Jogo 7

Quando um certo dr. Plausível indicou meu nome para participar da Copa de Literatura, minha vontade era dizer não. A ideia de uma copa me fez lembrar o mundo do futebol, o mata-mata muitas vezes decidido “injustamente”. A escapada oportunista de um perna-de-pau, o gol fora de casa, a retranca intransponível, a contusão, o erro de arbitragem, a falta de inspiração, a sorte, o azar, tudo isso pode determinar a derrota do melhor time para uma equipe tecnicamente inferior. Diferente de um campeonato por pontos corridos, onde prevalece no fim, em tese, a organização, a regularidade, a força do elenco, a capacidade efetiva dos times vencedores.
No plano literário, a perspectiva parece até irresponsável. Por que um livro deve vencer outro e seguir na disputa? A escolha de uma obra entre duas por um jurado, escolhido sabe-se lá por quê, teria, sempre, a marca da subjetividade, do arbítrio. Por outro lado, ainda que eu olhe para tudo e para todos com dose extremada de ceticismo, não sou crítico profissional nem amador. Não domino o instrumental necessário para a tarefa, e sempre que me arrisquei, confesso, me arrependi.
Mas tenho outro defeito. Não sei dizer não. E aqui estou, destinado a escolher entre dois livros: Jonas, o copromanta, de Patrícia Melo, e A arte de produzir efeito sem causa, de Lourenço Mutarelli, autores interessantes, bem sucedidos e que, se tiverem um mínimo de juízo, devem se lixar para a minha opinião.
Estabeleci um critério de antemão. Venceria a disputa o autor que provocasse em meu espírito maior estranhamento.
Para minha surpresa, os personagens centrais das duas obras veem as letras “dançando” em seus sonhos… Amargurados, obcecados ou destruídos, tentam solucionar enigmas desprovidos de lógica e caem no vazio aparente da loucura. As duas obras tangenciam a vida de escritores: Rubem Fonseca, em Jonas, o copromanta; William S. Burroughs, em A arte de produzir efeito sem causa. Pura coincidência? Lucas Murtinho que explique o jogo que me foi dado. Até nas ilustrações dos dois livros — editados em 2008 pela Companhia das Letras — uma convergência de formas pode ser percebida:

Jonas, funcionário burocrático da Biblioteca Nacional, prevê o futuro a partir da observação criptográfica e dos desenhos diários das próprias fezes, que coleciona em álbum, e sente-se plagiado pelo escritor Rubem Fonseca (transformado em personagem de Patrícia Melo), perseguindo-o pelas ruas do Rio de Janeiro para desmascarar o que considera um complô formado para invadir sua mente e se apropriar de seu dom.
O personagem de Lourenço Mutarelli, o Júnior, funcionário de loja de autopeças, larga tudo, mulher, emprego, volta para a casa do pai; perdido no infortúnio da traição, mergulha na bebida, no delito, no sono e, inconscientemente assombrado pelo espectro de Burroughs, na observação mórbida de letras e palavras que se multiplicam até o infinito.
Li os dois livros simultaneamente, como se o embaralhar do jogo ajudasse a decidir. Eu me senti obrigado a ler, ainda, o conto de Rubem Fonseca que serve de pano de fundo para a história de Patrícia Melo, “Copromancia” (Secreções, excreções e desatinos, Companhia das Letras, 2001).
E para evitar a perspectiva de um apressado estranhamento em relação a uma das duas obras (o adivinhar pelo exame das próprias fezes pode soar para o leitor da resenha como algo por si só extraordinário, esquisito, e saliento que o livro de Patrícia Melo não é escatológico), abro parênteses para registrar que a copromancia não é invenção de Rubem Fonseca.
Na Internet está (N.E.: Estava. O link a seguir leva a uma página que reproduz parte do conteúdo do site citado.) o site da Associação Copromântica Brasileira, criado para evitar que esta “digna profissão” fique “à mercê de aproveitadores inescrupulosos ou mesmo de pessoas voluntariosas, mas totalmente despreparadas”. Verifiquei, admito que um pouco espantado, a existência — cúmulo do corporativismo — de Projeto de Lei de Iniciativa Popular, seguido de abaixo-assinado, com o objetivo de regulamentar a profissão do “copromante”, assim considerado, para fins legais, “aquele que estabelece juízos a partir do estudo das configurações de massa fecal de qualquer espécie, calculando e elaborando cartas fecais”, com reserva de mercado estabelecida para a análise da “interrelação entre cartas fecais na avaliação de relacionamentos entre pessoas, entidades jurídicas e nações”. Apesar de se tratar de “ciência e arte de raízes bastante antigas”, pré-históricas, caso o Congresso Nacional aprove a iniciativa estaremos caminhando para a queda da última trincheira no processo de erosão da privacidade que atinge os nossos tempos. A quebra do sigilo fecal.
Mente, portanto, o personagem do conto de Rubem Fonseca quando afirma que “copromancia” é “palavra inexistente em todos os dicionários”, palavra que compusera “com óbvios elementos gregos”, assim como mente o Rubem Fonseca construído por Patrícia Melo, que alega ter criado um “neologismo que uniu duas ideias em latim, fezes e adivinhação”. Se a palavra copromancia não está nos dicionários disponíveis, não é por não existir. Uma explicação razoável para o esquecimento está no mais antigo léxico de nosso idioma, o Vocabulario Portuguez & Latino, de Raphael Bluteau, editado em Coimbra entre 1712-1728, texto precioso e disponível no site do Instituto de Estudos Brasileiros da USP: “da supersticiosa e falsa arte de adivinhar se acham nos autores muitas outras espécies, que passo em silêncio, por serem matéria indigna da curiosidade de um cristão” (verbete “Adevinhação”).
Mas vamos voltar aos dois livros.
Jonas é o narrador da obra de Patrícia Melo, capaz de sentenciar de forma elegante sentimentos que costumam escapar da percepção comum: “É fácil ser impreciso e confundir as pessoas”. Quanto tempo demora a saudade, o luto? “O resto da vida. Aumenta. Diminui, mas nunca desaparece. Nunca.” Narrador capaz de contar (assim como o personagem de Rubem Fonseca, o original) tudo o que se passou com Jonas até o desfecho que o leitor desconhece. O que particularmente me incomoda em Jonas, o copromanta é justamente esse narrador tão lúcido, suficientemente distanciado do abismo que se oferece diante dos próprios pés, a reconstituir sonhos, pensamentos, diálogos e gestos como se fora a memória de terceira pessoa.
Diferentemente, a trajetória de Júnior é lançada pelo narrador onipresente, terceira pessoa mesmo, que a tudo observa descrevendo os sonhos, pensamentos, diálogos e gestos do protagonista. O que particularmente me incomoda em A arte de produzir efeito sem causa é justamente uma espécie de reforço narrativo do que o ouvido absoluto do escritor já havia captado. “Estão tirando coisas de dentro de mim. Eu preciso ir”, diz Júnior ao amigo. Por que então o narrador deve surgir e realçar que “um parasita destrói o seu cérebro”?
O narrador criado por Mutarelli é também capaz de sentenciar de forma elegante sentimentos que costumam escapar da percepção comum: “Nenhum sentimento se compara ao de ser perdoado”.
Mas é na descrição objetiva da cena e nos diálogos mais corriqueiros e ingênuos que a obra de Lourenço Mutarelli se apresenta forte e, por isso, provoca o meu estranhamento. “Quando eu era novo, tudo era mais simples. Não tinha tanta doença”, ou “Tem coisas que é melhor não mexer”, ou “Às vezes não parece que tudo se repete?”. Observem este trecho e os grifos que tive a ousadia de fazer em duas pequenas frases que, no meu olhar, poluem:
Júnior acorda tamanho é o silêncio. Sente-se bem. O relógio do vídeo não marca a hora. Todos dormem. Não há café na garrafa. Júnior lava o rosto, escova os dentes com o dedo e penteia o cabelo com as mãos. Não muda de roupa porque as suas roupas estão guardadas no quarto do pai. Procura não fazer barulho ao sair. Chama o elevador. Enquanto espera, percebe uma rachadura no piso. Uma linha sinuosa que parte de uma coluna e avança quase até as escadas. O elevador demora. Júnior desce de escada. Percebe que a rachadura se repete a cada piso. Uma discreta ameaça. O porteiro não está na guarita para abrir o portão. Júnior espera. Ansioso por um café e pelo primeiro cigarro, anda até o portão. Passa o braço pela grade e aperta o interfone preso do lado de fora. Está dentro e fora. Em poucos segundos o porteiro surge correndo. Abotoando as calças.
— Vai sair?
— Eu só toquei porque não tinha você.
— Então não vai sair?
— Não, quer dizer, vou. Só estou falando isso para você não pensar que estou do lado de lá chegando. Para não pensar que toquei para entrar. Entendeu?
— O senhor já está dentro. Por que eu ia pensar isso?
— Não é isso. É que eu toquei de fora, entendeu?
— O senhor vai ou não vai sair?
— Vou.
O porteiro aciona o botão que destrava a saída. Júnior, por um momento, parece ausente e permanece ali parado [...].
Seria mesmo necessário ressaltar a “discreta ameaça” ou o estar “dentro e fora”?
Talvez um dos maiores desafios literários seja a transposição para o papel do mistério que habita a insanidade. Ler não é como ir ao cinema, onde a música, o som (inclusive do silêncio), os efeitos especiais etc. permitem uma experiência sensorial mais fácil. Houve um instante, lendo A arte de produzir efeito sem causa, em que senti aquele arrepio que só o medo pode provocar. Por isso, ele leva o meu voto.
Pelo menos aqui, vence Lourenço Mutarelli e perde Patrícia Melo. Ao jurado, as batatas.
Vencedor




Mais uma avaliação excelente. E o critério, “o autor que provocasse em meu espírito maior estranhamento” foi definitivo. É isto mesmo, é o que a literatura dá: o que se sente.
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Difícil estar na pele do Luís Francisco, mas gostaria de saber um pouco mais dos livros…
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aêêêê… apresentação bem bacana, critério de avaliação inevitavelemente subjetivo, mas bem justificado e… uma citação uma longa citação!
ótima resenha, luís francisco. oq particularmente me incomodou nela foi a contradição não explicada das mentiras do rubem-narrador e do rubem-personagem [§11]: o primeiro afirma que copromancia é palavra composta por elementos gregos [certo]; já o segundo, criado pela patrícia, diz que reuniu duas palavras em latim [!!!]. isso contou pontos negativos para sua avaliação?
extrapolando, me pergunto se isso seria erro por pura ignorância/desatenção da autora ou algo proposital, adrede, justificável por “exigências ficcionais”, tipo: jonas é um falso erudito, um ignorante q gosta de se passar por pessoa culta e comete erros assim.
acho q a partir d agora já dá para ir fazendo as apostas para as próximas partidas. ainda não li todos, mas aposto q passam para as semifinais: cordilheira, galileia e o ponto da partida. arrisco ainda q se o vencedor do jogo 8 for hatoum [como eu apostaria], o mutarelli perde.
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Não li o Jonas, mas achei A arte de produzir efeitos sem causa muito ruim. Se não aparecer um Simon no meio do caminho, de Órfãos do Eldorado x O conto do amor sai um semifinalista. Ou talvez até seja uma final antecipada.
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A resenha é excelênte. Foi claro acercas dos critérios. Por outro lado, nenhum dos livros me chamou atenção.
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Asa de Arapiraca X Sampaio Corrêa
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Gostei da resenha e, dentre esses dois, concordo.
Mas esse não é o melhor trabalho literário do Mutarelli. Jesus Kid, O cheiro do ralo e O natimorto (reeditado este ano) ficam na frente.
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1. O que disse o Hitchens [comentário 4] eu podia ter dito: “Não li o Jonas, mas achei A arte de produzir efeitos sem causa muito ruim.” Aliás, estou dizendo agora, citando ele.
2. O comentário de Aznavu me perdeu completamente: demonstro aqui minha ignorância qto aos meandros da terceira divisão, e com relação ao futebol em geral. E peço, por favor, uma explicação.
3. O critério do estranhamento é bom, tem potência – mas, estranhamente, essa resenha me deixou meio sem ter o que dizer, mesmo considerando que já li um dos livros. Talvez seja o caso de ler de novo, e quem sabe faça isso depois.
Comentário geral: não lembro o ritmo dos anos anteriores, mas estou achando que talvez fosse mais proveitoso ter mais tempo pra que os comentários rendessem aqui na caixa. Com essa sucessão de jogos seg e qua se ocorre um imprevisto o cara perde a chance de comentar e aí o jogo vira e aquela caixa já era. Tá corrido. Ou não?
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sport X fluminense… ou, em termos automobilísticos, rubinho X nelsinho piquet!
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É pra terminar ainda esse ano, A.M..
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Dei boas risadas com o aparte sobre a copromancia, com esse tom de laudo lingüístico.
Notei q, em retrospecto, o critério do estranhamento foi o melhor pra esses dois livros q – pelo q se pode inferir da resenha e dos comentários – não passam de apenas medianos. Estranho não é, claro, esquisito.
Mas fiquei meio sem entender o porquê das objeções justamente às frases q, pelo menos a mim, causaram estranhamento.
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Não há muito o que ser explicado, AM: na 3ª Divisão do Campeonato Brasileiro ou numa peleja entre Lourenço Mutarelli e Patrícia Melo, é recomendável ignorar os seus eventuais “meandros”. Não deve ser nada bonito.
Quanto aos meandros da resenha do abnegado L.F. Carvalho Filho e aos meandros da peleja anterior, ouvi um gaiato comentar: “Em Flores Azuis há bons exemplos de cartas fecais”.
Pô, nada a ver.
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Aparentemente, a FIFA deletou o meu inofensivo comentário anterior. Acredito que devido a um comentário relacionando essa resenha e uma anterior. Ok, desculpem-me.
Enfim, AM: quando trata-se da 3º Divisão do Campeonato Brasileiro ou de um embate desse porte, não são necessárias muitas explicações. Se é que existem, evite tais meandros.
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Ops, foi mal.
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1. A Fifa aqui, com o Cartola Murtiño, é bem laxista, Aznavu: só não vale “argumentar” sugerindo incrementos na vida sexual do resenhista e coisas dessa estirpe. Agradeço seus esclarecimentos.
2. Devo dizer que tenho boa vontade com a Patrícia Melo: li, logo qdo saíram, o Elogio da Mentira e o Inferno, e esses livros, embora efêmeros, não me ofenderam. Mas não corri atrás de mais.
3. Devo dizer que tenho má vontade com a persona autoral do Mutarelli – essa coisa que ele produz em entrevistas, no blog do Amores Expressos, e que esse texto deixa entrever um pouco como sobreposição entre personagem e autor. Me torra um pouco o saco essa coisa do loser-mas-cult.
4. O Dr manda bem mais uma vez ao lembrar que “Estranho não é, claro, esquisito”. A conferir, então, do que estamos falando quando falamos em estranhamento. E, como curiosidade: ainda valeria como critério de artisticidade literária? Tipo, num aparelho imaginário chamado estetímetro, pontuaria mais quem se aproximasse do quantum de estranhamento causado pela leitura de, digamos, Finnegans Wake e necessariamente menos quem se aproximasse de, vá lá, Floradas na Serra?
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AM, nas copas anteriores o ritmo era de um ou dois jogos por semana. De repente a partir das quartas boto um por semana mesmo, e em 2010 me organizo melhor pra deixar um por semana sem que isso implique na Copa findar depois do ano. Mas também podemos tentar manter as caixas de comentários antigas vivas. A Bilu Tetéia, por exemplo, comentou lá no jogo 3 hoje.
Também gostei do critério de estranhamento, e concordo com o que o LFCF disse do Arte de produzir. Também acho que o livro consegue transmitir sensações que em geral não se encontram no usufruto da literatura. Quando dizem que o livro tal parece um filme ou que o estilo do autor tal é cinematográfico, um pé meu costuma recuar, mas nesse caso é um elogio.
Tenho carinho pela obra da Patrícia Melo porque aos treze anos de idade o que eu mais queria da vida era ser o novo Rubem Fonseca. Nenhum dos livros dela que eu li se compara ao melhor da obra fonsequiana, mas dizer isso é colocar o sarrafo na altura de um décimo andar; e às vezes, como no caso do Jonas, o livro vale um Rubem Fonseca mediano, o que na minha escala de valores não é pouco.
A questão do estranhamento vale a pena. Sem muito a dizer no momento, deixo uma provocação: ele pode valer como critério de artisticidade literária, mas não necessariamente de qualidade literária. Arte demais às vezes cansa.
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Nunca havia lido nada do Mutarelli – nem entrevistas, AM – e só vi o filme “O cheiro do ralo” bem recentemente, por isso não tinha preconceitos nem sabia o que esperar do “A arte de produzir efeito sem causa”.
Gostei demais. Desde “O Paraíso é bem bacana”, lá nos idos da primeira Copa, não gostava tanto de um livro brasileiro. Aliás, deixando de lado isso de livro brasileiro, foi dos melhores livros que li esse ano, ponto.
O Luis Francisco e o Lucas já falaram antes, e é isso aí: o livro causa um desconforto impressionante. Poucas vezes li livros assim, que me obrigassem de vez em quando a parar, fechar o livro, fechar os olhos, respirar fundo. E por muito tempo depois de terminar a leitura essa sensação esquisita permaneceu…
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Essa Copa rende alhures. Exemplos:
1. Em outro lugar, um amigo comentou comigo que
“Não gostei da última resenha. Não falou nada sobre os livros. Único critério: estranhamento. WTF?
A única coisa que gostei é que o autor da resenha foi bem fiel a sua proposta. Queria analisar os livros sob perspectiva X e assim o fez.
O problema é que X, pra mim, parece um critério dentre os inúmeros que podem ser usados.
Literatura é estranhamento, mas não é SÓ estranhamento. Nem é SÓ forma ou SÓ ética ou (…). A questã é: na minha opinião não dá para usar um critério único como juízo de valor.”
2. Um outro amigo comentou, partindo desse comentário aí tb, que concordava com ele, e acrescentou que “como já disse outras vezes, esse apego a um único viéis é o que mais me desestimula a ler crítica.”
3. Por fim, um terceiro, entusiasta da Patrícia Melo (diga-se de passagem que ele é motivo de gozação entre família e amigos por isso: já foi visto dizendo que a Melo é maior que Sérgio Sant’Anna, p ex – mas, apesar disso, é um leitor criterioso e arguto) adicionou:
“Crítica bem bisonha. As duas últimas, aliás. Fracas. Corriqueiras – de que me adianta uma leitura banal dessas? Sou o terceiro na linha do consenso: melhor perecer pelos extremos do que pelas extremidades, o negócio é a vertigem do critério.
Não vou nem entrar nos méritos acachapantes de Patrícia Melo, mas me parece que o resenhista se perdeu no pé da letra, levou muito pro literal (“tá, mas ele tá realmente vestindo os sapatos do outro??”), escorregou na sutileza, patinou na alegoria do resíduo. Só podia estranhar, é claro.”
Alguém comenta os comentários?
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Sobre o Mutarelli, ao contrário do que vcs estão celebrando aqui, o livro pecou pra mim justo por produzir pouco, bem pouco, estranhamento, e se construir em paralelo a um Grande Objeto Indecifrável, uma conquista do estranhamento que é o Almoço Nu. Esse penduricalho intertextual mais fodeu que beneficiou o livro pra mim. Mas há um momento de estranhamento poderoso sim, o melhor momento do livro, e foi muito eloquente pra mim – sobre isso comento depois.
Sobre o livro da Melo, se alguém quiser enviar um exemplar pra mim aceito e garanto que lerei: a resenha me deixou com vontade de ler o perdedor (o ganhador eu já tinha lido).
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AM,
Apesar de haver um viés de crítica na CLB, nunca é demais insistir q um jogo de futebol entre dois livros só pode ter um intuito recreativo. Alguns resenhistas vão mais fundo do q outros, assim como alguns leitores: o q recreia um pode não recrear outro. E assim como no futebol há times q ganham marcando apenas um gol, tbm há livros q ganham por apenas um critério. A arquibancada chia, claro: o torcedor, por mais roxo, no fundo só quer ver gols e critérios aos montes pra lá e pra cá – contanto q seu time vença no fim. Um torcedor poderia parafrasear a crítica (2): “esse apego a um único gol por partida é o que mais me desestimula de ir ao estádio.” Mas resenhar na CLB não é percorrer uma lista de critérios. O resenhista nem sequer precisa justificar seus critérios. Resenhar aqui é opinar interessantemente – recreativamente – sobre dois livros e dar um parecer. Esta resenha foi recreativa, informativa e inteligente. Mais, não é possível.
A crítica (3), ao dizer “¿de que me adianta?”, tbm trai uma pré-noção de q a CLB serve pralguma coisa, ou deveria servir, além de recreação pra resenhistas e leitores – e um pouco de feedback pros escritores.
Por fim, apóio vc, AM, em insistir q todo crítico a qqer aspecto da CLB se expresse tbm aqui, onde conta.
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Não me agrada mesmo quando um crítico aplica reiteradamente (em muitos casos, obsessivamente), um único viés pra toda e qualquer obra.
Não tenho problema algum com a existência de um “viés de crítica na CLB”. Ora, ela está aí pra isso mesmo, não?, pra cumprir uma “função” crítica.
O que (me) deasagrada é a crítica calcada num único aspecto de uma obra (sociológico, histórico, técnico, estético, futebolístico, pela “estranheza”, pela verossimilhança, etc)
Nesse ponto, não há uma uniformização, uma identidade entre os resenhistas da CLB 09; não há a adoção uniforme de um único viés por todos os resenhistas. Ainda bem.
Portanto, uma eventual queixa nesse sentido, seria dirigida individualmente, não a CLB 09 como um todo; até porque – acima de tudo – ainda que rolasse uma uniformização de viés interpretativo/crítico, reconheço o intuito Recreativo da mesma e também só estou aqui pra Recriar (Eu mato, eu mato quem robou minha cueca
pra fazer pano de prato (…)Eeeeeu fui às touradas em Madri – páparará tibum-bum, paparará tibum-bum – eeeeeee quase não volto mais aqui, pra ver Peri beijar Ceci (…)As cadeiras me doem doem de tanto sambar, mas o samba está bom – TÁ – E eu não posso parar!)
Particularmente, as resenhas que mais me agradam (aqui e acolá) são as que contemplam um número maior de aspectos, questões etc
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Proposta de critério a ser usado doravante pelos resenhistas:
Suponha que você ganhou os dois livros no Natal, mas uma lei bem esquisita(estranha?) o obriga a jogar um deles na lixeira ao fim da leitura de ambos.
O que não foi pro lixo vence.
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O “Danilo Maia” se entregou no comentário 22: Alcir Pécora, saiba que vc foi desmascarado aqui na Copa. Doravante, favor assinar com seu próprio nome, para bem da esfera pública.
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REUTERS: BREAKING NEWS
Lourenço Mutarelli acabou de embolsar umas boas pilas por conta do terceiro lugar no Portugal Telecom. Será que assim o conhecido autor e quadrinista conseguirá pagar a vultosa dívida no cartão de crédito recentemente divulgada nos jornais? O Povo quer saber!
Na ocasião de entrega do prêmio, registrou-se que Mutarelli declarou que “O mundo é estranho. Mas o que mais me preocupa é que o mundo vem aceitando o meu trabalho.”
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REUTERS: BREAKING NEWS DADA
Prêmio Portugal Telecom causa apagão no sudeste brasileiro. Fontes confiáveis associadas ao Ministro Lobão dizem tratar-se de mais um “efeito sem causa”.
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AM, desculpe desapontá-lo, mas sou realmente Danilo Maia.
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Ah, Danilo! Que coisa mais… realista!
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Aproveitando o ensejo, é verdade que “em seu mais radical livro, Ó, que elege a filosofia de Montaigne, a ética de Emerson e a narrativa de Sebald como guias, Nuno Ramos aponta um novo rumo para a literatura” (Estadão) ?
Pq este livro, vencedor do Telecom, não foi classificado para a Copa (como o Acenos e Afagos e A Arte… o foram, o vice e o 3º) ?
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Porque os livros que participam da CLB são “escolhidos de forma bem pouco científica entre os romances brasileiros lançados” no ano passado, Deixa Eu Dançar Pro Meu Corpo Ficar Odara, e Ó não foi considerado romance. Dias de Faulkner, por outro lado, foi–apenas para deixar bem claro o caráter bem pouco científico do critério.
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Se não me engano o Ó foi citado na seleção inicial, Deixa Eu Dançar Pro Meu Corpo Ficar Odara. Mas resolveu-se, corrija-me Lucar Murtinho, escolher livros que fossem mais definíveis como romance mesmo, de maneira mais tradicional. Tô certo, Lucas?
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Resposta extra-oficial para sua pergunta Odara: porque não.
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Muito obrigado a todos. Agora tudo ficou jóia rara.
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30: Isso mesmo, Bernardo, Ó foi sugerido por um jurado (se não me engano, a Beatriz Resende) mas acabou saindo porque era meio complicado considerá-lo um romance. Por outro lado, O livro dos nomes está bem mais para um livro de contos e entrou. Ou seja, o Tiago A. fez muito bem em realçar o baixo grau de cientificismo do critério.
Aviso rápido: por conta de atribulações na vida do organizador da CLB (nada maligno, aos que porventura se interessem pelo bem-estar da minha pessoa), o jogo 8 ficou só para semana que vem. Ou seja, AM, mais tempo para o debate.
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Prêmios são coisas complicadas. Alguém já deve ter reclamado, p. ex., da ausência do romance de 2008 “A parede no escuro” do Altair Martins. O livro era bem discutido e lido aqui no Rio Grande do Sul quando foi lançado, mas acho que só teve projeção nacional BEM forte depois de ter ganho o prêmio SP, que, acredito, foi depois de terem escolhido os indicados da CLB. Tô errado?
Estou especulando tudo isso, só.
A CLB acaba sendo uma premiação à parte. Os jurados não recebem “inscrições” nem dúzias de livros das editoras para avaliar. Sugerem aqueles que leram/ouviram falar bem. O que pode ser bem interessante, porque concorrem romances mais inesperados que não concorreriam em um prêmio normal. (aqui alguém vai achar que estou falando de mim, e bem, de fato, estou falando de mim um pouquinho).
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Não li o Mutarelli, mas desgosto muito desse livro da Patricia. Dos que li dessa CLB, só não é pior que o “Manual da paixão solitaria”
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Aí concordo com o Xerxenesky. Zapear os livros do ano que vem dentre todos, para que haja seleções mais inesperadas (como foi o próprio livro da Não, um pouco), só pode ser bom pra CBL ser uma competição mais legal. Ou, ainda, perceber, como a FIFA percebeu, que 16 times é pouco. Tá na hora de botar 24 e, por que não?, montar chaves onde os times se enfrentam numa primeira fase todos contra todos (8 grupos de três) e, então, classificam dois de cada um desses e aí sim vai pro mata-mata. Acho que o confronto entre opiniões numa primeira fase, com duas opiniões sobre o mesmo livro em jogos diferentes, é enriquecedora pra copa, além de permitir mais livros e não complicar tanto assim o esquema atual.
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