e pouca profundidade.

Seu adversário O dia Mastroianni [ODM] sabe q é um livro onanista, um livro sobre o “personagem”, sobre o ilusionismo da literatura, sobre o próprio onanismo da própria literatura em q o próprio personagem escreve o q ele mesmo quer ler sobre si mesmo.

Pausa pra bocejar.

Cuenca sabe q não é pra ser levado a sério um livro em q, em cenas reminiscentes da filmografia italiana, um personagem da série Super-Homem — o vilão brincalhão Mister Mxyzptlk — toma as rédeas narrativas pra ensinar ao protagonista q o próprio livro em q estão não existiria sem ele, o protagonista. Um livro inteiro baseado numa idéia juvenil. É interessantíssimo vc se perguntar aos oito anos se o mundo continua existindo enquanto vc dorme; mas ¿um livro perguntar-se isso? Aliás, ¿um livro concluir com esse assunto? ¿E depois do Show de Truman, q partiu dessa pergunta? Outraliás, Mxyzptlk mostra a Pedro Cassavas q tudo q ele vê e descreve só existe pra ser visto e descrito por ele; compare isso com a percepção complexa e desenganada (ia dizer adulta) na qual Salman Rushdie baseou seu The Midnight Children — “most of what matters in your life happens in your absence” —, e a absurdez e irrelevância da ambição de ODM sobe à tona como gelo num martíni.

Embora seja difícil rir e bocejar ao mesmo tempo, há muito humor em ODM; há uma virtuosidade pro besteirol etílico, descambante prà chulice falocêntrica; há toda uma verve com as palavras — embora amiúde, e aparentemente sem intenção, soe como traduzês do inglês (logo na primeira página lê-se “Eu faço as perguntas aqui” e “Eu não posso ver nada”). Neste livro, Cuenca — cuja prosa evidencia um talento óbvio e palpável — é como uma criança q já entendeu por que os adultos lhe dão pincéis e tintas, mas ainda não sabe conceber uma obra de arte.

ODM ganha meu voto por essa verve, o único indício de algo parecido com alguma coisa inventiva de algum valor entre os dois finalistas.

É uma pena q, pela estrutura dos jogos desta copa e por outras razões, ODM tenha passado às finais por uma zebra cavalar, resultando em q um romance maduro, multilegível e afiado como Toda terça tenha perdido a oportunidade de ser mais lido e comentado.

O dia Mastroianni 2 x 10 O filho eterno

Luciana Araujo, jurada do jogo 3, não pôde participar da final da Copa por motivos profissionais.

Jurado: Eduardo Nasi

Num ano demente desses, não dei pra Copa a bola que ela merecia. Pelo que sei, a culpa no atraso do apito final é minha e deste textinho mixuruca. Foi mal aí.

Nessa maluquice toda, acabei largando O dia Mastroianni lá atrás para, passado um semestre, reencontrá-lo só aqui na final, diante de O filho eterno.

Fato é que eu me apeguei ao mundo onírico que Cuenca criou. Gosto demais de lembrar de como a leitura foi uma curtição. Tenho vontade de dar o livro de presente de Natal para deixar pessoas felizes.

Mas jogo sem conjunção adversativa não tem graça. E O filho eterno é um baita “mas” nessa final, porque é um petardo. Daria pra falar da técnica, da trama, da consistência, do vigor, de como o livro é íntegro, verdadeiro e profundamente emocionante. Só que eu cheguei depois e estou com a impressão de que meus elogios seriam todos apenas redundantes.

Por isso, pra não atrasar mais o trabalho do Lucas, deixo só o meu econômico voto pro livro do Tezza.

O dia Mastroianni 2 x 11 O filho eterno

Jurado: Nelson de Oliveira

Dois romances muito diferentes. Eu diria, incomparáveis. Isso me lembra um comentário de Adorno. Volto ao seu livro. Num dos aforismos das Minima moralia ele faz sérias objeções à nossa compulsão em comparar as obras literárias, principalmente “as do mais alto nível e por isso mesmo incomparáveis”. Nessa compulsão Adorno vê o instinto do comerciante, do burguês bem estabelecido que tenta medir tudo sempre com a mesma régua. Para esses a arte e a literatura não podem e não devem conter nada de irracional ou subjetivo, e a melhor maneira de neutralizar a irracionalidade e a subjetividade de certos romances é forçando-os a caber nos pratos da mesma balança.

Esse comentário de Adorno sempre me incomodou. Ele está certo: a compulsão à comparação, no mundo da arte e da literatura, é uma perversão de burgueses fetichistas. Espera lá, será que ele está mesmo certo? Não tenho tanta certeza. Afinal qualquer atividade crítica só é possível por meio da comparação das obras, dos programas poéticos, das idéias. Certo ou não, estamos nesta Copa pra comparar. Por esporte, por diversão, sem maiores pretensões.

O filho eterno e O dia Mastroianni: dois romances muito diferentes. O narrador, a linguagem e as situações do primeiro não têm nada a ver com o narrador, a linguagem e as situações do segundo. O filho eterno pertence à linhagem realista de sondagem psicológica, de matriz biográfica. Sua ação é cronológica, e seu narrador esférico e verdadeiro é do tipo detalhista e moralista, ou seja, ele é cuidadoso com os pormenores narrativos e impiedoso ao analisar cartesianamente sua própria conduta e a de seus pares. A essa linhagem também pertencem Crime e castigo, Dom Casmurro, Angústia e Doutor Fausto, entre outros.

Apesar do forte apelo sentimental e do desenlace edificante, em que a fé na humanidade permanece intacta, O filho eterno é um dos melhores romances realistas da década. O problema é que depois de ler todo o Flaubert, todo o Dostoievski, todo o Proust e a maior parte do Machado e do Thomas Mann, eu acabei pegando certa ojeriza a romances realistas de sondagem psicológica.

O dia Mastroianni, ao contrário, pertence à linhagem não-realista de sondagem onírica, de matriz delirante. Sua ação é fragmentária, e seu narrador plano e artificial é do tipo irreverente e obsceno, ou seja, ele se deixa conduzir o tempo todo pelo nonsense, pelo anarquismo e pela libertinagem. A essa linhagem pertencem as Memórias póstumas de Bras Cubas, Macunaíma, O jogo da amarelinha e Agora é que são elas, entre outros. No momento essa é a linhagem romanesca que mais me interessa, pois aqui a norma culta e os sentimentos nobres são constantemente ridicularizados. E isso acaba atingindo também a própria instituição literária.

Por que eu disse tudo isso? Apenas pra deixar claro que sempre que um romance realista de sondagem psicológica estiver competindo com um não-realista de sondagem onírica, meu voto será pra este último.

Meu voto vai para O dia Mastroianni não porque este seja um romance melhor do que O filho eterno (calma, meu caro Theo, eu sei que são incomparáveis), mas porque ele pertence ao gênero romanesco de minha predileção.

O dia Mastroianni 3 x 11 O filho eterno

O filho eterno
O filho eterno
de Cristovão Tezza

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79 comentários

    [...] livro O Filho Eterno, de Cristóvão Tezza, venceu a Copa de Literatura Brasileira. O placar da final foi de 11 a 3 contra o oponente O Dia Mastroiani, de João Paulo [...]

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  • Não li os dois livros ainda… imagino que Tezza é bom, por ter lido “Trapo” e gostado bastante, e imagino que Cuenca é bom porque minha irmã adora ele… Em suma, os dois chegam via SEDEX na minha casa amanhã, poderei lê-los e ter uma opinião mais embasada…

    De qualquer forma, o que eu queria dizer é que, pelos comentários e resenhas no decorrer da Copa, 10X4 é uma falta de coerência…seria como se o São Paulo ganhasse em casa do Mixto por 5X4….

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  • Ato Falho… 11X3….

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  • Adorei o voto do Antônio Marcos Pereira! O melhor texto/resenha da Copa.

    Sensacional!rsrs

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  • Acho que O Filho Eterno deveria estar disputando com o Bernardo Carvalho, ou com a Carola. Tezza ainda teria mais chance de ganhar , mas o jogo ficaria melhor. Mas, acontece.

    Talvez com uma melhor repescagem – ou com a saída de juíz sem critérios – a coisa ainda melhora ainda mais.

    Gostei da Copa, estão de parabéns. É claro que ela revela muito da literatura brasileira e temos que falar a verdade, ela não está bem. Olhando esses 16 competidores, a maioria parece não chegar ao nível mínimo de romance razoável. E muita gente que se diz interessar por literatura, vem aqui e vem fazer barraco. Quem sabe um dia, a coisa melhora.

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  • Ao meu ver o placar final foi 14 x 0. Quatorze a zero para o conjunto de jurados (achei bom até o comentário do André Sant’Anna). Quatorze a Zero para o Lucas que deve ter um saco muito grande para manter esta copa. Quatorze a Zero para o Tezza porque mesmo os que não votarem nele reconheceram o valor de OFE.

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  • André Sant.:

    “Meu voto final vai para O dia Mastroianni, de João Paulo Cuenca, que é um livro sensacional, embora não se possa dizer que é mais sensacional do que O filho eterno, de Cristovão Tezza. Meu voto em O dia Mastroianni não é um voto de amizade. É um voto político contra a opinião formada, contra as resenhas plausíveis, contra o Vinicius Jatobá, a favor da aventura e da irresponsabilidade, essas porra.”

    Tem alguma coisa errada? Ele diz que o voto final vai para Cuenca e o placar dele no fim favorece Tezza:
    “O dia Mastroianni 1 x 4 O filho eterno”

    Mas o que importa? AS faz papelão de novo. Apenas trocou “c*” por sensacional. Escreve como pré-vestibulando que não vai passar. Diz que um livro é melhor e vota no outro, por política. Não acho isso irônico, corajoso, apenas triste. Um vereador que favorece parente e diz isso na TV com orgulho, usando mal português, ainda é um verador que favorece parente, não um artista por causa da sinceridade.

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  • Luciano, meu querido, sugiro que você guarde sua indignação para quando aprender a contar. Senão fica feio. Muito feio.

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  • Alex Castro escreveu aí que “O filho eterno, por outro lado, e por tudo que falei em minha resenha do jogo 12, que não vou repetir aqui, é talvez o livro do ano.” Mas os comentários do jogo 12 mostram que ele falou basicamente nada sobre O filho eterno. Se o cara não tem paciência de falar de um livro bom, por que ele aceitou estar na Copa?

    Tirando o texto dele e do André Santanna, essa partida final está muito boa. Adorei os comentários.

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  • [O comentário #15599 será citado aqui]

    Eu me enganei em relação à contagem, obrigado pelo toque educado, Marina. Mas a minha crítica ao AS é a mesma. Ele fez papelão ao votar no pior livro da partida. Você acha isso bom, “muito louco”, transgressor?

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  • [O comentário #15598 será citado aqui]Você é meio burro, hein, Luciano!!??

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  • [O comentário #15602 será citado aqui] Acho que você é meio de vanguarda, experimental, jovem, né não, hein, ô Luciano!!??

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  • É incrível como o nível baixa mesmo em um lugar onde as pessoas deveriam ser mais educadas… lamentável…

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  • Caro André,

    Eu errei ali sobre os “gols”, alguém me falou do seu texto e fui ver direto. Pensei que fosse o placar que você estava dando ao jogo. Fiz uma confusão, não tenho orgulho disso.
    Mas estou certo que seja um erro menor comparado ao que você fez nessa Copa: um tipo um de idiotice orgulhosa, que se defende em forma de manifesto. Mas não vou prossseguir discutindo com você, a Copa não merece. Pode xingar a gosto sozinho.

    Desculpas ao demais leitores por ter trazido a questão e o barraco. O comportamento do AS me revoltou, mas o que importa é o debate literário, não pessoal. Nisso eu errei feio e assumo. Vou acompanhar no proximo ano com certeza, contendo eventuais raivas.

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  • Marco,
    Ao meu ver o placar final foi 14 x 0.

    Nananinanão. Digo q “não gostei” de ODM e “gostei” de OFE, mas tbm gosto de algumas revistas e nem por isso acho q uma delas deveria vencer a CLB. Preferi desonsiderar o status de “romance” ou possível “ficção” de OFE pra não ter q entrar em seus vários problemas, se ele for tratado estritamente como tal. Acho q o páthos, o jogo de espelhos e a promovida erudição desse demeterpes embaralharam a visão de muito leitor.

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  • [O comentário #15615 será citado aqui]
    Dr. Plausível,

    Achei superimportante as suas colocações a respeito do OFE durante a Copa. Elas me ajudaram a ver algumas coisas além da cortina da fumaça. Não concordo com algumas coisas, como já disse antes, mas realmente elas foram um contraponto importante. Penso no entanto, “com a intuição de uma dona de casa”, que o senhor está um tanto obcecado por esta idéia de que o melhor-romance-do-ano-passado-da-última-semana não é um romance e nem ficção. Talvez realmente ele não seja o melhor livro, mas para perder pelo ODM é forte.

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  • A bola de ouro da tosquice vai para o Nelson de oliveira, no ultimo minuto!

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  • Tem alguma coisa errada? Ele diz que o voto final vai para Cuenca e o placar dele no fim favorece Tezza:
    “O dia Mastroianni 1 x 4 O filho eterno”

    Esse Luciano deve ser o Assis Brasil disfarçado…

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  • O que mais me surpreendeu foram os 3 votos d’O Dia Mastroianni, porque O Filho Eterno é muito, muito melhor.

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  • O meu comentário abaixo foi emitido antes de ler as justificativas dos jurados. Após lê-las, ficou claro porque Mastroianni ainda conseguiu 3 votos contra o Filho:

    André Sant’anna manteve o padrão ridículo de sua primeira resenha. A necessidade de aparecer, mesmo como um bobo alegre é mais forte do que sua capacidade de ser sério ( no sentido amplo da palavra).

    E Nelson Oliveira já entrou para os anais (epa!) da CLB pela sua resenha de estréia nessa Copa. O seu voto, assim como o do Arrelia Sant’anna seguiu o padrão daquela.

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  • Eis que chega ao fim a segunda Copa: participei com alegria e empenho, e continuarei participando enquanto for solicitado por seu gentil (e douto, e paciente como Lao Tsé) organizador: não escondo de ninguém que sou entusiasta desse projeto, que creio ser uma manifestação interessante e preliminar do tom da vida literária no Brasil no século XXI. Para adotar o tom de minha resenha favorita na Copa (e não restará dúvida a respeito de qual foi), a Copa é do caralho, “viva a literatura do caralho!” (adotarei isto como um lema doravante, talvez até faça uma camiseta).

    Não há como não ressaltar minha surpresa com a indigência dos textos produzidos pelo Nelson de Oliveira nesta Copa: poucas vezes vi em público tamanha desfaçatez no exercício do comentário de literatura por um profissional, em particular um que supostamente ensina a fazer isso, que prega, com decálogos e tudo, como fazer comentário de literatura. Jonas Lopes comentou o umbiguismo de certas manifestações literárias – ora, cabe olhar tb para o umbiguismo de manifestações como essas do Nelson. Pra mim, o Nelson de Oliveira foi pra terceira divisão com esses arremedos de resenha que publicou aqui.

    Também falou-se muito aqui na caixa contra certas grosserias, a favor de uma finesse pura na caixa de comentários. Eu não gosto de quebra pau nem de arrastão, e não creio que bofetadas são argumentos – mas há um saber na polêmica, há um tempero particular no debate calcado na figura que vem aqui com pseudônimo espanar, e há algo a aprender sobre como lidamos com a literatura com essas baixarias tb, creio. Um caso como o do Jatobá, por exemplo, tem grande rentabilidade para uma sociologia da crítica, por mais embrionária e despretensiosa que seja. Ou o impacto causado pela resenha do André na caixa de comentários.

    Antes de me despedir, aproveito para pedir perdão ao Sérgio, pois dei início a uma conversa com ele que depois, assoberbado com obrigações, não pude continuar – quem sabe lá no todoprosa a gente estica aquele papo sobre os limites do literário, Sérgio?

    Agora o dever me chama – e dou adeus ao prazer que foi freqüentar mais uma vez essa Copa.

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  • Roupa suja e intrigas de amor no último capítulo da novela CLB. Agora só faltam os casamentos coletivos e a ninhada de bebês estreando na telinha. E o “meses depois…”

    Agora, o importante, a CLB mais uma vez se propôs ao q não acontece mto por aí: discutir literatura brasileira contemporânea, seja debaixo de xingamentos, resenhas queridinhas dos leitores (ou não), comentários tão interessantes (ou até +) sobre os livros, enfim, uma boa dose de informações para bons roteiros de viagens em meu próximo livro.

    Continuando assim, mesmo com uma literatura não tão boa qto a q gostaríamos, a CLB terá vida longa…

    1 abraço a todos e feliz 2009 em seus coraçõeszitos.

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  • E abriu o Starbucks no Rio!

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  • O Antônio Marcos parece cada vez mais afiado e à vontade na Copa. Impressionantes, suas colocações sobre ODM. Im-pres-sio-nan-tes. A generosidade de sua inteligência é um fenômeno: nada é pequeno demais pra fugir de seu minucioso foco, nenhuma ligação é tênue demais pra ser farejada e seguida por seu abrangente humanismo.

    Com as conhecidas exceções, os outros jurados tbm se destacaram, cada um à sua maneira, pela inteligente diligência e pela vontade de fazer uma diferença. No cômputo geral, esta edição da copa foi melhor do q a primeira.

    Lucas, obrigado por tudo. Só uma pessoa com tua grandeza e lucidez pode trazer algo tão salutar e prazeroso a tanta gente. Espero q vc não se canse tão cedo; ainda faltam alguns anos pra transformar a CLB numa instituição.

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  • Claudio Faria disse:

    23/10/08 – 4:23 pm

    27
    “Mariel Reis:
    Se o Jatobá está correto ou não é melhor esperar o resultado da Copa. Minha aposta é a seguinte e a deixo registrada aqui;
    Cristovão Tezza – Filho Eterno – vencedor da Copa;
    JP Cuenca – O Dia Mastroianni – segundo lugar da Copa.
    Se isso for contrariado, quebrei a cara; falei demais e pimba paguei por tornar público. Caso não, entreolhem-se…”

    E se não for esse o resultado você poderá dizer que ia ser, mas como você descobriu essa trama sórdida, resolveram mudar o resultado…
    ai, ai…

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  • Está aí o tal resultado. Ora, como fazer fé a isto?

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  • Joaquim, quando o comentário do Mariel foi feito havia seis times na disputa e “O dia Mastroianni” precisava ganhar apenas um jogo para ir à final, enquanto “O filho eterno” era a barbada da outra chave. A aposta do Mariel estava correta, claro, mas a dificuldade não era tão grande assim. Tivesse ele dito a mesma coisa antes do começo da Copa, com “O sol se põe em São Paulo” ainda na disputa, eu teria ficado mais impressionado.

    Pessoal, grato pelos elogios, que são retribuídos em dobro: eu toco o barco, mas sem as resenhas e os comentários simplesmente não haveria Copa, e sem resenhistas e comentaristas de qualidade ela seria bem menos divertida.

    Abraços,

    Lucas

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  • Eu odiei “O filho eterno”. Pra mim, é auto-ajuda da pior qualidade.

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  • [O comentário #15678 será citado aqui]

    Como vc é Frio, Fredo.

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  • O Filho Eterno um livro de auto-ajuda? Olha, tudo bem que as teorias de leitura digam que a obra é aberta. Mas a abertura, ainda que infinita, não é o todo, pois há leituras que não são possíveis. Só para quem não o leu ou não o entendeu este é um livro de auto-ajuda – afinal, o livro é, de certa maneira, a defesa de que não há sentido metafísico, religioso ou edificante da existência.

    O Filho Eterno está mais para um livro de auto-destruição… Ainda que seu final seja esperançoso.

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  • Foi boa a Copa 2009. A torcida fez tanto barulho quanto os concorrentes, trocando tapas e empurrões desnecessários, mas esquentando a disputa.
    Desde o início havia um favorito, e isso era meio óbvio. Alguém comparou o Tezza com o time do São Paulo, e não está errado. Era pule de dez, pelas qualidades e pela experiência. Comprei o livro em 2007, antes da batelada de prêmios de 2008, e não sou nenhum profeta (e compro raríssimos lançamentos, meu dinheiro é curto).
    Ôpa! A Copa está, no segundo ano, confirmando a tese de que o escritor, quanto mais velho, mais experiente, mais publicado, melhor escreve?

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  • Falo da Copa 2008, claro. Espero que a de 2009 seja melhor ainda. Parabéns, Lucas!

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  • Marco,
    “Penso … que o senhor está um tanto obcecado por esta idéia de que o melhor-romance-do-ano-passado-da-última-semana não é um romance e nem ficção.”

    Obcecado não é a palavra; mas se fosse, acho q com razão. A crítica de um romance é bem diferente da crítica de um documentário. Em retrospecto, acho q foi um erro incluir OFE na Copa. Ele tem qualidades; mas o fato de não ser ficção, de tar intimamente ligado à história dolorosa do autor – e um autor vivo – dificulta e até impossibilita certos questionamentos e escrutínios q surgiriam naturalmente caso fosse claramente ficção. Por respeito e consideração à pessoa do autor, há coisas q não se dizem sobre o q é contado e o q não é contado no livro, mas q seriam ditas se se tratasse apenas de um trabalho do intelecto. Como não-ficção, OFE é mezzo-interessante mas comovente; como romance, falha repetidamente; como híbrido, é um chão escorregadio entre contos memorialistas e anedotas com o filho. A segunda leitura é penosa, embora ocasionalmente recompense. O editor q teve a sacada de catalogar OFE como romance deve tar gargalhando all the way to the bank.

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  • Plausível, o que é ficção pra você? Acho que você está operando com uma oposição entre ficção e realidade totalmente antiquada. Você conhece os estudos de Wolfgang Iser sobre o tema?

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  • Felipe,

    Wolfgang? Prazer, Amônio.

    Dei uma olhada na en.wikipedia.org (o verbete na pt.wikipedia.org soa cabalístico). Se vc trouxe à tona o Iser pra dizer q a percepção do texto vale mais q sua intenção, q até mesmo o mais não-ficcional relato é lido e apreendido como ficção (¿quem raios é Cristóvão Tezza senão um personagem sobre o qual lemos em artigos e entrevistas?), q o próprio Tezza se personagentizou ao escrever, e outras colocações igualmente pertinentes, então eu digo q todo questionamento teórico nesse sentido, ainda é válido como questionamento, não se aplica às minhas objeções.

    Ficção é uma coisa inventada. Se o Tezza criou (ou adotou) um modus operandi q lhe facilitasse encarar suas fraquezas e suas reações compreensivelmente vis, dada a situação, ele não criou a situação em si (a menos q vc retroceda até o próprio ato sexual q terminou desencadeando nesse livro…). E… neste exato ponto em q eu fechei esse parêntese, vc e outros leitores terão sentido algum incômodo, como q tou entrando na intimidade do casal, q coisa feia de se fazer, &c. ¿Tá me entendendo? OFE, ao vender-se como novela ou como híbrido ficção/não-ficção, não suporta o escrutínio da crítica, a crítica q precisaria ir a fundo, falar das qualidades e defeitos do livro, como romance. Se, digamos, um autor solteiro e sem filhos publicasse o mesmíssimo OFE, tirado de sua imaginação, metade da crítica o elogiaria por sua criatividade e seu humanismo e a outra metade o censuraria por sua falta de foco, suas digressões sem pé nem cabeça, seu name-dropping sem conexões com o tema, &c. Esse “andar na corda bamba” (como disse o Antônio Marcos) entre ficção e realidade tem o efeito, neste caso em particular, em q estão envolvidos os sentimentos pessoalíssimos do autor e implicitamente os da mãe do rapaz, tem o efeito de perverter e castrar toda crítica mais acirrada sobre a qualidade da história contada e da capacidade do próprio autor de contá-la. Se a crítica focaliza nos problemas como romance, a reação será q se trata de não-ficção; se a crítica focaliza nos problemas não-ficcionais do pai (tipo: o pai jamais verbaliza qqer amor pelo filho; ¿é pra ser subentendido o quê? q Tezza ama o filho? q ele não ama?), a reação será q se trata de um romance… E se é não-ficção, o autor escancarou sua vida ¿pra quê? pra se expor a análises e críticas de estranhos? pra catarsear-se em público? q é q o leitor tem com isso, em particular se ele se vê, por discrição, impedido de ter uma opinião realmente crítica?

    Dei meu voto pra ODM em grande parte pq todas essas questões (e várias outras) são estranhas ao q me parece ser o foco da CLB, q é ficção: coisas inventadas. Não quero ficar cutucando feridas alheias, mesmo q a convite, e especialmente pq alguém entre o escrever e o publicar manipulou pós-modernamente uma definição.

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  • tb senti o mesmo estranhamento ao ler o livro, Dr.

    mas dae fica a corrida-atrás-do-rabo: pode-se julgar a capacidade criativa do Tezza por um livro q ele não inventou totalmente? e pode-se julgar o livro como sendo (ou não) um romance através do modo e ferramentas q o autor usou para criá-lo?

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  • os comentários do doutor plausível são os melhores. dou muita risada.
    o doutor tem algum livro lançado?
    ou pretende lançar?
    de ficção, é claro.

    a copa é massa. tomara que ano que vem ocorra novamente.

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  • O debate sobre gênero está muito pobre aqui.

    Recomendo a leitura do que o próprio Tezza pensa, numa palestra proferida na USP (que está em seu site) e que cita inúmeros exemplos sobre as diferenças entre biografia e literatura. No texto, que, aliás, é muito divertido, além de citar “O Filho Eterno” e comentar livros similares, há uma sólida questão teórica de fundo. Para quem deseja bons argumentos para entender o livro de Tezza como romance, segue o link:

    http://www.cristovaotezza.com.br/textos/palestras/Literatura%20e%20biografia%20-%20Cristov%C3%A3o%20Tezza.pdf

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  • a questão principal é que a anglofilia pedestre do dr. plausível o fez trazer à discussão idéias das mais primárias sobre literatura.

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  • Achei irônico o Nelson Oliveira achar que Filho Eterno seja ultrapassado por definição ao ser do gênero “realista”, do século XIX. O Nelson começa o texto falando que é o burguês que gosta de comparar obras de arte, e que ele tem medo do irracional. Isso sim é pensamento ultrapassado. Mesmo falar em burguês é bem século XIX. Não foi a “burguesia’ que inventou o romantismo? E é só olhar à volta, a economia atual depende do irracionalismo do consumidor. E essas ironias com a ficção já coisas do arco da velha, Stener e tais.

    Agora enquanto o Antonio Marcos faz questão de falar mal do Nelson, ele não comenta nada sobre o André Santanna. Esse aqui fez questão de agradar o amigo Cuenca e acabou fazendo que o coitado levasse bordoadas na final. Poderia ter sido poupado. Imagina o Cuenca lendo que é “inofensivo”, vai chorar. E se o André Santanna tivesse apitado um Cuenca vs Tezza na semifinal? Filho Eterno nem estaria aqui. E nem por causa de um julgamento defensável, só por palhaçada. Oliveira e Santanna já foram considerados o futuro da literatura brasileira. O comportamento deles aqui mostra o buraco em que estávamos. Caras como Tezza vem nos tirar da lama.

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  • [O comentário #15754 será citado aqui]

    ¿Tipo quais? lembrar q literatura trata de seres humanos e não de totalidades retóricas ou modelos formais? Insisto q OFE é um documentário pq piada de holandês e lamúria de freguês só se ouve uma vez*: OFE não agüenta bem uma segunda leitura.

    Caso se revelasse q o Tezza nunca teve um filho Down, nunca teve as experiências q conta e nunca escreveu os livros q menciona em OFE, aí sim eu ficaria admirado. O cara seria um grande artista. Performático, mas grande artista. :•)

    ——-

    *provérbio q acabo de inventar

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  • Carlos, existe o realismo e existem as obras realistas. O realismo, enquanto conjunto de regras e estratégias narrativas, não é algo ultrapassado. Ultrapassadas são as obras que já nascem com o jeitão do final século XIX porque seus autores não conseguem usar as regras e as estratégias realistas de outra maneira. Não conseguem inventar novas obras com as antigas regras, ou até mesmo subvertendo as antigas regras. Proust é um romancista realista. Ele leu Stendhal, Balzac e Flaubert, mas não repetiu esses autores. Kafka também é um prosador realista, que leu Dostoievski e os franceses, mas não os copiou. Na minha opinião, “O filho eterno” é como “O caçador de pipas”. Ambos só são muuuiiito interessantes para o leitor mediano, para o leitor que não conhece quase nada da melhor literatura realista.

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  • Márcio, olha, eu já li os autores que você cita – de Kafka a Dostoievski, de Flaubert a Balzac. Mas comparar “O Filho Eterno” com “O caçador de pipas”, se não é má-fé, é falta de perspicácia. Ou de leitura.

    Além disso, a repercussão crítica de O Filho Eterno – tanto da academia quanto da imprensa – é muito diferente da sua. Exceto se você se considerar uma ilha de inteligência no país (ao lado dos conceituados “Dr. Plausível” e “JLM”…), então toda a crítica brasileira e externa (vide a repercussão crítica do livro em Portugal e na Itália) é leitora “mediana”.

    E finalmente: o mundo mudou meu caro. As vanguardas morreram e ficaram datadas. Então Ian McEwan não tem valor, porque é realista sem trazer algo novo?

    Ora, sinceramente, esta arrogância – alguém que vem aqui para dizer “a verdade”, dizer que somos leitores medianos e não entendemos o que é a “verdadeira” literatura – não tem audiência. Ou você, sinceramente, acha que tem – fora o “Dr. Plausível” e o “JLM”?

    Como minha mãe já dizia, tem gente que não tem idéia de sua própria medida…

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  • X: Esta lanterna não tá funcionando.
    Y: A marca é ótima.
    X: Mas não tá funcionando. A pilha pode tar gasta.
    Y: A marca da pilha tbm é ótima. Vc é q não sabe ligar.
    X: Ligar eu sei. Já tive várias parecidas. É só rodar a tampa.
    Y: Vc pensa q sabe tudo. O paradigma dessa lanterna é moderno; não é daquelas q só iluminavam.
    X: ¿¡¿ããã?!?
    Y: Essa tbm serve pra treinar o raciocínio.
    X: Vai ver foi só a lâmpada q queimou.
    Y: ¿Dessa marca? ¡É uma das mais vendidas!
    X: Ou então o mecanismo interno tá com algum defeito.
    Y: Além de arrogante, é burro.
    X: Ué, então me diz por que a lâmpada não acende qdo eu rodo a tampa.
    Y: Só tenho paciência aqui pra xingar vc, não pra ponderar o q diz e rebater. Vc só fala de questões primárias. ¿E a natureza da eletricidade? e dos materiais e técnicas usados na confecção da lanterna? e toda a história da lanternagem? as características estéticas do modelo? e seu objetivos mercadológicos?
    X: ¿Tás derivando? Só quero entender por que não tá funcionando.
    Y: Só não funciona pra vc, pq é burro e arrogante. Pra mim funciona muito bem. Olha só como treinou meu raciocínio.

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  • CQD…

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  • X: ¿Que tem a ver tudo isso? Só tou querendo iluminar o poço pra achar minha identidade q caiu ali, e esta joça não funciona…
    M: CQD…
    X: ?!?

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  • X – Esta lanterna não funciona.
    Y – Para mim, está funcionando. Quem pensa que esta lanterna não funciona?
    X – Eu e mais uns dois anônimos. Isto aqui no país. Fora do país também acham que está funcionando.
    Y – Mas você tem certeza de que não funciona?
    X – É uma questão básica. Primária.
    Y – Ok, é uma questão básica e primária e todos nós estamos vendo que funciona.

    No fundo, este raciocínio está todo errado, porque literatura não é uma verdade factual (funciona ou não funciona tal qual uma lanterna). A verdade aqui é construída, plural, política e jamais definitiva. Por isto, quando alguém vem dizer que isto é como uma lanterna que não funciona, é arrogante, porque parte do princípio equivocado que possui uma verdade incontestável.

    Ora, se esta verdade não é admitida pela maioria, e se na maioria está o saber crítico do país, se fosse eu o contestador, teria um pouco mais de humildade antes de dizer que sou uma ilha de inteligência.

    CQD.

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  • Márcio,
    Acho q deu linha cruzada. Note q era um diálogo entre X e Y e, qdo vc disse CQD, atribuí essa fala a M. A menos q vc esteja comentando sob outros pseudônimos*, esse diálogo não é uma paródia sobre o q VC tá dizendo. Eu nem entendi muito bem do que vc e o Nelson tão falando (¿Kafka = realista?).

    E ¿de onde vc tirou q me considero uma “ilha de inteligência”? HAHAHAHAHA Logo eu. Só tou aqui querendo conversar e DIZENDO coisas q não vejo outras pessoas dizerem. Algo q não eu não faria é dizer q “OFE é o melhor livro do ano, como concorda a maioria, e mais nada se pode dizer sobre ele exceto o q já é/foi dito pela crítica especializada q o aprovou.” Só tou aqui tentando mostrar fraquezas (q considero sérias) no livro e q teriam me impedido de votar nele *mesmo* q o considerasse dentro dos limites ficcionais da copa.

    ———
    *como talvez indique vc ter assinado ‘Márcio’ no com.43 e então se dirigido a um ‘Márcio’.

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  • kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.
    quanta discussão metafísica-literária no melhor estilo botequim de português de portugal!!!!
    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.
    eu mesmo concordo com todos abaixo.
    e também discordo.
    com corda, eu disco a corda, que enlaça o mundo…
    tudo isso é maravilhoso…
    muito maravilhoso…
    me faz chorar…

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  • Será q liberaram as taças de sidra cedo de mais este ano?

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  • Mas, Nelson, o que é então o Cuenca perto de Sterne? Ou Cortázar? Sei lá, alguns juízes aqui devem ter lido várias das obras-primas do realismo e ainda O Filho Eterno trouxe alguma coisa para eles. Eu não li Caçador de Pipas e não fazer a comparação. Se ficarmos só com os inovadores não sobra quase ninguém, muito menos Cuenca.

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  • Márcio, cada juiz e cada leitor tem todo o direito de organizar as obras, na sua biblioteca mental, da maneira que preferir. Eu parto do princípio bastante óbvio de que não há duas pessoas enxergando o mundo ou a literatura do mesmo ponto de observação. Duas pessoas não leram os mesmos livros na mesma seqüência e no mesmo momento emocional e intelectual. Isso define nossa apreciação. Na minha seqüência de leituras, “O filho eterno” não causou tanto impacto quanto os livros que vieram antes. Estou sendo bastante sincero quando digo que o romance do Tezza me emocionou tanto quanto “O caçador de pipas” ou “A menina que roubava livros”, que li em busca mais de entretenimento. Já o romance do Cuenca me surpreendeu mais. Nele há passagens (principalmente as descrições de personagens) que me despertaram certa inveja, enquanto escritor. Mas, voltando à Copa, em momento algum você me verá afirmando que o meu ponto de observação é o melhor de todos. Ele é só mais um, entre muitos.

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  • Nelson, com seus comentários adicionais dá para entender melhor a sua escolha. Ela ficou mais humana. Antes, tinha parecido uma decisão cega entre realismo e não-realismo, sem considerar as especificidades de cada obra.

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  • Márcio, o estádio já quase vazio, deixo aqui minha última inquietação: por que a crítica que não cede totalmente aos encantos de um autor ou de uma obra é sempre mais interessante?

    Essa não é uma pergunta retórica. Eu não sei a resposta, nem sei se gostarei da resposta, quando ela vier. Pensei nisso (por que a boa crítica negativa é sempre mais densa e interessante do que a boa crítica positiva) ao ler esse ensaio:

    http://sibila.com.br/batepro216substanciapremios.html

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  • Opa, troquei os nomes. O comentário abaixo é para o Carlos…

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  • Nelson, a crítica não cede totalmente aos encantos de um autor, porque o crítico precisa sempre dizer que tem uma percepção mais sutil e abrangente que os gênios.

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  • E os outros críticos sempre vão achar a crítica não encantada pela obra genial mais interessante, porque se sentem credenciados a fazer o mesmo.

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  • Mas, Rodrigo, ao afirmar, no comentário 56, que “o crítico precisa sempre dizer que tem uma percepção mais sutil e abrangente que os gênios”, você não está descartando a possibilidade de haver mentes verdadeiramente geniais também entre os críticos?

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  • O problema, caro João, é PRECISAR SEMPRE. Não acha que mesmo um crítico genial não se encanta, eventualmente, por uma obra de arte? E sua crítica não é encantadora? Como De Sanctis de Dante ou Bloom de Shakespeare?

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  • A crítica de Ronald Augusto parte de três princípios equivocados.

    O primeiro é evocar Adorno – acredito que só quem não leu o que se escreveu a respeito da cultura de massa na segunda metade do século XX ainda pode defender a Teoria Crítica. São tantos os problemas – a começar que a Indústria Cultural está deixando de existir nos moldes como a conhecemos. Afinal, todos os veículos de comunicação estão crise e a informação tem audiência cada vez mais fragmentada. Os blockbusters estão deixando, aos poucos, de existir. O Filho Eterno vendeu pouco mais de 10.000 exemplares – ora, isto é algum tipo de “indústria”, de “marketing”, de “manipulação”, num país do tamanho do Brasil? Ou ainda, como diz Ronald, isto é “a opinião do sistema” – jesus, “opinião do sistema” é digno de um panfleto da UNE de 30 anos atrás… E mesmo que Tezza vire um best-seller, ora Shakespeare ficou milionário em vida. Fez inúmeras concessões comerciais em suas peças (a começar pela carnificina das tragédias, feita sob medida para um público que queria ver sangue) – alguém aí vai dizer que Shakespeare seja autor de segunda categoria?

    O segundo problema, creio que o Márcio já apontou muito bem: a verdade (que era possível ainda entre o Frankfurtianos), hoje, é objeto de desconfiança. Alguém como Ronald Augusto (é um nome verdadeiro? Caramba, não consigo ler este nome sem rir…) tem tanta “certeza” da mediocridade da obra de Tezza, tanta raiva no que escreve, que vira uma caricatura de crítica, pra não dizer irrelevante – acho muito surpreendente que Nelson de Oliveira considere esta uma crítica “profunda”. Crítica é ponderação, não é a verborragia do ódio. E tamanho ódio é suspeito: quem vai garantir que não seja uma explosão de inveja?

    Finalmente, o último argumento equivocado: a obra de Tezza não teve repercussão somente no “pseudojornalismo cultural”, mas também na academia e entre artistas. Só para lembrar um nome que está no site de Tezza, Fábio de Souza Andrade (é professor de literatura da USP), escreveu uma resenha muito elogiosa na Folha. Além dele, Guiomar de Grammont escreveu no Cronópios também uma crítica muito elogiosa (pode ser lida aqui: http://www.cronopios.com.br/site/critica.asp?id=3593). Naturalmente, a crítica acadêmica é mais vagarosa, não pode nem deve ter a velocidade da crítica de jornal. E julgar que a quase totalidade da crítica literária impressa do país não sabe ler é, no mínimo, infantil. Sujeitos como Sérgio Rodrigues (que tive o prazer de conhecer e ouvir pessoalmente aqui em Curitiba), Sérgio Augusto, Marcelo Coelho — para citar alguns dos que gostaram do livro — não são propriamente idiotas, convenhamos. E uma lavada de 11X3 na Copa não me parece que seja um problema de má arbitragem. Lembro também que Tezza também tem uma repercussão muito positiva entre os próprios escritores (Inácio de Loyola Brandão, Mia Couto, Dalton Trevisan, para citar alguns que lembro agora).

    Apesar de ser suspeito, minha principal razão aqui não é defender um parente. Estou perdendo todo este tempo aqui porque, para mim, quem defende a “Verdade”, no fundo, tem um princípio totalitário por trás. Adorno, antes de ir para os Estados Unidos, apoiou a decisão de Goebbels de proibir o jazz das rádios alemãs. No fundo, a Escola de Frankfurt, ao tentar fundar o que seria um princípio de “homem civilizado” (em oposição a um “homem bárbaro”, que, por exemplo, ouvia jazz…), é tão totalitária quanto o movimento que tentava denunciar – para quem quiser saber mais sobre isto, recomendo a leitura do inglês Don Slater, que traz críticas fulminantes à Escola De Frankfurt. Talvez, não fosse judeu, Adorno tivesse um destino na Alemanha semelhante ao de Heidegger.

    E finalmente, para mim, justamente um dos melhores temas que há em O Filho Eterno seja justamente atacar a idéia de verdade. Do prólogo ao fim.

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  • Márcio,
    “literatura não é uma verdade factual (funciona ou não funciona tal qual uma lanterna)”

    A linha ficou cruzada em relação a essa coisa da verdade. A primeira parte dessa citação tá indiscutivelmente correta. A parte do parêntese é q é o problema. Literatura tem q “funcionar” sim. Esse é um dos predicados objetivados e/ou necessários de qqer produção humana. Tem muita coisa em OFE q não funciona; quero crer q seu sucesso crítico foi algo em grande parte inesperado pelo Tezza – q do contrário talvez tivesse sido mais cuidadoso na idealização e na confecção do livro.

    Tou no meio de uma viagem agora, então não posso me alongar aqui. Qdo voltar, vou poder escrever um pouco mais. Não se trata de apontar defeitos no livro, vejam bem, mas de apontar problemas de apreciação por parte da crítica. Fiquei sinceramente embasbacado q um livro como Toda terça não tenha chegado mais longe junto a uma crítica q aprovou OFE sem reservas.

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  • poderíamos dizer então q o filho eterno teria uma aplicação (ou interpretação) na obra de tezza? a sua literatura nasce diferente, ele a rejeita inicialmente, talvez até desejando q ela morra, até q ela dê mostras de evolução e personalidade, até q enfim, mesmo sendo diferente, o escritor passa a aceitá-la e a viver em conjunto com ela?

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  • O Ronald foi mais duro e específico sobre O Filho Eterno em seu texto “romancistas contemporâneos mascam clichês” (http://poesia-pau.blogspot.com/2008/11/romancistas-contemporneos-mascam-clichs.html).

    E eu não posso dizer q discordo dele.

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  • O Ronald Augusto comentou aqui? ele é um cara que escreve coisas assim:

    “leitor ulisses

    homero (

    e) m

    pessoa

    ninguém

    está de posse do

    pós”

    (Vá de Valha)

    Ou seja, não dá para levar a sério.

    Mas os pessoal está pondo as mangas de fora, como esse tal André de Leones:

    “Aliás, eu estava pensando, Cristovão Tezza e Milton Hatoum não seriam a mesma pessoa? Hatoum estreou com um dos melhores livros que li na vida, “Relato de um Certo Oriente”, e depois tornou sua escrita esse troço chato, medíocre, com cara, jeito e cheiro de funcionalismo público. E Tezza, porra, Tezza escreveu “Trapo”. O que é que há com vocês, caras? Tirem o dedo, por favor.

    O que é que há com vocês? Por que vocês não me incomodam? Por que não me agarram pelo colarinho, pelas vísceras, pela massa cinzenta, por tudo ao isso mesmo tempo? “Dois Irmãos” é constrangedor de tão ruim, maçante, pedestre. É livro de professor-de-literatura, aquela foda medida, sabe? Dois minutos por cima, um e meio de ladinho, prometo não gozar na sua boca.

    E “O Filho Eterno” não me incomodou. Um livro com um tema daqueles tinha que me incomodar porra! E depois vêm os boçais de plantão reclamar da “Geração 00?. Ou da “Geração 90?. Ou da “Geração 1.0? (estamos quase lá). Ora, vão se foder.

    Essas gracinhas que aprontam por aí, molecagens dentro de molecagens (Copa de Literatura?), e quando alguém entende o espírito da coisa (meu xará André) é publicamente linchado. Ué, não era um jogo? Uma brincadeira?”

    http://vicentemiguel.wordpress.com/2008/12/15/contemporaneos/

    Prevejo que ele ocupará muitos holofotes, já entendeu a tática do “deixa que eu xingo” para fazer sucesso entre os pares. Como bom transgressor. Quando eles falam assim de forma chula de alguém é uma opinião direta e sincera. Quando são criticados, aí é molecagem.

    Respeito o Hatoum, nem é meu escritor brasileiro favorito. Mas no dia que esse Leones tiver um porcento do domínio de linguagem do Hatoum… o transgressor pode se sentir satisfeito e sortudo.

    Engraçada a idéia da literatura do incômodo. Poxa, vivemos no Brasil, violência, desemprego, e o cara busca incômodo nos livros. Pede para passar um dia na prisão.

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  • André, teu comentário me amedrontou. Você usou mais de seiscentas palavras pra defender “O filho eterno” dos poucos comentários negativos que o livro teve (sim, somos a esmagadora minoria, como você bem demonstrou), mas finalizou dizendo: “quem defende a ‘Verdade’, no fundo, tem um princípio totalitário por trás”. Caramba. Pra quem convive tão de perto com um estudioso de Bakhtin, você podia ao menos dar uma pequena chance à pluralidade de opiniões.

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  • Nelson,

    Acho que você não leu certo as minhas palavras ou não consegui me fazer entender. Naturalmente, não sou contra quem pense diferente. Aliás, é justamente o contrário – sou contra as verdades únicas! O problema da crítica do Ronald é que ela se afirma como se fosse uma verdade única e considera as demais opiniões como medíocres ou do “sistema”. É um jeito meio PSTU de ver a literatura – e, sim, acho isto muito totalitário. No fundo, o que Ronald pensa ou não pensa sobre o Tezza pouco me importa – o que realmente me incomoda é se afirmar acima dos demais e menosprezar a diferença.

    No mais, creio que as críticas que você, JLM e Dr. Plausível colocaram podem ser objeto de discussão. Mas isto é bem diferente do texto do Ronald.

    Abraços,
    André

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  • Democracia trangressora

    Do blog do André Leones:

    “Nem te conheço Lucas, mas ficam as sugestões: acabe com as caixinhas de comentários e dê prosseguimento à Copa nos anos vindouros sem esses bate-bocas inúteis.”

    http://vicentemiguel.wordpress.com/2008/12/18/contemporaneos-ii

    Esse pessoal se puder quer mesmo calar os críticos. Cala até mesmo que não critica, mas é melhor tirar a caixa de comentários toda, pois ninguém quer discussão ou WEB 2.0. Bem, só se o pessoal se comportar relação a eles.

    Mas quanto a mim, ele pode sossegar, que não perder tempo apontando o óbvio. Triste, triste.

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  • fala-se até de nós, reles comentadores da clb, no blogue do leones:

    “Tem alguma coisa acontecendo, e acontecendo de verdade, e não são os otários freqüentadores de caixas de comentários de “blogs literários” que vão perceber isso. Esses babacas não pegam um livro para ler. Esses babacas folheiam um livro, “dão uma espiada”, só para confirmar seus preconceitos e cretinices. Vão se foder, tá?”

    kkkkk

    como diria o didi, “fui ofendido mas tô no lucro”, afinal, se alguém se sente tão mal com comentários em sítios alheios, é pq lhe falta maturidade para aguentar o tranco, e talvez tenha até um certo medinho de abrir a boca aqui e desvelar toda a sua sapiência.

    e o pior é q insisto em torcer por ele, como conterrâneo, mas desse jeito fica cada vez + difícil.

    1 abraço

    ps: alguém aqui se incomoda realmente com oq o talzinho pensa? lucas? dr.? nelson? tezza?

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  • “O que é que há com vocês? Por que vocês não me incomodam? Por que não me agarram pelo colarinho, pelas vísceras, pela massa cinzenta, por tudo ao isso mesmo tempo?”

    Alguém, por favor, chama ele de Mon Bijou?

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  • olá, andré. pelo que consegui entender dos seus comentários acho que você não leu o texto em que trato do romance do cristovão tezza, mas sim um artigo mais recente que publiquei em sibila abordando questões em torno dos prêmios literários e seus vencedores. embora neste texto eu não me detenha no seu afeto, talvez algo da lama sórdida da minha crítica “antiguada” tenha respingado no fraque do romancista. portanto se você quiser levar o debate para além da mera ironia reativa e do tom maleducado, leia (se isto não for ferir sua tolerância chapliniana inclusive ao meu nome) o texto indicado pelo JLM e depois, quem sabe, não tenhamos que travar uma discussão em torno de malapropismos. abraço.
    ronald

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  • Ronald, e demais boleiros da copa,

    Olha, não vou participar de mais touradas não. Tudo o que queria dizer, creio que já disse e esta é a minha última mensagem. Se o Ronald quiser, pode discutir, elogiar, destruir ou ironizar os meus argumentos anteriores – mas novos, de minha parte, não virão.

    De certa forma, estou meio arrependido: tem homem demais aqui nestes comentários e homem demais é, normalmente, sinal de confusão, competição meio infantil, vocabulário de vestiário masculino… Enfim – recomendo ao Lucas: mais mulheres árbitras. E façamos campanhas para que elas compareçam mais por aqui nos comentários.

    De resto, parabéns aos organizadores – apesar de tudo, é bom ter um espaço para refletir sobre a produção da terrinha. E me despeço copiando uma crônica do Veríssimo que saiu esta semana. Acho que ela expressa bem o “zeitgeist” de alguns dos nossos debatedores. Aliás, desconfio que o Veríssimo se inspirou com o debate que apareceu aqui…

    Bom final de ano, abraços.

    Zeigeist – Veríssimo

    “Prezado M:

    Entendo seu entusiasmo com o verso que acaba de me mandar. Realmente, é um raro exemplo de exteriorização poética, a começar pela reiteração inicial:

    “Eu mato, eu mato…”

    A brutal assertiva evoca à perfeição a têmpera destes dias, o nosso “zeitgeist”. Perderam-se as ilusões com a justiça e as esperanças de regeneração, e com todas as instâncias jurídicas. Vivemos num deserto de valores morais. O poeta não diz “eu reprimendo”, “eu castigo”, “eu mando prender”. Diz e repete “eu mato”. Que retribuição se pode esperar onde a justiça não faz justiça e a cadeia não segura o ladrão? O poeta ameaça fazer sua própria justiça porque não tem outra. Revertemos ao animal primevo com as presas à mostra, num ricto de vingança selvagem. Uma hiena ganindo entre as ruínas de uma civilização falida.

    Segue o poema:

    “…quem roubou minha cueca…”

    Há aqui algo que evoca Eliot, com seu constante recurso ao aparentemente banal – no caso, a cueca – em contraponto às alusões clássicas e míticas, e que acabou sendo um viés da poesia moderna (Auden, Drummond). Não seria, talvez, demais ler a cueca como metáfora. A cueca representa o que temos de mais íntimo, recôndito, profundo. O que temos de mais nosso. O que o “zeitgeist” nos roubou. Ou seja: a nossa alma. Onde está “cueca” leia-se “alma”. Sem a cueca ficamos nus. Sem a alma também estamos reduzidos a apenas o nosso corpo.

    Mas quem roubou a nossa cueca/alma? Quem nos trouxe, desprotegidos, para este deserto?

    Quem merece a raiva do poeta? Que a raiva é merecida fica evidente na última linha do verso:

    “… pra fazer pano de prato!”

    A suprema degradação. Nossa alma secando pratos. O fim de uma geração que conseguiu chegar à Lua, mas se perdeu no caminho da privada. Quem é o culpado? Também queremos ganir de indignação como o poeta mas não sabemos em que direção. Para o alto? Para o lado? Para que lado? Quem, afinal, roubou nossa cueca pra fazer pano de prato?

    Mas, enfim, poesia é isso mesmo, não é não? Perguntas sem respostas. Se houvesse resposta não seria poesia. Um grande abraço do L.”

    “Prezado L:

    Gostei muito do que você escreveu sobre o verso que mandei, mas preciso fazer uma confissão: mandei o verso errado. Queria que você comentasse um poema do Baudelaire, mas me atrapalhei (sou um pré-eletrônico, você sabe) e acabei mandando a letra de uma marchinha de carnaval que, sei lá por que, estava armazenada no meu laptop. Mas obrigado assim mesmo. Grande abraço, M.”

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  • eu sinto como se todos nós fossemos as menores formigas que existem, perdidas na maior floresta do mundo, lutando por um mero grão de açucar amargo e sem gosto.

    todos os conceitos de níveis e todos os conceitos do que é literatura, que qualquer um possui, e que é única e indivisível, leva apenas ao estraçalhamento e a morte de todas as formigas enquanto o grão de açucar amargo e sem gosto brilha, mesmo sem haver luz alguma sobre ele, nenhuma luz possível.

    é como se todos nós fossemos tão pequenos, que, ao nos encher de teorias, nós provamos exclusivamente para cada um de nós que somos mais ferozes ou temos mais força que outras formigas terrivelmente iguais à nós mesmos, tão pequenas e perdidas quanto nós, tão ridículas e insensatas quanto nós.

    todas as formigas que enganam a si mesmas tentando enganar outras formigas e, que, nada mais são que espelhos perfeitamente funcionais e só mostra o que querem ver, ou desejam ver, ou seja, elas mesmas, serão as primeiras a morrer e a feder, um fedor e um mal-cheiro que não incomoda ninguém, nem nunca poderá incomodar ninguém de tão pequeno e ridículo que é esse fedor mesquinho e egoísta.

    as únicas formigas que irão sobreviver a esse morte estúpida e, que, mesmo imersas no mesmo erro de terem lutado por uma grão de açucar falso e sem nenhum valor, será as que se afastarem disso tudo com o que resta de racionalidade e, principalmente, com o que resta de inteligência e bom senso, em uma fuga rápida e veloz com todas as suas forças para um lugar bem distante e melhor, um lugar, onde, de fato, os grãos de açucar brilham quando existe luz de verdade e possuem um sabor verdadeiro e único, doce.

    ou seja: a literatura de fato e direito, a liberdade da literatura, o poder da ficção.

    é somente eu que sinto tudo isso?
    estou sozinho?

    um abraço para todos.

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  • Hoje o que temos são amazonismos pós-modernos e dramalhões de pais com filhos excepcionais travestidos de literatura de repertório. Todos devidamente premiados, claro… Uma prosa que mais parece pastiche, mal-traduzido, da idiotia norte-americana de última safra. É só dar no “New York Times” e a indiarada corre a traduzir, editar, e espalhar pelas vitrines das mega redes de livrarias a baboseira ianque & suas congêneres.

    Comentário de Wilson Bueno, aqui:

    http://sibila.com.br/batepro223mortevxavier.html

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  • Recém terminei de ler o Dia Mastroiani, estava decidido a calar sobre minhas impressões e deixar esse sítio ir se entregando.

    Mas, resolvi que ainda dá tempo para fazer um comentário.

    A leitura do livro do Cuenca me deu certeza de que ele foi muito prejudicado pelo julgamento do André Santana.

    O livro não é essa desgraça que os comentadores, suspeito que a maioria sem tê-lo lido, anunciam. Pelo contrário, há coisas interessantes no livro. Especialmente, o que o Sérgio Rodrigues chamou de trabalho de linguagem.

    Na copa passada, eu lembro de ter comentado que “copa” é um termo que não se refere exclusivamente ao futebol, e que poderíamos imaginar outros esportes para fazer essa brincadeira render outras estórias. Não sem razão, uma turba veio defender o esporte bretão como metáfora irrecusável, etc.

    Um ano depois, rendendo-me aos apelos da bola, digo: ODM não é um livro competitivo, não é daqueles que se esperaria disputar uma final de campeonato. Aqui não se trata da velha polêmica: seleção de 82 X seleção de 94. Não é o futebol arte versus o futebol vencedor. ODM não é nenhum dos dois. E mesmo essa polêmica parece vir abaixo, se os comentários sobre o livro do Tezza (que não li) forem corretos.

    ODM esá mais para seleção de Camarões. Arrisca muito, joga faceiro, sem se preocupar com a defesa, e na maioria das vezes perde, mas, mesmo perdendo, sai com um ar de vencedor. Se ODM realmente fosse derrotado pelo livro da Saavedra (livro de adulto, no comentário do Dr. Plausível, achando isso um elogio), Cuenca sairia bem do campeonato. Teria perdido para um livro, suponho, competitivo, mas teria mostrado seu jogo, teria empolgado alguns, feito umas jogadas de efeito e ido para casa.

    Mas, inadvertidamente, sob a batuta do André Santana, acabou avançando no torneio e ficando exposto às pressões de time grande, coisa a que ele (o livro, não o autor) não parece talhado para ser. O mérito de seu livro não é colocar medalhas no peito, é lembrar aos torcedores daquele jogo faceiro, de um jeito peladeiro que os times grandes e seus torcedores fanáticos acabam se esquecendo, quando começam a se preocupar demais com as vitórias. Um futebol que pode ser muito divertido.

    Dito isso, gostaria de deixar claro que o livro não chega a emnpolgar. Em vários momentos me encantou, em muitos outros deu água. É, com disse antes, um livro que arrisca sempre, em todas as jogadas, períodos e orações. Às vezes acaba saindo com bola e tudo para lateral. Mas eu apreciei a leitura. Para mim funcionou mais do que não funcionou (essa lanterna não é acende ou não acende, ela pode piscar de vez em quando).

    Talvez, seja esse descompromisso com a vitória a que o André Santana quis enaltecer. Mas isso eu só posso supor, considerando que seu texto tropeçou no seu ressentimento mal-contido, na sua juventude tardia, e em outros histrionismos. Deixar que o seu texto deponha contra suas convicções é um erro que não se pode perdoar a um escritor.

    Esse erro, acho que Cuenca não cometeu.

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  • Já comentei aqui q OFE tem vários problemas q me impediriam de votar nele, mesmo q não houvesse o da “corda bamba” entre ficção e não-ficção. Aqui vai um deles.

    Observe os verbos em negrito nestes trechos, tirados dum intervalo de apenas duas páginas (24-5) de OFE, narrando uma única seqüência, logo após o nascimento do filho:

    “–Tudo bem?
    –Tudo bem – ela diz.

    –Telefonou para as famílias? – e ela sorriu pela primeira vez.

    … [o pai] descobre que já penduraram na porta um bonequinho azul … pensa em dinheiro … tudo está indo bem … Na gaiola pública dos recém-nascidos, tenta reconhecer seu filho … Que nome dariam a ele? … Felipe. … Repete o nome várias vezes … É preciso telefonar… compra algumas fichas … resistiu a pedir pra ligar dali mesmo … na calçada logo à saída estava a fileira de telefones públicos

    antes uma boa caminhada … está uma manhã fresca e bonita …”

    A oscilação gratuita entre indicativo presente e pretérito sempre me irrita. À medida em q OFE progride, e passa a narrar mais situações habituais, a oscilação vai estacionando. ¿Será intencional, a oscilação? ¿Uma maneira de subconscientizar gramaticalmente no leitor as vacilações do autor/personagem? Não me parece. As vacilações entre presente e pretérito (e outras imprecisões verbais) são um traço bastante comum em literatura brasileira, como se alguns verbos exigissem estar no presente e outros no pretérito. Na verdade, não exigem nada. É falta de atenção mesmo – falta de atenção ao significado dos tempos verbais –, falta de controle e revisão.

    ¿É picuinha minha? Deve ser, já q não vejo mais ninguém notando esse tipo de problema.

    Tou longe de dizer q Tezza “é um bom jogador; a única coisa q o atrapalha é a bola”. Uma revisãozinha fria regularizaria tudo. Mas é um problema, ¿não é? q depõe contra os aprovadores incondicionais…?

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  • doutor,
    mas essa oscilação verbal e contrutiva está na maioria da literatura em língua portuguesa. você diminuir o livro do tezza por certos trechos desse tipo é errar no verdadeiro julgamento que o livro merece, que é a falta de força ficcional(coisa que você já assinalou e eu concordo) sobre um assunto que para mim não me soa nem um pouco edificante ou importante e não me deixa encantando( caso o tezza avançasse sobre questões morais com força e vontade, coisa que um livro com esse nível de tema pede, numa perspectiva real ou ficcional, aí sim teríamos algo de bom.)

    para mim o melhor romancista desse país continua sendo o graciliano ramos, que desmanchou a língua portuguesa até sobrar somente pedra( mas eu gosto de machado, rosa, lispector, lins e por aí vai) e fez um mundo ficcional realmente sólido e sem exageros, sem catarses dramáticas disfarçadas de boa literatura.

    talvez por isso você tenha gostado tanto do toda terça da saavedra, por ele conter mecanismos de linguagem mais próximos do espanhol do que do português (sendo que eu desconheço os mecanismos de linguagem em espanhol, mas deve conter certas diferenças, não?).
    grande abraço. :-)

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  • Dr., com o livro editado pela Record, certamente os originais passaram por uma boa revisão. Não foi descuido, foi deliberado, e até concordo com você que é nesse caso é mais irritante do que outra coisa. Porém, acho que o livro mais do que compensa esse problema por tudo o que os outros juízes falaram. Eu não sai da leitura pensando sobre o tempo dos verbos.

    Curioso, enviaram para mim uma resenha anterior do André Leones sobre OFE:

    “A fúria do pai
    Novo romance de Cristovão Tezza desconcerta pela franqueza cruel com que trata da relação de um pai, o próprio autor, com seu filho portador da síndrome de Down.

    Por André de Leones*

    O Filho Eterno é o romance que Cristovão Tezza levou vinte e tantos anos, talvez a vida toda, para escrever. Nele, o autor fala, em uma terceira pessoa incômoda e às vezes crudelíssima, sobre o seu relacionamento com o filho portador da síndrome de Down. É um romance autobiográfico, claro, e poucas vezes um escritor voltou-se contra si e contra a própria vida com tamanha franqueza. Paulo Francis escreveu certa vez que uma autocrítica honesta é a maior violência que alguém pode cometer contra si mesmo. Tezza parece saber disso como poucos.

    Nesse sentido, o livro é uma espécie de auto-violação. Se fosse escrito em primeira pessoa, é provável que não tivesse tanta força. O árido narrador, que nomeia apenas a criança “defeituosa” (Felipe), não poupa o personagem do pai, oferecendo-o em holocausto. Todos os pensamentos do protagonista, que trafegam quase sempre entre o brutal e o patético, estão nas páginas do livro. O Filho Eterno está longe de ser uma leitura agradável, até porque o protagonista age, quase que o tempo todo, como um ser humano comum, o que equivale a dizer: como um boçal.

    Paralelamente, acompanhamos o desenvolvimento do Tezza escritor. Com a mesma sem-cerimônia com que desconstrói (ou demole) sua figura de pai, o autor detona também a figura do escritor, seja “marginal” ou “adequado ao sistema”. Na verdade, o que é detonado no livro é o idéario que cerca a profissão, os mitos e bobagens propagados aos quatro ventos desde que a literatura é literatura. Tezza é taxativo, lembrando que ninguém pediu a ele que escrevesse.

    E o livro não se esgota nisso. O leitor ainda é presenteado com uma visão lúcida dos rumos tomados pelo país nas últimas décadas, desde as entranhas da ditadura até as vísceras expostas dos governos mais recentes. Não há nenhuma exposição didática ou historicista dos rumos do país, mas as seguidas tragédias da política nacional estão, de uma forma ou de outra, refletidas no romance.

    Logo, com sentenças incisivas e certeiras, e dotado de uma honestidade brutal, O Filho Eterno trata de bombardear todo moralismo e toda certeza inerentes às acepções convencionais de pai, literatura e pátria. Cristovão Tezza escreveu um romance carregado de fúria paterna, e é exatamente isso que torna o livro tão marcante.”

    http://www.sergipe.com.br/balaiodenoticias/andre_106.htm

    É bem diferente do que ele escreveu no blog:


    Contemporâneos

    12/15/2008 por André de Leones

    Não estou com saco para “me aprofundar” (eca), mas afirmo: “O Filho Eterno” não é o melhor livro lançado no Brasil em 2007. “O Filho Eterno” sequer é o melhor livro de Cristovão Tezza. “O Filho Eterno” é um livro com-pena-de-si-mesmo, “fácil” na maneira como aborda um assunto “difícil” e, em alguns momentos, de uma banalidade ofensiva (a mim, pelo menos).

    “O Filho Eterno” me lembra o best-seller de Joan Didion “O Ano do Pensamento Mágico”, sobre a perda do marido dela, na medida em que é restritivo, ligeiro e autopiedoso. Tezza não chegou nem perto de acertar as contas que deveria (ou não; cada um com os seus problemas) ou queria acertar. “O Filho Eterno” é superficial, “bem escrito” e tolo.”

    http://vicentemiguel.wordpress.com/2008/12/15/contemporaneos/

    Estranha tanta mudança. Antes era livro furioso, depois fraquinho. Antes “honestidade brutal”, depois “restritivo”. Mas é mesma tecla: era bom porque incomodava, e agora é ruim porque não incomoda. Mas esperar o quê? Esse Leones coloca “eca” depois da palavra aprofundar. Escola André Santanna, aprovado com louvor.

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  • Esse seu último comentário mereceria um troféu e uma menção honrosa se aqui se distribuíssem troféus e menções honrosas, Roberto. De quando é a primeira resenha?

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  • isaac e Roberto,
    Ah, mas tenho outras objeções. Essa dos tempos é só a mais chãzinha. E isaac, realmente a “falta de força ficcional” é uma objeção fortíssima; pra mim – q (repito) gostei do livro –, essa fraqueza resultou de uma ambição intelectual excessiva e injustificada. Depois me alongo mais nisso.

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