Copa de Literatura Brasileira

Jogo 5

Bem amigos da Internet! Estamos aqui para mais um jogo das oitavas de final da Copa de Literatura! Vamos acompanhar o confronto dos livros de dois jovens escritores brasileiros — um, nato, a outra, naturalizada —, que chegam a esta Copa com muita moral!

A Associação Paulista dos Críticos de Arte deu a Flores azuis o título de melhor romance de 2008 — mesmo ano em que um júri formado pelos escritores Bernardo Ajzenberg, Cíntia Moscovich, Paulo Lins, e Luiz Rufatto, entre outros, concedia a Dias de Faulkner o Prêmio Jovem Literatura Latino-Americana, oferecido de dois em dois anos pela Meet — Maison des écrivains étrangers et des traducteurs de Saint-Nazaire — a um escritor latino-americano que, contando menos que 35 anos de idade, não tenha publicado livro algum até então.

As duas equipes já estão no gramado! Céu limpo, temperatura agradável, neste momento você vê o árbitro convidando os capitães ao círculo central. Eles se cumprimentam, trocam suas flâmulas — no cara-ou-coroa, Flores azuis leva a melhor, e escolhe ficar com o campo à nossa esquerda para começar jogando a favor do sol. Sobrou então para Dias de Faulkner a tarefa de dar o pontapé inicial nesta partida que promete — promete! Faça sua festa, torcedor amante da literatura nacional! Acerte seu relógio aí, que eu acerto o meu relógio aqui, porque— Au-to-ri-za o árbitro! Rola a bola na Copa de Literatura Brasileira! É mata-mata — é decisão — vale vaga nas quartas de final!

1º tempo

Tratar da semana que William Faulkner passou no Brasil não é a única ambição de Dias de Faulkner. Se eu começasse a descrevê-lo em tais termos, porém, não lhe estaria fazendo grande injustiça, porque termina que esse é seu aspecto mais sobressalente mesmo, muito embora ele também queira se ocupar de um determinado “cenário literário” e do modo como um escritor famoso se comporta aí.

Episódios fictícios se mesclam a outros que presumo terem realmente acontecido, haja vista as constantes alusões que o texto faz a biografias, ensaios, depoimentos, e notícias de jornais da época. Na primeira cena, vemos Faulkner no avião, vindo de Lima para São Paulo; o mês é agosto, o ano é 1954, e ele é “a figura mais esperada para o I Congresso Internacional de Escritores”, que será realizado durante a semana como parte dos eventos que comemoram o quadricentenário da cidade. Como o governo dos Estados Unidos estivesse interessado em estreitar laços culturais com a América Latina, cumpre Faulkner também uma espécie de missão diplomática nestas terras brasileiras, mas ele não parece estar muito satisfeito com isso, não. Ao longo de sua estadia, fará de tudo para não ter que discursar; adiará um bocado sua ida ao Congresso; e, quando não estiver bebendo, estará querendo ir beber.

Faulkner estava bêbado o tempo inteiro. Usava o cabelo empapado de água para ver se cortava o porre, o que lhe deixava quase sempre com o paletó ligeiramente úmido à altura dos ombros e o odor inconfundível de álcool. A pior denúncia do seu estado era o nariz de um eterno vermelho, sanguíneo de vodka, rum, gim e toda espécie de bebida que caísse no copo. Atropelando os compromissos se metera perambulando pela noite paulistana, fazendo os mais recentes amigos de infância, tentando recriar Nova Orleans da juventude, percebendo que, ao fim de tudo, o dia se intrometia mais do que os diplomatas zelosos dos bons costumes e imagem norte-americana. Apesar da vigilância severa, Faulkner escapara a toda medida, a todo controle. Certo dia, descendo ao saguão (em pijamas?), caminhou até a portaria de onde avistava a rua e todo o entorno, a Praça Ramos de Azevedo, o trânsito, as palmeiras, olhou em volta e perguntou: O que estou fazendo em Chicago?

A estória começa na página 9 e vai até a 113, o que daria 105 páginas a serem lidas, não fosse a circunstância de só haver prosa em 77 delas; as outras 28 servem apenas para marcar intervalos entre os doze capítulos. Como o livro está num formato 12,5 x 19 cm, estimo que ele deva ter muito menos que trinta mil palavras: que seja vendido como romance é só mais um indício de que um dia, no Brasil, romance vai ser tudo aquilo que alguém disser que é. Sabe-se que E. M. Forster, para atender aos propósitos das conferências que deram origem a Aspects of the Novel, achou razoável considerar romance toda obra ficcional em prosa com mais de 50 mil palavras; mas mesmo quem não reza segundo a cartilha dele encontrará dificuldade para chegar a conclusão diferente neste caso aqui, pois Dias de Faulkner possui apenas um grande evento e centra seu foco sobre um personagem só durante quase todo o tempo, exceção feita a pequenas porções do terceiro capítulo, quando somos temporariamente convidados a seguir as ações de um repórter que quer entrevistar o escritor. Dias de Faulkner é, portanto, no máximo uma novela…

…uma novela na qual se substituiu o esforço de criação do personagem por uma série de referências ao sujeito que lhe serviu de modelo, como se a simples evocação do nome “Faulkner” e a coincidência de alguns dados biográficos tornassem desnecessário o trabalho de conferir maiores contornos ao protagonista. A narração em terceira pessoa procura guardar uma distância segura dele, e quanto mais perto ela chega mais se denuncia o quanto esse Faulkner é 2-D, um “velho senhor do Sul” que fala coisas “no seu sotaque sulino”. Quando for preciso que Faulkner abra a boca para dar um tostão maior de sua voz, vai-se recorrer ao ardil de pô-lo paradão em frente a uma plateia para que ele responda a perguntas de jornalistas, aspirantes a escritor, et cetera — três capítulos do livro estão assim estruturados, todos eles pálidas versões da entrevista que o Faulkner de carne e osso concedeu à Paris Review. Apesar de notar que houve, aqui e ali, a intenção de me levar a visitar a consciência do personagem, não consigo mencionar uma tentativa dessas que tenha me parecido satisfatória, pois não diferencio a qualidade de uma ideia da qualidade de sua expressão em palavras, e acho bastante sofrível este tipo de prosa aqui:

Ele se sentia como do alto de uma ravina contemplando os autores erguendo seus livros, gritando seus nomes anônimos, os rostos deformados, era inevitável demonstrar o horror às mãos estendidas, querendo puxá-lo pelos pés, era assim que se sentia, e o outro (o irlandês) impedindo que o alcancem. Os dois, não Dante e Virgílio, mas Faulkner e Joyce, no meio do inferno, não os bares e todos os luxuriosos becos, vielas de Dublin, Oxford ou Paris, mas o inferno mesmo ou lugar nenhum ou não lugar, não bar, não homens, não paisagem e não conversa sobre banalidades, nem medida nem tempo, não histórico, o inferno; sem vida porque não há morte, e Joyce como mestre, e não Proust, compreendendo o temor também, em suas vestes longas e louros sobre a cabeça, e tudo enfadonho como as palavras de apresentação da obra, a biografia resumida a uma sucessão cronológica e o joguinho de “concordo” ou “discordo”, influências e “o que você acha…” Réplica e tréplica que se propõem a escritores quando no mínimo são dois, como se fossem gladiadores verbais e o público — educadamente — desejando ver o sangue correr na arena. O aço reluzente da navalha desembainhado não evita a vontade de exigir, apesar de travarem a língua, antes que escape: Sacrifica! Sacrifica! Cujo único sinal de clemência surge dos aplausos finais.

Até existe a vontade de falar da relação de Faulkner com suas influências literárias; mas o resultado, por se manter sempre na superfície, acrescentou pouquíssimo ao pouco que eu já sabia. Seja no sonho com Conrad, seja no quase-encontro com Joyce em Paris, não se vai além do clichê do escritor-herói: “Enquanto saboreava um sanduíche, Faulkner — como bom fã — admirava alguma coisa de prosaico e belo que tinha aquela cena comum. Um homem mastigando um sanduíche. [...] Ter visto Joyce valeu mais do que qualquer coisa que outro escritor pudesse lhe ensinar.”

Eventualmente, quando o objetivo era me fazer contestar a fé que depositei na narrativa, a jogada também não saía inteiramente conforme o ensaiado. Fazer isso dá trabalho: um trabalho que às vezes não se quis ter nesse livro. A solução fácil que se achou foi reproduzir notícias de jornal que, de vez em quando, à la plantão da Globo, interrompiam a programação para trazer uma versão que contradizia, ou não confirmava por inteiro, uma que tinha sido contada anteriormente. Ficava evidente ali a intenção do drible nas minhas expectativas de leitor, o que, porém, era executado de maneira apressada, mal-acabada, as costuras à mostra menos por moda do que por descaso. E é assim que um capítulo com grande potência ficcional, como o que narra a visita ao Butantan e o flerte com a “jovem L.” (que um passarinho me contou ser Lygia Fagundes Telles), é posteriormente minado pelo informe quase solene de que “O Correio da Manhã de quinta-feira anunciava que a ida dos congressistas ao Instituto Butantan fora transferida de sexta-feira para domingo pela manhã. Dia em que Faulkner chegaria aos Estados Unidos.” Não sei se os jornais noticiaram essas coisas na vida dita real, mas preciso acreditar que há jeitos melhores de denunciar que o que foi feito há algumas páginas pode não ser a versão definitiva, ou que talvez versão definitiva seja algo que nem exista; e quem me mostra que isso é possível é o próprio Dias de Faulkner, nos capítulos em que se sugerem mudanças de ponto de vista, como os que narram a chegada do escritor ao Brasil com “versões que diferem em alguns pontos laterais, cuja essência, porém, é a mesma” (é feio, mas é sic).

No que diz respeito ao estilo, me espantou a maneira como, repetindo coisas que tantos já repetiram, esse livro ainda conseguia repetir-se a si mesmo. Se existe um clichê segundo o qual escritor tem que ser um sujeito grave, Dias de Faulkner vai lá e diz que Faulkner “tem qualquer coisa de grave”, que ele insiste “com o olhar grave” e que parte do rosto de Joyce “parecia grave, traço de um grande escritor”. Não há imagem gasta que não possa ser gasta ainda mais aqui, e foi assim que eu li que “as horas são cheias de uma angústia cuja origem não sabe explicar” e que “as horas lhe doíam como um soco”. Não são exemplos isolados.

Tinha visto há pouco James Wood dizer em How Fiction Works que “não há nada mais difícil do que criar um personagem de ficção”, oferecendo como prova “[...] a quantidade de livros de neófitos que [têm] seu início marcado por descrições de fotografias”. “O romancista inexperiente finca os pés no estático, porque este é bem mais fácil de ser descrito do que o móvel: tirar tais pessoas da detenção gelatinosa e dar-lhes movimento numa cena é que é difícil”, comenta ele, que ainda confessa: “Quando encontro uma ekphrasis extensa, [...] fico apreensivo, com a suspeita de que o escritor está se agarrando a um corrimão do qual receia se soltar”. E eu, mesmo sem enxergar maiores problemas na extensa ekphrasis que Dias de Faulkner trazia logo na terceira página, e embora ainda ache que nenhum recurso estilístico está interditado a priori, admito que quando vi descrição de foto aparecer de novo na página 29 comecei a sentir um pouco da apreensão de que fala o crítico — uma apreensão que foi se tornando enfado à medida que eu via o truque ser repetido outra vez (p. 40), e mais outra (p. 82), e mais outra (p. 83), sem razão que justificasse tamanha insistência, a não ser, talvez, o medo de largar do corrimão.

Já nos acréscimos, quero dizer que essa novela suplica, clama, implora por uma copidescagem bem feita. Há defeitos desde a epígrafe — “elas são Então faça como todo mundo e decida que elas são [...]” — até o posfácio — “PRÊMIO JOVEM LITERATURA LATINO AMERICANA CONCEDIDO ESTE ANO CONCEDIDO AO BRASIL”. Nos créditos do livro não se esclarece quem foi o profissional responsável por sua revisão, mas ele bem que poderia ter recomendado a correção de alguns lapsos — “reuniam-se este-se toda sorte de autoridade desconhecida” — e a extirpação de vários solecismos injustificados — “as explicações que ouvia pelo caminho dissuadiam sua atenção à L. que vez por outra, a procurava com os olhos quando longe, e tentava se aproximar quando mais perto”; “reconheceram-no quando entrou no salão, o que por nenhum motivo especial causou palmas, e o que levou a caminhar acenando ligeiramente”; “tratou dos principais dados biográficos que se conhecia”; “disse: Boa noite, senhores e senhoras. Ao que foi traduzido e foi retribuído na saudação”; “Como lembrança, trazia nas mãos um catálogo de Portinari, e no bagageiro a coruja em madeira dada por um diplomata brasileiro ávido em conhecê-lo e que, lamentavelmente, Faulkner estava indisposto”. De uma boa revisão também poderia ter saído a sugestão de que determinado trecho — “Faulkner estava bêbado o tempo inteiro. Usava o cabelo empapado de água para ver se cortava o porre” — viesse entre aspas ou tivesse sua autoria explicitada em algum lugar, de alguma maneira, para evitar acusações de você bem sabe o quê; o escândalo protagonizado por Ian McEwan há poucos anos na Inglaterra serviu para mostrar que essas coisas ainda são levadas a sério. Hoje em dia, com google ao alcance até mesmo do mais inepto dos resenhistas, ser pego com as calças na mão está cada vez menos difícil.

2º tempo

Flores azuis nem tocou na bola e já está ganhando de goleada, tantos foram os gols contra do adversário no primeiro tempo. Daí não se conclua, porém, que a etapa complementar vai ser marcada por toquinho de lado, administração do resultado. Não. O baile ainda nem começou.

Jogando num esquema tático tradicional mas sem deixar de contar com os avanços do elemento-surpresa, Flores azuis é um romance epistolar com duas linhas narrativas que nos vão sendo apresentadas de maneira interpolada: de um lado, uma estória narrada em cartas; de outro, a estória do personagem que as está recebendo — e lendo. São nove capítulos; são nove cartas; e a coisa toda começa assim:

19 de janeiro

Meu querido,

Dizem que a separação nunca é um núcleo, uma urgência. Dizem que ela começa em seu avesso. E que é justamente no momento mais suave, o primeiro encontro, o primeiro olhar, que a separação começa a existir. Eu prefiro acreditar que a separação nunca termina, e que o último dia, a última noite, é um instante que se repete, a cada espera, a cada volta, cada vez que sinto a tua falta, cada vez que pronuncio teu nome. Eu acredito que, ao te chamar, uma estratégia, um encanto, eu seja capaz de fazer com que você se vire e olhe, e, sem perceber, estenda entre nós um atalho, uma ponte.

Assinadas apenas por um sugestivo A., as cartas vão chegando à casa onde Marcos foi morar depois que se separou da mulher, com tudo a indicar que seu real destinatário é o inquilino anterior. Mas Marcos, incapaz de resistir à curiosidade, vai acabar abrindo os envelopes e lendo tudo — e à medida que o fizer terá sua rotina transformada e nos revelará que não são raros os pontos em comum entre essas duas estórias de separação.

Faz tanto tempo que o gênero epistolar existe, e sua origem se confunde de tal modo com a do romance tout court, que seria muita pretensão de minha parte querer tratar aqui dos inúmeros desafios que ele apresenta para os escritores que resolvem encará-lo. Me deixem, então, mencionar brevemente aqueles que me parecem ser os dois principais, quais sejam incutir no leitor a crença de que o que ele está lendo é mesmo uma carta e pô-la para cumprir na trama um papel que não seja o de mero artifício a que se lançou mão para resolver apressadamente determinado ponto sensível da narrativa. É bastante provável que você já tenha visto muita gente boa ser vencida por tais obstáculos e que agora receba com um pé atrás a notícia de que alguém resolveu fazer (mais) uma incursão no gênero. Conheço bem seu ceticismo. Compartilhava dele quando li na contracapa de Flores azuis que sua autora havia composto, “com uma prosa sutil e uma engenhosa montagem, esta trama de amores despedaçados e destinos possíveis, que homenageia e ao mesmo tempo desconstrói o gênero do romance epistolar”. Mas, ah, como foi bom poder testemunhar, finda a leitura, que a descrição não era 100% papo de vendedor… Este aqui é um romance que põe para jogar a seu favor as contraintes dentro das quais escolheu operar.

Tanto a voz que escreve as cartas quanto o tom emprestado a elas me pareceram sempre estar na medida exata; em momento algum me peguei pensando, “Ninguém escreveria isso numa carta”. Acredito que muito dessa conquista se deva à circunstância de as cartas serem cartas de amor, escritas por uma personagem que ainda não se conformou com a separação e que pretende agora, à sua maneira, reconstruir os fatos, dar a sua versão, a fim de tentar ainda mais uma vez estender “um atalho, uma ponte” entre ela e o outro, que a deixou e foi-se embora, para que ele “leia e volte”, para fazê-lo “sorrir ou sofrer”. O tom algo confessional dessas cartas e sua prosa um tanto, digamos, poética podem cansar um ou outro leitor inteiramente avesso a mimimis, etc. e tal, só que sou testemunha de que tudo está a serviço da construção da personagem missivista e ainda arrisco dizer que mesmo esse leitor poderá se satisfazer bastante com o bom uso da técnica de alternância de vozes entre as cartas — escritas na primeira pessoa — e os trechos que contam as desventuras de Marcos — narrados na terceira, com diálogos e discurso indireto livre bem construídos que só:

Um homem recém-separado precisa de uma mulher com um mínimo de compreensão. Uma mulher que o acompanhe em momentos de maior sociabilidade, e que o deixe em paz quando a solidão se faz novamente indispensável. Mas as mulheres só compreendem o que interessa a elas, pensou ao desligar o telefone. E a necessidade de desmarcar um encontro aquele dia era algo que Fabiane não tinha o menor interesse em entender. Reagira fazendo-lhe as mais diversas recriminações. Era a segunda vez que ele desmarcava, é verdade, mas amanhã, amanhã à noite, sem falta, dissera no telefone. Ela aceitara após longa relutância.

— Está bem, amanhã à noite, mas, se você desmarcar mais uma vez, uma única vez que seja, juro que acabou. Se é que existe realmente algo entre nós.

— Não vou desmarcar, prometo, hoje foi mesmo um imprevisto.

— É, sábado também, pelo jeito a sua vida anda cheia de imprevistos.

— Não, sábado foi porque Manuela estava gripada, não ia ter como levá-la, eu já te expliquei.

— É, agora você usa a sua filha como desculpa para tudo.

As mulheres belas costumam ser as mais complicadas, talvez porque a beleza tenha lhes dado facilidades demais, muitas opções e pouco confronto com a realidade. As mulheres belas costumam ser egoístas e infantis, jamais saem do papel da pequena princesa e esperam que o homem, qual um súdito, ou um pai que tudo consente, as mime sem nada exigir, apenas porque são belas. Fabiane era uma mulher belíssima, pensou.

Se a voz e o tom das cartas não possuem sabor de artifício (embora o sejam), também não o tem o impulso dado à narrativa pela decisão de sempre pôr, de um lado, a carta do dia e, de outro, a reação de Marcos àquela carta, naquele dia. É interessante notar, aliás, a maneira como os temas — e aqui a palavra tema aparece conforme o uso que a ela dão os músicos — vão sendo antecipados ao longo do livro, o paralelismo entre o que é contado nas cartas e a estória de Marcos. Para dar apenas um exemplo, confronte-se um trecho da primeira carta, à p. 8…

A distância deveria imediatamente impor um tom mais solene, ou menos íntimo, afinal há a distância. Mas como a gente trata com distanciamento alguém que acabou de estar tão perto, ao meu lado, há pouco deitado ao meu lado, na minha cama, onde todo dia, todas as noites, algo tão íntimo como dividir a cama e os lençóis da cama quando o dia amanhece e os lençóis ficam lá, abertos, escancarados, com suas manchas e sua noite impregnada. Como alguém sai da cama da gente para a formalidade?

…com um do segundo capítulo, à p. 35:

Pouco depois a ex-mulher chegou, os dois toques da campainha anunciando que era ela, coisas que não mudavam. Levantou do sofá e foi abrir a porta. Ela entrou como se, em vez dela, entrasse um exército inteiro, uma multidão, o perfume espalhando-se pela casa, ela ocupando imediatamente todos os espaços. Deu-lhe um beijo em cada face.

— Oi, Marcos, tudo bom?

Oi, Marcos, nunca se acostumaria a ouvir a ex-mulher chamá-lo assim, alguém que por tanto tempo o chamara de meu bem, de meu amor, ainda mais daquela forma distraída, desinteressada, oi, Marcos, vivera anos com a mulher, tiveram filhos, casa, conta conjunta, uma vida, e um dia tudo aquilo deixava de existir e ela se tornava apenas uma desconhecida perfumada que entrava pela porta e dizia, como diria a qualquer um, oi, Marcos.

Ao final, foi muito gratificante poder constatar que essas coincidências não eram gratuitas, perceber-lhes o propósito e ver que, em vez da palavra final, quis-se dar ao livro a possibilidade de que dele se façam leituras diversas. Fechei-o com a sensação de que tinha me entregado aos cuidados de um profissional, alguém que, se não está inteiramente no controle de seu ofício, é extremamente hábil ao criar tal impressão — e qual seria, se não esse, o traço maior do bom escritor?

Decido, então, que é Flores azuis que passa para as quartas de final. Ganhou o jogo dando olé. Pode ser um tanto exagerado dizer que ele “desconstrói o gênero do romance epistolar”, mas não tenho dúvida de que este livro traz, sim, algo — ou que, pelo menos a mim, trouxe.

Para dizer, porém, no que consiste esse algo, seria preciso entregar um elemento da trama — “o envelope fechado e todas as suas leituras e possibilidades” —, a prova excelente de que, sim (e me permitam a desfaçatez de uma auto-citação), “há jeitos melhores de denunciar que o que foi feito há algumas páginas pode não ser a versão definitiva, ou que talvez versão definitiva seja algo que nem exista”. Embora não tenha encontrado jeito de falar mais desse ponto sem entregar o ouro de vez, estou bastante disposto a conversar sobre ele com outros leitores de Flores azuis — e esse papo pode começar aqui mesmo, nessa mesa redonda pós-jogo que é a caixa de comentários, onde spoiler é permitido. Tenho certeza de que qualquer grande omissão desta minha resenha terminará sendo suprida pelos jurados que apitarão as próximas fases; aposto que esse livro vai longe na competição e espero que ele possa receber o tratamento que, conquanto mereça, porventura não tenha encontrado aqui.

Mas de antemão anuncio: não ficarei nem um pouco surpreso se, chegando à grande final, ele sair da 3ª CLB envergando a faixa de campeão.

Vencedor

Flores azuis

Você concorda com o resultado do jogo 5?

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36 comentários

    Muito bom!

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  • Depois da resenha já tem gente gritando É campeão, é campeão…

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  • melhor resenha da copa até agora.

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  • O Camarada Tiago A mandou bem, gostei muito da resenha.

    Agora, devo dizer que defendi e, talvez, até ainda defendesse o Dias de Faulkner. Os equívocos são muitos, mas o projeto me agradou, há uma coisa interessante na retomada da história, no efeito Rashomon que o livro parecia querer produzir, etc. Eu nem jogaria na fogueira uma certa medida de apropriação da fala alheia, justamente por pensar que está aí, que não está sendo escamoteado que outro foi o primeiro dono daquela fala.

    O Flores Azuis já é outro negócio. As marcas de profissionalismo são tão abundantes nele quanto, no Dias…, são notáveis as evidências de certo amadorismo (mas é bom lembrar que amadorismo não é pecado, e que profissionalimo não é garantia de sucesso). Na condição de “romance epistolar”, se comparado a, p ex, Caixa Preta, de Oz, perde feio mas, diante do que parece ter sido o projeto da autora, funciona: o espaço de manobra é bem reduzido, são poucos personagens mas estão sob controle, quem lê é gradualmente enviado para um problema com o qual tem de se haver, e resolver como puder. A orelha é hiperbólica sim – mas qual não é? É meio que função do gênero orelha de livro, licença poética garantida nesse gênero em particular.

    Enfim, há muito acordo entre o que penso e o que a resenha expressa, e algum desacordo que talvez mobilize um pouco de conversa. Cabe dizer que essa é minha resenha favorita até agora, e que acredito que isso se dá por haver alguns elementos nela que fazem parte de meu panorama de exigências sempre que produzo esse tipo de texto: equanimidade nas citações, revelação do crítico enquanto leitor daquele negócio ali, de como experimentou a leitura, esforço para entender cada projeto nos termos que o projeto parece solicitar. E, full disclosure, talvez caiba tb dizer que o autor da resenha é meu amigo – embora não seja essa a razão do meu apreço pelo que ele escreveu. ;)

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  • Lamentação: aguardo ansioso a resenha que será matéria de grande controvérsia, e que mobilizará ânimos e paixões arrebatadas e arrebatadoras aqui na caixa de comentários e na periferia desta Copa, no orkut, no twitter, nas mesas de bar virtuais e espaços para-acadêmicos e peri-jornalísticos que abundam na web. :)

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  • AM: chama o André Sant’Anna.
    Tiago: tu me convenceu a não ler Dias de Faulkner, que era o não-lido da Copa que mais me interessava.

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  • Não, AX: leia. nem só de pão vive o homem, e nem só de projetos perfeitos, ou mesmo bem feitos, vive o leitor. Afinal de contas, eu continuo lendo semanalmente resenhas literárias de resenhistas que abomino, e tenho aprendido muito com isso – tanto quanto aprendi com as resenhas dos comentaristas que admiro, que funcionam como modelos pra mim.

    Qdo o Tiago diz que “Até existe a vontade de falar da relação de Faulkner com suas influências literárias; mas o resultado, por se manter sempre na superfície, acrescentou pouquíssimo ao pouco que eu já sabia. Seja no sonho com Conrad, seja no quase-encontro com Joyce em Paris, não se vai além do clichê do escritor-herói”, eu pensei em como seria bacana um conjunto de textos corrigindo o que se crê que foi falha desse autor nesse livro. O que seria ir além do escritor-herói aqui? Será que a falha é essa, ou a oposta: não ter feito do Faulkner um herói trágico podraço, um super homem falido, impressionante o suficiente? A boa resolução pra isso estaria na leveza respeitosa e jocosa de Vila Matas, ou na edulcoração histriônica de Paul diFilippo? Ando pensando muito, e tentando “trabalhar” com essa idéia: como corrigir as leituras, como aprimorar o fazer, da literatura e da crítica, a partir das constatações das falhas alheias?

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  • Gostei muito da resenha. Está bem fundamentada, explicando , inclusive, com trechos da obra.Tiago parece ter lido com lupa, porque também é cirúrgico nas correções.As metáforas do futebol como preâmbulo são pertinentes, é claro.Uma das melhores que li aqui. Está difícl selecionar um ou dois livros para ler,porque acabo sendo influenciada pelas críticas,rs.Porém, “Flores”, realmente me atiçou…

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  • AM, acho que a grande falha do livro do Dutra não está na parte do escritor herói e sim na parte do clichê. O Tiago acertou em cheio: “como se a simples evocação do nome “Faulkner” e a coincidência de alguns dados biográficos tornassem desnecessário o trabalho de conferir maiores contornos ao protagonista”.

    O problema de Dias de Faulkner não é falta de habilidade para construir personagens; é anterior a isso: é falta de vontade de fazê-lo. O mesmo vale para a construção da trama do romance. Dias de Faulkner é puro exercício de estilo, free jazz. Pode dar certo se você for um Coltrane.

    Nesse sentido, e surpreendentemente, o livro se aproxima de O dia Mastroianni, finalista da Copa passada. E a minha opinião sobre ambos é parecida: enquanto não houver um conteúdo que lhe empreste sentido, o exercício, a menos que tremendamente interessante, deve ficar na gaveta do autor.

    Abraços,

    Lucas

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  • Lucas, a comparação com O Dia Mastroianni me parece equivocada, embora não tenho lido Dias de Faulkner. O livro do Cuenca não é pra ser levado a sério (e me pareceu pela excelente resenha, que o livro do Dutra quer ser sério). Ali tudo é o deboche de um momento cultural de alguém que conseguiu ver o ridículo de uma vontade que predomina hoje, a do bafafá como opinião. Não creio que falta um conteúdo que lhe empreste sentido. A falta de sentido nele, faz todo o sentido.

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  • Leandro, a minha comparação é bem estreita: digo apenas que os dois livros só se preocupam com estilo, deixando tudo o mais – trama, personagens, ideias – em segundo plano ou do lado de fora do quadro. Concordo, porém, que a falta de sentido de O dia Mastroianni se encaixa no projeto do livro, o que não é o caso em Dias de Faulkner. Só não sei se isso é um argumento a favor ou contra o projeto.

    Abraços,

    Lucas

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  • Fala, minha gente: brigado por lerem minha resenhinha! o/

    Eu vou tentar ir respondendo todo mundo.

    lúcio, andreis, adriana– pô, galera, :~~~.

    E veja, Berna, que eu nem falei do FISTFUCKING hein. Porque aquilo só pode ser um fistfucking–não é? Ô Leandro, tu, que leu também, diz aí: é fistfucking aquilo lá? :)

    AMP: venha cá, miguxo, dá um abraço. Risquei teu Dias de Faulkner todo; acho que vou ter que comprar outro pra te dar no fim do ano. Mas fique tranqs, que não vai ser ele o seu presente de natal não. :)

    Mas você diz ali que “não está sendo escamoteado que outro foi o primeiro dono daquela fala”, e, velho, disso aí eu discordo imenso. Está escamoteado sim; Jesus Cristo, e como está! Cansei de lutar com Lucas pra encimar a primeira citação da resenha com aquele SEGUNDA VERSÃO que aparece no livro, pra que ficasse bem claro que essa é a única pista que se dá. O fato que ninguém pode negar, porém, é que duas frases inteiras do trecho, quem as escreveu VERBATIM foi Paulo Roberto Pires–taí o google, que não me deixa mentir–, e quando você lê o livro, você é levado a crer que aquilo ali é apenas mais uma outra voz, criada para a ocasião, e tal. Mas não é, velho. Aquilo ali é uma, er, tipo assim, “citação sem crédito”–e acho que eu e você sabemos o verdadeiro nome disso aí, né. Pô, é tão bonitinho e honesto e digno aquele pós-escrito de A Vida Modo de Usar, né, Perec dizendo “Este livro contém citações de” fulano, fulano, fulano, fulano–uns 30 autores, se contei direito aqui…

    Agora também dizer que Flores Azuis não é Caixa Preta PÔ É BRINCADEIRA NÉ (copyright Neto, Band).

    Xerxes: veja bem. Eu obviamente não te recomendo COMPRAR Dias de Faulkner; 20 reais dá 4 chopps na Biermarkt; e 4 chopps > esse livro. Mas se cair na tua mão, acho que tu consegue ler nas mesmas condições em que tu leu Mesmo delivery–só que tipassim Mesmo delivery é massa, né.

    Lucas: se concordamos a respeito do significado da palavra “estilo”, acho que tipo uma das coisas que mais me desagradaram em Dias de Faulkner foi justamente a preocupação insuficiente com o estilo.

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  • Tiago, fistfucking it is. Sobre o plágio, acho que já falei contigo da minha teoria: o sujeito acha um texto que tem a ver com o trabalho dele, copia no mesmo arquivo pra retrabalhar, acaba esquecendo uma ou outra frase perdida por aí. É feio, mas prefiro achar que não tenha sido intencional.

    Sobre a preocupação com o estilo, acho que é capaz de não concordarmos com o significado da palavra. Na segunda citação que você coloca na resenha, por exemplo, eu vejo muita preocupação ali com a forma como a coisa está sendo escrita. Os problemas são que, primeiro, essa preocupação é levada à página de forma desleixada, culpa menos do autor e mais do editor, do preparador, do revisor; e, segundo e mais importante, essa preocupação reflete um gosto que não é o meu, e acredito que também não seja o seu.

    Isso, aliás, foi um problema de Flores azuis para mim: sou um dos leitores inteiramente avessos a mimimis de que você falou na resenha, e a voz daquelas cartas realmente não foi do meu agrado. Mas desleixo ali não há, e apesar de não concordar com o alvo escolhido admiro a precisão do atirador.

    Abraços,

    Lucas

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  • Fistfucking it is – embora o nome não seja dito, e a expressão do fato seja, de maneira consistente com o mimimi elogio do oblíquo que é o texto da personagem que escreve as cartas, digamos, “poética”.

    Já estava sendo levado, mais uma vez, por um impulso pouco racional de defesa do Dias de Faulkner, e por essa via tropecei em um incidente da memória talvez esclarecedor. Em uma oficina de criação literária que fiz, o autor-professor (excelente, por sinal), ao ler um texto meu localizou um interesse em perseguir uma tradição de biografia apócrifa, de uso improvisado de referentes factuais para alcançar propósitos narrativos. “É o jogo de Borges, é a tradição de Borges, e é uma tradição em que me reconheço tb”, ele disse. E o que, gentilmente, deixou de dizer era que, nessa tradição, eu fali: que meu texto, ali, lido e escrutinado, só se sustentava como *arremedo* dessa tradição, como um trabalho de aprendiz. Que seja, então: me irmano em solidariedade ao autor de Dias de Faulkner, e que dias melhores venham para mim, para ele, para Faulkner.

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  • Mais:

    1 – Tiago: ok, o disclaimer do Perec é fino mesmo, e eu optaria por uma solução dessa como a via da decência. É curioso que tenham deixado passar a coisa, na verdade: lembro de ouvir o André Sant’Anna comentando, p ex, sobre alguns problemas na reedição de Amor por suas mil remissões a Roberto Carlos, Pelé, Xuxa etc. Mas cuidado editorial não foi de fato a marca desse produto.

    2 – Lucas: Flores Azuis é um bom exemplo, e um caso que devo citar daqui pra frente, de livro que não gosto, mas que julgo bom. Não houve curtição na leitura, esquecimento de mim, ou negligência temporária de minhas tarefas ordinárias por causa da leitura – coisa que já foi produzida por Saer, Perec, Julio Verne, André Sant’Anna, Bernardo Carvalho, Pellizzari, Valêncio Xavier etc, o que é uma troupe eclética. Mas há a constatação analítica de uma artesania laboriosa e bem-sucedida em seus próprios termos. Sempre penso que, se está lá no texto, é porque o autor assim o quis, e que devo levar isso a sério (e, agora, lembro que isso foi parte do que apareceu na já longínqua primeira Copa, num comentário que o Sérgio fez sobre uma resenha do livro dele). Fazendo isso com esse livro, o resultado foi bom – o que é bem diferente de dizer “Pô, taí, bom pra caralho, lê aí pra vc ver”. E, para homenagear um ausente, digo: esse elogio eu reservo pra coisas tipo O Paraíso é Bem Bacana, e apesar da forma tosca da enunciação em meu idioleto quer dizer “Esse negócio é Grande Arte.” :)

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  • Então pronto: ‘mbora todo mundo se abraçar, êêêê!

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  • Não vou falar de Flores Azuis, pois será minha tarefa julgá-lo na próxima fase. Mas dizer assim ‘fistfucking’ pode assustar quem ainda não leu. Digamos que a prosódia ameniza o sentido do que ocorre.

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  • Eu já estava inclinado a comprar o Flores Azuis, mas com este papo fistfucking aí eu fiquei assustado

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  • Não se assuste não, Marco. É tudo muito poético.

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  • Melhor análise da Copa até agora, sem dúvida.

    Fugindo um pouco do assunto que surgiu aí, o Dias de Faulkner nunca me interessou, agora menos ainda, mas tinha muita vontade de ler Flores azuis. Diminuiu um tanto, apesar da resenha, por conta dos trechos citados. Não gostei nada, achei bem fracos, meio literatura de borboleta. O livro todo é assim?

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  • Estava esperando alguém puxar o coro dos descontentes com “Flores Azuis” para me aventurar, até porque o papo aqui está muito alto nível e não tenho nenhuma reflexão à altura para oferecer sobre o livro. Não trabalho na área, não tenho por hábito “pensar literatura”, apenas gosto muito de ler. Mas não resisto…

    Preciso dizer que detestei o livro. A reação foi forte mesmo: num momento Simone Campos na CLB2008 ao terminar o livro joguei longe, e posso afirmar que não, não se pode dizer que “pelo menos o livro teve o mérito de despertar algum sentimento em você”. Não foi isso.

    Desde o princípio achei as cartas muito chatas, fui lendo em diagonal, louca para chegar ao capítulo seguinte, pois pelo menos a relação do Marcos com a filha e a ex-mulher estava achando interessante. Mas depois até essa parte do livro vai se perdendo.

    Como para mim foi impossível ter qualquer interesse pelas cartas ou curiosidade pela história de A. (que mulher IN-SU-POR-TÁ-VEL), achei muito difícil entender pq ela causaria todo aquele impacto em Marcos. E também não sinto que conheci Marcos o suficiente para entender pq cartas IN-SU-POR-TÁ-VEIS de uma desconhecida chata e lamentosa causariam todo aquele impacto nele.

    O final é abrupto, e de qualquer forma a revelação final não fez mudar em nada minha percepção sobre o que veio antes. Acho que já estava tão irritada que só me veio um “tá, e daí?”. Imagino que o objetivo era ter me deixado curiosa, me feito repensar a história e procurar indícios sobre o verdadeiro autor da carta, o verdadeiro destinatário, quem teria escrito e porque teria enviado para Marcos, mas não.

    Faz muito tempo não detestava tanto um livro. Achei ruim mesmo. Me senti enganada e não sei bem explicar pq.

    Conheço quatro mulheres que leram o livro, e todas odiaram com o mesmo fervor que eu. Os rapazes aqui da Copa parecem ter gostado. Curioso.

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  • Saio da reclusão digital para postar uma análise de leitora. Não li Dias de Faulkner. Mas, incentivada pela Copa, investi no Flores Azuis. Este pode ter sido meu primeiro engano: estava esperando demais. Expectativa. E o que veio foi de menos.

    A resenha do Tiago foi bem elaborada. No entanto, não concordo com as opiniões de que o livro apresenta uma exímia criação narrativa. Algumas escolhas da autora não me agradaram. E, mesmo tendo algumas boas frases, os pilares do livro me parecem redundantes, comprometendo a estrutura como um todo. A repetição sem fim vai de frases a características e comportamentos do personagem e do narrador, configurando o ponto essencial do livro.

    Pode ser estilo da autora, não conheço seus outros livros (alguém me falou muito bem de Toda terça). Mas talvez minha reclamação esteja no fato de que não consigo gostar de livros com mimimi. E só mimimi. Isso sem falar no abuso de estereótipos femininos. O livro me parece uma grande D.R.. E não me senti como se estivesse metendo a colher na vida alheia. Mas como se as brigas e problemas do casal ao lado invadissem o meu apartamento. Sem que eu sequer os conhecesse e de forma interminável. E pior: sem provocar qualquer sentimento (empatia, ódio, identificação, repulsa que fosse).

    O livro passa pelo leitor. Claro: nem todo o livro precisa ser edificante. Mas senti como se esse falasse para as paredes. Comigo ele não falou nada. Acho o projeto válido. Mas é artificial demais. O sentimento, o amor ao extremo vira chatice. É pouco para justificar a importância das cartas. É pouco para justificar qualquer movimentação do Marcos para buscar essa mulher pelas ruas. A história se enfraquece. E é isso que incomoda.

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  • Queridas Lu Thomé (22) e Clarice (21),

    Acho interessante tal livro despertar em vocês tamanho desgosto. Acho interessante que muitas vezes escritores, quando encarnam personagens femininas, são elogiados. Não me lembro de outra autora brasileira que explorasse um personagem masculino como a Carola Saavedra. É interessante que Marcos não é o estereotipo do homem da literatura dita feminina. Não é nem o macho-alpha-patético, nem o patético-patético. Me lembra muito o narrador de “Filho Eterno” em suas incapacidades. A paternidade e o envolvimento emocional dos homenssão temas pouco explorados, principalmente por mulheres escrevendo pela ótica masculina.

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  • Mas Fernando, a parte sobre a paternidade e a dificuldade de envolvimento emocional de Marcos foram justamente as únicas que achei bem legais. São os primeiros capítulos.
    Até ali eu estava aturando as cartas, para chegar logo na parte boa do Marcos. Quando começa a obssessão dele por A., sem que eu entenda em nada o que pode ter causado esse comportamento, é que desanda tudo.

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  • Só aquele trecho da página 35 é suficiente para desistir de ler o livro. Agora, Clarice e Lu confirmaram minhas impressões dos trechos. Minha leitura não depende de outras opiniões, mas, confesso, o interesse desapareceu depois desses comentários.

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  • Eu vejo a obsessão dele como reflexo deste início. As cartas, para mim, é um acontecimento motriz e inexplicável na vida do rapaz. Uma inverossimilhança que move o romance em busca da verossimilhança.

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  • eu que não me interesso nem MINIMAMENTE pelos trechos vários que já li de Flores Azuis, agora quero ler o fistfuck poético.

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  • Concordo com Fernando. Esse Marcos de Flores Azuis suspendeu minha incredulidade mais do que aquela Anita de Cordilheira.

    Clarice diz que “[o] final é abrupto, e de qualquer forma a revelação final não fez mudar em nada minha percepção sobre o que veio antes. Acho que já estava tão irritada que só me veio um ‘tá, e daí?’.” Quando um livro enche o saco é foda mesmo. Entendo. Mas o que segue é uma tentativa de dar um testemunho sobre o que aconteceu comigo quando cheguei a este ponto da estória.

    Logo num primeiro momento, me veio a conclusão que me parece a mais in your face: A. é quem escreve as cartas. Marcos é o personagem que ela diz ter criado. Aquela última parte, quando Marcos vai entregar as cartas no endereço do antigo inquilino e dá com os burros n’água—uma parte que vou chamar de X—, também foi escrita por A.

    Mas pouco tempo depois, me ocorreu que também existe a possibilidade de, embora a responsável pelas cartas seja A., Marcos não ser o personagem que ela diz ter criado. É possível que a parte X não tenha sido escrito por A., e que Marcos, portanto, “exista” mesmo, ou que, pelo menos, seja tão personagem quanto A.

    E, nesse caso, quem foi então que escreveu a parte X?

    É porque ele permite que várias respostas sejam dadas a essa pergunta que eu achei esse livro legal. Uma das respostas possíveis, por exemplo, é esta. Não é A. quem escreve as cartas. A. é personagem tanto quanto Marcos. Tanto faz se o último capítulo foi ou não foi escrito por A., “essa mulher IN-SU-POR-TÁ-VEL”. Importa é saber que, por trás da porra toda, existe um A.—abreviação de Autor—que manipula a galëre. Que fala do próprio ofício o tempo todo. Que, caso exista, neste exato momento está se acabando de rir que nem Rabugento.

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  • Homenzarada,
    Sei se eu achei o fistfucking poético não…
    Tudo bem que àquela altura eu queria mais é que fizessem picadinho da maldita da A., mas ainda assim. Violento pacas.

    Tiago,
    Imagino que o final de Flores Azuis só tenha te feito pensar tanto e curtir ainda mais o livro porque você já estava gostando. Para quem, como eu, não gostou nada nada de tudo o que veio antes, não há final filosófico/viajante/meta/odiaboaquatro que dê jeito…

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  • Muito boa, tua resenha, Tiago.

    Só não entendi esse lance da “parte X”, q na verdade é a parte IX (as partes narrando sobre Marcos tão numeradas em romanos). ¿Por que vc acha q essa parte pode ter sido escrita por A., ou por um terceiro narrador? Pra mim, o narrador dessa parte é tal e qual o mesmo das outras sobre Marcos.

    Faz tanto tempo li FA q até tinha esquecido do FF*. Pra mim, o q ficou foi isto:

    Não achei tão instigante qto Toda terça. Mas mesmo assim, achei FA um livro poderoso, totalmente adulto – no sentido de ‘adulto’ q uso aqui na Copa –, destrinchando com uma inteligência abrangente as complexidades da sensibilidade. As reentrâncias e emaranhados da femininidade me são às vezes espantosas e é raro q elas transpareçam tão claramente como nesse livro. Achei sábio q CS não tenha tentado se aprofundar demais no âmbito masculino. Noto q em seus dois livros ela vem tentando traduzir seu entendimento desse âmbito, com bastante sucesso, mas q percebe até onde pode ir, dentro dos parâmetros de um romance. A caracterização dos homens é circunstancial e mais formal. Além disso, seus homens são atípicos (o q aliás é o de q um romance precisa: ¿quem quer ler sobre o típico?) e em FA nota-se q os pensamentos de Marcos passaram por um filtro feminino. Já a caracterização das mulheres é profunda, detalhada e coloquial; suas mulheres são criações magníficas, frutos de uma empatia exuberante, de um multi-foco amplo, coreografado e generoso.

    Outra coisa, Flores azuis tem um mérito invulgar: seu placar neimedrópin é 0 x 0.

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  • Como já comentei antes, estou achando muito curioso as mulheres que conheço terem detestado o Flores Azuis, e os homens estarem adorando.

    E mais, Dr Plausível acima, mas mais alguém por aí: me parece que os homens que aqui comentam estão achando A. um retrato incrível de mulher e de feminilidade. Pois eu achei ela uma caricatura grosseira. Mais para um fantasma masculino do que uma mulher real (e aí quem sabe o Tiago possa me achar alguma explicação na qual na verdade Marcos é esquizofrênico e escreve as cartas para si mesmo, explicando assim minha impressão de que A. é apenas um fantasma masculino! rs)

    Voltando ao Cordilheira, já que já foi assunto por aqui, Anita para mim era muito mais mulher, muito mais real, muito mais 3-D.

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  • Só agora pude ler sua resenha, Tiago. E que resenha! Como um craque no futebol, passou a impressão de que é fácil, facílimo resenhar um livro, mostrar suas virtudes e defeitos. O resultado é que comprarei o “Flores Azuis” hoje mesmo.

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  • Concordo com a Clarice: talvez por conta do mimimi constante, achei A. uma personagem pouco desenvolvida. Marcos me parece muito mais interessante, até pela habilidade da narração de mostrar os lados negativos da sua personalidade sem nunca se virar ostensivamente contra ele (algo, aliás, que já tinha sido feito com a Laura de Toda terça).

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  • Melhor resenha, sem dúvida!! Não teve medo de falar de elementos estéticos básicos da literatura, como tantos que se demoraram no corpo pensante do livro e, ao mesmo tempo, não deixou de rematar com análises mais sutis, da idéia global, da dianóia, para falar em termos aristotélicos. Resenha de escritor, e não de professor de literatura.

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  • “Eu já estava inclinado a comprar o Flores Azuis, mas com este papo fistfucking aí eu fiquei assustado”

    Só comprarei por isso.

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  • Nao li o Dias de Faulkner e tb fiquei sem vontade, depois da maravilhosa resenha do Tiago.
    Li correndo o Flores Azuis. Também efeito resenha.
    Me deu a sensacao de fistfucking interrompido.

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