Repescagem

24/11/08

O dia Mastroianni jogo 15 Cão de cabelo

Jurado: Sérgio Rodrigues

Cão de cabelo é o primeiro dos livros que voltam à Copa pela porta da repescagem, uma novidade no regulamento deste ano: dois concorrentes eliminados nas primeiras fases retornam pelo “voto popular” (nem tão popular, considerando a penetração menos que maciça desta brincadeira literária) para enfrentar semifinalistas que passaram pelas etapas convencionais. No caso do livro de Mauro Sta. Cecília, para desafiar O dia Mastroianni, de João Paulo Cuenca.

A adoção da repescagem provocou alguma polêmica entre os jurados. Fui um dos que se opuseram a ela, argumentando que o universo de votantes é pequeno demais — e portanto manipulável demais por campanhas entre amigos — para permitir o sucesso da idéia que estava em sua origem: criar um mecanismo que pudesse corrigir eventuais injustiças e ainda adicionar à disputa uma certa vertigem na reta final.

Voto vencido, passei imediatamente a torcer, como aficionado de primeira hora da Copa, pelo êxito da repescagem. Mas perdi de novo. Cheio de boas intenções às quais falta realização literária, o romance de estréia de Sta. Cecília não é adversário para o segundo de Cuenca, e sua reentrada em campo chega a expô-lo desnecessariamente. Numa semifinal desprovida de graça, O dia Mastroianni é o primeiro livro classificado para decidir a CLB 2008.

* * *

Cão de cabelo conta a história da ascensão e queda de Lelo Costa, jovem carioca nascido na favela e educado — de favor — em um bom colégio de classe média. Apresentado como um cara talentoso com as palavras, ele escreve a letra de uma canção romântica, A chave do teu coração, que se torna o maior sucesso do gênero em décadas. Ganha fama e dinheiro, mas não se livra de seu conflito de formação: pouco à vontade tanto no morro quanto no asfalto, caminha inevitavelmente para um fim trágico.

O argumento, embora batido, poderia render uma boa história. Não se pode acusá-lo de artificial ou fútil: pelo menos em tese, os conflitos do protagonista fazem sentido humano e ainda espelham feridas sociais que são autênticas e, no caso do Rio de Janeiro, ostensivas. Eis as boas intenções. O sentimento básico que move o texto também é promissor: a raiva, aquilo que Susan Sontag apontou como um dos dois motores da ficção — o outro seria o medo.

Infelizmente, tudo isso se esvai numa história descosturada em que personagens esquemáticos ou mal definidos vagam por cenas soltas como se fossem movidos por seus papéis sociais, não por apetites de gente. Quando chega, sem que a baixa tensão narrativa tenha preparado o terreno, o clímax violento consegue ser ao mesmo tempo previsível e postiço. Muita coisa não funciona em Cão de cabelo, mas acredito que na base de tudo esteja um problema de linguagem.

Lelo Costa é um narrador do tipo conspícuo. Comenta, generaliza, anuncia os próximos movimentos, dirige-se vez por outra ao leitor e cultiva o hábito de colar na maioria das cenas umas legendas vagamente sociológicas ou psicanalíticas. O recurso, que contribui para achatar os demais personagens e desperdiçar o potencial de ação da trama, poderia funcionar se o festejado letrista tivesse algo menos banal a dizer. Mas Lelo passa longe de justificar a fama de habilidoso com as palavras:

Nossa cidade tem uma característica fantástica que a distingue das outras. Estou falando dessa proximidade, ou promiscuidade, sei lá, entre favela e casa de bacana num cenário pra nenhum milionário gringo botar defeito. Sou produto exatamente dessa pororoca. Cresci no morro e freqüentei colégio de classe média alta. Conheci um lado e outro.

Voz em que Sta. Cecília pendura todo o peso do livro, o narrador de Cão de cabelo nada de braçada — e, como não há sombra de distanciamento irônico, com ele o autor — num mar de lugares-comuns, platitudes e palavrões de botequim, incapaz de um pensamento que fuja do trivial dos jornais populares:

Tânia, a neguinha quente do samba no pé, era irmã do traficante mor da área. O tal do Jacaré. Mesmo assim tivemos um caso. Um caso discreto, é verdade, mas rolou. Comi ela gostoso umas quatro, cinco vezes. A primeira vez foi a melhor. Foi naquela noite mesmo, no escurinho da viela 2. Ela me pagou um boquete e depois enfiei a jeba ali mesmo, de pé. Gostosa, putinha, com seu bocão e cara de safada. Adorei gozar em sua boca.

É deliberada, claro, a adoção de um estilo “sujo”, “urbano”, “visceral”, “antiliterário” ou qualquer outro desses adjetivos que uma abordagem indulgente poderia conceder ao livro. Resta lamentar a tentativa de jogar a “fala das ruas” na página sem um trabalho mínimo de estilização em que se pudesse vislumbrar a assimilação do legado de João Antônio, Antônio Fraga ou Rubem Fonseca — para citar apenas três sujeitos que, cada um a seu modo, encontraram saídas para essa difícil sinuca.

Ao transformar, por contraste, Cidade de Deus na obra de um virtuose da prosa, Cão de cabelo acaba sendo um compêndio de defeitos de um certo naturalismo naïf que já despachou tantas boas intenções para aquela região que dizem ser cheia delas.

* * *

De naturalista — ou, a propósito, de ingênuo — o livro de João Paulo Cuenca não tem nada. Se alguma luz o romance de Mauro Sta. Cecília ajuda a lançar sobre a novela do adversário, é esta: O dia Mastroianni pode ser lido como um Cão de cabelo em negativo, seu antípoda perfeito. Um é condenado pela linguagem, num acidente de percurso que faz capotar o projeto sensato e para todos os efeitos louvável de contar uma história “relevante”; o outro debocha tanto das histórias quanto de sua relevância, e tem um ponto de partida tão extravagante e leve, quase uma bobagem, que seria uma completa perda de tempo se não fosse salvo pela linguagem.

Mais do que salvo pela linguagem, O dia Mastroianni é linguagem pura, um belo exercício de estilo erguido sobre o vazio que o século XXI abriu sob os pés dos escritores, essas figuras anacrônicas e vagamente ridículas. Ou pelo menos sob os pés de uma nova geração de artistas sem obra, só pose e joguinhos de palavras, com seu cinismo de butique e seu tédio prêt-à-porter. Uma geração que, além de ser a do próprio Cuenca, é a de Pedro Cassavas, narrador de cinco sextos do livro e protagonista de sua totalidade.

O dia Mastroianni acompanha as perambulações etílico-filosófico-sexuais de Cassavas e seu amigo Tomás Anselmo, dois flâneurs muito jovens e muito bem vestidos, por uma metrópole de sonho. Em sua riqueza de detalhes arquitetônicos e urbanísticos, o cenário chega a lembrar uma das “cidades invisíveis” de Italo Calvino:

No salão envidraçado, vemos os distantes canais arroxeados cortando o casario medieval e os sobrados afundados feito caracóis na areia, as pontes ligando quarteirões e pequenas ilhas, o centro financeiro e seus arranha-céus, as gruas sobre esqueletos metálicos, as cúpulas ásperas das catedrais, os grandes teatros art déco e, por trás de tudo, depois das colinas do bairro histórico, o deserto e seus desfiladeiros.

Da manhã à noite, nada muito importante acontece — e se acontecesse não faria diferença, porque nenhum dos dois dândis acredita na realidade. A tarefa de manter o leitor interessado fica a cargo da prosa, que se desincumbe da tarefa assobiando. Para isso desfila recursos como enumeração surrealista, citações pop mais ou menos veladas, adjetivação surpreendente e, coisa cada vez mais rara nas letras nacionais, um apurado senso de humor:

Saímos na hora da oração, quando todos se ajoelham em direção a Madureira. O maître nos alcança, nos cobra e nos conta uma fábula.

Os capítulos são entremeados de curtos blocos de diálogo em que Cassavas é interpelado por uma voz rude que soa como um superego anabolizado e grita com ele em maiúsculas para criticar a história que está sendo contada. Só no capítulo final, quando a tal voz assume o comando, fica claro que presenciamos uma conversa entre autor e personagem.

Se esse resumo acende algumas luzes de alerta — esteticismo, futilidade, metalinguagem e niilismo de almanaque —, parabéns, você é um leitor perspicaz. Mas é preciso levar em conta que tudo isso está nos planos de Cuenca. Esperto, seu livrinho encena, sublinha, justifica, tira sarro e finalmente rebate as críticas de irrelevância que lhe possam ser endereçadas. A resposta é algo como: não, a literatura não serve mesmo para nada, mas o que mais poderia criar uma inutilidade tão prazerosa quanto esta?

O dia Mastroianni
O dia Mastroianni
de João Paulo Cuenca

você concorda?

O resultado do jogo 15 foi justo?

Carregando ... Carregando ...