
Jurado: Vinicius Jatobá Lucas Murtinho
O crítico literário Vinicius Jatobá, que havia concordado em apitar o jogo 10 desta segunda edição da Copa de Literatura Brasileira, decidiu se retirar do torneio após haver anunciado o vencedor do seu jogo mas antes de escrever a resenha do mesmo. Jatobá explicou num email que se retirava porque alguns jurados estariam decidindo seus jogos por motivos políticos e não estéticos.
Jatobá não é o primeiro jurado a desistir de participar da Copa. Rodrigo Gurgel foi substituído por Nelson de Oliveira no apito do primeiro jogo desta segunda edição; na primeira edição, Paulo Polzonoff e Francisco José Viegas foram substituídos por Simone Campos e Luiz Biajoni. Mas Jatobá é o primeiro a desistir após ter anunciado a decisão do jogo, o que criou um problema logístico: quando ele me informou da sua desistência, o resultado já havia sido informado ao árbitro da semifinal, e reverter o processo seria trabalhoso e demorado. Além disso, o motivo alegado por Jatobá merece ser discutido aqui, por mim, pelos jurados e pelos leitores. Por isso, decidi manter a decisão de Jatobá — Toda terça passa para as semifinais — e convidar os leitores da Copa a usar a caixa de comentários deste jogo para conversar sobre os dois livros que deveriam ter sido analisados por ele na sua resenha. Antes, porém, algumas considerações sobre a situação.
O mais curioso sobre a atitude de Jatobá é que ele não lera nenhuma das resenhas que foram e serão publicadas nesta Copa antes de decidir que os critérios usados por alguns jurados eram políticos e não estéticos: sua conclusão foi baseada exclusivamente nos resultados dos jogos e não nos argumentos apresentados pelos juízes. Ou seja, de acordo com Jatobá os critérios estéticos poderiam levar a apenas um resultado, e quando este resultado não se verificou a única explicação possível era que alguns jurados estavam usando outros critérios.
A idéia de que critérios estéticos são objetivos me parece profundamente errada, mas respeito os que a advogam. Só que não é difícil entender que a Copa é um prêmio literário baseado justamente na negação dessa idéia: é por isso que diversos jurados lêem e falam de um mesmo livro, para podermos ver e discutir como diferentes valores estéticos podem levar a diferentes apreciações de uma obra. E se Vinicius Jatobá pensa que critérios estéticos são objetivos é difícil entender não por que ele saiu da Copa e sim por que ele aceitou participar dela.
Isso, do meu ponto de vista confessadamente parcial, torna Jatobá culpado de falta de reflexão no momento de decidir participar da Copa e de falta de generosidade no momento de julgar as decisões dos outros jurados. Mas há outra acusação que pode ser feita contra Jatobá, mais grave do que as duas primeiras segundo os seus próprios padrões. Nos bastidores da Copa, pessoalmente e por telefone, Jatobá se mostrou muito insatisfeito com o fato de O dia Mastroianni, de João Paulo Cuenca, estar avançando na competição. E a leitura dos comentários a esse texto de Sérgio Rodrigues, publicado no blog Todoprosa, mostra que Jatobá e Cuenca tiveram rusgas no passado. O que me leva a pensar que ao acusar “outros jurados” de decidir seus jogos por razões “políticas” Jatobá talvez estivesse apenas tentando mascarar suas próprias motivações não estéticas.
***
Apesar de entender a tentação das intrigas de bastidores e de acreditar que a análise dos livros será eclipsada pela discussão sobre a decisão de Jatobá, gostaria de dar o pontapé inicial na conversa que deveria ser a protagonista da Copa, sobre os romances que competem nela.
Concordo com a decisão do ex-jurado. Embora Toda terça não tenha me encantado como ao Doutor Plausível, sua resenha me fez pensar que talvez eu não tenha lido o livro com a atenção que ele merecia; e mesmo entre almoços apressados e viagens de metrô o estilo de Carola Saavedra (que, full disclosure, é amiga da minha sogra; também andei trabalhando para a Companhia das Letras e para a Rocco) tem um charme que raramente se encontra na literatura brasileira contemporânea. Meu problema com o livro foi que a grande pergunta implícita ao longo da narrativa — por que duas histórias tão díspares estão na mesma grande história — recebe uma resposta vaga que deixa muitos fios soltos e muitas questões em aberto. A angústia de sentir nos dedos da mão direita a finura do número de páginas a ler e concluir que a história não terá um desfecho satisfatório é minha velha conhecida, e raras vezes ocorre sem me deixar um pouco decepcionado. Para alguns é um defeito menor; meu gosto pela arte de contar histórias faz com que eu o considere relativamente grave. Mas, como já disse, de repente o fim do romance simplesmente foi mais inteligente do que eu.
Meu problema com Rato foi parecido, mas num nível mais profundo. O romance de Luís Capucho começa com uma descrição lenta e detalhada da cabeça-de-porco onde o narrador vive e dos seus outros moradores, um dramatis personae prolixo inserido no corpo do texto. É um recurso que deixa o leitor com água na boca esperando para saber o que acontecerá com aqueles personagens; e quando quase nada acontece a decepção é grande. Há alguns conflitos, claro, mas em geral o romance fica preso demais ao seu narrador e às reflexões algo repetitivas sobre sua homossexualidade, deixando um ótimo elenco cozinhando em banho-maria, perdendo o gosto. Além disso, o não-evento que encerra a história, embora seja uma decisão narrativa interessante, acaba caindo no vazio, como se sua ocorrência fosse a decisão de um escritor desinteressado ou temeroso de abordar conflitos capazes de gerar uma voltagem dramática mais elevada. E a lírica de Capucho, embora tenha seus momentos, é menos original e por isso menos interessante do que a de Saavedra.
Esses são meus dois tostões. Mas quem acompanha a Copa sabe que Capucho tem uma legião fiel de fãs e que Toda terça recebeu uma boa quantidade de elogios nos comentários. Portanto, quem se habilitar a matar no peito e dar prosseguimento à jogada será bem-vindo.

Toda terça
de Carola Saavedra



























15/11/08 - 9:01 pm
[...] O jogo mais polêmico da Copa de Literatura Brasileira - O crítico literário Vinicius Jatobá, que havia concordado em apitar o jogo 10 desta segunda edição da Copa de Literatura Brasileira, decidiu se retirar do torneio após haver anunciado o vencedor do seu jogo mas antes de escrever a resenha do mesmo. Jatobá explicou num email que se retirava porque alguns jurados estariam decidindo seus jogos por motivos políticos e não estéticos [...]
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