Jurado: Nelson de Oliveira
Partida disputadíssima. O amor não tem bons sentimentos, do pernambucano Raimundo Carrero, e O sol se põe em São Paulo, do carioca (radicado em São Paulo) Bernardo Carvalho, são romances bastante provocativos e, é claro, muitíssimo diferentes na forma e no conteúdo. O estilo do primeiro é nervoso, atormentado e turbulento. O do segundo é calmo, minucioso e reflexivo. A impressão que deixam no leitor, terminada a leitura, é igualmente forte, mas de qualidade poética diferente. Difícil é ter de escolher entre essas duas qualidades tão intensas. Até mesmo nos defeitos parece haver empate: o palavrório e os lugares-comuns que em alguns momentos emperram as duas narrativas têm força e peso análogos.
O romance de Carrero, protagonizado por um músico desvairado que resolve matar a mãe e a irmã, é basicamente sobre a loucura e o delírio. Além de Matheus, o músico assassino, há outras figuras igualmente estranhas e excêntricas perambulando pela trama, muitas delas ligadas à religião. A dúvida sobre a realidade dessas figuras – elas parecem ter saído daquelas famílias belicosas do Antigo Testamento – espeta o leitor de tempos em tempos.
O romance de Carvalho, protagonizado por um sujeito desempregado e divorciado que não revela o nome, é basicamente sobre a solidão e a incomunicabilidade entre as pessoas. Esse sujeito melancólico costuma freqüentar um restaurante japonês no bairro da Liberdade, em São Paulo, cuja proprietária abrirá uma porta para o outro lado do mundo, para os detalhes de um triângulo amoroso no Japão.
Pôr no mesmo gramado dois adversários tão bem preparados foi uma decisão bastante maliciosa da parte dos organizadores desta Copa. Para essa partida eu não precisei ler os dois romances, porque já os conhecia. Só tive o trabalho de reler certos trechos e reencontrar as situações mais interessantes. Como eu disse, o jogo foi disputadíssimo do início ao fim. Só no final do segundo tempo foi que saiu o gol do Carrero, suado, de escanteio.
A razão desse gol? Os dois romances tratam dos cômodos sombrios do comportamento humano, mas o tratamento histriônico e carnavalesco de Carrero, bastante aparentado com o de meus próprios livros, me agrada um pouco mais do que o tratamento sóbrio e analítico de Carvalho.
Porém, finalizada a partida, as duas torcidas voltando pra casa, a sensação que acompanha esses torcedores é a de que o empate teria sido o resultado mais justo.




























25/09/08 - 11:02 am
Entre pauladas e pedradas de amor e ódio, o nível da discussão melhorou bastante. Seja bem-vindo, bom senso! “Não li o romance de Raimundo Carrero e a não-resenha de NdO definitivamente não me fez querer ler.” Tiago, espero que ao menos este passional minidebate-papo tenha feito você querer ler. Só assim você vai poder comparar os romances. Do contrário, fica essa história do Pierre Bayard, “Como falar dos livros que não lemos?”, livro que não li, mas sobre o qual eu gosto de falar (rs).
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