Copa de Literatura Brasileira

Semifinais

Na multidão jogo 13 O filho eterno

Jurado: Antonio Marcos Pereira

Em torno de qualquer objeto literário que encontramos há uma rede de crenças, desejos, opiniões e quejandos que distribui diferencialmente nossa atenção, colocando no centro do palco aquilo que nos confirma, confinando à marginalidade aquilo que nos antagoniza e — salvo casos de rematada má-fé — fazendo o melhor possível para lidar com o objeto anômalo, que põe em xeque justamente nossas crenças e desejos mais ordinários, nossa costumeira fisionomia moral, nossas certezas professadas em mesa de bar, conversas domésticas, textos jornalísticos e acadêmicos.

Isso é um fato menor, que constitui a experiência de qualquer leitor que reflita sobre o que faz enquanto lê. Mas em nosso caso — comentadores, críticos e produtores de literatura, em diversos momentos da carreira e graus de profissionalização — a importância desse fato cresce, e a reflexão sobre a relação entre expectativas e experiências de leitura é quase um sine qua non da atividade. Somos participantes de um jogo cujas regras são variáveis e no qual a própria idéia de vencedor é matéria de discussão. O que é, claro, bom — é no debate e na conversa que o que quer que seja literatura pode se transformar, avançar, progredir.

Vamos, portanto, conversar a respeito de Na multidão, de Luiz Alfredo Garcia-Roza, e de O filho eterno, de Cristovão Tezza. Seria possível que alguém conectado à produção de literatura no Brasil hoje ignorasse um desses títulos? Duvido: ambos procedem de nomes-marca, autores de carreira longeva e, malgrado as diferenças salientes entre os projetos de cada um, inequivocamente nomes que hoje provocam acolhimento crítico imediato. Ambos são títulos publicados por grandes casas editoriais, e não creio que qualquer editoria de grande veículo de mídia tenha deixado passar esses dois lançamentos sem resenhá-los. Li, ao sabor das circunstâncias e com diversos graus de atenção e respeito ao comentador, várias dessas resenhas, que variavam do tom moderadamente admoestador ao francamente encomiástico.

Além disso tudo, ambos chegam a essa altura nesta Copa por já terem passado por embates anteriores, deixando seus adversários para trás. Na resenha de Felipe Charbel, Na multidão bateu o livro de Ruy Castro, o sofrível e oportunista Era no tempo do rei. Charbel registra, creio que com acerto, que o livro de Garcia-Roza é um caso em que “o projeto acaba sendo mais atraente que sua realização”. Tendo a concordar com essa afirmação: a epígrafe de Walter Benjamin, que explica o título e insinua uma conexão entre a indiferenciação do indivíduo na grande metrópole e a forja do gênero policial, não pode ser trivializada. Na verdade, em minha leitura é isso que dá mais valor ao livro: um certo regime proto-ensaístico, que Charbel menciona ao falar em “divagações quase conceituais sobre a natureza da memória, da multidão e do individualismo contemporâneo”. Embora às vezes peque por didatismo (mas há que pensar na audiência do livro, há que pensar num modelo ideal para os fãs do delegado Espinosa), isso confere certa graça especulativa a um formato que creio cansado, e que tende a me interessar mais ao se aproximar do bizarro, do surreal, do estilo mondo — algo que, creio, já está em Poe. Aqui nada há de bizarro: há um protagonista cansado, envelhecendo. Há um Rio de Janeiro com as marcas da velhice e do cansaço também. Como apontado por Simone Campos, na resenha em que deu a vitória a Na multidão contra maisquememória, de Marcelo Backes, há também as personagens femininas pouco desenvolvidas, as tramas paralelas que se insinuam mas não conseguem respirar o suficiente, os personagens acessórios e, enfim, há esses diálogos entre detetives cariocas nos quais, francamente, não consigo acreditar, que não consigo ler sem acusar (mediocremente, sei) o autor de ser inverossímil, fato que se repete em uma cena de sexo que parece ter sido escrita para-minha-mãe-não-enrubescer. Há, portanto, uma matriz cansada: esse livro tematiza isso, concedendo o que pode ao formulaico no gênero e tentando articular, pela chave memorialística, algo afinado talvez com a epígrafe para convergir na afirmação conclusiva de fim, na remissão de Espinosa a um momento apropriado para, tendo sobrevivido até aqui, “sair de cena”.

Não é muito inteligente executar uma colagem entre fala do personagem e voz do autor, mas aqui creio que se trata de uma burrice tentadora. Os sinais de cansaço espalhados pelo livro, o regime de evocação memorialística de uma velha Copacabana, de um Bairro Peixoto que, como a Urca, simboliza uma ilha de sossego em meio ao caos da metrópole — não consigo deixar de pensar em Garcia-Roza desejando se livrar, enfim, deste personagem. Penso em Garcia-Roza passeando por Copacabana, evocando sua infância, refletindo sobre seu sucesso literário com o delegado Espinosa e, quem sabe, pensando que já é hora de dizer adeus. Se era esse o empenho, o livro é um sucesso, pois ao lê-lo pensei que, sem dúvida, já é mesmo hora de Espinosa sair de cena. Se era outro o empenho, o livro falha. Para mim, falhou como entretenimento, ao me retornar vezes sem conta à minha obrigação de comentador, ao ser incapaz de me retirar de um horizonte de ordinariedade e cobrança, ao ser incapaz de me oferecer algo de novo, estimulante, estremecedor (e sei que aqui manobro em uma exigência quase infantil: a de que a narrativa “me prenda”, e de que o trabalho de ficção é melhor na medida em que executa essa captura de maneira inequívoca — trata-se, obviamente, de matéria debatível, expressão de minha própria “ética supersticiosa” como leitor, mas quem não tem uma que atire a primeira pedra). E falhou também como reflexão sobre o gênero policial, o que talvez fosse uma ambição de seu autor (ou ambição forjada por mim, ao constatar a pompa e o vulto das epígrafes), ou sobre as relações entre memória, história, experiência e narrativa. O arremate de Charbel à sua resenha parece perfeito, e o roubarei para arrematar esse comentário: pareceria mesmo o caso de o livro ter perdido “para si mesmo”, não fosse seu adversário tão qualificado.

E agora me aproximo de O filho eterno, de Cristóvão Tezza que a essa altura do campeonato geral dos livros no país já vai cheio de louros, láureas, prêmios a granel. Trata-se de autor que nunca me interessou em particular, e ao qual dediquei atenção medíocre até agora — que me lembre, já me queixei várias vezes, entre amigos, a respeito da atuação de Tezza como comentador de literatura. Assim, não poderia fazer aqui uma análise como a de Jonas Lopes, que em sua resenha confere perspectiva e particularidade a O filho eterno contrastando-o com produções anteriores de Tezza e a partir disso afirmando que este “é seu melhor livro”, é seu produto “mais equilibrado”, aquele no qual “pela primeira vez emoção e técnica aparecem em doses iguais”. Eu estaria disposto a discutir esse ideal de simetria e equilíbrio como esteio de um juízo de qualidade, mas isso nos levaria em outras direções. Cabe valorizar aqui o que Lopes produz ao enfatizar algo que percebi de maneira semelhante: “O risco era enorme: o resultado do livro poderia ser um relato piegas do filho que fez o pai deixar as trevas e ver o quanto a vida é bela”. Assim como Alex Castro — que resenhou o embate entre O filho eterno e Rakushisha, de Adriana Lisboa — eu “[p]revia um romance demagogo e apelativo, cheio de momentos ‘chora agora’: aquelas longas cenas em que você sente que o autor está preparando o terreno e minando sua resistência, até culminar em uma frase de efeito absolutamente brega mas que ainda assim, para seu imenso ódio, te faz chorar”. Lembro mais: lembro de pensar que não seria possível fazer melhor que Oe — que tematizou situação semelhante em vários escritos; lembro de pensar também, com vileza, que Tezza havia aprendido a arte de copiar sem dar o devido valor à fonte com Teixeira Coelho, cujo vaidoso e derivativo História natural da ditadura Tezza havia elogiado copiosamente. Teixeira Coelho predou Sebald, agora estaria Tezza sugando em tema e forma Oe? Ademais, boa literatura raramente se faz com boas intenções, e o tema de Tezza parecia tão ajustável a um regime de boas intenções que tomei a catadupa de prêmios que foi conferida ao livro como comprovação efetiva de sua provável mediocridade. Com tanto aplauso, só podia ser ruim.

Mas não para por aí. Além de minha antipatia imediata pelo título, assim que recebi o livro deparei-me com uma epígrafe de Thomas Bernhard que me pareceu escusatória e piegas, aliciadora de uma jogatina com o “autobiográfico” como equivalente ao “verdadeiro”, e outra de Kierkegaard a respeito das relações entre pai e filho que só reforçava minha crença de que eu avançava célere para um encontro com a breguice.

Ao contrário de Alex Castro — que diz em sua resenha que não conhece ninguém com síndrome de Down e que por isso o assunto não lhe interessa (!) — não me aproximei do livro com nenhum parti pris antagônico ao tema: creio que boa literatura se faz com qualquer conteúdo, pouco importa o que é tematizado, importa é o como. Já havia lido Oe e admirado muito o que ele faz em zona semelhante; guardadas as devidas proporções há Steinbeck e Faulkner lidando com tema afim: “Vamos ver”, pensava eu. E vi uma narrativa excelente, com uma voz oscilante em perspectiva — e lugar temporal, e horizonte moral — que me deixou magnetizado do início ao fim. O livro, apesar de toda minha má vontade, funciona, e muito bem: rompeu meu antagonismo inicial, conquistou plenamente minha atenção, me deslocou e — perdoem minha breguice à la Afrânio Coutinho — me elevou. Que os prêmios abundem e que Tezza seja feliz, pois mandou muito bem.

O resumo apresentado por Lopes é eficaz e preciso, e a conexão sugerida com a voz do ciclo autobiográfico de Coetzee é muito produtiva — há uma efetiva semelhança na natureza do exame de si, nas características do projeto dos dois. Mas creio que em Tezza a volta adicional do parafuso é fazer a biografia de um em relação ao outro: os protagonistas do livro, pai e filho, constituem-se reciprocamente, e a biografia é, portanto, dupla. Com tudo de dubitativo, titubeante e falho que o pai aparenta ter, é sempre o filho que está ali, como presença e perspectiva que confere sentido aos gestos e feitos do pai. Dizer que pai e filho constituem-se reciprocamente é uma trivialidade; fazer ficção com tal matéria, e conduzir com tal afinco essa moralidade hesitante, de foco variável, não. Fala-se aqui de crescer nos anos 60, tornar-se adulto entre os 70 e os 80, ser o que se pode ser hoje; fala-se de agruras por grana e respeitabilidade, de auto-imagens que são sempre produtos especulares, de sonhos e desejos erráticos, mutáveis, infirmes. Como romance de formação que é, o livro tem um endereçamento moral mas, do mesmo jeito que as narrativas biográficas de Coetzee, não há uma “lição”.

Apesar de ser um livro que explora muitos erros, juízos equivocados, problemas comezinhos, aflições miúdas aos olhos de estranhos e imensas pra quem as vive, uma mesma voltagem percorre a trama de cabo a rabo: um acolhimento do problemático como matéria da existência, uma recusa à resolução fácil do conflito na ópera ficcional pela via da ironia, perfazendo um trabalho no qual nenhum deus ex machina é conclamado, nem há qualquer grande epifania final. E é sem nenhuma grande epifania que, creio, deve ser apropriado concluir essa resenha: na mesma chave com que o livro de Tezza chega ao seu final, que é — na medida em que representa a conclusão bem-sucedida de um projeto literário — indubitavelmente feliz.

O filho eterno
O filho eterno
de Cristovão Tezza

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73 comentários

    Achei o resultado justíssimo.

    Mas estou curioso mesmo é pra ver o que é que vão reclamar na resenha.

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  • IRRETOCÁVEL!!

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  • Segue Tezza até a final. Onde se deparará com qual romance…tchã,tchã,tchã…É fácil…Resultado previsível.

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  • Eu não concordo com as críticas que virão a esta resenha.

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  • Não gostei da resenha, pois:

    - não dá brechas para falar mal do Jatobá.

    - não comenta sobre café do Starbucks, nem massa no Pizza Hut, assim fica difícil detonar o resenhista.

    - o texto não faz gracinhas nem cria falsas polêmicas.

    - o resenhista não é escritor publicado: não dá para reciclar antigas brigas.

    Espera aí, já sei. Em um comentário de outro jogo, o Dr. Plausível diz que as resenhas foram feitas sem que ninguém lesse as dos outros e que assim era melhor. Esta resenha cita as outras. O que aconteceu? A que interesses essa mudança serve? Ao mercado? À Record? Ao Nafta? Quem vocês pensam que podem enganar?

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  • Eis uma resenha.

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  • Eis uma resenha. Finalmente.

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  • Grande Comentarista!

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  • AM,
    Ah, uma pessa inteligente falando inteligentemente de outras inteligências. Legal isso.

    Eu, do fundo de minha baixeza, contestaria o seguinte:

    “a biografia de um em relação ao outro: os protagonistas do livro, pai e filho, constituem-se reciprocamente”

    Será? Me dá a impressão de q a biografia do filho teria sido a mesma com qqer outro pai. É tentador, por exemplo, ver as inclinações do filho pro teatro e pintura como herança genética, mas não existe uma interação “tramática” entre os dois. O filho só aparece como pessoa com voz e subjetividade no finalzinho.

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  • Ah, esse aí sou eu mesmo.

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  • Prezado Dr, uma lisonja sua loa: encantado. :)

    Agora, qto a seu comentário:

    “Me dá a impressão de q a biografia do filho teria sido a mesma com qqer outro pai. É tentador, por exemplo, ver as inclinações do filho pro teatro e pintura como herança genética, mas não existe uma interação “tramática” entre os dois. O filho só aparece como pessoa com voz e subjetividade no finalzinho.”

    Se seria a mesma com qqer pai, a ver. Mas acho que um bom caso de interação que dinamiza a trama esta no momento em que o pai, ao xingar o outro motorista, se vê diante do olhar do filho, e das conseqüências do que fez aparecendo no filho.

    Mas estou dividindo fio de cabelo aqui: vc tem razão: embora o filho seja o centro de gravidade do livro, ele só tem alguma voz no quinto final. O que é, acho, bom – funcionou, tb, por isso.

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  • Sei q é cedo para o grito de é campeão, mas sabe como é a torcida, não aguenta a hora de gritar a plenos pulmões porquem está torcendo, então, como bom brasileiro, não resisto e digo: É São Paulo!!!!!! É hexa!!!!! Êeeeee……

    (comentário sobre o livro implícito)

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  • O Filho Eterno é um grande livro, o resultado é justo, a resenha foi ótima e alguns comentários aqui são bobos pra cacete.

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  • Concordo, isto é uma resenha. Parece escrita pela minha avó, mas é uma resenha.

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  • A resenha me deu muita vontade de ler o Sebald e o Teixeira Coelho. Vou compara agora na Saraiva.

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  • [O comentário #14606 será citado aqui]

    Quando a resenha é boa, só nos resta dizer bobagens.

    [O comentário #14607 será citado aqui]

    O que você quis dizer?
    Sua avó escreve muito bem?

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  • AM,

    Não li nenhum dos livros, mas achei seu texto excelente. Gostei sobretudo da interação com os resenhistas anteriores. Um bate-bola que enriqueceu a análise, e acho que é esse o objetivo em que tanto insiste o Lucas por aqui.

    Um abraço,

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  • Parei de ler em “encomiástico”.

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  • [O comentário #14606 será citado aqui]

    “Um momento insignificante de alguém insignificante preocupado também com um ser insignificante…”

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  • [O comentário #14614 será citado aqui]

    Lamento, então, porque “perdeu, preibói”.

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  • Acho q O filho eterno subverteu duas das pouquíssimas regras prà inclusão de livros na CLB: não competem nem contos nem não-ficção.

    Se OFE é autobiográfico, então não é ficção; é certo q há nele a construção de um personagem, o “eu” como personagem “ele”, mas todos sabem q é autobiográfico. (Pro leitor desavisado, há na primeira página um “e nós rimos”…) Pode-se dizer q toda autobiografia é ficção; mas isso é brincar de palavras. Ficção implica em invenção de uma trama, não de fatos.

    E trata-se de um livro de contos, verdade seja dita. O fato de todos os contos terem os mesmos personagens, estarem dispostos mais ou menos cronologicamente e às vezes se referenciarem mutuamente não invalida a percepção de q são contos. Poder-se-ia chamá-los de ‘episódios’, ‘cenas avulsas’, &c. Mas vou ser chato e insistir q são contos.

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  • Ahhhhhhhhhh… I live you!!!

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  • AM, ótima resenha. Como meus comentários têm sido “meta-comentários”, vou manter a tradição.

    Muito bom que sua resenha venha logo depois do texto do André Sant’Anna. Você vai pelo caminho “meio habermasiano” que vejo na intervenção do Sérgio Rodrigues, o que me agrada. Há uma humildade da crítica, no sentido de se colocar como voz em um debate, onde devem predominar o engenho e a agudeza dos analistas (perdão pelo vocabulário arcaizante, questão de formação) através da contraposição argumentativa. O consenso paira apenas como horizonte distante (mas ainda assim um horizonte), sem que se busque a definição de juízos categóricos. Não sei se, com isso, podemos dizer se um livro é bom ou não, como sugere o Sérgio Rodrigues. Mas com esse caminho dialógico certamente produzimos conhecimento sobre a matéria tratada, os livros.

    Ao mesmo tempo, não posso deixar de constatar (e talvez seja o diabinho galhofeiro falando) que esse modo dialógico de fazer crítica pode ser associado às investidas do André Sant’anna contra uma crítica muito plena de si, que costumo chamar de “a consciência de Hegel”. Enfim. Talvez por isso eu tenha gostado tanto do texto do André, embora tenha me assustado com muitas das discussões (ou não-discussões) suscitadas pelo texto.

    Acho que mais uma vez você apontou o caminho. E provou que a Copa é possível. E que ela é uma boa idéia (quase me esqueci disso).

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  • Uma das mais brilhantes resenhas sobre livros, tout court, que já li até hoje. Você aponta questões no livro do Garcia Roza que eu não havia pensado (li o livro há algum tempo), nesse quase crepúsculo do personagem, um pouco como o gênero soa no Brasil, mas nem por isso denigre a obra e/ou o autor, é respeitoso como deve ser com o trabalho, esse trabalho. Com relação ao filho eterno, não achava possível alguém dizer mais alguma coisa nova sobre a obra, já tão vastamente comentada, e vc diz, e o diz de modo perfeito, com frases muito boas e conceitos justos, adequados. Parabéns pelo trabalho, o Tezza já vem sendo parabenizado desde algum tempo, merecidamente, pelo ótimo livro que escreveu e você pelo ótimo trabalho de comentá-lo.

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  • [O comentário #14623 será citado aqui]

    Isso é ironia, nénão?

    Ou o Fulano Implausível aí nunca leu Jane Austen, Dickens e Hemingway, só para citar uns poucos ficcionistas de inspiração “auto-biográfica”. Pro Implausível aí O Filho Eterno só teria valor quando Tezza morresse e houvesse dúvidas até mesmo quanto à existência de um tal C. Tezza.

    Estes caras (que se consideram leitores de alto nível) não são capazes de entender a graça de transformar a vida em ficção! Leitura linear, com direito a impedimento.

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  • Prefiro Não Entender,
    Tou falando das regras da CLB. Nada a ver com o valor intrínseco ou extrínseco do livro.

    Não dá pra comparar elementos autobiográficos em Dickens e muito menos em Austen com a autobiografia em 3ª pessoa em OFE. Dickens nunca teve um personagem autor de Oliver Twist nem Austen um de Emma. OFE não é ficção. Ponto.

    E ¿desde qdo me considero “leitor de alto nível”?

    HAHAHAHAHA

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  • “OFE não é ficção. Ponto.”

    Quaquaquaquá!

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  • Dr. Plausível, O filho eterno é evidentemente um romance. Barra memorialismo, certo, mas em forma (e em espírito, se me permite) é um romance clamoroso. Algumas das coisas recentes mais instigantes na ficção têm vindo de cruzamentos de gênero desse tipo, mas o truque não é novo. Ou On the road não é um romance?

    O problema do seu critério “conteudístico” é que ele nos obriga a lançar mão de um saber exterior ao texto (a biografia do autor) para só então validar ou não seu conteúdo. Isso é um contra-senso. Uma das coisas que distinguem o texto literário entre as outras modalidades de texto é que tudo o que é exigido para sua compreensão está contido nele.

    Mas ainda que adotássemos o seu critério você estaria errado: o primeiro a burlar as regras da Copa teria sido Alberto Mussa ano passado, com aquele ensaio acadêmico fantasiado despudoradamente de romance. Ah, o safado!!!

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  • [O comentário #14648 será citado aqui]

    Sem falar que, e isso só saberá quem conhece o Marcelo Backes, muitas das viagens que o personagem de “maisquememória” faz no romance são viagens que o próprio autor, que viveu quatro anos na Alemanha, também fez. A origem do personagem e os elementos que misturam o Interior tosco do Rio Grande do Sul e a alta cultura européia são também detalhes autobiográficos em alguma medida.
    Há autobiografia também nesse livro, mas, como ele não venceu sua partida nas quartas de final e já está fora da copa, isso não chegou a ser levantado, presumo. A discussão é boa: a memória como matéria-prima de ficção.

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  • Para mim um romance ou um conto com conteúdo autobiográfico não deixa de ser ficção. Não há autobiografia que resista ao poder do auto-engano. Existem pessoas, inclusive, que vivem a ficção que inventaram. Ter ou não contéúdo autobiográfico não desqualifica um bom romance.

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  • Se OFE é um romance, é um cujo personagem é o próprio autor, tbm autor de seus outros livros como Trapo e O ensaio da paixão, pensador de seus pensamentos, sentidor de suas sensações e genitor de seus gênitos, e cujo enredo (se é q o há) é a própria vida do autor. Assim, até eu.

    Preciso dizer q OFE beira a excelência como memorial. Aplaudo tanto o livro qto a resenha acima.

    Sobre o livro do Mussa, lembro q O movimento pendular na primeira Copa, o próprio juíz, André Gazola, o tirou do campeonato logo na primeira rodada dizendo: “O motivo principal para eleger Leda à próxima fase da Copa de Literatura Brasileira é exatamente por não considerar O movimento pendular merecedor do adjetivo “literário”.”

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  • Não há ficção sem conteúdo autobiográfico.

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  • “Eu sou Madame Bovary”. Quem disse isto?

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  • Assim como “pode-se dizer q toda autobiografia é ficção”, tbm pode-se dizer q toda ficção tem conteúdo autobiográfico.

    Minha questão aqui é q “ficção [literária] implica em invenção de uma trama”. Meramente relatar o q aconteceu com vc não transforma o relato resultante em ficção.

    É claro q o Tezza aparou rebarbas, deixou de lado enormes regiões de sua vida (a mãe do menino principalemente) e talvez até tenha criado detalhes. Mas nem o ponto de partida, nem o caminho percorrido, nem o ponto de chegada são ficcionais (no sentido de “invenção de uma trama”).

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  • Obrigado, Dr., achei que esse jogo já estava perdido.

    Tezza no Paiol Literário:

    “Minha intenção era fazer um ensaio. Mas percebi que não me acertei – a linguagem não dava certo. Pensei: “eu não posso fingir que isso aqui não é comigo”. Sentia fraqueza teórica para enfrentar o tema. Num segundo momento, pensei numa autobiografia tradicional. Comecei a escrever como um depoimento. Mas também não estava conseguindo me afastar do tema. Até que me deu o estalo de transformar a mim mesmo num personagem, de tratar em terceira pessoa. Quando dei este salto – eu me transformei em personagem, eu me afastei -, fique à vontade porque eu sou um narrador naturalmente impiedoso. Então, eu podia bater em mim mesmo sem pena, pois era um personagem – “não era eu ali”. Quando se olha para o próprio passado, você se vê como um personagem. Se qualquer um de nós for descrever o que fez ontem, vai ver uma pessoa que não é você. É o olhar de fora que dá o acabamento. Quando peguei esta embocadura do personagem, o discurso romanesco (a ficção) tomou conta. Isso me resolveu uma séria de problemas miúdos. Por exemplo, desaparece a questão da fidelidade biográfica, não tem mais relevância nenhuma. Fiquei livre para estruturar os capítulos à maneira romanesca, de criar momentos de tensão, de fazer suspense.”

    Esse trecho responde as dúvidas ou confunde mais? É um romance ponto? Ou um daqueles “romance de não-ficção”, estilo Capote? A que interesses Tezza serve?

    http://rascunho.rpc.com.br/index.php?ras=secao.php&modelo=2&secao=45&lista=0&subsecao=0&ordem=1562&semlimite=todos

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  • Pelamordedeus, depois de Nietzsche, Heidegger e Derrida (só para se manter na categoria filósofos, sem nem entrar em teoria literária) ainda se discute se autobiografia é ou não ficção?

    Ao construir um narrador que seleciona episódios e escolhe a melhor maneira de narrar cada cena, se faz ficção. Daqui a pouco vão dizer que Vila-Matas não é romancista, que “Paris não tem fim” é uma autobiografia, deveria estar na seção Não-ficção.

    O Filho Eterno é um romance, não será desclassificado com isso. Se for, vou mandar uma carta para o Tezza pedindo para ele repartir a grana do Jabuti com a galera.

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  • xerxenesky,

    Mostra a lei aí e a pena. ¿Qtos meses de cadeia?

    Palavras, palavras, palavras. Palavras daqui, palavras daí.

    As palavras “depoimento” e “ensaio” – q eu quis usar mas desisti, pra não ser abduzido à noite por uma tropa de choque – foram usadas pelo próprio Tezza ali. Tá na cara qual era a intenção dle desde o princípio, e por que usou a 3ª pessoa.

    OFE tá perto de uma linha fina entre ficção e não-ficção, entre romance e coletânea de contos. Pra mim ela tá pra lá da linha, pra vc ela tá pra cá.

    Dizer q “ao construir um narrador que seleciona episódios e escolhe a melhor maneira de narrar cada cena, se faz ficção”, tá meio humpty-dumpty*, não? Tipo, “a partir de agora, qqer prato com macarrão é comida italiana”.

    —-

    “When I use a word,” Humpty Dumpty said in a rather a scornful tone, “it means just what I choose it to mean — neither more nor less.”
    “The question is,” said Alice, “whether you can make words mean different things.”
    “The question is,” said Humpty Dumpty, “which is to be master — that’s all.”

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  • Isso mesmo, xerxenesky (sic), polêmicas rudes… Estamos chegando lá.

    Mas, os livros que Obama escreveu são romances também? Morais escrevendo sobre a vida Paulo Coelho poderia estar concorrendo na Copa?

    Sei lá, tudo é uma construção, tudo é relativo, tudo é Derrida. Ele foi tão definitivo… Vamos crer nele sem relativismos.

    Na verdade, queria saber a opinião do Antônio Marcos sobre o assunto. Ele parece ser alguém de bom senso e que leu com atenção.

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  • Nunca me senti influenciada pela crítica, nunca deixei de ler algo ou ver um filme após ouvir/ler uma crítica.
    Sempre achei a crítica um saco, para ser franca.
    Mas as resenhas que tenho lido aqui tem, sem sombra de dúvida, me estimulado a ler os autores discutidos.
    Essa resenha, em especial, incrivelmente bem elaborada, me entusiasmou.
    O Filho Eterno será minha próxima compra, mas mesmo os que “perderam” alguns jogos, me pareceram muito interessantes.
    É isso.

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  • Concordo, Vivien, o Antônio Marcos tem a manha. Agora, no outro ponto, acho o seguinte. Se as pessoas acreditam em distinções literárias, o doutor tá certo. Se não acreditam, se acham que não dá para qualificar obra de arte e dividi-la em gêneros, o doutor tá errado. Existe um básico sobre distinções a que não se pode reduzir. É aceitar ou não.

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  • Dr., sua remissão ao Magister Maximus Humpty-Dumpty valeu – “The question is,” said Humpty Dumpty, “which is to be master — that’s all”, ainda vale, creio, e que estamos tratando como conceitual aqui é tb sempre político etc.

    Mas acho que vc forçou a mão um pouco ao dizer que não era ficção e pronto. O que interessa no livro é tb como ele anda na corda-bamba – é parte do que interessa em Sebald, no Coetzee autoficcional tb. Eu gosto dessa discussão, gosto do tema autoficção, acho que justamente porque é bom pra pensar, torna mais difíceis as soluções fáceis.

    Assim, respondendo ao Comentarista, posso dizer que li o livro como ficção, meu juízo foi dirigido a isso – e das coisas que mais me incomodaram, como está dito na resenha, foi a bendita dupla de epígrafes. “Dispensável”, pensei, “Tá cortejando o desastre esse cara”. Mas, afinal, como vocês viram, o livro me venceu. No caso dos livros biográficos do Coetzee ocorre, creio, a mesma coisa: funciona por ser uma ficção de si, ou autoficção. Como a Luciene Azevedo escreveu, isso é “uma estratégia da literatura contemporânea capaz de eludir a própria incidência do autobiográfico na ficção e de tornar híbridas as fronteiras entre o real e o ficcional, colocando no centro das discussões novamente a possibilidade do retorno do autor, não mais como instância capaz de controlar o dito, mas como referência fundamental para performar a própria imagem de si autoral que surge nos textos.” Se a gente pensa que há uma “pessoa física” ali dando sustentação ao discurso pela sua verificação factual já começou mal, creio. Mas se pensamos que a mola do autobiográfico está impulsionando novos contratos de narrativa e de fatura de ficção, acho que melhora.

    E quanto ao caráter de contos do livro, Dr, aí sim vc pegou pesado: até de Guerra e Paz dá pra dizer que é uma seqüência de episódios. Ou não? ;)

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  • Pessoal, obrigado pelos elogios. Gentileza.

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  • am,
    excelente resenha. e excelentes comentários de todos também.
    a festa continua bela e formosa, cheirando à flor de laranjeira, alfazema e leite de rosas.
    não existe ódios ou cafezinhos ou resenha que foi mensagem/ficção( andré, continuo fã.).
    um abraço na inteligência de todos.

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  • Não precisa exagerar, né, Antônio! Guerra e Paz, seqüência de episódios????????

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  • AM,
    Insisti no lance dos contos pra ser chato mesmo. OFE acompanha 25 anos de uma vida: só podia vir picadinho mesmo. Mas as reminiscências da juventude do autor/protagonista são inserções de micro-contos, né? Admite, vai.

    Na verdade, não faz diferença. É um livro de gente grande. Me pergunto como seria um embate final entre OFE e Toda terça, caso não tivesse havido ãã… um… ãã…

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  • E, para corroborar a chatice do doutor (porque, deveras, o livro vitorioso é bom de qualquer jeito), acredito que se possa tirar eventuais episódios da obra de Tezza, sem perder o sentido geral, enquanto não se pode tirar quase nenhuma parte da narrativa de André, Pedro ou Natasha, personagens de Tolstoi, a custo da perda da compreensão do enredo. Talvez esteja aí uma forma de delimitar as definições entre romance e livro de contos (a despeito de haver livros de contos que interagem entre si – mas não insidem no mesmo corpo pensante do livro, ou, dianóia, em termos aristotélicos). Sei lá, mil coisas.

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  • Rodrigo S,

    Matou a pau. Tem livros da J Austen q, se vc tirar um parágrafo, fica “ué? tá faltando um tijolo nesse prédio.”

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  • sei lá, mas parece que tem gente atrasada pelo menos uns cem anos.

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  • [O comentário #14687 será citado aqui]

    Não entendi. Por essa lógica, se um romance qualquer, mesmo que não tenha uma estrutura episódica, tiver pedaços que possam ser retirados, ele é da categoria “romance com contos enfiados no meio”?

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  • Tiago S

    O que estamos chamando de episódio, aqui, são aqueles trechos que podemos extrair do romance sem que a obra perca o sentido ou fique incompleta em seu corpo pensante. Romance com contos enfiados no meio é um monstrengo, uma obra mal realizada, se os contos não tiverem ligação com o resto (se têm ligação, se estabelecem unicidade com o todo do romance, não são mais contos). Mas veja, caro Tiago, que estamos saindo da discussão pertinente à obra do Tezza. Fica até meio mesquinho nos alongarmos na intenção de definir se o OFE pertence à categoria conto ou romance, quando a obra do cara é muito mais.

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  • [O comentário #14710 será citado aqui]

    I am large, I contain multitudes.

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  • É provável que toda biografia tenha algo de ficcional, mas afirmar o contrário é meio temerário.
    Há ficionistas tão descabeladamente, humm… ficcionais que se permitem o luxo de não contaminar seus textos com dados biográficos.
    Imagine procurar traços biográficos em Moby Dick, a Metamorfose, Reparação ou Lavoura Arcaica. Ou nas centenas de autores de ficção científica!
    Gostei da resenha, me deu aquilo que eu esperava do comentarista, de forma inteligente.

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  • “Com tanto aplauso, só podia ser ruim”. Encafifei com essa frase sua, AMP. Cê é daqueles que acham que atualmente todo consenso imediato só pode se dar em torno do medíocre?

    Olha lá, hein. A depender de sua resposta, vou passar a ouvir de outro jeito seus infindáveis elogios a Bolaño, que até agora ganhou aplauso. : )

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  • Tezza, na entrevista à revista Bravo (11/2007):

    BRAVO: Afinal, trata-se de uma autobiografia ou de um romance?
    TEZZA: Curioso… Estamos já no século 21, e o pessoal ainda pensa em romance olhando o século 19. Ainda o encara como um tipo de composição fechada, cheia de regras. Por que O Filho Eterno não poderia ser um romance? Só porque se apóia em acontecimentos autobiográficos? O fato de um livro não transitar pelo terreno da ficção o afasta instantaneamente da categoria de romance? Tais questões me parecem velhas, ultrapassadas. Uma discussão bizantina. Romance é, acima de tudo, linguagem – uma linguagem que reflete o real e que se apropria de outras linguagens, incluindo a biográfica, a dos cientistas e a jornalística. (…)
    BRAVO: Sem contar que você narra a história em terceira pessoa.
    TEZZA: (…) Se utilizasse a primeira pessoa, ficaria muito próximo da narrativa e iria me proteger demais. Tinha de me transformar em objeto, de me observar a distância – justamente como todos fazemos sempre que procuramos resgatar o passado. Ao lembrar o que nos aconteceu há uma ou duas décadas, é inevitável que nos tornemos personagens. Selecionamos informações e viramos autores de nós próprios. Na verdade, a gente até inventa uma ou outra coisinha para preencher vazios.
    BRAVO: O que você inventou no livro?
    TEZZA: (…) Em certas partes da trama, portanto, são as necessidades do personagem que moldam as minhas lembranças e não o contrário. Há milhões de lapsos ao logo do romance. Se O Filho Eterno fosse exclusivamente uma autobiografia, ‘erros’ dessa natureza iriam comprometê-la. Autobiografias exigem rigor nas reconstituições. Mas em livros como o meu, deslizes assim não importam. Aliás, depois de colocar tudo na balança, acredito que cheguei bem perto da realidade. É provável que uma autobiografia clássica não conseguisse ir tão longe.
    BRAVO: Por quê?
    TEZZA: Às vezes, numa autobiografia tradicional, o autor se enche de pose, estufa o peito e despeja um monte de palavras definitivas sobre si próprio. Em O Filho Eterno, ocorre o oposto. Sobram ambigüidades, relativizações, lacunas, duplos sentidos – exatamente como nas nossas vidas.

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  • não concordo com o tezza. origem de bernhard é uma autobiografia sem estufamento ou pose. eu mesmo acho que se ele escrevesse em primeira pessoa e tivesse força expressiva como alguns autores tem, o livro seria muito mais forte e teria muito mais peso. ele poderia avançar sobre questões morais colocadas na cerne do livro que seriam muito mais aproveitadas e ampliadas com um narrador em primeira pessoa do que em um livro escrito em terceira pessoa.

    eu mesmo já li alguns livros do tezza e achei comum. esse deve ser a mesma coisa. não é porque o tema é profundo que o autor alcança a sua profundidade, falta peso e habilidade para chegar até o fundo e tocar a areia. tocar a areia é para poucos.

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  • Isaac, você não concordou com algo que o Tezza não disse. Ele comentou “às vezes”, biografias tradicionais – não disse que em todas as biografias isto acontece. Mas, em geral, isto acontece sim. Em geral, biografias são uma grande planificação de mundo, visões prontas sobre eventos acontecidos.

    E quanto a “este [livro] deve ser a mesma coisa” é só uma afirmação preconceituosa sobre um livro que você não leu e que é absolutamente distinto de todos os outros. Digo isto, porque li os demais.

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  • marco,
    não falei em biografia, falei em autobiografia.
    são diferentes, não são?

    eu li alguns livros do tezza e achei comum. esse talvez seja melhor ou tenha algo mais, mas não me encanta. prefiro comprar outros livros de outros autores.
    e não acho que seja preconceito da minha parte, mas sim conceito por já ter lido outros livros dele e não ter gostado.
    as duas coisas são diferentes, não são?
    grande abraço.

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  • Marco

    “Romance (contos, poesia, biografia, teatro) é acima de tudo linguagem…” E eu adiciono: tudo pode ser acima de tudo linguagem. O erro do Tezza, nesta entrevista, foi considerar que, ao estimarem seu livro na categoria de autobiográfico, o estariam graduando como menos arte. E foi justamente isto que o Issac quis dizer, caro.

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  • [O comentário #14750 será citado aqui]

    Não, não são a mesma coisa, mas primeiro o Isaac usou um, e depois usou o outro. Primeiro afirmou com todas as letras que leu outros livros do Tezza, não gostou e que esse “DEVE SER A MESMA COISA”. Preconceito.
    Confrontado, minimizou sua opinião dizendo que esse “talvez seja melhor”.
    Agora, se alguém quer realmente discutir um livro que não leu e achar que uma obra de treze romances será conhecida lendo-se uns dois ou três deles (“alguns” é quantos, Isaac?), bom, deixa assim, passei da idade de tentar convencer quem está sendo arrogante a mudar de idéia.

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  • Isaac,

    1) biografia e autobiografia, aqui, não tem diferença alguma: a questão principal é ser ou não um romance. A autobiografia (ou a biografia…) tradicionais, em geral, não tem a linguagem do romance. No romance as vozes dos outros (e isto não significa somente a voz dos outros personagens, mas as linguagens dos outros, a linguagem científica, literária, do horóscopo, do bilhete, da carta, do jornal, etc) são tão importante quanto a do eu ou objeto retratado. Na biografia (ou autobiografia…) há somente uma voz – e, em geral (e friso bem este “em geral”), esta voz tenta se colocar como um discurso de verdade, a verdade factual, rigorosa, a descrição minuciosa do que aconteceu sob uma perspectiva única. Um detalhe: esta não é uma teoria qualquer, é a teoria de Bakhtin para o romance, teoria em que Tezza é um mestre.

    2) Também não gosto dos primeiro livros do Tezza – e isto inclui, inclusive, Trapo. Não sei quais livros você leu, mas posso garantir que O Filho Eterno, no sentido biográfico (e na qualidade literária) é muito diferente de, por exemplo, O Ensaio da Paixão, que também tem elementos biográficos.

    Por fim, existe um certo sentido meio mesquinho de apreciar arte que vejo aos montes por aqui: entender aquilo que agrada o público, que ganha prêmios não pode ser bom. Em parte, é um resquício meio moribundo da idéia da vanguarda – só o que rompe seria bom, só aquilo que não agrada o grande público tem valor estético. Felizmente, esta idéia praticamente morreu. E endosso as palavras de Sérgio Rodrigues, quando postou sobre a vitória de O Filho Eterno no Portugal Telecom – agradar a público e crítica é possível sim. É raro e normalmente acontece com os grandes mestres.

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  • pessoal,
    não sou de briga. e esse espaço não é para isso. na verdade, em qualquer espaço brigar é chato.
    cada um tem seu conceito, mas tem gente que acha que o conceito alheio é preconceito. eu não vou ler esse livro só por que ele ganhou todos os prêmios da língua portuguesa, eu não vou ler esse livro por que não gostei de alguns livros do tezza( infelizmente não lembro dos nomes, peço perdão e espero não ser crucificado ou enforcado em praça pública por esse erro extremamente gravíssimo.). é isso. a vida é curta, o dinheiro é pouco e os olhos e a inteligência que estão no cérebro agradeçem.
    abraço para todos.

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  • Mon Cher Tiago a.,

    [O comentário #14737 será citado aqui]

    Pois é: eu tenho mesmo esse problema, tendo a desconfiar a priori do aplauso da malta.

    Mas cada caso é um caso – lema que invoco sempre que quero garantir meu uso de uma regra geral e ao mesmo tempo ficar bem na fita relativizadora, ponderada e criteriosa.

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  • Marco, queria comentar algumas coisas em seu comentário: vc diz:

    “existe um certo sentido meio mesquinho de apreciar arte que vejo aos montes por aqui: entender aquilo que agrada o público, que ganha prêmios não pode ser bom. Em parte, é um resquício meio moribundo da idéia da vanguarda – só o que rompe seria bom, só aquilo que não agrada o grande público tem valor estético.”

    Eu me reconheço um pouco aí, há algo de elogio vanguardista em meus gostos, de paixão pelo que é obscuro. Não acho que isso é critério de definição do interesse, mas reconheço que isso polariza meu interesse com freqüência.

    Mas eu não acho que isso me amesquinhe. Eu curto lixo tb: curti O Nome da Rosa, p ex, e muito. Dá pra ter as duas coisas, the more the merrier etc. Mas o dia em que eu encontrar, sei lá, as meninas no metrô que sempre estão lendo Paulo Coelho lendo Bulgakov, ou Danilo Kis, pô, vou arrepiar.

    “Felizmente, esta idéia praticamente morreu. E endosso as palavras de Sérgio Rodrigues, quando postou sobre a vitória de O Filho Eterno no Portugal Telecom – agradar a público e crítica é possível sim. É raro e normalmente acontece com os grandes mestres.”

    Será que morreu mesmo? Eu acho que eu sou de uma vertente moderada, mas imagino que tem gente pacas, principalmente quem passa por escolas de humanidades, que vai por aí, que incorpora esse critério de high-brow. Qdo meus amigos demonizam Santiago Nazarian sem tê-lo lido, estão fazendo isso. Qdo alunos me perguntam se André Sant’Anna (ou Paulo Coelho, pra esse argumento dá na mesma) “é literatura mesmo” estão indo, creio, numa direção semelhante. Ou não?

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  • A.M,

    Veja, a vanguarda, se não morreu, não tem mais a mesma força, pelo menos. Quem são os escritores idolatrados hoje? Roth, McEwan, Vargas Llosa, Coetzee, Godimer, Naipaul, para citar alguns favoritos da crítica (e alguns que ganharam o Nobel), não escrevem como Joyce, não estão interessados em romper linguagem, não são obscuros e não são herméticos. Aliás, é muito pelo contrário: do ponto de vista de linguagem, são profundamente conservadores. Os caras que ainda rompem, vamos lá, um Pynchon, são idolatrados por meia dúzia de esquizóides e a repercussão crítica de seus livros é infinitamente menor que a de um Roth. Ainda bem…

    O mesmo aconteceu no cinema: o filme cabeça praticamente desapareceu. Inclusive da crítica. Inclusive da França. Ainda bem…

    O mesmo na música erudita: nem mesmo os caras que eram radicais, como um Lutoslawski, voltaram a fazer as pazes com o público. Ainda bem… Quem ainda aguenta um Boulez do início ao fim?

    Naturalmente, isto não é uma defesa de Paulo Coelho ou da cultura de massas mais tosca. Mas um certo mito, que a vanguarda acreditava, ruiu: durante a história, os visionários foram incompreendidos em seu tempo e compreendidos depois. Isto é uma falácia: a maior parte dos artistas que sobreviveram foram reconhecidos em seu tempo ou pouco tempo depois. Inclusive o maior de todos (e aqui sou partidário de Bloom): Shakespeare, que enriqueceu, ficou famoso, tinha grande apelo popular, com peças que também tinham preocupações pra lá de comerciais…

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  • Marco, apesar de ser um dos esquizóides que gostam de Pynchon compartilho de algo do desconforto que você parece sentir diante da idéia de que a vanguarda é intrinsecamente melhor que o mainstream. Mas não concordo com tudo o que você escreveu.

    A discordância picuinha primeiro: entre os autores que você citou como profundamente conservadores pelo menos dois têm preocupações mais ou menos claras com um trabalho sobre novas linguagens. Vargas Llosa é o exemplo mais evidente (penso principalmente em Pantaleão e as visitadoras, mas em A cidade e os cachorros também existe essa preocupação), mas o meu segundo exemplo é justamente Philip Roth, que em alguns livros constrói uma narrativa sutil mas claramente distinta do “padrão” (penso na confusão entre relato e ficção de Pastoral americana e no desfecho abrupto do mesmo livro). Por outro lado, escritores como Pynchon continuam recebendo muita atenção da crítica e vendendo muitos livros, e o impacto da morte recente de David Foster Wallace mostrou que a vanguarda ainda atrai muitos holofotes.

    A discordância mais profunda é: será que a vanguarda “não tem mais a mesma força” ou nós simplesmente atribuímos a vanguardas passadas, que hoje viraram clássicos, uma força que seus contemporâneos não viam? Aqui penso em Proust tendo que pagar os custos da primeira edição de No caminho de Swann, ou em Joyce penando para conseguir editar Dublinenses e Ulisses. É verdade que eles foram reconhecidos rapidamente, mas isso não tira do trabalho deles um caráter marcadamente vanguardista.

    A vanguarda (ou pelo menos a parte da vanguarda que parece prestar para alguma coisa) de hoje está destinada a virar o padrão de amanhã: gastar páginas e mais páginas descrevendo a rotina de uma criança que se prepara para dormir, como Proust fez quase um século atrás, hoje não é motivo de troça nem de elogio. O perigo está em achar que a vanguarda se justifica simplesmente por ser vanguarda: não é por fazer algo novo que se está isento da obrigação de fazer algo bom.

    Abraços,

    Lucas

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  • lucas disse tudo.

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  • Lucas,

    Concordamos em quase tudo e talvez tenha exagerado quando disse que os autores que citei eram profundamente conservadores. Mas são autores acessíveis, mais acessíveis, por exemplo, que Joyce ou mesmo Pynchon ou DFW. E são autores conservadores no sentido em que não fizeram nenhuma grande revolução de linguagem. Aliás, simplesmente não se preocuparam muito com isto, não se preocuparam em entrar para a história da literatura tentando inventar um novo jeito de contar uma história, mas simplesmente em saber contar bem uma boa história e se preocupar com esta história. É este fascínio que sempre sobreviverá da literatura: queremos ouvir boas histórias. É assim desde Homero. O que há de novo, no modo de contar uma história, em Reparação, de McEwan? Absolutamente nada. Poderia ser um romance do século XIX. E, ainda sim, é uma obra-prima.

    E, discordando de você, a morte de DFW passou praticamente desapercebida. Rendeu uma notinha na Folha de São Paulo, nada na TV. Ele é um autor que, no Brasil, se cita em círculos mínimos (como o deste site) e, mesmos nestes círculos, quase ninguém leu. Seria infinitamente diferente da morte de um Roth ou um McEwan. Aliás, é um autor simplesmente não lido no Brasil – mesmo entre os críticos. E para mim, isto não é um defeito dos críticos brasileiros, nem mesmo um problema de falta de tradução, mas de um tipo de literatura que está datada, que tem uma cara de algo de não impressiona nem comove mais o público. E quando digo público, não estou pensando em massas, mas em nós, em você, no Sérgio Rodrigues, que tentamos acompanhar a literatura contemporânea.

    Por fim, sem dúvida, o importante é ser bom e não a vanguarda pela vanguarda. E é a idéia da vangarda pela vanguarda que de fato morreu. Exceto, talvez, nas artes plásticas – mas alguém consegue realmente se sentir à vontade com as artes plásticas do nosso tempo? Sinceramente, não tenho mais o menor saco para ir à Bienal.

    Duvido que a literatura que sobreviverá do nosso tempo seja a de Pynchon. Boa parte do interesse da imprensa sobre ele é sobre suas esquisitices e não sobre seus livros. Não sei que livros levaria para uma ilha deserta, mas certamente sei os que não levaria. Pynchon é um deles.

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  • Eita, mas a discussão por aqui melhorou muito desde o último post…

    Na questão das vanguardas, fico confortavelmente em cima do muro e proponho uma visão mais conciliadora – nem tanto ao Marcos, nem tanto ao Lucas, talvez próximo ao AM.

    Não vejo amesquinhamento, descrédito ou morte das vanguardas, como parece propor o Marco. Para mim, é simplesmente natural que elas sejam sectárias. Mas também nem mesmo creio que a boa vanguarda de hoje deverá receber o reconhecimento do establishment do amanhã, como entendi ser a visão do Lucas.

    Acho que o papel da vanguarda é forçar uma espécie de dialética. Não é a vanguarda atual que vai se perenizar como a linguagem distintiva da nossa época. Mas, no seu confronto com o “tradicional” de hoje, talvez se crie uma síntese intermediária que pode se tornar um novo patamar, um novo estágio para o considerado “normal”.

    Diz a etiqueta atual que metáforas são bregas, mas insisto – talvez as vanguardas sirvam para alargar os caminhos, por onde passarão depois, com mais tranquilidade e com o terreno já preparado, as obras que realmente ficarão para a posteridade.

    Vamos concordar que Reparação, do McEwan, seja mesmo uma obra-prima do nosso tempo. No mínimo, é um expoente do que podemos considerar a boa literatura de hoje. Mas Reparação, com todo seu tradicionalismo temático, se vale também de um jogo de perspectivas e de ferramentas narrativas que enriquecem o romance e que não seriam possíveis sem que antes alguns vanguardistas do século passado experimentassem com a linguagem e deixassem algumas obras quase inelegíveis.

    São muito poucos os que escrevem a la Joyce hoje em dia, mas isso não quer dizer que não devemos nada a ele.

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  • Inelegíveis não, ilegíveis.

    Resquícios das eleições… :-)

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  • Mas, convenhamos, meus caros filósofos da modernidade, tá difícil achar uma vanguarda depois do “tudo pode” e do “nada é proibido”, hein? Qual vai ser a linha contestatória, qual vai ser a reivindicação se tudo pode, pois ninguém reivindica algo que esteja acessível. Qual vai ser a dialética, se não há mais antítese? Talvez, a única contestação seja reivindicar limites, delimitações, restrições para a arte e para o pensamento. Se for o caso, vai acontecer algo sem precedentes, uma vanguarda que não venha quebrar parâmetros estabelecidos, mas pedir para se reconstruir os antigos. Os vovôs vão sair às ruas, gritando, manifestando, provocando os jovens inanimados, a quem roubaram toda a possibilidade de rebeldia. Sim, porque a juventude vive um marasmo de dar dó. Que sacanagem! Tudo o que eles querem destruir, já foi destruído, tudo o que querem contestar já foi contestado. A moçada fica sem saber o que fazer, nada para criticar, nenhuma idéia demolidora que já não foi criada, ou todas coexistem ao mesmo tempo. Quando eles pensam que formam uma tribo inovadora, sui generis, deparam-se com outras dezenas de grupos com idéias igualmente revolucionárias. Por isso, as drogas estão na ordem do dia. Fumam ou cheiram, para saírem deste mundo sem graça. Talvez, um delírio mais criativo os leve para algum lugar onde reste um grupo reacionário, limitado e, ainda por cima, satisfeito com suas idéias.

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  • Alguns comentaram aqui que o Filho Eterno é um exemplo de livro de sucesso entre crítica e público. Mas, até onde eu sei, ele não é ainda um livro popular, infelizmente. Até agora só se mostrou que uma obra quase consensualmente elogiada no meio da crítica e literatos, não consegue transformar isso em muitos leitores no Brasil. Quem sabe, aconteça para frente. Mas, acho isso desanimador que não tenha ocorrido até o momento.

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  • Mauro Judice
    Como vc sabe, “vanguarda” é só um termo inflado pra falar de pessoas q fazem diferente do q já foi feito. Na verdade, jamais houve nem jamais haverá um “tudo pode, nada é proibido”. Sempre q alguém vem com o papo de “ir contra as convenções”, eu sugiro q passe a dirigir apenas na contramão e a 100 por hora, pra ver o q acontece. Ou no caso de um escritor, lançar um livro inteiro com uma única palavra repetida 50 mil vezes. Quem apregoava q nada era proibido tava na verdade dizendo “não proíbam a obra extremamente formulaica q inventei de fazer.”

    E olha q eu *gosto* de inconvecionices, hem. Tenho uns CDs aqui q só posso tocar qdo tou sozinho…

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