Copa de Literatura Brasileira

Repescagem

O dia Mastroianni jogo 15 Cão de cabelo

Jurado: Sérgio Rodrigues

Cão de cabelo é o primeiro dos livros que voltam à Copa pela porta da repescagem, uma novidade no regulamento deste ano: dois concorrentes eliminados nas primeiras fases retornam pelo “voto popular” (nem tão popular, considerando a penetração menos que maciça desta brincadeira literária) para enfrentar semifinalistas que passaram pelas etapas convencionais. No caso do livro de Mauro Sta. Cecília, para desafiar O dia Mastroianni, de João Paulo Cuenca.

A adoção da repescagem provocou alguma polêmica entre os jurados. Fui um dos que se opuseram a ela, argumentando que o universo de votantes é pequeno demais — e portanto manipulável demais por campanhas entre amigos — para permitir o sucesso da idéia que estava em sua origem: criar um mecanismo que pudesse corrigir eventuais injustiças e ainda adicionar à disputa uma certa vertigem na reta final.

Voto vencido, passei imediatamente a torcer, como aficionado de primeira hora da Copa, pelo êxito da repescagem. Mas perdi de novo. Cheio de boas intenções às quais falta realização literária, o romance de estréia de Sta. Cecília não é adversário para o segundo de Cuenca, e sua reentrada em campo chega a expô-lo desnecessariamente. Numa semifinal desprovida de graça, O dia Mastroianni é o primeiro livro classificado para decidir a CLB 2008.

* * *

Cão de cabelo conta a história da ascensão e queda de Lelo Costa, jovem carioca nascido na favela e educado — de favor — em um bom colégio de classe média. Apresentado como um cara talentoso com as palavras, ele escreve a letra de uma canção romântica, A chave do teu coração, que se torna o maior sucesso do gênero em décadas. Ganha fama e dinheiro, mas não se livra de seu conflito de formação: pouco à vontade tanto no morro quanto no asfalto, caminha inevitavelmente para um fim trágico.

O argumento, embora batido, poderia render uma boa história. Não se pode acusá-lo de artificial ou fútil: pelo menos em tese, os conflitos do protagonista fazem sentido humano e ainda espelham feridas sociais que são autênticas e, no caso do Rio de Janeiro, ostensivas. Eis as boas intenções. O sentimento básico que move o texto também é promissor: a raiva, aquilo que Susan Sontag apontou como um dos dois motores da ficção — o outro seria o medo.

Infelizmente, tudo isso se esvai numa história descosturada em que personagens esquemáticos ou mal definidos vagam por cenas soltas como se fossem movidos por seus papéis sociais, não por apetites de gente. Quando chega, sem que a baixa tensão narrativa tenha preparado o terreno, o clímax violento consegue ser ao mesmo tempo previsível e postiço. Muita coisa não funciona em Cão de cabelo, mas acredito que na base de tudo esteja um problema de linguagem.

Lelo Costa é um narrador do tipo conspícuo. Comenta, generaliza, anuncia os próximos movimentos, dirige-se vez por outra ao leitor e cultiva o hábito de colar na maioria das cenas umas legendas vagamente sociológicas ou psicanalíticas. O recurso, que contribui para achatar os demais personagens e desperdiçar o potencial de ação da trama, poderia funcionar se o festejado letrista tivesse algo menos banal a dizer. Mas Lelo passa longe de justificar a fama de habilidoso com as palavras:

Nossa cidade tem uma característica fantástica que a distingue das outras. Estou falando dessa proximidade, ou promiscuidade, sei lá, entre favela e casa de bacana num cenário pra nenhum milionário gringo botar defeito. Sou produto exatamente dessa pororoca. Cresci no morro e freqüentei colégio de classe média alta. Conheci um lado e outro.

Voz em que Sta. Cecília pendura todo o peso do livro, o narrador de Cão de cabelo nada de braçada — e, como não há sombra de distanciamento irônico, com ele o autor — num mar de lugares-comuns, platitudes e palavrões de botequim, incapaz de um pensamento que fuja do trivial dos jornais populares:

Tânia, a neguinha quente do samba no pé, era irmã do traficante mor da área. O tal do Jacaré. Mesmo assim tivemos um caso. Um caso discreto, é verdade, mas rolou. Comi ela gostoso umas quatro, cinco vezes. A primeira vez foi a melhor. Foi naquela noite mesmo, no escurinho da viela 2. Ela me pagou um boquete e depois enfiei a jeba ali mesmo, de pé. Gostosa, putinha, com seu bocão e cara de safada. Adorei gozar em sua boca.

É deliberada, claro, a adoção de um estilo “sujo”, “urbano”, “visceral”, “antiliterário” ou qualquer outro desses adjetivos que uma abordagem indulgente poderia conceder ao livro. Resta lamentar a tentativa de jogar a “fala das ruas” na página sem um trabalho mínimo de estilização em que se pudesse vislumbrar a assimilação do legado de João Antônio, Antônio Fraga ou Rubem Fonseca — para citar apenas três sujeitos que, cada um a seu modo, encontraram saídas para essa difícil sinuca.

Ao transformar, por contraste, Cidade de Deus na obra de um virtuose da prosa, Cão de cabelo acaba sendo um compêndio de defeitos de um certo naturalismo naïf que já despachou tantas boas intenções para aquela região que dizem ser cheia delas.

* * *

De naturalista — ou, a propósito, de ingênuo — o livro de João Paulo Cuenca não tem nada. Se alguma luz o romance de Mauro Sta. Cecília ajuda a lançar sobre a novela do adversário, é esta: O dia Mastroianni pode ser lido como um Cão de cabelo em negativo, seu antípoda perfeito. Um é condenado pela linguagem, num acidente de percurso que faz capotar o projeto sensato e para todos os efeitos louvável de contar uma história “relevante”; o outro debocha tanto das histórias quanto de sua relevância, e tem um ponto de partida tão extravagante e leve, quase uma bobagem, que seria uma completa perda de tempo se não fosse salvo pela linguagem.

Mais do que salvo pela linguagem, O dia Mastroianni é linguagem pura, um belo exercício de estilo erguido sobre o vazio que o século XXI abriu sob os pés dos escritores, essas figuras anacrônicas e vagamente ridículas. Ou pelo menos sob os pés de uma nova geração de artistas sem obra, só pose e joguinhos de palavras, com seu cinismo de butique e seu tédio prêt-à-porter. Uma geração que, além de ser a do próprio Cuenca, é a de Pedro Cassavas, narrador de cinco sextos do livro e protagonista de sua totalidade.

O dia Mastroianni acompanha as perambulações etílico-filosófico-sexuais de Cassavas e seu amigo Tomás Anselmo, dois flâneurs muito jovens e muito bem vestidos, por uma metrópole de sonho. Em sua riqueza de detalhes arquitetônicos e urbanísticos, o cenário chega a lembrar uma das “cidades invisíveis” de Italo Calvino:

No salão envidraçado, vemos os distantes canais arroxeados cortando o casario medieval e os sobrados afundados feito caracóis na areia, as pontes ligando quarteirões e pequenas ilhas, o centro financeiro e seus arranha-céus, as gruas sobre esqueletos metálicos, as cúpulas ásperas das catedrais, os grandes teatros art déco e, por trás de tudo, depois das colinas do bairro histórico, o deserto e seus desfiladeiros.

Da manhã à noite, nada muito importante acontece — e se acontecesse não faria diferença, porque nenhum dos dois dândis acredita na realidade. A tarefa de manter o leitor interessado fica a cargo da prosa, que se desincumbe da tarefa assobiando. Para isso desfila recursos como enumeração surrealista, citações pop mais ou menos veladas, adjetivação surpreendente e, coisa cada vez mais rara nas letras nacionais, um apurado senso de humor:

Saímos na hora da oração, quando todos se ajoelham em direção a Madureira. O maître nos alcança, nos cobra e nos conta uma fábula.

Os capítulos são entremeados de curtos blocos de diálogo em que Cassavas é interpelado por uma voz rude que soa como um superego anabolizado e grita com ele em maiúsculas para criticar a história que está sendo contada. Só no capítulo final, quando a tal voz assume o comando, fica claro que presenciamos uma conversa entre autor e personagem.

Se esse resumo acende algumas luzes de alerta — esteticismo, futilidade, metalinguagem e niilismo de almanaque —, parabéns, você é um leitor perspicaz. Mas é preciso levar em conta que tudo isso está nos planos de Cuenca. Esperto, seu livrinho encena, sublinha, justifica, tira sarro e finalmente rebate as críticas de irrelevância que lhe possam ser endereçadas. A resposta é algo como: não, a literatura não serve mesmo para nada, mas o que mais poderia criar uma inutilidade tão prazerosa quanto esta?

O dia Mastroianni
O dia Mastroianni
de João Paulo Cuenca

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68 comentários

    Perfeito, Sérgio.

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  • Acho que é presunção afirmar que “a literatura não serve para nada”, como se todos nós tivéssemos que ter a mesma impressão de Sérgio sobre a arte, como se todos enxergássemos pelo filtro de sensibilidade do resenhista. Muito outra coisa é dizer: a literatura não serve para nada, para mim. Mas o erro de todos nós é expandir nossa apreensão de mundo para o resto dos outros, aquela parcela minoritária que habita o planeta, além de nós.

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  • Mas é o Sérgio que tá escrevendo. Ficou bastante claro que o que ele diz é a opinião dele. Não precisa o resenhista escrever “isso é assim, pra mim”, “isso também é desse jeito, mas pra mim” ou “eu acredito que tudo seja assim, mas pra mim”.

    Embora não concorde com a opinião do Sérgio nesse ponto, acho desnecessário esse excesso de cuidado. No mais, ótima resenha de um ótimo escritor.

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  • Pelos trechos destacados Cão de cabelo parece bem fraco.
    Me impressiona que ainda apostem nesse formato fake de submundo.

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  • Muito boa a resenha.

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  • É o Sérgio que está escrevendo, certo. E ele tem todo o direito de ter a opnião dele, certo. Mas ele precisa, ao meu ver, ressalvar que o livro do Cuenca é melhor apenas por um, vamos dizer, gosto dele, porque não vejo motivo para se alegar que a literatura não serve para nada. Se é um critério sustentável, tudo bem. Mas se é um critério que parte do “assim que eu sinto as coisas”, a coisa muda, segundo me parece.

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  • Rodrigo: recomendo ler o meu texto com mais atenção. “A literatura não serve para nada” está longe de ser um juízo do resenhista, é apenas um recado importante do livro do Cuenca. Ah, mas isso é na minha leitura? Evidente que sim. A resenha é assinada. Sinceramente, não vejo o que teríamos a ganhar – além de prolixidade e covardia – pedindo desculpas por nossas opiniões a cada linha, como recomenda o modismo relativista.

    Aliás, acredito que o livro do Cuenca seja melhor que o de Mauro Sta. Cecília por qualquer critério que se utilize, e me parece que a resenha alinha um bom punhado de argumentos para deixar isso exaustivamente claro. Nem sempre é tão fácil ou simples eleger um “vencedor” em embates estéticos, mas neste caso é.

    Obrigado a todos pela gentileza dos comentários.

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  • Sampaio, releia, por favor, a última frase: “A resposta é ALGO COMO: não, a literatura não serve mesmo para nada, mas o que mais poderia criar uma inutilidade tão prazerosa quanto esta?”
    Ele disse que é isso que o livro quer dizer, não que ele acredite nisso. E o livro do Cuenca serve para alguma coisa, pelo menos, que é levantar algumas questões (inclusive, para que serve a literatura).
    Sérgio, muito bom o texto. Parabéns.

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  • Fiquei, sinceramente, com a impressão de que a escolha foi pelo livro menos ruim. Parece que, no fim, a argumentação do Sérgio foi um pouco naquela linha: OdM é fraco e artificioso, mas como era isso mesmo o que o Cuenca queria fazer, ele realizou melhor sua proposta. Falo isso sem ter lido nenhum dos dois livros. Serei voto vencido aqui, mas creio que, no lugar do Sérgio, tenderia a escolher o outro livro: os dois livros me parecem ser igualmente fraquinhos, mas acho mais interessante a intenção ¨social¨ (?) de CdC do que a proposta ¨hedonista¨ de OdM. Mas é questão de simpatia mesmo, e acho que o Sérgio teve os seus critérios e os apresentou de forma bastante clara.

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  • Volta a subir o nível das avaliações desta Copa. Boa argumentação, com exposição de motivos e até exemplos, de lado a lado. E música, poesia ou prosa de ficção são coisas indispensáveis que não servem para nada, no sentido prático da sobrevivência. Mas a vida seria quase insuportável sem elas!

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  • Gostei da resenha.

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  • Sérgio, eu nunca disse que sua resenha estivesse ruim. Pelo contrário, gosto dela e vejo outros elementos estéticos elencados procedentes. Mas sua resenha me pareceu sustentada, entre outros elementos, num ponto bastante frágil, artisticamente falando, que é decisivo para se avaliar a obra de Cuenca: a idéia de que a arte não vale para nada. Veja que este é um ponto vertebral na obra dele (você mesmo o diz, além do André Santanna) e, portanto, sua resenha se torna discutível. Eu, que considero esta idéia fraca, e bem batida, já tomaria o mote do Cuenca como ponto desfavorável e não o contrário, como você fez. Até hoje não vi argumento razoável para justificar a irrelevância da arte. Pode ser um limite meu e talvez alguma alma caridosa – e mais culta, como é o seu caso (sem ironia) – um dia me explique.

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  • Rodrigo, acho essa discussão meio vazia porque há bons argumentos dos dois lados, mas já que você insiste em entrar nesse mérito, me parece mais produtivo encarar toda arte digna desse nome como coisa de sublime inutilidade, sim. Porque a visão contrária gera “aplicações” políticas, comerciais etc. que são o fim da picada.

    Mas repare uma coisa: a procedência filosófica dessa idéia não vem ao caso aqui. Sendo um objeto artístico, o livro do Cuenca só pode ser julgado pelo que faz com a idéia (verdadeira ou falsa) dentro de sua própria lógica. Rende? Funciona no livro? A meu ver, rende e funciona. Isso basta. “Os sertões” não deixa de ser uma obra-prima porque Euclides da Cunha se baseou em uma série de preconceitos “científicos” do século 19.

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  • Comparando Euclides da Cunha com Cuenca, nossa…

    Também não gostei dessa resenha. Bem fundamentada e bem escrita, dá pouco espaço para as minhas presepadas.

    Não dá para o André Santanna julgar de novo?

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  • Uma ótima resenha – que me deixou com a impressão de que Sérgio pôs seu talento em campo para apitar com dignidade um XV de Piracicaba x Ituano. E me fica, ainda, a forte sensação de que os dois livros são medíocres, e ganhou o menos pior, como sói acontecer em muita copa.

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  • Bem fundamentada, tranqüila, justa, uma resenha muito boa.

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  • Isso aí, bela imagem a do Trezentos. Colocaram o Pierluigi Collina pra apitar um jogo de segunda divisão estadual. O juiz atuou bem, mas jogo foi muito ruim. E eu, mesmo tendo visto o VT algumas vezes, ainda acho aquele pênalti que decidiu a partida duvidoso… mas, sacumé: levando-se em conta a velocidade do jogo, dá pra entender porque o Sérgio Collina apitou.

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  • Sérgio, meu caro, na qualidade de seu admirador e, quando posso, freqüentador do Todo Prosa, indago-lhe. Pegue o Reparação. Pelo seu site, sei que você, como eu, o adora. De fato, o romance possui uma construção estética magistral, ou seja, seria bom apenas se o apreciássemos em sua construção formal. Contudo, ele possui um “sentido humano” um “algo a mais além da estética” em vários momentos da obra. Um exemplo: a denúncia feita por McEwan, o autor, referente ao preconceito social demonstrado por pais que repudiam o amante da filha mais velha, porque é um moço de origem social inferior. Mas o fazem atrás de uma capa de benevolência, como a dizer, “eu o ajudo a ascender, mas não a ponto de entrar no meu círculo”. Ninguém pode negar que este aspecto só faz engrandecer o livro. E trata-se inegavelmente de uma denúncia social, da sociedade de castas britânica. Assim, além da estética, existe uma ética maravilhosa que permeia por toda a obra e é justamente esta junção que a torna grande obra. Em obras que amamos, vemos que a parte ética está colada na estética. Assim, como podemos considerar obras como esta inúteis? Não acha que uma obra que nos encante no sentido formal – pura art pour art – seria superior se também nos encantasse no sentido ético, ou filosófico? E, se nos trás tais indagações, é um obra artística útil, com toda a certeza. Verdade que os Sertões não deixa de ser ótimo por suas qualidades estéticas. Mas não seria ainda melhor se viesse acompanhado de qualidades éticas? O livro de Cuenca, por fim, não tem este problema? É eficaz em sua proposta, rende, funciona no livro, tem sua vitória estética, mas ao contrário do Sertões, é uma vitória pequena, visto ser batida. E, sobretudo, não possui nada para além da literatura que faz da literatura literatura maior. Que pensa disso, caro?

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  • Acho q qdo o juiz é bom, até partida de várzea fica mais interessante. A gente entende melhor o jogo.

    Sobre a arte ser útil, é claro q é útil. Se não fosse útil, não existiria. Olhe a jejade, por exemplo. Não existe jejade pq não serve pra nada.

    A arte serve pra humanizar o Homo sapiens. Alguém diria, “¿Como se pode humanizar o q já é humano?” Aí q tá, Homo sapiens não é um ser humano ou um estar humano; é a possibilidade de ser e estar humano. Dentro do Homo sapiens existe toda a gama entre uma ameba e um humano; alguns diriam entre uma ameba e um übermensch.

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  • [O comentário #14914 será citado aqui]

    Tá: e é plausível que um texto que parte de um ¨niilismo de almanaque¨ e que descreve as perambulações de dois dândis que desacreditam na realidade possa levar alguém a ¨desamebar-se¨? Eu compartilho desse ponto de vista (de que a arte tem que superar o nível puramente estético), e é por isso que eu daria (na verdade, só acho que daria: como já disse antes, não li nenhum dos dois, e nem tenho o menor interesse em ler) a vitória ao outro livro, que parece ser igualmente ruim, mas pelo menos tem uma proposta mais… desamebizadora. Em tempo: o nível do debate só comprova a qualidade do juiz.

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  • Como todos vocês, não tenho nenhuma simpatia pelo Cuenca, muito pelo contrário. Mas, a contar pelo que se comenta aqui, o jovem está certíssimo no que escreveu hoje no seu blog. O que tem de gente aqui que não leu qualquer livro falando besteira… É o orgulho dos ignorantes.

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  • [O comentário #14910 será citado aqui]

    Ai, dizer que McEwan faz crítica social… Ai. Ai, ai, ai. O que a doutrinação política não fez com nossos leitores, hein?

    Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, …

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  • E, então, Prefiro Não Dizer, ai, ai? Um pai rejeitar o genro pelo nível social deste último é o que para você? Semiótica? Não disse que o Reparação é um compêndio de Max Weber, mas, leia bem, contém crítica social? Consegue entender a graduação?

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  • Henrique,

    “eu daria … a vitória ao outro livro, que parece ser igualmente ruim, mas pelo menos tem uma proposta mais… desamebizadora”

    Como se diz, o inferno tá cheio de gente q teve boas intenções. Acho q se “a arte tem que superar o nível puramente estético”, talvez seja preciso primeiro passar pelo estético, mesmo q niilista. A estética, pra mim, é fortuita: ela é uma descoberta, não uma invenção. As intenções extra-estéticas têm q esperar a descoberta pra só então falar através dela.

    Isso tá meio papo de minhoca, mas acho suficiente pra mostrar q uma obra aparentemente vazia de conteúdo tbm pode ter um valor humanizante, embora mínimo.

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  • Dr Plausível,

    O Sérgio falou sobre as boas intenções na própria resenha. Eu admito que a minha postura é idiossincrática, baseada apenas nos trechos dos livros que eu li e que não achei grande coisa. Foi só por isso que tive que apelar pra intenção: um último critério de escolha, só porque algum precisaria haver.

    No mais, acho que na verdade nós não discordamos: eu não disse que a arte pode prescindir do estético (o que seria uma contradição), o que eu disse foi que não dá pra ficar só nisso, na arte pela arte que no fim reduz-se a nada. E valor humanizante, se a gente forçar a barra, qualquer produção humana pode ter, simplesmente por ter sido produzida pelo homem e, assim,dizer respeito a ele.

    Acho que o assunto acabou, não?

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  • [O comentário #14919 será citado aqui]

    Sei… Reparação é um soco na boca do estômago, né? Entendo. Tipo assim um Paulo Lins, mas sem os culhões do escritor brasileiro.

    Pra vc Ishiguro também faz crítica social. E Amis, claro! Sem falar em Shakespeare, aquele proto-Marx.

    Vai fundo, RS: você tem futuro no mundo acadêmico!

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  • Prefiro Não Dizer: o Reparação é um “soco na boca do estômago” é frase de maniqueísta, de quem não consegue enxergar senão em extremos. Vou repetir (vamos ver se desta vez vai): Reparação contém crítica social, além de muitaaaas outras coisas extra literárias, de valor humanizante, para repetir a feliz definição do Plausível.
    O que é senso comum, o que estamos todos nós de acordo é que o romance de Cuenca está inextricavelmente formulado sobre a idéia da linguagem. O problema surge porque o Sérgio considerou tal investidura bacana desculpando o formalismo oco pela irrelevância da arte. Ora, se nem o Sérgio Rodrigues consegue justificar o valor – e mesmo a possibilidade – da irrelevância da arte, como podemos creditar o sucesso da empreitada com este argumento? O que não podemos fazer é ficar repetindo as idéias dos medalhões que criam o pensamento dominante a respeito da arte sem que se entenda a fundo o que eles dizem, e, ao fim, cristalizarmos nossas concepções em cima de dogmas. Se o argumento do Sérgio (supostamente o do autor), “a arte não vale para nada”, tivesse sustentação, tivesse lógica, tivesse amparo estético, a resenha seria satisfatória. Não que ela seja ruim, repito, é boa, toca em pontos, ao meu ver, muito procedentes. Ocorre que se o próprio resenhista não consegue justificar a irrelevância da arte, fica provado que é um argumento frágil e, com isto, o livro é construído sob terra movediça e, portanto, desmontável, infirme, superficial e sem valor estético. Veja, viu Cuenca, que eu, até agora, só estou criticando a fragilidade argumentativa do resenhista.

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  • Henrique,
    “valor humanizante, se a gente forçar a barra, qualquer produção humana pode ter, simplesmente por ter sido produzida pelo homem e, assim,dizer respeito a ele”

    É vero.

    Talvez nem precise “forçar a barra”.

    “… o mundo é tão variado
    Tanta exclamação que às vezes
    Não se nota que é constante”

    [Mulheres Negras]

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  • Rodrigo Sampaio: “fragilidade argumentativa” é muito bom. Se você acha mesmo que tem cabimento dizer um troço desses, sem ter sequer (assim me parece, desculpe se eu estiver errado) lido o livro do Cuenca, talvez seja melhor encerrar essa discussão. De qualquer maneira, ela está mal parada demais.

    Vejamos: você tem razão num ponto, Reparação é realmente um livro superior a O dia Mastroianni. Tão superior que a simples menção dos dois na mesma frase dá vertigem. Acontece que a disputa, se bem me lembro, era com Cão de cabelo. E este é um livro que não fica em pé. O outro não é nenhum McEwan, mas fica em pé. Simples assim.

    Esqueça essa conversa de utilidade/inutilidade por um minuto, se puder. Eu poderia lhe perguntar que utilidade tem Campos de Carvalho, por exemplo, mas não vem ao caso. A questão simplesmente não tem o peso que você lhe atribui em minha resenha. Se já disse isso, me permita repetir: não é preciso entrar nesse mérito porque a disputa se resolve muito, mas muito antes.

    Vou invocar uma autoridade aqui, mas não me ocorre nada melhor que uma frase do Nabokov para esclarecer esse ponto: “Estilo e estrutura são a essência da literatura. Idéias grandiosas são besteira”. O dia Mastroianni é um livro que vai nessa linha (embora também não chegue aos pés de Lolita, veja bem).

    Nabokov exagera um pouco, talvez, mas acho que o exagero cumpre a função de martelar uma idéia fundamental que nem de longe é tão compreendida quanto deveria: literatura é texto, forma, antes de ser qualquer outra coisa. E se não prestar como texto, forma, pode conter todos os bons sentimentos do mundo que não será absolutamente nada.

    Um abraço.

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  • Não sei se o link vai aqui, mas vale a leitura (sobre a utilidade, ou não, da arte):

    http://www.sobresites.com/alexcastro/artigos/inutilidade.htm

    Sim, é do juiz que apitou o jogo em que ninguém quis comentar mais nada além do café no Starbucks. Mas aqui parece que o debate está num nível melhor.

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  • Não se pode argumentar a partir da necessidade da arte. A necessidade da arte, se é que cabe pôr isso em questão quando se trata do reino da liberdade, é sua falta de necessidade.

    O “para onde” é uma forma camuflada de controle social.

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  • Sérgio, fragilidade argumentativa é de fato um horror. Mas não estamos aqui para burilar o estilo, mas o pensamento. Agora, por que você acha que esta discussão está mal parada demais? Acaso, você já chegou à conclusão que devemos parar? Já foi o bastante? Interessante que eu pensei que você tivesse terminado… Eu lhe fiz um pergunta simples e você não respondeu: não é uma crítica social interessante e enriquecedora a que fez McEwen, quando desenvolve sobre a atitude dos pais de Briony? Não engrandece o romance? Portanto, imaginei que não sabia explicar o “a arte não serve para nada”, mas agora vejo que sabe – com frases de efeito. Como ninguém que defende a irrelevância da arte nesta Copa, inclusive o Prefiro Não Dizer e (para nossa glória) o Adorno, como ninguém se pronunciou em termos práticos, diretos, dentro de exemplos no romance, eu refaço a pergunta com outro livro. Acha que não é idéia grandiosa a do romance Crime e Castigo? A idéia do homem que mata e em seguida se vê assombrado por sua consciência? Acha que a vida de Raskolnikov (não sei se é assim que se escreve) não nos inspira sentimentos de essencialidade e grandeza, que transcendem a beleza estética? Acha que estas razões extra estéticas de Dostoievski são besteira, como disse o caçador de borboletas? Eu não posso esquecer a questão da utilidade/inutilidade da arte simplesmente porque é o único ponto que estou em desacordo com você. E quando eu concordo, eu não discuto. De resto, a questão, como disse, se resolve muito antes. Porém, ao meu modesto ver (de quem está aqui para aprender) você elogia o autor sobre algo que é um erro vertebral na obra de Cuenca: toda ela é baseada nessa propositura: a arte é inútil, senão, seria formalismo oco. Deveras, literatura é texto, forma, antes de ser qualquer outra coisa. Mas este depois, este qualquer outra coisa é que a “recheia” para que seja absolutamente tudo. Abraço.

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  • Rodrigo: me parece que você está querendo “ganhar” a discussão. Melhor concordar em discordar, nesse caso.

    Veja que o Sérgio não escolheu o livro do Cuenca por que ele preconiza que “a arte é inútil”, mas porque ele se sustenta, como literatura, muito melhor do que o outro livro. Já que a literatura é forma, estilo, antes de ser qualquer outra coisa, melhor um livro que pelo menos atinge esta forma do que outro que nem isso. A temática em si não chega a importar, nesse caso, pois o problema é bem mais básico. (Isso é apenas um resumo do que está escrito no comentário do Sérgio).

    Mas você entrou nesse perrengue da inutilidade ou não da arte e não quer largar, aparentemente.

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  • Boa tentativa, Rodrigo, mas não dá para fazer esse tipo de polêmica boba a partir do texo do Sérgio.

    Vou preferir citar o próprio Cuenca, cuja participação no Paiol Literário acabou de sair:
    http://rascunho.rpc.com.br/index.php?ras=secao.php&modelo=2&secao=45&lista=0&subsecao=0&ordem=2782

    “É como se eu fosse uma pessoa numa caverna muito escura, usando uma lanterna. Para mim, essa lanterna, que me faz ver qual será meu próximo passo, é a linguagem. Essa luz é a linguagem. A lanterna é a literatura que tento produzir.”

    !!! Hã….??? E as pilhas, o que são?

    “Se deixaria um filho de 10 anos de idade ler Rubem Fonseca? Acho que não.”

    !!! Aos dez anos, um moleque já viu tanta coisa na internet que Fonseca é fichinha.

    “Eu contratava meus amigos como estagiários. Tinha uma vida muito boêmia e chegava todos os dias à uma da tarde, porque meus amigos já tinham adiantado todo o meu trabalho.”

    !!! Assim se faz um país chamado Brasil.

    “Seria importante que existisse uma revista Caras de escritores. Isso ia ajudar a vender livros.”

    “Se eu realmente tivesse talento nesta vida, eu seria poeta. Mas não tenho, e escrevo prosa.”

    !!! Cansei, desculpem….

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  • Rodrigo: sim, claro que é possível discutir o “depois” da forma, desde que haja forma. É uma discussão infinita e, ao contrário do que você imagina, sem vencidos nem vencedores. Mas interessante assim mesmo. Em outro espaço que não o desta breve resenha “esportiva”, não nego que uma discussão desse tipo pudesse ser levada sobre o livro do Cuenca, que ao seu modo lúdico toca justamente nesses pontos. Mas primeiro você teria que lê-lo, é claro. Sem isso, o básico, me parece que chegamos mesmo ao fim da linha.

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  • Eu não quero ganhar discussão, Sérgio, quero aprender. Se não quer ensinar, assunto encerrado. Mas acompanhe este raciocínio já expresso: o que é senso comum, o que estamos todos nós de acordo é que o romance de Cuenca está inextricavelmente formulado sobre a idéia da linguagem. O problema surge, na resenha de Sérgio, com o fato de que este considerou tal investidura bacana desculpando o formalismo oco pela irrelevância da arte. Ora, se nem o Sérgio Rodrigues consegue justificar o valor – e mesmo a possibilidade – da irrelevância da arte, como podemos acreditar no sucesso da empreitada com este argumento? A considerar apenas a resenha, a obra é construída sob terra movediça e, portanto, infirme e superficial. Veja, Sérgio, que não há necessidade de ler o livro (de fato, não li), para conseguirmos perceber a contradição intrínseca ao seu texto. Veja que teria sido algo de passagem se você não tergiversasse tanto e me explicasse nos casos práticos que lhe expus. Teríamos acabado a discussão em dois comentários. Mas você pulou como rã em pântano e não respondeu nem ao exemplo de Dostoievski nem ao de McEwen. Das duas, uma: ou você realmente não tem base teórica consolidada o bastante para contestar o pensamento estético que é, de fato, como sabemos, convergente em direção a irrelevância da arte; ou você não quer se dignar a discutir este ponto que me parece determinante em arte, por achar que não estamos à altura do diálogo. Uma discussão infinita, argumenta. Não estamos num dos poucos fóruns de discussão literária disponíveis no país? Uma pena… Ainda maior para quem o admira. Antes de acabar, deixo aqui registrada a todos aqueles que me lêem o quanto é frágil a argumentação destes doutos de literatura (não me refiro ao Sérgio, que de fato é profundo e culto). Mas mesmo intelectuais de gabarito como ele se deixam levar pelo pensamento dominante dos papas da literatura, os tais doutos, sem maiores considerações críticas (em alguns pontos, não todos). Abraço a todos.

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  • “Tá: e é plausível que um texto que parte de um ¨niilismo de almanaque¨ e que descreve as perambulações de dois dândis que desacreditam na realidade possa levar alguém a ¨desamebar-se¨?”

    Claro que é, ora. Como saber o que um texto pode fazer com alguém? Quem é alguém?

    “Eu compartilho desse ponto de vista (de que a arte tem que superar o nível puramente estético), e é por isso que eu daria (…) a vitória ao outro livro, que parece ser igualmente ruim, mas pelo menos tem uma proposta mais… desamebizadora.”

    Se proposta agora passar a valer alguma coisa… é o horror final, né? O chão vai se abrir sob nossos pés.

    um abraço.

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  • Rodrigo, você parece sincero em sua paixão pela literatura e repete que quer aprender. Tem certeza que é isso que quer? Porque se for, um começo necessário é aprender a ler, interpretar um texto. Julgá-lo pelo que está expresso ali e, então, formular questões pertinentes. Seguir o desdobramento lógico das idéias. E ouvir, isso é fundamental: não gritar uma resposta antes de ouvir e ponderar sobre o argumento do outro.

    Lamento, mas a “inutilidade da arte” que se lhe entalou na garganta não é uma questão aqui. Eu passo muito longe de “justificar” o livro do Cuenca com esse “argumento”. Apenas digo que ele, em seu ludismo, brinca com a idéia, tira dela efeitos interessantes, divertidos. Aliás, o simples prazer que a narrativa dá já bastaria para atestar sua “utilidade”, à la Barthes – eis o paradoxo da última frase da resenha, que você obviamente não captou.

    E em nossa troca de mensagens, ao longo da qual tentei ser o mais paciente possível, você se mostrou um péssimo ouvinte. Talvez por ser muito jovem – espero, sinceramente, que seja o caso. Ou porque a adrenalina da discussão é maior que tudo, essa praga internética. Essas são as hipóteses mais benevolentes. Vai saber.

    Mas como você insiste em não encerrar a conversa a tempo, apesar de minha proposta conciliadora, vou lhe dizer por que McEwan (uma corajosa “denúncia social” no pré-Guerra?) e Dostoievski (um belo exemplo de arte maior feita a despeito das crenças lamentáveis do autor) ficaram sem resposta. Por educação. Porque a única resposta a questões tão pouco pertinentes teria que ser rude, e eu não queria ser rude.

    Bom, agora imagino que tenha sido, mas paciência. E só agora me ocorre que talvez toda essa descomunicação tenha uma explicação bem pedestre, bem idiota: você é daquela torcida organizada “Cuenca Nunca Mais!” e o resto é só pretexto. Não sei se é, mas até que seria um álibi razoável.

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  • Resenha lapidar, Sérgio, que dignifica os livros, o certame e, claro, honra o árbitro – a comparação com o Collina foi, creio, apropriada, e eu a tomaria como um elogio e não apenas como uma remissão à semelhança à acapilaridade dos dois. ;)

    Acho muito bacana que, mesmo tendo suas queixas com relação a isso e aquilo da Copa, como vc comentou em seu site, vc compareceu fazendo o que sabe e fazendo como sabe. Sua atitude foi o oposto da manifestação patética do Nelson de Oliveira, pra não falar no primadonnismo do Jatobá. Ambos fizeram um papelão.

    Agora, só pelo sabor do debate, eu queria saber um pouco mais sobre como vc sustenta esse textualismo, essa coisa a la New Criticism que acho que li em seu comentário, em particular na remissão a Nabokov. Eu tenho uma opinião geral de que o material literário tem essa coisa do mecanismo, e uso tb o juízo “funciona/ não funciona”. Mas a criteriologia de funcionalidade é, claro, bem variável: há mil funções que podem ser desempenhadas por um trabalho de literatura. Nem sempre o melhor trabalho é o multifuncional. Às vezes é bom por ser arte pela arte e invenção verbal e jogo. Outras vezes será bom por ter alguma contribuição ao projeto do “Esclarecimento”. Enfim: há mil e uma possibilidades.

    Em muitas produções contemporâneas, às vezes acho que o texto pode não ser embasbacante, mas que há algo da ordem da invenção operando em outro lugar que poderia, talvez deveria tb ser valorizado, pois tb demanda engenho e arte. A maneira como o autor constrói sua fisionomia pública, p ex, e os textos que ele produz em entrevistas e intervenções e debates são tb contabilizáveis como obra, e podem alterar nosso esquema de percepção de um texto que, a priori, julgaríamos pobre. Há, p ex, dois autores brasileiros recentes que julgo pouco interessantes como ficcionistas, mas muito interessantes como construtores do cenário literário contemporâneo: nesse lugar, extratextual, são bons artistas, fazem boa “literatura”.

    Essa posição me agrada porque penso que talvez o objeto literário esteja sofrendo modificações e influxos novos e, como comentador de literatura, penso que talvez seja salutar para mim me manter aberto a essas possibilidades na hora de ajuizar. Isso, creio, seria melhor que manter uma concepção de valor literário dada e imexível, como se a coisa fosse um fato da natureza ou como se alguém tivesse tido alguma vez critérios transhistóricos de juízo.

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  • Sérgio, dizer o que pensa, para você, é ser rude? Nosso diálogo foi assim traumático? Olhe, deixou claro, quando diz que não queria ser rude comigo (e acabou sendo) que eu estou importunando. Se, como diz, está me poupando, posso imaginar que seja porque não deseja expor a minha ignorância em público. Bom, quando se quer aprender não há outro remédio, que não seja expor nossa ignorância, não acha? Confesso meu limite de, por mais que eu queira, não conseguir entender a tal da irrelevância da arte, daí talvez eu tenha sido importunamente insistente. Você fala em adrenalina das discussões. Deus, eu o deixei alterado? Com nosso curto diálogo? Olha, meu amigo, a última coisa que eu quero aqui é mostrar a fragilidade intelectual de quem quer que seja (talvez de um ponto de vista). Se eu quisesse fazer isto, não seria com um cara da sua envergadura. E achar que eu pretenda atacar um pobre romancista? E atacar em grupo ainda, o tal do Cuenca??? Mas o que que é isto, Sérgio? Que baixeza mais covarde seria esta? Os autores brasileiros são, somos, uns pobres coitados e vamos ajudar a enfiá-los ainda mais no ostracismo e na dificuldade financeira? E você ainda acaba dizendo que seria um bom álibi??? Cara, me desculpa, devo ter sido muito infeliz em minhas considerações. Paro por aqui, desejando-lhe que continue em sua carreira com muito sucesso. Forte abraço.

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  • Então, pessoal, eu li os dois livros, entre outros da Copa, e, apesar de incomodado com a vitória de O dia Mastroiani sobre Toda Terça (a culpa não foi do Cuenca), devo concordar com o árbitro quanto ao resultado desta disputa.

    O que não quer dizer, contudo, que considero O dia Mastroiani um bom livro. Para a falar a verdade, não gostei dele, principalmente dessa história de ficar se questionando ao longo do enredo.

    A resenha, aliás, me lembra uma aula em que o professor comparava Madame Bovary a Dom Casmurro para dizer que o Machado de Assis era extremamente limitado. O professor provocador caía (por querer, ainda desconfio) na armadilha da literatura comparada. Quer dizer, o pior de dois livros não é necessariamente ruim. Aqui, eu digo que o melhor dos dois não é bom, corroborando a impressão de alguns comentaristas que não tiveram contato com as obras.

    Mas reconheço que o Cuenca é um escritor. Talvez Sta. Cecília (ainda?) não seja. Que ele aproveite as críticas para o próximo livro. Abraços!

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  • Julia,

    “Claro que é, ora. Como saber o que um texto pode fazer com alguém? Quem é alguém?”

    Isso é um relativismo baratíssimo. Uma analogia mais concreta: então dá no mesmo colocar no mesmo saco Chico Buarque e MC Catra porque não se pode saber o que suas músicas podem fazer com alguém, é por aí? (A propósito: quem é alguém? Quem é ninguém? Quem sou eu? Quem é você???)

    “Se proposta agora passar a valer alguma coisa… é o horror final, né? O chão vai se abrir sob nossos pés.”

    Então comece a pular, porque já se abriu. Não sei se você leu o que eu escrevi (parece que não), mas isso aí foi só porque não parecia haver nenhum outro critério possível. Pra não apelar pra moedinha, parti pro tapinha nas costas. É isso aí, mermão, valeu a intenção.

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  • Henrique,
    “Isso é um relativismo baratíssimo.”

    Não é relativismo; é pluralismo: o reconhecimento de q a humanidade é muito mais complexa do q hierarquizável.

    Humanizar é pluralizar.

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  • Antonio Marcos: obrigado pela gentileza. Só lembro que minhas críticas à Copa foram feitas primeiro aqui, e depois repetidas em meu blog. Não seria leal fazer de outra forma, como não seria leal deixar de entregar um texto decente depois de me comprometer com o Lucas e todos vocês.

    Concordo que o achado do Collina é feliz: funciona como elogio e melhor ainda como zoação. Quer dizer, é uma máquina azeitada que produz aquilo que foi fabricada para produzir. Você tem razão, sempre achei útil a metáfora do texto como máquina de produzir sentidos. Desde que a gente seja esperto o suficiente para evitar qualquer traço de reducionismo: os tipos de produto e os modos de produzi-lo vão ser sempre sujeitos a variações ilimitadas, mas o par funciona/não funciona (em relação à intenção de cada texto), eu diria, é uma constante.

    Uma constante fundamental mas insuficiente, isso também me parece claro. Funcionar é só o preço do ingresso para entrar no jogo. Depois é que são elas. De que forma aquela máquina e seu produto se relaciona com o ambiente – cultura, sociedade, outros livros, história, tanto a coletiva quanto minha própria história pessoal como leitor? Aí tudo começa a ficar mais impressionista. Talvez seja nessa hora que, como diz James Wood, a crítica vire um exercício tão literário quanto a própria literatura. O que para mim, que sou escritor e não crítico, está de bom tamanho.

    Me parece que vamos ter uma boa oportunidade de conversar sobre essas coisas na final da Copa, caso, como se espera, “O filho eterno” elimine o “Rato”. Tanto o livro de Cuenca quanto o de Tezza me parecem funcionar mecanicamente, mas são engenhos tão diferentes em envergadura, intenção e voltagem que acabam sendo o melhor argumento contra quem acha que a metáfora da máquina basta.

    Agora, esse negócio de entrevistas, imagem e intervenções públicas não me interessa não. Literatura para mim é palavra no papel – ou na tela. Acho que o que fica em torno pode ser matéria de interesse cultural, antropológico, mas literatura não é. Se você quiser explicar melhor esse ponto de vista, terá minha intrigadíssima atenção.

    Um abraço.

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  • Dr Plausível,

    Eu discordo. É sim relativista eu dizer que todas as obras literárias têm o mesmo efeito humanizante (algo implícito no que disse a Julia) com o argumento de que não se pode prever como cada pessoa vai ler um livro. Admitir que um livro suporta múltiplas leituras, o que é essencial na literatura e (aí sim) se baseia numa perspectiva pluralista, não justifica um vale-tudo interpretativo, muito menos uma nivelação de todos os livros a partir disso.

    Aliás, o que está na base dessa discussão toda em torno do valor humanizante das obras é justamente a idéia contrária. Afinal de contas, seguindo esse raciocínio eu poderia dizer que aquela frase “Fumar faz mal à saúde” é tão humanizante quanto um livro do Dostoiévski (sempre ele), afinal de contas não se pode saber o efeito que tem sobre o leitor etc. etc. etc.

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  • “Claro que é, ora. Como saber o que um texto pode fazer com alguém? Quem é alguém?” Olhe, Júlia, para mim, temos que ver o que um texto pode fazer para alguéns. Acho que aferir valores de um texto depende, entre outras coisas, do quanto mexeu com as pessoas e em quanto tempo. Não podemos negar que um texto dramático de Sófocles ou Édipo têm valor (entre outros motivos) porque atravessou milênios e até hoje nos emociona, intriga, nos humaniza etc. Abraço.

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  • “É sim relativista eu dizer que todas as obras literárias têm o mesmo efeito humanizante (algo implícito no que disse a Julia)”

    Não, isto nao está implícito no que eu disse em absoluto. Dizer que todas as obras têm o mesmo efeito humanizante equivale, na minha opinião, a dizer exatamento o mesmo que você disse antes: que uma obra determinada nao pode ter efeito humanizante sobre pessoa alguma. Como raciocínio é o mesmo e nao é o meu raciocínio.

    Nos anos 80, eu lia Ana Cristina César e chorava; meu namorado, que preferia Paulo leminski, caía na gargalhada, sem enteder o que é que podia me emocionar naquele papo sobre xicrinhas de chá. Como é que isso pode emocionar alguém? ele dizia. Acho que foi isso que eu quis dizer.

    abraços, bom dia.

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  • Julia,

    Eu não disse que uma obra determinada não pode ter efeito humanizante sobre pessoa alguma. O que eu disse foi que é menos plausível que certas obras tenham esse efeito do que outras, a partir daquilo que propõem, raciocínio que apliquei ao livro do Cuenca. Cá entre nós, eu suspeito que isso vá ser bastante relevante na final, caso seja mesmo (como espero) entre OdM e o O Filho Eterno. Acho que, de várias formas, o lado “humano” (cada juiz, é claro, vai usar o termo que considerar mais apropriado) de OFE vai pesar de forma esmagadora sobre a afetada futilidade de OdM. Além, é claro, dos critérios técnicos, formais etc. etc. etc.

    Mas numa coisa a gente concorda: eu também acho Ana C. melhor do que Leminski.

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  • Henrique, Júlia, Doutor…

    Não sei se vocês estão de acordo comigo, mas pelo tanto que conversamos sobre o valor humanizante de uma obra de arte, pressentimos todos que este foi um vetor determinante na presente discussão. Os que leram o livro de Cuenca dizem em coro que a obra se sustenta na questão “forma versus conteúdo”, porque ele ignora deliberadamente toda a apreensão conteudística, para relevar apenas a linguagem, colocando como personagens dois dândis descompromissados com tudo e com todos, carregando o texto de frases de estilo, de espírito, ou humor (elementos iminentemente formais). O autor corrobora a impressão quando diz que “apenas segue a linguagem com uma lanterna na mão” ou algo parecido. O Henrique parece apontar o ponto quando profere a feliz frase “a arte tem que superar o nível puramente estético”. E o Doutor Plausível, ao comentar com inteligência : A estética é uma descoberta, não uma invenção. As intenções extra estéticas têm que esperar a descoberta para só então falar através dela. Falamos do esteticismo exacerbado a troco de nada? Evidente que não. Falamos porque todos pressentimos que o ODM só funciona se o leitor acreditar que o formalismo prescinde qualquer transcendência humana. Se a pessoa não acreditar, não gostará do livro, achará a obra pobre, superficial, de um formalismo oco. Daí tal discussão se mostrar essencial para a apreciação do valor do presente livro. Já é discussão superior, mais interessante, mais informativa e transcendente que a discussão a respeito da superioridade do livro de Cuenca sobre o pobre livro derrotado, ponto pacificado entre todos os críticos, visto a evidência da fraqueza deste em face do primeiro. Não é assim?

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  • Henrique,

    Pra mim, a frase “fumar faz mal à saúde” é, sim, tão humanizante quanto um livro de Dostoiévski. E essa opinião tbm é pluralista, não relativista. Vc tá pensando em grau de humanizância, e digo eu q o grau é o mesmo: não menos pq a frase subentende uma miríade de inferências inquestionadas. A humanizância de uma e do outro não é uma questão de grau, mas de momento. Mostre a uma criança de dez anos q fumar mal à saúde e vc a ajuda a sobreviver bem até os trinta, qdo Dostoiévski vai começar a fazer sentido pra ela. Mostre Dostoiévski a uma criança não-fumante de dez anos e é provável q ela se entregue às drogas ali mesmo. O mundo é plural: há pessoas de dez e de trinta; cada um é um “alguém” da Júlia.

    Até aceito q uma percepção plena de Dostoiévski teja mais próxima do übermench do q a percepção plena daquela frase – q um perceptor de Dosto teja mais humanizado ou desamebizado do q um perceptor da frase. O primeiro inclue o segundo e não o oposto. Mas é justamente isso o q torna “fumar faz mal à saúde” mais básica, e de certa maneira mais importante, do q toda a obra de Dosto.

    No caso do embate aqui, acho q o S.Rodrigues fez bem ao entender q, em se tratando de livros, acertar a forma é mais importante do q “acertar” a intenção. Em qqer arte, o conteúdo inclue a forma; então esta deve ser mais fundamental do q aquele.

    Esse meu papo de minhoca dá vontade de ir pescar, ¿não dá não?

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  • Dr Plausível,

    Estamos falando de coisas diferentes. Seu referencial é ético, e por isso faz sentido dizer que a frase Fumar… está no mesmo nível que o Dostoiéski; mas eu estou falando num sentido ético-estético, e aí isso me parece insustentável. Seu exemplo fez sentido porque eu, por acaso, usei uma frase sem qualquer valor estético mas com valor ético, mas eu poderiar usa qualquer outra (por exemplo, aquele slogan: A gente se encontra no Bob’s) sem esse valor, e aí a coisa seria diferente.

    O que eu continuo achando inválido é misturar essas coisas e jogar puramente o conceito ético-pluralista pro campo estético. Aí a gente cai no relativismo de dizer que dá tudo no mesmo porque é impossível prever o efeito da obra sobre cada um dos leitores. Perde-se todo o fundamento objetivo e, aliás, a própria crítica literária perde o sentido, já que todos os juízos tornam-se irrefutáveis desde o princípio. Aí eu poderia dizer que A gente se encontra no Bob’s tem o mesmo valor do que Crime e castigo porque as duas coisas me afetaram do mesmo modo (e eu, afinal de contas, sou alguém). Onde tá o valor objetivo disso?

    Tem uma última coisa em que tenho sido mal entendido. Eu nunca discordei nem nunca discordaria disso: “acertar a forma é mais importante do q “acertar” a intenção”. Repetindo o que eu disse antes, eu usei a intenção como critério a partir do pressuposto de que, em ambos os casos, houve um fracasso formal completo (claro que isso é coisa minha que não está na resenha do Sérgio). Por isso eu disse antes que era mais ou menos como usar a moedinha: não penso que isso realmente tenha validade.

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  • Rodrigo Sampaio,

    É por aí.

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  • “Chato é aquele que reconhece estar em um assunto chato mas que não o abandona de jeito nenhum.”

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  • Os caras já pararam de falar há dois dias, JLM! Caramba, sempre tem o mais chato para instigar a discussão…

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  • Henrique,
    “A gente se encontra no Bob’s.”

    ¡Artilharia pesada!

    Acho mesmo q tenho um referencial voltado mais pro ético q pro estético. Não entendo muito bem qdo se faz crítica literária como se importantes em ketchupe fossem o corante e o acidulante; são importantes em ketchupe ruim. Mas mesmo vendo mais o ético, não vejo a humanização do Homo sapiens como uma estrada em direção à ética absoluta ou o casamento perfeito entre ética e estética.

    O eslôgã aí pode não ser muito humanizante, mas com certeza é resultado da interface homem|natureza, isto é, daquilo q é capaz de produzir o conhecimento prático da natureza fortuito ao ser humano. Note o q está subjacente à percepção do eslôgã: a invenção do sanduíche, a popularização das refeições pagas, a indústria da comida rápida, a valorização da iniciativa privada (Who IS Bob?), a globalização do capitalismo euaense, o imperialismo cultural e gastronômico, a racionalização da propaganda, o cinismo em tentar vender um fastefude como ponto de encontro, a embromação do apelo jovem no tom da frase. Não é possível uma percepção plena desse eslôgã sem pelo menos esses elementos.

    Note duas outras coisas:
    • a maior parte desses elementos são posteriores a Dostoiévski, e seriam incompreensíveis pra ele;
    • todos eles são de alguma forma resultado da humanização do Homo sapiens, ou talvez apenas um estágio nela.

    Pode-se argumentar q esses elementos são desumanizantes naquilo q têm de submeter-se às duras realidades da natureza (a comida q estraga, o brilho q seduz, o poder q alicia &c), mas essas realidades são descobertas humanas, só possíveis através da humanização. Teu ideal de humanização (implícito em valorizar o Fiódor acima do Bob) é só isso: um ideal; não é realista. O crescimento econômico é impossível sem a produção incansável de bebês pobres (veja no linque); a humanização e a pluralização são impossíveis sem a produção incansável de tranqueiras tipo esse eslôgã.

    O criador do eslôgã quase certamente não seria capaz de *escrever* algo como Crime e castigo, e (talvez) vice-versa. Acho q a decisão do S.Rodrigues foi por aí: é fácil escrever algo como CdC; já ODM, apesar de (pra mim) bobo, despropositado e juvenil, não é tão corriqueiro; portanto este contribui [um tiquinho] mais prà pluralização.

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  • JLM,
    Falou cedo demais. :•)

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  • Não vejo problema na presente discussão. O problema é o cara que não gosta de diálogo, criticar, sabendo que fomenta o que diz não gostar. Se não gosta do papo, vá ler um livro, ora essa…

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  • [O comentário #15084 será citado aqui]

    kkkk

    Nervosinha ela, não? E depois me acusam de não ter senso de humor… tsc tsc tsc.

    1 abraço

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  • Eu não defendo nenhum ideal de humanização no sentido estabelecido em todas as suas mensagens, Dr Plausível, e na verdade até concordo com sua perspectiva. A única coisa diferente é que eu estou sempre falando a partir de um referencial ético-estético, acrescentando esse segundo nível ao ético, e é aí que fica impossível comparar as duas coisas (o slogan e o Dostoiévski). Agora, no tocante a ambos serem igualmente humanizantes no sentido de serem produto da humanidade, por isso dizerem muito sobre ela, etc. etc. etc. estou de acordo.

    Aliás, eu ontem li ODM e posso dizer que não mudaria nada do que eu disse até aqui sobre ele. Eu concordo com o que alguém disse nesses comentários: ao contrário do que muitos dizem por aí, Cuenca é um escritor. Ele sabe o que faz, tem uma proposta literária. Mas esse livro (não li os outros dele) me pareceu muito ruim, formalmente inclusive. É um livro redondo, como já se disse aqui, mas justamente porque cede a um esteticismo gratuito, onde tudo é resolvido da maneira mais fácil. Então, baseado no que já foi comentado sobre o CdC (esse não li ainda, falo baseado nas resenhas), eu mantenho meu juízo sobre ambos fracassarem esteticamente, ainda que por motivos diferentes. CdC não chega onde queria. ODM chega, mas sua proposta é tão fraquinha que pra mim não marca gol nenhum.

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  • O dia Mastroianni é ruim mesmo. O Cuenca passa o dia inteiro fazendo fofoca e política, então não lê e não tem como evoluir desse jeito.
    É de se estranhar mesmo que com Bernardo Carvalho na jogada, O dia Mastroianni tenha andado mesmo.
    Passem bem e leiam coisas boas.

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  • Chamar de chato à vontade e sem saber se os outros, que acompanham, estão gostando do diálogo. Assim, são os intelectuais, eles são a medida do que deve ou não ser discutido. Depois, é só chamar suas críticas limitadoras de senso de humor. À la Jefferson… No alto de sua cultura, cara, pense no velho ditado japonês (prá você, filósofo das frases): “Aquele que pergunta pode ser um tolo por 5 minutos. Aquele que deixa de perguntar, será um tolo pro resto da vida”. Isto é um forum de discussão. O papo não tá legal, só sair. Se tem neguinho falando, é porque para eles tá bom, uai.

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  • [O comentário #15121 será citado aqui]

    A minha brincadeira foi com o Dr. Plausível (q pelo visto entendeu) pois foi ele quem comentou q o papo tava chato, e continuou nele. Dae aproveitei a deixa e brinquei. Com ele. Mas se a carapuça serviu em você – sabe-se lá pq, já q nunca direcionei nenhuma palavra ao sr. – o problema não está em mim.

    E quem te nomeou o Bush da CLB? Se o fórum de discussão é aberto, eu saio SE e QDO eu quiser e chamo de chato QUEM e QDO eu quiser, chato.

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  • JLM
    Ninguém está pedindo para cê sair ou ficar, fazer isto ou aquilo. É livre. O que é estranho é, ficando, ficar criticando. Coisa de chato, não? Mas até ser chato é um direito teu.

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  • [O comentário #15168 será citado aqui]

    Tá, então eu posso ficar, mas só se caladinho? Não posso criticar ou brincar pq o sr. não gostou? E se alguém não gostar de um comentário seu, vc tb vai ficar calado e sair? Os direitos não deveriam ser iguais para falar, mesmo as maiores besteiras ou arbitrariedades, ou até para as proibições?

    Lembra q oq pode não valer nada pra vc, talvez valha para outros. E vc pode pensar q oq vc diz vale mto para todos, qdo na verdade não.

    Então, resigne-se em aguentar os meus comentários, assim como mtos o fazem com os seus, e seja feliz. Mas pedir pra sair ou calar tá além da tua possibilidade.

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  • [O comentário #15169 será citado aqui]

    Os dois são chatos.
    Eu sou chato.
    O Cuenca é chato.
    Somos todos chatos.
    O mundo é chato – bem ao contrário do que diz o Caetano, chato di tutti chati.

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  • Desculpem-me os vários amadores, mas o cara mais chato aqui sou eu. Desafios a meu cargo de chato-mór só serão aceitas em 11 vias, em caracteres góticos e com a *minha* ortografia e pontuação.

    Henrique,
    É isso aí. Como vc disse concordamos mais do q não. Mas, vc sabe, palavras, palavras…

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  • JLM
    Tá, perfeito. Sejamos todos chatos. Contanto que a gente continue a falar e a se ouvir uns aos outros. Beleza. Ok, Jefferson, se é para apontar de chato apenas para orientar uma conversa, tá legal, se é para continuar o diálogo, tá valendo. Acho que a galera tem que entender isto, que discussão é quase sempre chata. Nunca se chega a um acordo sem uma discussão chata. Num é que nem filme, que os caras fazem cortes numa ilha de edição, e as frases são revistas e refundidas por mil roteiristas. Mas eu fico puto quando vem um neguinho, faz um pergunta com educação e procedente e vem outro e o ignora (ou chamando de chato ou nem respondendo). Vi que não é seu caso, Jeff, você é um cara de diálogo. Legal. Abraço a todos.

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  • bobalhão!

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