Semifinais

10/11/08

O dia Mastroianni jogo 13 Toda terça

Jurado: André Sant’Anna

Toda terça, de Carola Saavedra, e O dia Mastroianni, de João Paulo Cuenca, são livros excelentes. Toda terça só poderia ter sido escrito por Carola Saavedra e O dia Mastroianni só poderia ter sido escrito por João Paulo Cuenca e isso é que é bom. Aliás, boa literatura é isso: quando um autor diz aquilo que só poderia ser dito por ele mesmo, quando um autor revela seu mundo interno e externo para nós, leitores, quando um autor mostra pra gente que existe um mundo para cada pessoa. E o melhor de ler literatura é justamente visitar mundos diferentes do nosso.

Estou de acordo com Jean-Luc Godard, quando afirma, em JLG por JLG, que a cultura é inimiga da arte, que a arte é uma expressão única, individual (claro, pode haver também criações coletivas e tal, mas estou falando de outra coisa), e que, ao ser observada/usufruída/apreciada, deve, necessariamente, causar o impacto do nunca visto. Por sua vez, a cultura, que hoje serve ao mercado e ao culto da celebridade, segue a trilha do reconhecível, das ditaduras formais: “um bom livro não pode ser longo demais para não cansar o leitor”, “as frases tem que ser curtas”, “o que interessa é contar uma boa história”, “os autores devem se comunicar com o público leitor” e demais idiotices culturais.

Carola Saavedra, em Toda terça, não só nos apresenta seu mundo individual e único, como também o descreve com uma linguagem individual e única, usando a pontuação como elemento literário e não como regra a ser cumprida. O livro trata do encontro, na Alemanha, de pessoas com várias nacionalidades, especialmente de latino-americanos e alemães. Carola vive na Alemanha, conhece aquele mundo e tem, nitidamente, as preocupações de seus personagens. Há um enredo, uma construção, no livro. Mas isso é o de menos. O que faz Toda terça ser um livro tão bom é que Carola, do jeito único dela, faz a gente entrar naquele universo, ficar pensando naquelas propostas filosóficas, sexuais, propostas de encontros multiculturais e acaba entrando em um outro universo. Ou seja, é entretenimento artístico da mais alta qualidade, pra gente, que vive reclamando do entretenimento cultural de baixa qualidade da televisão, do cinema comercial, do Paulo Coelho etc.

O João Paulo Cuenca, em O dia Mastroianni, da mesma forma. Quer dizer, de forma diferente. O dia Mastroianni é um livro menos profundo do que Toda terça. É um livro vazio. É um livro porra-louca. É um livro que não quer dizer nada. Uns caras, na Europa, saem pelo mundo encontrando gente estranha, fazendo porra-louquices, bebendo, trepando, de vez em quando aparece uma consciência do João Paulo Cuenca reclamando do livro numa espécie de metalinguagem porra-louca. É a vida sendo vivida, é arte sendo escrita. O que mais gosto em O dia Mastroianni é que o João Paulo Cuenca escreve improvisado. Tenho a impressão de que ele não ficou lá, todo angustiado, tentando escrever o troço mais espetacular da face da Terra. O João Paulo Cuenca foi, foi escrevendo e pronto. E a minha leitura do livro dele foi assim também. Eu abria o livro no ônibus e ia lendo, eu abria o livro na espera do médico e ia lendo, antes de dormir, eu ia lendo o livro do João Paulo Cuenca e pronto. Foi bom pra mim.

É isso a minha resenha? É isso: achei Toda terça e O dia Mastroianni livros do caralho!

O que não é do caralho é o jeito que os resenhistas, críticos, essas porra, escrevem no jornal; essa falta de generosidade; esse troço tacanho de ficar julgando a arte alheia segundo os próprios critérios culturais. É impressionante a quantidade de resenhas elogiosas que gastam a maior parte de seu espaço apontando os defeitos dos livros, como se elogiar demais alguma coisa fosse sinal de puxassaquismo, ou fazeção de média, ou falta da tal cultura. São uns mesquinhos mesmo esses filhos da puta. Viva a literatura do caralho!

Mas alguém tem que ganhar o jogo, né? Então, vai o João Paulo Cuenca. Por quê? O dia Mastroianni é melhor do que Toda terça? Não, não é. É que eu estive com o João Paulo Cuenca, no começo do ano, num evento literário lá em Portugal, e a gente deu umas voltas por Povoa do Varzim e por Lisboa e batemos uns papos e ficamos amigos e tal. A Carola deve ser gente boa também, mas eu não a conheço pessoalmente.

É só isso tudo.

Mas alguém pode insistir e dizer que estou fazendo isso para ficar bem com todo mundo.

Sim, eu estou fazendo isso para ficar bem com todo mundo. Eu acho muito bom ficar bem com todo mundo.

O dia Mastroianni
O dia Mastroianni
de João Paulo Cuenca

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