Quartas de final

28/10/08

Na multidão jogo 11 maisquememória

Jurada: Simone Campos

Na multidão não é um livro excepcional. É apenas agradável. Mas aqui e ali dá para perceber indícios do porquê de Luiz Alfredo Garcia-Roza ser cultuado. Os ingredientes são claros: um detetive carismático, um mistério, cenas de ação e de sexo, aqui e ali uma cena prosaica para manter o ritmo, ou uma reflexão nem profunda demais, nem adolescente demais, e que escapa da auto-ajuda por ser aplicável à situação muito particular de Espinosa, ou de outro personagem, naquele momento. Algumas dá vontade de guardar e reler. Isso ajuda na conexão entre leitor e personagem.

É um livro centrado em dois personagens, Espinosa e Hugo Breno, com trocas freqüentes de ponto de vista. Espinosa conta com a vantagem de uma apresentação a longo prazo, uma caracterização proveniente de livros anteriores, mas que não deixa (nem poderia deixar) de ser reforçada neste. Hugo Breno soa um tanto robótico em suas rotinas, já que é caracterizado de dentro para fora. O mundo visto por ele se parece com uma gigantesca engrenagem, o que pode ser cansativo para quem não compartilha de suas manias. É meio forçado o desenvolvimento de Vânia, amiga e possível amante de Irene, a namorada de Espinosa. Vânia não se resolve, parece estar ali só para apimentar a história e encher lingüiça. Poderia servir como uma espécie de contraponto a Hugo Breno, mas não passa de uma Mulher MacGuffin, distraindo o leitor enquanto o autor prepara novas surpresas nos bastidores.

De início, Garcia-Roza lança mão de um narrador onisciente não-confiável, uma espécie de deus mentiroso, para só depois passar a restringir esta consciência às de Espinosa, Hugo Breno e outros. É notável como o diálogo reproduzido logo no primeiro capítulo entre o caixa e a aposentada será reconstituído depois — por outro narrador não-confiável! —, “descobrindo-se” que as coisas realmente ditas foram bem diferentes das relatadas ao leitor no começo. A memória engana, e para reproduzir este fato, Garcia-Roza manipula a memória fraca de Espinosa, só permitindo que seu esforço mental alcance determinados detalhes de sua infância quando isso se encaixa no momento narrativo que pretende criar. Este recurso implica em sentimentos ambíguos: talvez por deformação profissional, identifiquei logo de primeira o que o autor pretendia e senti mecanicidade no personagem. Leitores menos imersos no ofício talvez não sintam este travo.

Há também um número considerável de tramas auxiliares e nuances mais profundas que não são completamente elucidadas — algumas para o mal, outras para o bem. Dou um exemplo de cada. O leitor fica sem saber qual era a de Vânia, vendo-a apenas pelas lentes de Espinosa; é uma ponta solta que poderia ter sido melhor costurada com a ajuda da personagem Irene. Talvez, por algum motivo, o autor tenha evitado entrar na pele das personagens femininas mais jovens. Já o fato de um personagem importante das lembranças de Espinosa não ter sua identidade revelada deixa uma porta aberta — o próprio detetive pode ser esse personagem — e enriquece a história.

O final me soou abrupto e, ao mesmo tempo, adequado, com seu gracejo metalingüístico. Mas há sempre uma necessidade de se respirar depois do pico de ação de uma narrativa policial, e em Na multidão esse respiro foi um tanto curto — embora seja, até onde sei, uma inovação, por puxar o tapete do leitor, trair suas expectativas. A ambigüidade permeia este livro, coalhado de mecanismos que tanto podem ser julgados excelentes como péssimos, às vezes ambos ao mesmo tempo. Metalingüisticamente me ocorre que, tal como as dúbias femmes fatales do romance policial clássico, este possa ser um livre fatal. Quizás, quizás, quizás… Na opinião desta juíza um romance razoavelmente legível e envolvente. O que não é o caso do seu concorrente.

Marcelo Backes escolheu um determinado recurso para narrar seu livro maisquememória, talvez procurando torná-lo mais palatável, talvez querendo acrescentar um ingrediente mais (afro-)brasileiro à tradição do diário de viagem. Há um cavalo, que seria o eu lírico do autor, e o seu cavaleiro, espécie de caboclo irreverente que narra a maior parte do romance. Esse recurso é subutilizado: os dois concordam demais. Digladiam-se pelo palco, mas têm as mesmas idéias de fundo (como um certo antiamericanismo). A própria entidade assume que já discordaram mais anteriormente, durante a adolescência missioneira do cavalo; no tempo da viagem pela Europa, a cumplicidade é quase total.

O cavaleiro gosta de se embebedar, de comer mulheres bonitas, de praticar pequenos atos de transgressão, de cavoucar semelhanças entre sua trajetória e as de personagens de vulto, além de esbravejar contra desafetos pessoais (sob apelidos facilmente reconhecíveis). O cavalo pratica intromissões mais acadêmicas. Acaba-se por conhecer melhor o cavaleiro, que, enquanto ente sobrenatural, não sofre muitos percalços ou dúvidas existenciais. Lembrou-me o “Poema em linha reta” de Álvaro de Campos: “Toda a gente que eu conheço e que fala comigo / Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, / Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…”. Em sua boca, até a menção às raízes interioranas do cavalo tem um tom triunfalista. Só no final há um revés dos grandes (para ambos os narradores), mas já é tarde para conquistar nossa empatia. Se o objetivo era forjar um anti-herói, falhou. Colocando em termos cinematográficos, o cavaleiro pretende ser Ferris Bueller, mas soa como Jabba the Hutt.

Os trechos mais aproveitáveis são aqueles em que se sai do umbigo do(s) eu(s) lírico(s). São interessantes as interações com japonês, egípcio, sueca e alemães, cada um com sua idiossincrasia no ambiente sanitizado europeu, até por serem dos poucos a nublar o céu de brigadeiro do narrador. Porém, isso é uma fatia finíssima do livro. A maioria esmagadora das páginas se dedica a elucubrações internas em primeira pessoa, colóquios entre cavaleiro e cavalo, e pequenas intromissões expositivas deste último — didáticas a dar com pau, algo que já me incomodou no Um defeito de cor, ano passado.

O diário de uma viagem como essa, sem objetivo, de exploração indolente, pedia uma mão muito mais firme — senão a do autor, pelo menos a do editor. Não é que falte personalização na seleção dos dados de cada cidade. Ela falta, isso sim, no estilo com que estes são narrados (especialmente considerando o narrador entidade dionisíaca). Um dos poucos acertos foi aportuguesar os nomes das cidades que não têm nomes em português corrente. Às vezes o texto lembra um livro de História; às vezes, uma enciclopédia; ou ainda, um guia turístico. Sinta:

E que tal a Ilha dos Museus, com seus cinco importantes museus? Absolutamente imperdível. Bem mais que o imperdível e emblemático Portão de Brandemburgo, construído por Carl Gotthard Langhans segundo o modelo dos propileus da Acrópolis em Atenas, entre 1788 e 1791. Mas a história do célebre portão não pára por aí. Gottfried Schadow coroou-o com a Quadriga — com o coche e Eirene, a deusa da Paz — em 1793. Napoleão surripiou a deusa, coche e cavalos em 1806, levando-os para Paris. O marechal Blücher devolveu na mesma moeda em 1814, ao invadir Paris, e Karl Friedrich Schinkel transformou a dama cobiçada, com uma cruz de ferro na coroa de carvalho, na deusa da Vitória pouco mais tarde. A Alemanha Oriental fez tirar a cruz de ferro acusando nela um símbolo do militarismo alemão e, na restauração de 1991 — como se para provar a anexação de vez —, a cruz de ferro voltou para onde estava desde a derrota de Napoleão. No portão, a história da Europa…

Quando o escritor procura despejar toda a sua erudição ou pesquisa no texto, não só entedia quem já conhece as histórias como não impressiona quem ainda não as conhece. O leitor fica alijado do grand tour Europe de Backes.

Era essa mesmo a intenção, a julgar pela página 226, em que o narrador lamenta “não ser único no mundo” quando seu cavalo descobre, numa roda de amigos, que um deles também conhecia a cidadezinha obscura que mencionara. Aí tive a confirmação do que se insinuava desde as primeiras páginas: maisquememória é uma egotrip assumida, na qual o único papel que nos caberia seria o de baixar a cabeça e acatá-la — daí os vocativos, como ignorante leitor e inculto leitor, com que o narrador nos adorna. Mas nem todos os leitores têm prazer nessa auto-anulação. Talvez a literatura brasileira atual tenha muito autor dominador para pouco leitor submisso.

Torcer contra o protagonista é uma coisa; não querer saber mais da vida dele é outra, bem diferente. Senti um desejo quase incontornável de largar o livro logo no prelúdio (do próprio autor) que, página a página, foi se convertendo num desejo de atirá-lo longe — o que fiz efetivamente umas duas vezes, viva o livro objeto físico. Só pelo compromisso com a Copa e com a ética é que venci as 400 páginas de maisquememória, tão contrariada quanto uma Leia acorrentada.

Pode parecer injusto que um livro de ação como Na multidão concorra com um livro de inação como maisquememória. Mas me ocorreu que livros de inação precisam provocar comprometimento emocional no leitor, conquistá-lo, e este não o faz. É mais fácil escrever um livro de inação do que um de ação, mas é incomparavelmente mais difícil escrever um bom livro de inação. É por isso que tantos tentam e tantos fracassam.

Concorreram aqui dois autores cultos, mas um deles se preocupa menos em deixar isto patente para o leitor. Talvez ambos conheçam as técnicas para prender a atenção do leitor, mas apenas um se preocupou em utilizá-las. Um deles enreda o leitor com seus ardis, mas nunca o entedia ou irrita, mantendo-o sempre por perto; o outro decepciona desde o primeiro momento e só depois de resmas de decepção é que entrega um pouco do ouro. Por tudo isso, a vitória é de Na multidão.

Na multidão
Na multidão
de Luiz Alfredo Garcia-Roza

você concorda?

O resultado do jogo 11 foi justo?

Carregando ... Carregando ...



»

Há 54 comentários até agora.

 

Nome:

E-mail: