Oitavas de final

01/10/07

Bóris e Dóris jogo 6 Pelo fundo da agulha

Jurado: Eduardo Carvalho

Existe uma coincidência — talvez uma única — entre Bóris e Dóris e Pelo fundo da agulha: os seus autores, Luiz Vilela e Antônio Torres, respectivamente, têm quase a mesma idade. Ambos têm sessenta e poucos anos e, portanto, estão cronologicamente na mesma geração da literatura brasileira. Mas pode ter sido um erro de datas: porque os seus livros lançados em 2006 não poderiam ser mais diferentes. Eles não se parecem, como veremos, em nenhum aspecto — o que não significa que a produção literária brasileira seja hoje muito variada. Não: é uma diferença menos de assuntos, de estilos, de estrutura da narrativa, do que de qualidade mesmo. Um livro é muito bom e outro é assustadoramente ruim. Não é a diversidade da literatura brasileira que a diferença entre esses dois livros juntos representam; mas a sua irregularidade.

Bóris e Dóris, de Luiz Vilela, é curto e simples. São aproximadamente oitenta páginas de diálogo de um casal durante o café da manhã num hotel de uma cidade anônima — espécie de Águas de Lindóia — onde a empresa do Bóris está em convenção. O livro não tem praticamente nenhuma frase que não seja do Bóris ou da Dóris, e as frases deles dificilmente têm mais de três linhas. Bóris e Dóris é curto e rápido: rápido como uma conversa natural, agradável. Os diálogos de Luiz Vilela são impecáveis; seus personagens falam e não precisamos de mais de uma linha para descrevê-los: “Não é o povo que é folgado, Bóris. É você que é apressado”. E a resposta do Bóris resume a sua espiritualidade, o seu senso de humor e o seu jeito de conversar com a mulher: “Eu sou um chefe, Dóris”.

O que não significa que Bóris não seja um cara espirituoso, que ele não tenha senso de humor e que não saiba conversar com a sua mulher. É verdade que ele tem um estilo às vezes um pouco autoritário, mas ele é também inesperadamente cômico, e seus sonhos - a sua megalomania corporativa — são muito sinceros: “Dóris… -— ele recuou o corpo e abriu os braços: — Eu te digo que estou prestes a realizar o sonho de minha vida, e você vem me falar da minha gravata?”. E mesmo a autoridade do Bóris é essa autoridade um pouco forçada, inocente, do brasileiro classe-média, que é legitimada pelas suas mulheres, hoje em dia, menos por medo do que por piedade. Bóris é um gerente, um homem corporativo normal, mas não é por isso que as suas idéias são todas erradas, que as suas emoções são artificiais: “ao longo da minha vida eu aprendi muitas coisas. Uma delas é: as grandes alegrias, assim como as grandes tristezas, são solitárias”.

Bóris é um homem fácil de encontrar mas um personagem difícil de compor. Seria fácil para Luiz Vilela escrever um livro — ou criar um mesmo diálogo — ridicularizando ou menosprezando a vida e os sentimentos de um burocrata comum. Mas não: a mediocridade do Bóris é comovente. Bóris é medíocre como todos nós. Seu consolo, quando descobre que não é promovido, é convincente: “Então escolheram o Junior, que você conhece. O Junior é um moço de muito valor. (…) — Isso é traição, Bóris. — Não, não é: isso é a vida”. Dóris serve, quase no livro inteiro, para isso: para abrir espaço para o Bóris mostrar o que acha da vida — ou, melhor, o que é a vida. Dóris tem alguns sonhos, mas o senso de realidade do seu marido — ou o que ele acha que é a realidade — atropela a sua imaginação. O livro de Luiz Vilela é fácil de ler e deve ter sido difícil de escrever.

Ao contrário de Pelo fundo da agulha, de Antônio Torres, que aparentemente é um livro fácil de escrever mas muito difícil de ler. Pelo fundo da agulha é o último volume de uma trilogia sobre o suicídio, que começou há trinta anos. Escrever uma “trilogia sobre o suicídio” — e em trinta anos — é de uma pretensão estratosférica. Supõe-se o básico: que o escritor saiba escrever. Mas a sucessão de defeitos de Pelo fundo da agulha é constrangedora. É quase impossível apresentar o livro e os seus personagens sem falar dos seus problemas: Pelo fundo da agulha, antes de ser um livro, é uma coleção de problemas.

O protagonista do livro de Antônio Torres, Totonhim, é um imigrante que se aposentou como bancário em São Paulo. As primeiras frases de Pelo fundo da agulha já introduzem alguns pontos que acompanham a narrativa até o final: o clichê que é o enredo, a superficialidade do personagem principal e a incapacidade do escritor de escrever uma frase decente. O final da primeira frase — “um homem que já não sabia se ainda tinha sonhos próprios” — tem dois defeitos elementares: um personagem que esgotou seu sonho junto com a sua carreira não sustenta três quadrinhos e “sonhos próprios” não é expressão que se use nem em coluna sentimental de jornal de bairro.E já no terceiro parágrafo: “Esta é a história de um mortal comum, sobrevivente de seus próprios embates, aqui e ali bafejado por lufadas de sorte”.

O texto inteiro de Pelo fundo da agulha é isto: uma variação despreocupada entre as expressões mais desgastadas — “mortal comum” — e as invenções mais forçadas, rocambolescas — “bafejado por lufadas de sorte”. O livro é escrito de uma forma particularmente ruim. E nenhum argumento é mais ilustrativo do que exemplos do seu estilo. De um lado, coisas batidas como “jaula urbana”, “cheia de amor para dar”, “amor rima com flor”, “ente querido”, “vínculo empregatício”, “ironia do destino”, “retirada do campo de batalha”, “maldizer a si mesmo”, “fofo apoio para a memória” (travesseiro), “agora ele se sentia um homem, e não um menino”, “uma dor imensa no coração”, “reação digna de uma fera, ferida”, “destituídos de glamour”, etc. E, de outro, piruetas estilísticas como “conexões estorvantes”, “quanto mais massudos fossem, mais benfazejo seria o seu quinhão”, “todos os capadócios”, “cheios de picardia”, “sinuosas insídias”, “cintilações etílicas”, “denodo exemplar”, “alvoroço exagerado”, “singelezas do mundo rural”, etc. É nítida a incapacidade de Antônio Torres de escrever com naturalidade. Seu estilo é dominado pelo lugar-comum, e, quando ele arrisca e consulta o dicionário, escapam essas pérolas que involuntariamente nos fazem rir.

Porque Pelo fundo da agulha tem um clima grave, sentimental, que não convence. Imagino o escritor citando Faulkner e Proust como as influências mais importantes. Mas Pelo fundo da agulha não é denso, grave e obscuro como Faulkner; é confuso, bagunçado mesmo. E não é complexo como Proust; é sobretudo mal estruturado. Não adianta embaralhar a sequência dos fatos para provocar aquela memória sentimental involuntária; é preciso descrever sensações e emoções de uma forma inesperada. Um escritor precisa fazer com que um sentimento — antes vago e solto para o seu leitor — fique praticamente palpável. Mas eu simplesmente não consigo descobrir o estado de espírito de um personagem que se expressa com frases como “Que porra, que porra, que porra”.

A principal diferença entre Pelo fundo da agulha e Bóris e Dóris — e eles estão cheios de diferenças — é esta: é que Bóris e Dóris é um livro bom e Pelo fundo da agulha é um livro ruim. Bóris e Dóris é um livro escrito com cuidado por um escritor com muito talento. Pelo fundo da agulha é produto de um escritor mixuruca com ambição intergaláctica. Se fosse um time de futebol, Pelo fundo da agulha seria aquele time dos amigos do bairro: com aquelas barriguinhas, aquelas chuteiras velhas, apertadas, e aquela gritaria, aquela arrogância de quem pensa que vai dominar o mundo. Eles podem jogar com toda vontade e com alguma disposição, mas é futebol de várzea. E Bóris e Dóris seria aquela equipe de jogadores articulados, que treinam juntos — e que sabem bater escanteio, falta, cabecear —, e entram em campo em silêncio e jogam com eficiência; é futebol profissional. Adivinhe quem vai dar as caneladas e quem vai marcar os gols.

Bóris e Dóris
Bóris e Dóris
de Luiz Vilela

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mesa redonda

Comentários de Lucas Murtinho

Jabuti é o cacete! Pelo fundo da agulha foi laureado pelo mais tradicional prêmio literário do país, mas aqui na Copa não deu nem para a saída. E a lista de expressões que o Eduardo tirou do livro é um argumento forte para justificar sua eliminação. Costumo duvidar da parcialidade dessas citações pequenas: lembro de uma resenha de Cloud atlas, um dos melhores livros que li nos últimos anos, em que o resenhista criticava um trecho exagerado do romance sem se dar ao trabalho de explicar que a intenção do autor era obviamente nos fazer rir daquele exagero. Mas a acumulação de trechos que o Eduardo nos apresenta parece mesmo indefensável.

Além disso, o oponente de Pelo fundo da agulha era de peso, apesar de modesto no número de páginas (e de também ter um protagonista que pode ser definido como “um personagem que esgotou seu sonho junto com a própria carreira”). Aliás, Bóris e Dóris é apresentado pela editora como uma novela e lido tão rápido que poderia ser considerado um conto longo. Vale como romance ou deveria ser desclassificado da Copa?

Fiquem tranqüilos, a pergunta é retórica: nada de tapetão por aqui. Bóris e Dóris avança lépido e fagueiro — uma expressão que talvez esteja no livro de Antônio Torres — às quartas de final, onde enfrentará Música perdida. Jogo que promete: o segundo livro também foi muito elogiado por Olivia Maia no terceiro jogo da Copa e os dois Luiz, o Vilela e o Antonio de Assis Brasil, são nomes que impõem respeito. Para saber qual vai ser eliminado e qual continua na Copa, aguardem a resenha do polivalente Rafael Rodrigues.

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Quem não acompanhou os comentários dos jogos 4 e 5 deveria dar uma olhada: Sérgio Rodrigues e André Sant’Anna, os autores dos livros vencedores, entraram na conversa/debate/discussão, e os tópicos são muitos: até que ponto uma resenha pode ou deve conter spoilers do livro resenhado? Que importância dar às intenções que um autor atribui à sua obra? Que prêmio merece receber o autor do centésimo comentário de uma resenha da Copa? Para discutir essas e outras questões palpitantes, a caixa de comentários é serventia da casa.



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