Jogo 9

Difícil duelo gaúcho em partida que só se resolveu nos últimos momentos.
Evidentemente, diante do romance de Daniel Galera — já experiente, premiado, convidado a participar da coleção Amores Expressos — ficamos mais exigentes.
Em Cordilheira, Galera é o mesmo escritor competente das obras anteriores, mas a narrativa tem, na minha opinião como leitora, dois problemas.
Primeiro, deixar escapar a excelente ideia de apresentar um círculo de autores argentinos como um bando de estropiados, maníacos, perversos. Só faltou um cego. Situação interessante, de algum modo pondo em discussão o tema da vida literária, da relação entre vida e obra. Poderia ser ocasião inteligente de nos fazer pensar sobre as “igrejinhas” formadas por escritores, na Argentina e no Brasil. E mais: a misoginia, as visões autocentradas, as vaidades. No entanto, com a solução dos suicídios um tanto gratuitos — especialmente no caso de Holden, autor/personagem — o que se tornara um dos temas prinicpais da obra termina mal resolvido, como se fosse importante demais para a narrativa, que termina não dando conta dele.
Do segundo problema, a culpa é de Flaubert com aquela história de “Madame Bovary, c’est moi“. Mesmo assim, o próprio Flaubert recorre a diversos pontos de vista, ou simplesmente fecha a cortina da carruagem no momento em que Emma seria a única narradora possível. O último capítulo de Cordilheira, quando o narrador recupera a palavra de Anita, faz a gente pensar: para que foi complicar o romance com essa voz feminina assumindo a condução da obra? Sempre que um recurso de construção da narrativa se torna gratuito ou pouco rentável, isso incomoda.
Antônio Xerxenesky surge como um escritor hábil e, contrariamente ao que afirma na dedicatória do livro ao pai, bem-humorado. As estratégias narrativas são sempre denunciadas pelo próprio autor, anulando a ideia de “efeitos especiais” desnecessários. É assim que Xerxenesky desqualifica a besteirada dos mortos vivos, que vai para segundo plano, e acaba ficando com a velha questão que nos persegue desde a Grécia antiga quando Sófocles escreveu Édipo Rei e foi retomada por Freud para marcar nossas vidas: como é difícil matar o pai. Nesse momento, Miguel e Juan ganham contornos mais nítidos e viram, de fato, personagens, tanto no faroeste como na história do velho aposentado mexicano que se debruça sobre o computador para escrever um livro.
Ao contrário do que pode parecer, não é fácil contar uma história de faroeste no Brasil. No livro de Xerxenesky, a evidência do pastiche se mistura a um gosto pessoal pelo gênero, tributário do cinema americano. Guardando as devidas proporções — para o sucesso não subir à cabeça de nosso autor — este me parece ser o segredo de Philip K. Dick em Blade Runner e de J. G. Ballard em Crash ou Running Wild. Às injunções do gênero, que podem ser óbvias ou limitadoras, os autores mesclam reflexões que vão desde o cotidiano das grandes cidades globais à violência e o sofrimento dos solitários.
Areia nos dentes resulta um romance que prende a atenção e diverte, mas deixa um certo travo, arenoso, na garganta do leitor. Apesar disso, o jovem autor promete e levou esse round com sua obra — apresentada, generosamente, por Daniel Galera.
Vencedor




Ora, ora, que surpresa! A CBL como sempre, cheia de zebras.
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Não entendi quando a resenhista fala sobre “Às injunções do gênero, que podem ser óbvias ou limitadoras, os autores mesclam reflexões que vão desde o cotidiano das grandes cidades globais à violência e o sofrimento dos solitários.” Qual é a conexão com Philip K Dick e JG Ballard?
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O grande mérito do Areia nos Dentes, pra mim, é esse grande jogo que o Antônio faz com o pastiche. Vai tratar de uma questão interna bem legal, construindo todo um cenário surreal para que você se envolva com isso sem perceber. E o Galera, que sempre é boa leitura, estava com essa história de amor à frente, imposição do Amores Expressos. Não sei, vocês podem discordar, mas acho que, se o romance não tivesse sido uma obrigação, talvez ele não existisse e talvez o livro ficasse mesmo memorável. Porque bom ele é, mas confesso que fiquei incomodado.
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Esse sim um dos jogos mais difíceis da CLB. Eu não saberia apitá-lo.
É estranho, concordo com a Beatriz em várias passagens da resenha, mas ao mesmo tempo sinto que Cordilheira foi um pouco injustiçado.
No entanto, se o Galera tivesse levado, também não acharia totalmente justo.
E não acho que o foco narrativo em 1ª pessoa em Cordilheira seja “gratuito ou pouco rentável”. Eu acho que a “voz feminina complicando o romance” é um dos (vários) pontos altos da narrativa. Levar Cordilheira na 3ª pessoa, poderia ser assumir o risco de fazer um ‘Mãos de cavalo versão feminina’(desculpem a heresia), e acho que o que o Galera quis foi subverter tudo o que já tinha feito anteriormente.
Ou não.
Ah, ficou faltando dizer qual seria o “travo” do Areia.
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Gostei do resultado.
Galera me lembra do time do Inter (comparação que ele, como gremista, vai odiar, mas paciência): foi injustiçado quando tinha reais condições de ganhar (naquela palhaçada a favor do Corinthians) e agora, com um time que é competente mas não tem a chama, até que avançou bastante. Explico a comparação: Galera foi vítima de um erro grotesco de avaliação na Copa 2007, ficando pelo caminho com Mãos de Cavalo, muito superior a Cordilheira – com potencial para ir até a final (como é que Mãos de Cavalo cai na primeira fase e Leda chega na semifinal, senhor?). Este ano, Cordilheira concorre com um livro que, embora não tenha a exuberância e a segurança técnica que Galera esgrime em seu romance, me parece melhor por ousar mais, por se propor um desafio e executá-lo. Mesmo o que é estranho e gratuito parece ter seu lugar, algo que o grupo dos escritores/encenadores argentinos em Cordilheira não consegue encontrar. Mas foi um bom jogo.
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Delfim [3], de acordo com o Galera a idéia do Cordilheira já vinha há tempos. Para que o livro fosse da Amores Expressos, ele só colocou a historia se passando em Buenos Aires. Mas uma coisa que tenho achado interessante é como os autores dessa coleção estão se desviando. Nem o livro do Galera nem o do Ruffato são histórias de amor.
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Gostei da análise do Cordilheira.
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“Travo” = é preciso pensar em papilas gustativas para entender esse “travo”. Não é do verbo “travar”. Abraços.
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“(como é que Mãos de Cavalo cai na primeira fase e Leda chega na semifinal, senhor?)”
A CLB é uma caixinha de surpresas.
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Quero ver se os fãs do Galera vão fazer barulho agora, como fizeram em 2007.
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“Travo: 1 Sabor amargo e adstringente da fruta. 2 Sabor adstringente de qualquer comida ou bebida. 3 Amargor. 4 Vestígio ou impressão desagradável. (…)”
Merci, Carmen. ^^
Ainda assim: qual é essa ‘impressão desagradável’ que o Areia deixa? Queria que a Beatriz esclarecesse.
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Laura,
Já sentiste alguma vez aquela “areia nos dentes”, por exemplo, em beira de praia? Acho que é isso.
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Coisas como “a besteirada dos mortos vivos”, Laura. E o risco de utilizar “injunções do gênero, que podem ser óbvias ou limitadoras”.
Ou seja, o “travo” só é sentido por quem usa cabresto.
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leia o comentário 11!!
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Sei muito bem o que é travo, Carmen. Eu falo português. Obrigado, de qualquer forma.
Só que o “travo arenoso” mencionado pela resenhista é uma metáfora. Diz respeito a alguma coisa que a incomodou no livro, mas não ficou clara na resenha.
Essa é a reclamação da Laura, perfeitamente legítima. Minha interpretação é a que escrevi no comentário 13: pura birra com tudo que não parece elemento de “literatura séria”.
Isso me parece ainda mais plausível ao lembrar que a mesma resenhista fez reservas parecidas ao Mãos de Cavalo, daquela vez reclamando da presença de video games e bicicletas na narrativa.
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Entendo. [12] e [13]
Só acho que esses não são exatamente os problemas do Areia. Os mortos-vivos são impotantes no enredo e as ‘injuções do gênero’… bom, eu vi ali na resenha como elogio.
Eu acho que o único porém do Areia é que ele é muito só entretenimento. E isso é qualidade por um lado, mas defeito por outro.
Quando o livro termina, ele termina e foi só diversão e pronto.
Já o Cordilheira (assim como todos os livros do Galera, o Mãos em especial, claro) tem uma espécie de efeito pós-leitura, parece que sua leitura tem um “peso” (na falta de palavra melhor) maior.
(esclarecendo: gosto muito dos 2 livros)
Fiz uma resenha do Areia. Tá aqui: http://geleiageral001.blogspot.com/2009/09/muito-alem-do-oeste.html
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Me diverti muito com o [i]Areia no dentes[/i]. Tem até uma virada de página impagável (129 > 130). Acho legal livros com sacadas de virada. Deveria haver um nome pra essa sensação de virar uma página e levar uma surpresa, um nome com som brasileiro, tipo ‘baruá’, ‘folheba’ ou ‘coipenga’. “[i]Folhebas na madruga[/i] é um romance cheio de gratificantes coipengas.” é infelizmente uma frase q jamais será lida fora daqui.
Mas discordei da derrota de [i]Cordilheira[/i]. Tava esperando q chegasse à final.
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Catso, confundi o html do Orkut com o daqui..
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Plausível, até onde vocÊ me falou, você esprava o Paulo Coelho chegar até vocÊ, o que seria incompatível com a convicção de o Cordilheira chegar na final.
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Nao li o Galera mas Areia me prendeu de uma forma que não consegui largar até chegar no final.
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Angela, eu tive essa sensação com o Até o dia em que o cão morreu. Com o Areia idem. São livros muito espontâneos.
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1. Não li nenhum dos dois, mas os lerei – já os leria antes da resenha, então o desejo de ler não veio dela.
2. Observo que a resenha abre falando que é difícil a parada, mas encara a coisa sem firula, manda ver. É isso, a tarefa é essa, a coisa que se pode fazer em comentário de literatura tem a ver com isso – e, para entender o oposto disso, compare-se com o nhenhenhen do Alex Castro. Aqui a resenhista sintetiza os argumentos e mobiliza as correlações que vê propostas nos/ pelos livros – o que não quer dizer que seus autores vão concordar (provavelmente vão se queixar, pois há de ser esporte de autor negar o valor da crítica) mas isso importa menos. Eu entendi qual é a leitura da resenhista, e acredito que há algo honesto no negócio, resumível no “Olha, eu li assim – é isso que eu li”. É simples assim – embora quase nunca seja exatamente “fácil”.
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Fernando,
Ah, não, o q eu disse foi q iria gostar de ter a oportunidade de resenhar o PC só pra poder escrachá-lo. Detestei.
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Tendo julgado “Leda” na semifinal citada, concordo plenamente com o Hefestus. Acho “Mãos de cavalo” bem melhor que o “Cordilheira” – e acho que livros bons injustiçados anteriores predispõem os jurados de qualquer prêmio a galardear o mais recente por procuração. (Desculpem o período enorme.)
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Mesma coisa todos os livros anteriores do Mutarelli vs. sua premiação em Passo Fundo pelo “Arte de produzir efeito sem causa”, que não amei de paixão como os outros. Mas tudo bem: entendo. É natural esse tipo de compensação.
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Benito,
Mandou bem no trocadilho “o ‘travo’ só é sentido por quem usa cabresto”. Essa é uma objeção q tenho eu ao tipo de crítica q aparentemente deriva de uma fixação em gêneros e suas “injunções”. Estruturar com injunções de gênero uma leitura de texto criativo é como negar ao autor uma boa parcela de sua liberdade. Um dos principais atrativos da literatura é o fato de ser uma das poucas atividades individuais e (quase totalmente) independentes. Nisso concordamos.
Mas acho q vc se enganou em tua interpretação da resenha acima. O travo mencionado tem a ver com um desconforto psicológico com a relação pai/filho em AnD. Não é um tratamento, digamos, “agradável”, do tema, a história de um filho q mata sua adorada amante pra não destruir o próprio pai (q de qqer modo já tá morto), e então se “entrega” voluntariamente ao instinto ãã comedor do pai zumbi. Ainda mais num livro q o autor dedica ao próprio pai. É uma idéia sem dúvida original e bem realizada; mas se há uma simbologia pretentida (sem dúvida não-sexual) pra além do humor e do escracho, ela fica automaticamente muito MUITO maculada por ruídos psicoanalíticos.
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boa resenha, beatriz. boa e surpreendente. surpreendente, pelo menos, para quem como eu só leu o cordilheira e gostou bastante.
discordo da crítica sobre o foco narrativo q não me parece ser nada gratuito nem deixa a desejar, pelo contrário – o capítulo inicial e final são bastante eficientes como intróito e conclusão.
entendo q o suicídio de holden tenha parecido gratuito. mas acho q o galera pensou em utilizá-lo como anticlímax. afinal, vem logo depois de um aborto espontâneo q representa o fracasso de anita em concretizar aquela obsessão em ter um filho e q a levou até o cimo da cordilheira. e até essa cena, a gente fica em suspense, na dúvida se ele irá até o fim ou acabará fracassado como o personagem de seu próprio livro.
no fim, fica a impressão dq o galera perdeu pq frz uma jogo convencional [narrativa linear, personagens planos] e não seguiu fez malabarismos ou jogadas ensaiadas q o árbitro aprecia [colocar um cego no grupo de escritores esquizóidos ao qual anita se junta seria um clichê-chavão-mor insuperável q o galera fez mto bem em evitar].
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Não tinha pensado no “travo” dessa forma, Doc. Culpa do meu próprio cabresto, sem dúvida.
Mas é uma interpretação interessante.
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Pessoalmente não gostei de Cordilheira porque me parece um projeto ambicioso que não dá conta de tudo aquilo que propõe. Cordilheira move-se como um cavalo num jogo de xadrez: nos momentos em que parece estar avançando, subitamente pára e depois anda de lado. O livro parece não olhar diretamente para nada daquilo que sugere, parece sempre resolver mal o que parecia algo interessante. Às vezes o clima parece noir, mas não é, às vezes, o texto todo parece metaficcional, mas não é, os personagens causam alguma estranheza, que depois vai diminuindo até parecerem comuns. Quer dizer, no fim o livro parece uma coleção anticlimática. Daí poderia haver um quadro geral dessa coleção, algo que faça sentido a reunião de tantos quase-assim, mas não há nada.
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Não acho o Areia nada espontâneo [21].
Sim, isso é um elogio.
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Essa descrição em [29] deixou Cordilheira parecido com um filme dos irmãos Coen. Não me parece uma comparação ruim.
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ADOREI as críticas da crítica. A discussão em torno do “travo”foi ótima. Ô brincadeira boa essa. Já estava mesmo na hora de “descanonizar”a crítica literária.
Beatriz
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