Copa de Literatura Brasileira

Jogo 4

No prefácio a um de seus livros, Giorgio Agamben afirma que “toda obra escrita pode ser considerada como o prólogo (ou melhor, como a cera perdida) de uma obra jamais escrita, que permanece necessariamente como tal”. Recorro à frase de Agamben porque, no processo de leitura de Galiléia, fiquei intrigado com a recorrência, em minha mente, da imagem de uma arquitetura vazada, um edifício inacabado. Era como se estivesse diante de um projeto que fugia ao controle do autor, ou melhor, de um rascunho de muita qualidade querendo escapar do seu autor, insinuando episodicamente uma imensa obra irrealizada.

Nascido em 1950 numa fazenda do interior do Ceará, onde morou até os cinco anos de idade, Ronaldo Correia de Brito passou a infância e adolescência na região do Cariri, antes de se mudar para o Recife. Médico e escritor, autor de várias peças de teatro, alguns roteiros para cinema e televisão e livros de contos, entre eles o excelente Livro dos homens (2005), Brito vem se afirmando como um dos mais importantes nomes da literatura brasileira contemporânea. Sua prosa é seca, mas, diferentemente do que diz João Cabral em seu conhecido poema, não se trata do recurso ao seco porque contundente. Os textos de Brito, no mais das vezes, não são como facas cortantes, afiadas. Tampouco acariciam ou reconfortam. Isto porque as personagens não conseguem se fixar: como em Montaigne, estão sempre se ensaiando, criando sentidos provisórios que nem por um instante parecem trazer algum tipo de conforto espiritual.

Galiléia, primeiro romance do autor, se inicia num ponto qualquer da “travessia de Inhamuns”, a viagem dos primos Adonias, Davi e Ismael de volta à fazenda onde passaram a infância. A intenção é presenciar o que talvez seja o último aniversário do avô e patriarca Raimundo Caetano, que exerce sobre eles um fascínio quase místico. Davi, tido pelos familiares como uma espécie de menino prodígio, é (aparentemente) um músico bem sucedido, com passagens pela Europa e Nova York. Ismael, filho bastardo de Natan, tem uma vida de altos e baixos: antes de ser adotado por Raimundo, o que faz dele filho do próprio avô, passou a infância com os índios kanela. Já adulto, tentando fugir do sertão, foi morar na Noruega, mas acabou se deparando com o “sertão a menos 30 graus”. Rejeitado pelos tios e pelo pai biológico, Ismael possui também uma relação tensa como seu meio-irmão Davi e com o primo Adonias, médico radicado no Recife e narrador do livro — aparentemente o alter ego de Brito.

O romance gravita em torno do amor e ódio que os primos nutrem entre si, heranças de um histórico familiar explorado com minúcias na narrativa de Adonias. Já nas primeiras páginas o leitor é envolvido numa atmosfera sufocante, em grande medida anunciada pelo vaticínio — recurso literário dos mais antigos — de um devir sombrio: “Penso em voltar para o Recife, obedecendo a pressentimentos de desgraça, receios que me invadem em todas as reuniões de família”. O devir, contudo, não é concebido como lugar do novo, construção da diferença: o novo, em Galiléia, é o que retorna, o que permanece, o que está inscrito na ordem das coisas. O horizonte de expectativas é completamente determinado pelo espaço de experiência, por representações do passado que unem memória individual e coletiva a ponto de torná-las indistinguíveis. O passado, para Adonias, é um fardo que o impele para longe do patriarca, dos tios, da fazenda Galiléia; ao mesmo tempo, o passado o atrai de modo quase irresistível, num desejo ao mesmo tempo sádico e nostálgico de revisitar os registros obscuros da infância.

Nada, em Galiléia, remete à idéia de um aperfeiçoamento moral do herói: em sua odisseia ao redor de si mesmo, Adonias é incapaz de reduzir ao conceito suas experiências; sequer aparenta buscar tal redução. Ele sabe que Galiléia está cravada na memória da pele, como uma espécie de roupa primordial que é incapaz de despir. Visitá-la é ir ao encontro do seu eu mais profundo: um eu imemorial, velho, que quer se extinguir, um eu que lhe escapa e não se deixa domesticar como representação. Ainda que leitor de Freud, Adonias sabe que não adianta buscar no pensador austríaco as chaves para compreender sua miséria. Para ele, o caminho para o conhecimento de si deve passar pela narrativização da existência.

Num primeiro momento, Adonias pode ser visto como um narrador-escritor que busca em seus próprios conflitos matéria-prima para a composição de uma obra literária. Mas não é isso o que ele faz, não é isso o que consegue fazer. Adonias não escreve um texto; ele passa a viver num texto, a olhar para si mesmo e para o mundo através das lentes de uma estrutura de enredo. Tudo é ordenado a partir de um “sentido de fim” de caráter trágico, que enforma, como mito de origem sempre revisitado, uma espécie de essência inerente aos Rego Castro. Ao solicitar tradições literárias as mais diversas, e por meio delas construir a trama que dará algum sentido à sua vida e à história de sua família, Adonias estabelece as condições para que seus vaticínios possam se cumprir.

A tragédia grega é, naturalmente, uma das tradições literárias mais visitadas em Galiléia, que circula diversas tópicas do gênero — como a tomada de consciência, pelo herói, do seu destino e o derramamento de sangue como veículo da pacificação da ordem do mundo — sem fazer delas prisões formais. Mas é a Bíblia, a História Sagrada lida e relida pelo patriarca, o principal horizonte da narrativa. Trata-se menos de um diálogo explícito com o texto bíblico que com apropriações sertanejas das Escrituras. Adonias se deixa levar (e talvez cegar) pelo hibridismo entre o poder sagrado da palavra, do Verbo, e a ideia de que o mundo é um Livro. Na ótica do narrador, Raimundo Caetano, ao dar a seus filhos nomes retirados do Antigo Testamento, chama para si um fado: o patriarca dá origem a uma vasta prole que deverá se autodestruir, assim nas Escrituras como nas histórias imemoriais recontadas pelos Rego Castro à exaustão, especialmente o assassinato de Donana pelo marido trezentos anos antes, episódio que adquire, na narrativização de Adonias, a força de uma Lei.

Na Galiléia que Adonias inventa, Sófocles e a Bíblia são articulados na construção de uma hybris imemorial, que exige o sangue dos filhos da terra: é assim com Davi, estuprado na infância; é assim com Ismael, atingido pelo primo no mesmo lugar onde, séculos antes, Donana perdera a vida. Somente a morte de Raimundo Caetano pode dar fim à maldição, espalhando a prole definitivamente pelo mundo, apagando Galiléia dos mapas afetivos. “Mas ele não quis morrer”, diz Adonias quase no fim do livro. “Preferiu continuar vivo, empesteando o mundo com seu cheiro podre.” Enquanto o patriarca agoniza, primos enfrentam primos, que enfrentam irmãos, que enfrentam pais e tios, enquanto Maria Raquel, a matriarca, assiste a tudo de modo impassível.

Outra tradição mobilizada por Brito diz respeito ao pensamento sobre o sertão, ou, melhor dizendo, à tradição de refletir sobre o sertão, de tomar o sertão como objeto literário ou de análise sociológica. Neste ponto, o diálogo com autores como Euclides da Cunha e Guimarães Rosa torna-se explícito:

Vago numa terra de ninguém, um espaço mal definido entre campo e cidade. Possuo referências no sertão, mas não sobreviveria muito tempo por aqui. Criei-me na cidade, mas também não aprendi a ginga nem o sotaque urbanos. Aqui ou lá me sinto estrangeiro.

Porém, se no que diz respeito às apropriações bíblicas o procedimento é quase intuitivo, sensorial — falta-me contudo conhecimento aprofundado do Antigo Testamento para mapear essas apropriações, o que diz muito sobre uma geração que não precisou se desencantar por já ter nascido desencantada —, quando o assunto é “o sertão” a voz do autor e a voz do narrador parecem se confundir, a princípio lentamente, e quase no fim do livro de modo praticamente explícito. Em entrevista ao Prosa Online, Ronaldo Correia de Brito compara sua compreensão do sertão com a conhecidíssima passagem do livro XI das Confissões de Santo Agostinho sobre o tempo, aspecto que trago aqui com o intuito de analisar a superposição a que fiz referência:

Há uma pergunta clássica de Santo Agostinho sobre o tempo. O que é tempo? Ele diz: ‘se não me perguntam, eu sei. Se me perguntam, desconheço.’ A mesma coisa digo em relação ao sertão. O que é o sertão? Se não me perguntam, eu sei. Se me perguntam, desconheço. Ao longo desse tempo, trabalhei com essa tentativa de compreender esse mundo de onde eu vim, ao qual estou sempre retornando na minha criação.

Avançando na analogia, se para Agostinho o tempo é extensão da alma, o sertão, para Brito (e também para Adonias), pode ser compreendido como extensão da alma. Não há a positivação de uma “essência sertaneja” bem delimitada (o que, num primeiro momento, aproxima o texto mais de Guimarães que de Euclides). O sertão consiste numa espécie de mito interiorizado que sobrevive e se reinventa mesmo com o declínio histórico de suas representações mais conhecidas: o vaqueiro, a seca, os caminhos de terra batida… Em Galiléia, mulheres tangem gado com uma motocicleta, a matriarca assiste à novela das oito, os aboios dos vaqueiros “são ouvidos apenas nos programas de rádio”. Um mundo de referências materiais foi perdido; o sertão se faz experiência íntima, e como tal pode se prolongar indefinidamente.

A força desse argumento, mesmo sua beleza, acaba resultando, a meu ver, mais em prejuízos que em benefícios para o livro, especialmente quando Ronaldo Correia de Brito, o autor, talvez para “provar um ponto”, preenche o hiato entre linguagem e experiência que caracteriza o personagem Adonias recorrendo a uma base conceitual essencializante, alicerce de um metadiscurso raso e de fácil assimilação, demonstração de teorema que só pode realizar quem alcançou uma explicação, quem chegou a algum lugar: trata-se de uma voz onipotente que cala, felizmente apenas em alguns momentos, a voz frágil de um narrador que só consegue se movimentar em torno de si mesmo. Como na passagem:

O sertão é o Brasil profundo, misterioso, como o oceano que os argonautas temiam navegar. [...] À medida que me afasto desse sertão dos Inhamuns sem nunca virar-me, igualzinho fez Ló quando fugia de Sodoma, ele me transmite um apelo. Tapo os ouvidos com cera de carnaúba e fico surdo aos chamados. Se ouvires as vozes sertanejas, já não escutarás outras vozes. Melhor esquecer, seguir em frente.

O apelo é o sentido, que grita como voz antropomorfizada do sertão: o narrador tapa os ouvidos, mas nós, os leitores, podemos escutar a voz do autor. (Euclides poderia ter escrito que “o sertão é o Brasil profundo”, e talvez tenha escrito.) Esse movimento pendular entre Guimarães e Euclides me deixa com a impressão de que as potencialidades do projeto inicial — da “obra jamais escrita”? — não foram plenamente atingidas, por se perderem num manifesto desejo autoral de autognose que contraria a conhecida máxima de Oscar Wilde: “revelar a arte ocultando o artista”.

Mas que obra realiza plenamente suas potencialidades? Que obra não é um edifício inacabado, uma estrutura vazada? Em alguma medida, todos os grandes livros de prosa ficcional, ao menos de prosa ficcional moderna, são arquiteturas imperfeitas. Galiléia talvez falhe ao tentar preencher, de modo apressado e um tanto esquemático, seus próprios vazios. Nesse sentido, a sensação que experimentei de ler um livro construído como arquitetura vazada parece advir, paradoxalmente, do meu estranhamento diante da tentativa autoral de “acertar contas” com os vazios do texto, de explicar, de psicologizar, de sociologizar, de antropormofizar. Trata-se, me parece, de um vazio estético, produto do desencantamento de ler uma obra que em vários momentos parece prometer mais do que cumpre. Mas são impressões. Galiléia não está aquém do que poderia ter sido, porque ele é o que é. A obra presente, o livro que tive em mãos, me fez pensar, em alguns momentos me emocionou, me cativou. Trata-se, pesando prós e contras, de um livro que vale a pena ler.

Já sobre Manual da paixão solitária, ganhador do Prêmio Jabuti de melhor romance de 2008, não posso dizer o mesmo. Assim como Galiléia, Manual gira em torno de um tema bíblico, preocupação recorrente na obra de Moacyr Scliar. Mas as semelhanças param aí. O tratamento das Escrituras em Galiléia é sutil, remetendo a uma memória afetiva; já em Manual da paixão solitária um tema bíblico é explicitamente revisitado, a história do patriarca Judá, de seus filhos Er, Onan e Shelá, e da “bela e astuciosa” Tamar.

A premissa é caricatural: num congresso de estudos bíblicos, dois eruditos se digladiam em torno da correta representação do recém-descoberto “manuscrito de Shelá”. No primeiro dia do congresso o arrogante professor Haroldo Veiga de Assis apresenta, num longo discurso em primeira pessoa, a “perspectiva” de Shelá sobre a passagem em questão: com a morte de Er, consumido pela culpa de não desejar Tamar, e de Onan, consumido pela culpa de ejacular na terra após copular com a viúva do irmão, Shelá deveria “herdar” a esposa, mas isso não acontece, uma vez que Judá teme que Tamar carregue algum tipo de maldição. Ela não aceita: quer se casar com Shelá, e gerar o filho a que tem direito, mas, diante do impedimento imposto pelo patriarca, precisa recorrer a um ardil. Tamar finge-se de prostituta, e gera um filho de Judá. Shelá torna-se arredio, e projeta na escrita e na modelagem de figuras de barro suas frustrações.

No segundo dia, Diana Medeiros, ex-aluna e desafeto de Haroldo, expõe a “perspectiva” de Tamar. E é isso. Há total inverossimilhança, da premissa de um congresso de estudos bíblicos onde dois eruditos se alfinetam com textos ficcionais à linguagem em primeira pessoa de Shelá e Tamar, alterando momentos solenes com passagens dignas de cartas da Penthouse, como a passagem em que Shelá cria uma Tamar de barro (aparentemente a precursora das modernas bonecas de plástico): “descobri, contudo, um modo de aquecer a vagina da fake Tamar. Enchia uma bexiga de carneiro com água quente e deixava-a ali dentro por algum tempo.” É claro que o critério da verossimilhança perdeu sua força normativa com o modernismo literário, não se trata de argumentar no sentido contrário. Mas, empregando uma engenhosa definição de Todorov, para além do verossímil como “lei discursiva, absoluta e inevitável”, existe o “verossímil como máscara, como sistema de procedimentos retóricos”, um verossímil que diz respeito à coerência interna do texto ficcional, e não “às coisas como realmente são”. Um verossímil capaz de suspender artificialmente a descrença, instaurando o pacto do “como se”. Se vai chover em Macondo por vários dias, se Adonias vai encontrar o fantasma de João Domício, que isso seja coerente no universo construído no próprio texto.

De fato, o Manual da paixão solitária parece ter sido realizado para defender uma hipótese, a de que Onan é um personagem mal-compreendido: ao ejacular no chão de barro de sua casa o pobre Onan não buscava a satisfação (talvez a buscasse, mas como subproduto, não como objetivo principal); estava, ao interromper o coito, vingando-se e vingando o irmão. Quantos saberiam que Onan se via como um instrumento de justiça, ainda que bizarra? Quantos, mesmo entre os cultos, mesmo entre senhores sisudos e voltados para protestos moralizantes, saberiam usar o termo ‘onanismo” na acepção correta?

Em suma, o “argumento” é o de que Onan teria inventado o coito interrompido, e não a masturbação, e que tanto sua prática como a relação de Shelá com suas bonecas de barro são variações de uma inescapável paixão solitária. E Tamar, qual a sua “perspectiva”? Feminista, claro. Feminista avant la lettre, que a seu modo amava cada um dos três “maridos”. E para completar, um final onde tudo se resolve. De que modo? Haroldo e Diana na cama, ele chegando aos “píncaros da glória” (sim, é uma citação). E se eu disser que não é só isso? Que no fim há uma “sacada” metaficcional?

Manual da paixão solitária, que li antes da divulgação do resultado do Jabuti, apenas reforça uma idéia que tenho há algum tempo: há algo de podre no reino dos prêmios literários. Como não poderia deixar de ser (ou poderia, e eu não entendi nada do livro de Scliar?), a vitória é de Galiléia.

Vencedor

Galiléia

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38 comentários

    Uma das mais brilhantes resenhas que já li sobre um livro, essa que o autor fez de Galiléia. Não conheço Ronaldo Correia, mas lendo outras críticas a seu trabalho sei que se trata de ótimo escritor, por isso tenho aqui Faca, que ainda não li, mas lerei em breve, agora com mais motivos depois dessa extraordinária leitura de Galiléia feita pelo Felipe Charbel.
    Isso é cumprir a função da crítica – levar outros leitores a desejar aquilo que alguém viu, sentiu, experimentou, sonhou e desejou lendo um livro. Merci, tenho certeza de que vou ficar melhor ao findar esse livro, e você abriu esse caminho.
    um abraço,
    clara lopez

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  • Perfeito!

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  • Minha resenha preferida até agora. Parabéns, Felipe.

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  • Ótima resenha, Felipe.

    Dei boas risadas na segunda parte sobre o livro do Scliar e, sobretudo, gostei muito do seu mergulho no Galiléia.

    Especialmente, esta parte…

    ” (…) mulheres tangem gado com uma motocicleta, a matriarca assiste à novela das oito, os aboios dos vaqueiros ’são ouvidos apenas nos programas de rádio’. Um mundo de referências materiais foi perdido; o sertão se faz experiência íntima, e como tal pode se prolongar indefinidamente.”

    … me trouxe à mente aquele filme do John Houston, “Os Desajustados”, e seus cowboys atropelados, também pela miséria, mas muito mais pelo próprio tempo. Engraçado que tenho um certo bode da literatura regionalista, mas essa associação me trouxe um certo frescor, uma esperança de encontrar novas perspectivas interessantes sobre esse tema meio surrado.

    Fiquei mesmo a fim de ler o Galiléia. Só tenho medo, Felipe, que sua boa resenha me venda gato por lebre :-) .

    Quanto aos prêmios, não dá pra ser injusto com eles também. Afinal, Galiléia também levou um prêmio importante por aí, ou não?

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  • Mandou bem, Felipe. Uma resenha pesquisada, meditada e alicerçada.

    Mas, tendo lido Galiléia, não posso dizer q entendi a resenha toda (ie, a parte sobre Gal.). Não enxerguei certas coisas q vc disse.

    De primeira, eu teria alguns apartes, sobre pontos menores.

    •Notei, por exemplo, q “o novo” aparece nos outros, nas pessoas q Adonias vê pelo caminho, em Maria Raquel e noutras mulheres. Os homens da família são essencialmente atávicos, apesar de (em alguns casos) cosmopolitas.
    •Batizar filhos com nomes bíblicos foi durante muito tempo, em particular na primeira metade do século XX, um costume muito comum no nordeste. Não é uma peculiaridade de Raimundo Caetano.
    •Pra mim, Davi não foi estuprado. Acho q Adonias, ao ler o depoimento dele, pressentiu q ele tava prestes a ler q tinha sido tudo uma encenação pra prejudicar Ismael, e então jogou fora o depoimento.
    •Me pareceu difícil entender boa parte dos alicerces do livro sem se referir a passagens do Antigo Testamento, ou à história dos judeus no Ceará. Mas disso, falo depois.

    Parabéns! Gostei bastante.

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  • Larguei o “Galiléia” antes mesmo dos primos chegarem à fazenda.

    Achei os diálogos insuportáveis e completamente inverossímeis: não passam a menor naturalidade e por causa disso achei impossível entrar na história.
    A cada parágrafo parava e pensava: “mas ninguém fala ou pensa assim!”.

    Mas gostei da resenha. Se já não tivesse tentado ler o livro, ela me daria vontade de tentar.

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  • Opa, vamos voltar ao verossímil? :D

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  • Clarice, você tocou numa questão que acho importante, porque também sinto dificuldades em ler alguns livros ditos “regionais” ou de temática sertaneja, porque às vezes um universo extremamente masculino e áspero me afasta daquele mundo. Por exemplo, nunca consegui ler Os sertões, e olha que já tentei algumas vezes, ele está aqui, ainda não perdi as esperanças, mas é que aquela linguagem, aquele mundo não me pertencem, não me chamam e eu não sinto que pertenço àquilo. Isso não ocorre absolutamente com Vidas secas, por exemplo (de novo) ou qualquer livro de Graciliano, e acho que é por causa mesmo da linguagem, de um certo modo de contar e de narrar, não sei bem. De todo modo, não percebi isso com relação ao livro resenhado, mas sua observação e a do Dr. Plausível me fizeram pensar nisso. Vou ler o livro para conferir.
    um abraço,
    clara lopez

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  • então são dois que abandonaram Galiléia. até compreendo que literatura não necessariamente é deleite mas algumas coisas são tão herméticas e …inverossímeis! que a única postura é o abandono.

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  • três e contando

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  • Clara,
    Acho q vc pegou o comentário da Clarice pelo lado errado. O problema q ela apontou não é q os diálogos são “regionais” demais, mas o oposto: são “corretinhos” demais. A mim tbm desagradou, talvez por outros motivos.

    A verosimilhança aqui é uma questão muito diferente daquela em OVDChibo. Pode-se argumentar q, sendo tudo narrado por Adonias, tudo passa por seu filtro lingüístico, até o depoimento de Davi. Mas pra mim isso não cola. O livro não foi escrito por Adonias. Houve, sim, uma tentativa de diferenciar os registros da narrativa, dos diálogos e do depoimento. Mas me pareceu q RCB não usou muito o ouvido nesse livro.

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  • Pois então, dr. plausível, será preciso ler (ou tentar ler) e conferir essa linguagem. Eu peguei o mote da clarice no “mas ninguém fala assim”, para comentar um problema de linguagem que vejo e/ou sinto em certas ficções, mas, enfim, entendi seu ponto de vista.
    um abraço,
    clara

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  • Personagens em Montaigne?

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  • Estou pressentindo (e não sou Adonias) que esta será a melhor copa em matéria de resenhas.

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  • Clara, Marco, Drex, Bernardo e demais

    obrigado pelas palavras! Eu nem gostei tanto de Galiléia, na verdade. Acho que, se não tivesse que escrever sobre o livro, também não teria ido muito longe. Mas, ao fim da leitura, consegui perceber algumas coisas bacanas que tentei passar no texto.

    Michel, relendo a resenha, percebi que de fato atribuí personagens a Montaigne. Mas, pensando bem, o “eu” em Montaigne não é um personagem, ou um conjunto de personagens? Não estou tentando me justificar, mas não acho que fique totalmente inapropriado. Mas valeu pelo toque.

    Plausível, concordo com sua leitura do “novo”. A personagem da Marina, ou Mariana (o nome me foge agora) é bem isso, o contado do novo com o atávico. Mas elas acabam secundarizadas na trama. Acho que o RCB poderia ter explorado mais as personagens femininas. Sobre os nomes bíblicos e a relação com a cultura de certos estados nordestinos, falo disso de passagem, em relação às apropriações bíblicas. De fato, falta uma leitura do Antigo Testamento, que eu confesso que não tenho. É uma falha de formação, mas que não dava pra suprir para escrever a resenha. Sobre o estupro de Davi, não sei se ele foi estuprado ou não, como fiquei em dúvidas se Ismael havia sido assassinado ou não. Sua chave de leitura é interessante.

    abs, Felipe

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  • Pessoal, eu quero saber é cadê o resenhista? Cadê o Felipe, pra estender, expandir, complicar ou explicar o notável feito aí em cima? Camarada Felipe, se vc não aparecer vou começar a cantar “Hang the DJ!” :)

    Devo dizer, um pouco mais a sério, que a resenha é mesmo notável – impressiona a parafernália conceitual e analítica mobilizada pelo Felipe para valorizar o livro: de Agambem a Santo Agostinho? Caracoles! E, tb, como disse talvez o próprio Michel de Montaigne, vamos lá falar de personagens em Montaigne reaparecendo na lavra sertaneja de Brito: isso, além de ser ousado, há de ser divertido e esclarecedor.

    Mas, agora mais com relação ao Galiléia que à resenha, um dos trechos citados me levou a rir pacas, e não por ser exatamente engraçado – mas porque o julguei ridículo. Há uma mão pesada nesse sertão com Radiohead que achei pesada pacas. E volto à questão do verossímil sem escrúpulo ou medo de repetição por acreditar que nesse negócio aqui o problema nunca é o do que, mas sempre o do como: sertão, nomes bíblicos, índios Kanela, alter-ago médico do autor, o escambau pode ser, embora facilmente legitimável por uma intenção de aproveitamento automático da diferença, apenas pó de arroz. Ou não?

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  • “É uma falha de formação.”

    Nãonãonão. É um mérito.

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  • A resenha está “suculenta” ( para usar uma metáfora da boa mesa).Deixa com gostinho de quero mais, nesse caso, quero ler.Entretanto, o Moacyr Scliar merece ser lido também. Não acho que todos os prêmios sejam farsas literárias, essa “Copa” aqui, por exemplo, não me parece isso.Scliar é um grande autor.

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  • DAS ALTURAS MAIS ALTAS ABS

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  • AM,
    “sertão, nomes bíblicos, índios Kanela, alter-ago médico do autor, o escambau pode ser … apenas pó de arroz”

    ¿Vc tá dizendo q tem algo embaixo do pó-de-arroz, ou q SÓ tem pó-de-arroz?

    Galiléia, embora tenha fios condutores, me pareceu bastante com um “álbum temático”: vários contos costurados pela ambientação e dramatis personæ em comum. Nada de mau nisso, claro, mas fiquei com a impressão de q enredo mesmo só tem a cabeça enredada do Adonias. Daí q a frase do B.Brayner (“História mesmo não tem.”) se aplica mais a Gal. do q a OVDChibo. Me pergunto se foi proposital o much ado about nothing pra ilustrar o stasis do sertão, ou se Galiléia em si é uma manifestação desse stasis.

    Não me entenda mal; gostei bastante desse livro.

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  • Tiago, ainda não entendi esse negócio aí que vc escreveu.

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  • AM,

    cá estou, novamente. Na verdade, minha ideia não era valorizar o livro, mas tentar compreender alguns dos movimentos do autor. Como disse, Galileia não me pegou de cara. Nem sei se me pegou, na verdade. Gosto muito dos contos de Livro dos Homens (ótimo livro, recomendo), mas, de fato, há, em Galiléia, uma mão por vezes bem pesada, mas não necessariamente inverossímil. Existe ali um esforço de intelectualizar e explicar que ficou mais claro, pra mim, na entrevista do autor ao Prosa Online. Ali, o RCB fala que é psicanalizado, algo do tipo. Em Galileia, me parece, há um esforço não só de psicanalizar, mas de explicitar o que poderia ficar implícito – como o diálogo com a tragédia grega. E isso, em literatura, nunca é muito bom. Por isso falei em arquitetura vazada, por isso o Agamben e a ideia da obra não escrita que poderia ser melhor que a obra escrita, etc. A resenha não é um elogio, mas também não achei que fosse o caso de desconsiderar bons momentos, boas passagens, boas ideias. A resenha é um esforço de distanciamento crítico, de tentar compreender o que pode haver ali, para além do meu juízo de gosto. Um exercício de distanciamento, sabe?

    Agora, me diga uma coisa. O que é “intenção de aproveitamento automático da diferença, apenas pó de arroz. Ou não?”. Boiei completamemte!

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  • Regionalismo: Galileia me parece uma tentativa de distanciamento da tradição regionalista. Como se ele quisesse marcar posição contrária. Concordo com o que disse o Plausível acima. E acho que os excessos que o AM, numa imagem muito boa, chamou de “sertão com Radiohead”, podem decorrer daí, desse filtro literário bastante pesado do narrador.

    E o Manual? Alguém leu? ALguém acha que peguei pesado demais? Realmente, não deu pra salvar nada. Daí meu espanto com o Jabuti. Aliás, nos últimos, o Jabuti tem me espantado quase sempre.

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  • Concordo, o Jabuti para o Fabrício Carpinejar me surpreendeu. Acho que é mais como preÊmio pela obra completa do que pelo livro em si. Talvez seja isso no caso do Scliar também.

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  • Felipe

    tentei ler o Manual mas tive a mesma reação que a Clarice teve com o Galiléia: joguei no rio, não aguentei de tão ruim. Assim que começou a primeira narrativa bíblica. É inverossímil demais. Aliás, você que leu os dois bem que podia comentar esse ponto da inverossimilhança, comparando os romances, que tal?

    p.s. “píncaros da glória”, olha, ainda bem que eu não tive de chegar até aí. Você até que pegou leve, viu.

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  • Excelente o texto. Só não concordo com o vencedor por questão de gosto pessoal, mas o texto crítico, vale enfatizar, está ótimo.

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  • Apenas senti falta de algum comentário formal sobre o livro do Scliar. Como anda escrevendo o nosso amigo Moacyr? Qual é seu estilo nesse livro? Os comentários na resenha ao livro dele dizem respeito apenas à trama.

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  • A/C Antonio Marcos
    re: DAS ALTURAS MAIS ALTAS

    ***

    — Vamos!

    — Calma, não estou com pressa de chegar a lugar nenhum!

    — Seu irmão vai se molhar!

    — Não tem o menor risco de que isso aconteça. Ele é etéreo, um andróide. I may be paranoid, but no android.

    Começou a gritar os versos do Radiohead, imitando a vozinha fina de Thom Yorke. Cumprindo o que eu imaginara, assumiu a regência da orquestra, pondo para tocar um CD da banda inglesa no volume mais alto. Ligou o carro, partiu e freou junto do irmão.

    — Passageiro, estamos de partida para o inferno!

    Davi entrou em silêncio, sentou-se, e quando olhei para trás ele jogava no brinquedo eletrônico, ausente do nosso mundo. Ismael cantarolava “Paranoid Android”, batendo as mãos no volante. Quando repetia os versos ambition makes you look pretty ugly, kicking squealing gucci little piggy, olhava para mim como se eu fosse o pai Natan. Temi pela minha sanidade. Conhecia a letra de “Paranoid Android”, desde o tempo em que estudei em Londres. Nela também se repetia o pânico, o vômito, o pânico, o vômito.

    — É preciso muito tempo pra se gostar de um lugar. Eu nunca me acostumei à Noruega. Dizem que ela é melhor do que isso aqui. Eu não acho. O sertão a gente traz nos olhos, no sangue, nos cromossomos. É uma doença sem cura.

    A maconha chegava ao ponto ótimo. As portas da percepção se abriam e o primo voltava a falar como um tio velho, dizendo frases intencionalmente profundas.

    O ardil de lembrar nomes de árvores e pássaros não funciona. Talvez eu tome um ansiolítico. O celular entrou em área, posso falar com Joana, ouvir as vozes dos meninos, decompor esta cabine de camioneta em que viajo com estranhos que já foram meus amigos, primos de sangue. Sangue? Melhor não lembrar… Se tio Josafá viesse ao nosso lado, estaríamos rindo às gargalhadas. Também existe gente alegre e bem-humorada na família.

    Quando eu for rei, você será o primeiro a ser colocado contra a parede, com suas opiniões totalmente inconseqüentes, cantava Thom Yorke.

    Era a terceira vez que escutávamos a mesma música, e Davi ainda não apresentara seus protestos à Suprema Corte. Meu estômago registrou a seqüência dos ritmos: um começo dançante, lembrando as mornas da Ilha da Madeira; seguiamse os metais pesados, depois um coro gótico, e a loucura veloz, cento e sessenta quilômetros por hora.

    — Você quer nos matar?! Diminua essa velocidade!

    Para minha surpresa, Davi começou a cantar alto, fazendo coro à banda e ao irmão. A chuva caiu forte.

    A banda cantava em inglês, e eu, que nunca consegui raciocinar em outro idioma além do materno, traduzia os versos: chuva cai, chuva cai, vamos, chuva, caia em mim; de uma altura bem alta, de uma altura bem alta… alta… Chova, chova, vamos, chova em mim, de uma altura bem alta, de uma altura bem alta… alta… Chova, chova, vamos, chova em mim!

    O celular tocou. Escutei a voz de Joana e o sinal fugiu. Odiei os dois loucos, que abafavam com seus gritos uma voz humana, uma esperança de sossego.

    — Aonde vamos? — gritei acima de todos os ruídos.

    Ninguém me respondeu naquele carro. As vozes pareciam vindas de uma barca, dos tenebrosos autos medievais:

    — Ao inferno! Ao inferno!

    Ao inferno.

    ***

    BRITO, Ronaldo Correia de. Galileia. p. 19-20. Sem negrito e sem ironia, no original.

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  • Radiohead in the certain? New version of White Wing? Has cabbiment, this?

    For fault of water I lost my cattle
    Died of thirst my all a zone
    I wait the rain fall of new
    For me go back for my certain.
    From a great height… height…
    Rain down, rain down
    Come on rain down on me

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  • Galiléia me parreceu um livro pesaado, cujo zênite é a brutalidade sexual ocorrida com UM dos personagens, e que soa falso, dado o tempo decorrido e dado à matural complacência de parentes da mesma faixa etária da vítima; tais coisas são absorvidas, diz a crônica,e legieramente comentadas, diz a vida, salvo se letais. Por outro lado, há uma incontornável dúvida do autor em relaçãos aos personagens: não se sabe serem eles caipiras que se citadinizaram ou se citadinos que retornam ao caipirimo e hábitos quejandos, geralmente, mais que isso, sempre irretornáveis para quem conheceu a Noruega, Rio etc etc. Dá pra ler numa viagem longa, de avião, pullando páginas.

    Já o do Sliar, melhor dirá o americando Harold Bloom, O Cânone Ocidental, de onde ele tirou a idéia para seu livro anterior sobre tema bíblico, o gênese escrito por ma mulher. Nada original

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  • Pessoal, esse negócio de crítica é fogo. Eu achei esse Galiléia um livro bem frau:

    + Não é boa “etnografia” – leia-se, uma representação fiel do sertão profundo e verdadeiro tal como é hoje, com celulares e Radiohead – oops! Cabeça de Rádio, como solicita o personagem (não que eu saiba o que é o SERTÃO, e possa bater o martelo com relação a isso – mas das cenas selecionadas à escolha lexical o negócio sobra em didatismo pra Inglês ver)

    + Não é boa “alegoria” – leia-se, uma composição que recorre a uma constelação de outros sistemas de produção de sentido (eg, judeu sefardita, onomástica bíblica ostensiva, trama do retorno do pródigo) para produzir um outro, talvez novo, sentido para a trama que exibe

    + Mais importante, não é boa “ficção” – leia-se, invenção e criação de um negócio que é posto para funcionar e que impõe ao leitor suas regras próprias, e cujo sucesso depende de sua competência em levar o leitor a acolher essas regras como dadas, tácitas, inevitáveis (ie, a gente não pensa em “corrigir” Borges, sugerindo que o cenário de Tlön é formulaico e ligeiro: a gente se vira com o que está ali, com o que o engenho e arte do autor colocou, ou estrategicamente deixou de colocar ali, porque outras coisas, que tb estão ali, nos levam a isso).

    Vejam que pus tudo entre aspas – dá pra fazer dissertação sobre cada um dos termos, há muito debate, estou só querendo puxar conversa sobre, não dizer a última palavra.

    Se o livro não funcionou pra mim em nenhuma das três instâncias, não funcionou. E a resenha do Felipe, que funcionou para mim (no caso do Galiléia: quem reclamou do desequilíbrio tem razão, e pelo menos uma citaçãozinha o Scliar merecia, para que a gente atestasse um pouco por conta própria a miséria do projeto), no sentido de ser um comentário articulado e razoável sobre um texto ficcional, não funcionou pra me fazer mudar de opinião. O que não é, claro, crime nenhum. :)

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  • Outros:

    1. Eu lamento não ter lido o Scliar para comentar, e gostaria que alguém que o leu tivesse comentado mais.

    2. Resposta a vários apartes sobre meu comentário ligado ao pó de arroz: se história mesmo não há (e não sei se concordo com isso – acho mais que há uma estrutura mítica na história, o drama do retorno, esses três ulisses, a condição dos filhos que se afastam, uma certa medida de conflito ou descompasso entre a lógica cosmopolita partilhada pelos três e o devir próprio da vida no campo, mas meu problema é que ela parece muito colada mesmo ao que associo ao romance regionalista, mas isso talvez precisasse de mais e melhores elaborações), o que fazem esses dados que citei: o título, os nomes bíblicos, o judeu sefardita, o índio bastardo, o Radiohead, a cena do celular que não funciona. O que elas dizem a vcs, que leram e apreciaram? O que elas fazem no livro? Eu, como já disse, fui levado a rir quando creio que não era essa a intenção do autor. Há uma fisionomia subjacente ao pancake multicultural, ao sertão-cultura-híbrida? São perguntas genuínas, e só lamento o adiantado da hora (amanhã tem resenha nova, o que meio que sepulta essa caixa de comentários aqui), de um leitor que não tomou o partido do livro, mas que ficaria feliz por mudar de opinião.

    3. Talvez eu tenha enchido o saco do Tiago, mas o que buscava com meu comentário, na verdade pedido de esclarecimento, é que a alusão dele se transformasse em um efetivo comentário. Na citação maior talvez fique um pouco mais claro que há um intento em mostrar a coisa como ruim, mas talvez a questão do comentário crítico sempre tenha a ver com a maneira que o crítico encontra pra articular uma posição com relação ao texto.

    Assim, como um comentário ao que o Felipe disse quando afirmou “A resenha é um esforço de distanciamento crítico, de tentar compreender o que pode haver ali, para além do meu juízo de gosto”. Isso é um puta desafio, mas é também uma fortuna do negócio: tem um aprendizado aí (estou, agora, p ex, na fatura de outro texto, às voltas com o imperativo de comentar um livro que julguei bom de um autor que julgo abominável, o que tb solicita “distanciamento”). Eu, que gosto de favorecer o que gosto, o que aprecio como fruidor de literatura, na hora de comentar penso: Considerando que gostei/ não gostei, o que faço para forjar minhas razões para o gosto/ desgosto? Qdo isso é feito de um jeito que leva o leitor a se inspirar, por ter lido a crítica, a se posicionar de certa maneira sobre o texto comentado, esse há de ser um dos privilégios da crítica: o de persuadir o leitor de que o jeito como você lê faz sentido. Isso pode levar a pessoa ou a ir na onda do crítico pra leitura – como um comentarista falou aí em cima, que lerá o Galiléia motivado pelo comentário do Felipe – ou a procurar coisa melhor pra ler. E, de fato, há muito pra ler, sempre.

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  • AM,
    Galiléia tem mesmo todos esses problemas q vc apontou. Mas Acho q tbm tem o mérito de fazer prestar atenção em dissonâncias. Por exemplo, Adonias narra coisas como (não citando, só resumindo de memória um padrão q ele repete várias vezes) “Tou entrando num inferno. O corpo de Ismael a meu lado. ¿Por que Joana não tá aqui pra me proteger? Esqueci o fio dental.” Quase todo pensamento homo-erótico é evadido com um lamento por Joana tar longe (ou alguma meditação sobre a condição feminina no nordeste) e quase toda lembrança de seu relacionamento frio com Joana é evadida com algo banal e sem emoção. A psicanálise – o modelo hidráulico freudiano da mente humana (pressões, canalizações e vazamentos) – ainda é interessante pq é essencialmente tbm uma narrativa com forças poderosas disputando um terreno.

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  • Vamos ver se dá pra manter esta caixa de comentários viva, apesar da resenha do jogo 5 já ter sido publicada.

    AM, eu queria falar justamente do Scliar – e da tal questão da verossimilhança. O “fake Tamar” citado pelo Felipe na resenha é um exemplo entre muitos: o texto do Scliar está recheado de alusões à nossa época, através tanto de termos moderninhos quanto de ideias ou características dos personagens (como o impulso capitalista de Judá). A resenha do Bruno Garschagen no jogo 8 da primeira CLB, entre Os vendilhões do templo e Um defeito de cor, me faz pensar que essas alusões são traço comum de uma “trilogia bíblica” que incluiria também A mulher que escreveu a Bíblia.

    Scliar inventa o tal congresso de estudos bíblicos para justificar esses anacronismos, e acho uma pena que ele tenha feito isso. Porque, como o Felipe sugere, o tal congresso é a parte mais inverossímil da trama, e o livro só teria a ganhar se as partes sobre ele fossem eliminadas. Verdade que aí ficaríamos com um Shelá e uma Tamar estranhamente, inverossimilmente moderninhos. E era aí que eu queria chegar: a inverossimilhança não é um mal absoluto, se ela servir a um propósito qualquer (estético, narrativo, ideológico).

    No caso do livro de Scliar, além de propósitos humorísticos (na minha opinião mal sucedidos), a inverossimilhança também quer dizer algo sobre traços pretensamente universais e atemporais do ser humano – como a “paixão solitária” do título, que não é a masturbação e sim a necessidade de narrar. Necessidade que, em Shelá, pela primeira vez passaria do plano social para o individual:

    “De repente uma ideia me ocorreu: escrever. Colocar no pergaminho aquilo que estava sentindo, que me angustiava.

    “Algo insólito. E condenável. Escrever, para nós, só podia ter dois objetivos: registrar a trajetória de nosso povo, sobretudo em sua relação com a divindade, para que a posteridade resultante do ‘crescei e multiplicai-vos’ dela tomasse conhecimento, usando-a como guia moral. Ou então a escrita poderia ser utilizada para a elaboração de cartas, documentos, testamentos. Coisas sérias, necessárias.

    “O que eu faria, contudo, seria coisa bem diferente. Escreveria um relato em primeira pessoa. Eu: pronome que procurávamos, a todo custo, evitar.”

    Mesmo tirando a parte do congresso, o livro tem seus problemas – como o de contar a mesma história duas vezes, mudando muito pouca coisa entre as narrativas de Shelá e Tamar. Mas fica pra outro comentário.

    Abraços,

    Lucas

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  • AM, vou tentar resumir minha posição sobre Galileia em possíveis respostas que daria a duas perguntas. “Vale a pena ler o livro?”. Eu diria que sim, que é uma tentativa de trazer uma nova abordagem a um tema clássico da literatura brasileira: o sertão. Ele introduz algo novo na discussão, e nesse sentido merece respeito. “O livro é bom?”. Segundo meus critérios de gosto, eu diria que não, o livro não é bom. Mas também não é ruim, especialmente em perspectiva comparada. O livro não é bom mas faz parte de um projeto autoral que, a meu ver, deve ser compreendido e respeitado. E aí vamos à questão da crítica: eu tentei não fazer uma critica que fosse apenas reflexo do meu juizo de gosto. Porque, sinceramente, gosto de muito pouco, quase nada, do que tem sido produzido no Brasil recentemente. Minha idéia era, por meio de um distanciamento artificial, tentar compreender o não-familiar. Uma outra pergunta possível: “o que ficou do livro?”. Pouca coisa. Mas algo ficou: um romance que dialoga (de modo muito esquemático, deve-se dizer) com discussões contemporâneas sobre hibridismo cultural, apropriações de tradicões literárias, etc. Foi sobre isso que tentei falar na resenha.

    Em relação ao Manual: escrevi pouco porque a resenha, àquela altura, estava enorme, e não tinha mais nada a dizer. Concordo com tudo o que foi dito pelo Lucas. O livro é ruim, muito ruim. Nesse caso, não deu pra transcender o juízo de gosto. É simplesmente ficção de péssima qualidade. O que não é o caso de Galileia.

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  • acabo de ler o galileia. gostei dele pq conseguiu me fazer perseguir o fim da história. deixa uma sensação esquisita de “coito interrompido” [foi mal, scliar], mas esse foi o propósito do autor ao longo d toda a história, oq constitui um ponto forte da obra.

    sempre q está à beira de uma revelação [sobre si mesmo, sobre seus parentes] adonias foge acovardado e prefere ignorar oq estava prestes a ser revelado. a arca do avô que lhe atiça a curiosidade permanecerá fechada. as provocações maliciosas com as mulheres sertanejas não terão prosseguimento. o avô apodrece durante o livro initeiro, acreditamos q vai bater as botas a qquer momento, e…

    segredos são apenas apenas insinuados, mas pouco se desvenda do passado da família que permanece enredado em histórias e lendas sobre origens. de forma semelhante, a homossexualidade de adonias [q explicar a fixação nos homens da família, tornando as personagens femininas tão apagadas] se evidencia no resvalar de corpos.

    pegando o gancho do felipe que fala em perspectiva comparada, isso me lembra bastante o bentinho de dom casmurro, que está sempre a deixar suas fortes emoções apodrecerem na inação.

    podemos aproximá-lo também do ótimo milton hatoum, não só pela temática da família/tribo que possui segredos incestuosos e dramas alimentados por ódio e culpa, mas também pelo “regionalismo universal” com aleivos de crítica político-ideológica.

    para mim, é este último o ponto mais fraco pelo seu didatismo. na ânsia por transmitir sua visão crítica do primeiro mundo racista e explorador de imigrantes, o próprio autor [e não o narrador] contamina o discurso de seus personagens. vide a primeira carta de davi, com trechos completamente inverossímeis em que manifesta revolta contra sua condição de imigrante solitário.

    qto ao scliar: eu perdi o interesse d ler qquer coisa dele, há mto tempo, desde que o vi ler trechos do seu “a mulher que escreveu a bíblia” em uma das rodas de leitura do ccbb. lembro que não gostei da idéia de terapia de regressão e de um clichê que é td o q lembro do q ele leu: “saltei da cama como uma mola”.

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  • Olá a todos!

    REGIONALISMO

    Há referência a regionalismo em alguns comentários, às vezes aparece como fator empobrecedor da obra, em uma vez como algo superado pelo autor, por parecer ser regionlista mas não ser de fato.
    Li Galiléia, gostei da obra enquanto romance, enquanto obra com indicadores sertanejo/regional, entre muitas outras coisas.

    Mas, puxando a discussão para outra ponta, talvez menor: em que instância o fator regional interfere na recepção da obra, no seu valor enquanto obra de arte hoje?(De qual regionalismo se falou nos comentários, que parece ser delineador de algum valor qualitativo???)
    Acho complicado o uso de REGIONALISMO para definir traços de obras contemporâneas.

    Acredito que essa discussão é válida porque a recorrência ao regionalismo para julgar Galiléia aparece aparece não só aqui mas em muitas entrevistas de Ronaldo Correia e em resenhas publicadas noutros sites.

    Fica a proposta de discussão.

    Abraços

    CEOF

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  • Os diálogos de Galiléia são meio irreais mesmo, também tive essa impressão. Mas não acho que isso deponha tanto assim contra o livro.

    Sem contar que toda vez que o Scliar falava dos “camelinhos, jumentinhos, ovelhinhas, cabritinhos, demoninhos (uns com chifre e rabo, outros, com cara de bode” eu tinha vontade arremessar o livro longe. Fora a vergonha alheia infinita do último capítulo. Ah, e a preguiça de recontar a história ao narrar pelo ponto de vista de Tamar… parece que rolou a festa do ‘ctrl c + ctrl v’
    Enfim, escolhem o vencedor do Jabuti no palitinho. Certeza.

    Vitória justíssima do Brito.

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