Jurado: Doutor Plausível
Em As sementes de Flowerville, Peçanha é o criador e dono de um vasto condomínio de classe média. Ele era amigo de militares linha-dura e comprou uma fábrica de produtos químicos pra q, em seus porões, esses militares pudessem realizar torturas fora das vistas de militares menos radicais. Peçanha foi então favorecido com empréstimos de bancos estatais pra começar a construir Flowerville, q hoje comanda auxiliado por um mini-exército de seguranças liderados por um ex-torturador, o general Boaventura. Peçanha pede a Neumani, um matemático sonhador, q crie um algoritmo pra “aperfeiçoar a democracia” de modo q, nas eleições do condomínio, tenham mais peso os votos de seus membros mais produtivos.
Ora, Peçanha tem um vício e uma fobia: mantém uma pequena equipe de meninas q lhe aplicam boquetes várias vezes por dia e, temendo q guardem seu esperma na boca pra inseminar alguma mulher q, ao ter um filho seu, reivindique seus bens, certifica-se de q todas engulam. Mirândola — o ex-sócio q agora quer “destruir” Peçanha — põe em prática o plano de coletar o esperma de seu inimigo dentro de dentes ocos na boca de uma chupette e assim gerar vários herdeiros de Flowerville. Hm. O complô é descoberto e o general Boaventura manda fuzilar as mulheres já inseminadas. Uma escapa: Nora, a esposa insatisfeita do matemático. Ao desbaratar a conspiração, o general fica sabendo q uma subversiva q ele amou perdidamente teve morte horrenda 30 anos atrás nas mãos de outros militares, e morre fulminado por um ataque cardíaco.
Ufa.
Quase um roteiro de história em quadrinhos.
Sim. Foi impossível ler As sementes sem ver nele, o tempo todo, a linguagem dos quadrinhos, do romance gráfico. O livro soa como um romance gráfico, e os cenários q imagina, as perspectivas q evoca, as cenas q descreve, tudo dá a impressão de q se originou como um roteiro de quadrinhos, depois transformado em romance literário. Mesmo q não seja o caso, isso passa a ser um defeito a meus olhos. Com a possível exceção de Nora, os personagens e cenas são os clichês criados por quadrinistas, q lidam visual e circunstancialmente com a personalidade e o caráter: o inescrupuloso capitalista olhando pela enorme janela de seu escritório as pessoinhas lá embaixo; o general linha-dura em sua salinha, sofrendo calado a saudade amorosa de uma subversiva q torturou; os seguranças de preto e óculos pretos em seu helicóptero preto numa noite preta; o matemático seguindo a moça até uma clareira num enorme e labiríntico ferro-velho, onde ambos serão fuzilados pelos seguranças do condomínio. O final é cartunesco: quase dá pra ver os xizinhos no lugar dos olhos quando o general cai de costas da cadeira.
Apesar de Sérgio Rodrigues ser um quadrinista sem meio-plano (tudo está ou lá bem longe ou cá bem perto), o livro é um bom roteiro pra quadrinhos. Como romance, no entanto, soa errático, instável, querendo ser várias coisas ao mesmo tempo, demasiadamente consciente de Flowerville como metáfora do estado totalitário e da necessidade de caracterizar Nora, o veículo de sua redenção, como ligeiramente lunática: uma leitora de Florbela Espanca e Sylvia Plath q se presta a gerar o filho clandestino do sátrapa.
E nessa gravidez reside o maior defeito de As sementes de Flowerville. É uma história com traumas de hereditariedade mal-resolvidos. Peçanha foi casado 5 vezes e nunca quis ter filhos; mandou abortar alguns; vasculha a boca de suas chupettes antes de liberá-las. Nora perdeu uma gravidez no sétimo mês. Mirândola perde seu neto durante uma sessão de tortura ordenada por Peçanha. Os militares deram cabo da mulher grávida de Sebastião, agora o “macho-alfa” de uma comunidade de mendigos. Três mulheres grávidas são fuziladas pelos seguranças. Num livro em q a gravidez — ou seja, a reprodução — é um tema tão central, resulta um pouco… embaraçoso q o único personagem a deixar um descendente seja, “ironicamente”, Peçanha, o FDP, o canalha move-montanhas. Digo “ironicamente” entre aspas porque, em literatura, é uma convenção/clichê q a morte do herói seja redimida no final pelo nascimento de um filho seu, e a fuga de Nora — carregando em seu útero o filho de Peçanha — é colocada, na conclusão do livro, como a redenção q está por vir contra o poder do capitalista facínora. Ora, esse filho, por mais clandestino, é antes a confirmação de q Peçanha — o verdadeiro macho-alfa — está absolutamente correto em ser cruel, assassino, tirânico e hipócrita, já q até mesmo seus próprios inimigos conspiram pra q ELE se reproduza. ¿Q raios de redenção é essa?
O livro se baseia, então, numa premissa detestável. Mas não é ela o q mais me dispõe contra As sementes de Flowerville. É, antes, q nada indica se o autor está consciente ou não da soberba estupidez, digna do Darwin Awards, no plano de Mirândola de gerar vários Peçanhitos pra então tentar impor sanções legais sobre o dono de Flowerville. A inteligência de Sérgio Rodrigues não está em dúvida (pelo contrário), e muito menos seu estilo — q é dos mais afiados, atraentes e coerentes q tenho visto em português. Mas o final descabido, cartunesco e hollywoodianamente vingativo leva a crer q a necessária congruência entre os valores apostados não está totalmente sob o controle do autor.
Lendo as primeiras páginas de Corpo estranho, tive a grata surpresa de supor q o livro seguiria por um estilo à la Suzanne Cleminshaw, minha escritora contemporânea favorita. Ledo engano. Enquanto Cleminshaw usa o verbo no presente pra intensificar a narrativa, tornar tudo mais próximo e mais ingênuo, Adriana Lunardi o usa pra arrastar miríades de complexidades na percepção de fatos e sentimentos, esmiuçando seqüências quase intermináveis de atos irrelevantes, esticando um minguado enredo até ele virar uma narrativa estática, documental, explicando detalhes até ultrapassar as raias da condescendência, inserindo metonímias, metáforas, símiles e perífrases, uma atrás da outra, entremeadas a todo momento por aforismos nebulosos. Se a sucessão implacável e monótona de orações subordinadas, imagens metafóricas e informações condescendentes desembocasse em insights inesperados sobre a transitoriedade humana ou sobre a arte, tudo estaria perdoado. Mas há pouca sofisticação por trás das sofisticadas frases, pouco apuro intelectual por trás do apuro gramatical e semântico.
Tudo isso tem um motivo.
Adriana Lunardi é contista e escreve documentários prà TV. Pelo q vejo em seu romance, tenho certeza de q vou gostar de seus contos. No entanto, o salto de contista pra romancista não é tão fácil como aparentemente pareceu a ela. Em Corpo estranho, ela talvez tenha achado possível entrar no âmbito do romance bastando elaborar mais detalhadamente um conto. Durante o livro, Lunardi repetidamente perde o controle sobre o estilo, a coerência e o fluxo, e várias vezes ignora q palavras, expressões ou estruturas insistem em se repetir simplesmente porque estão frescas na memória.
Além disso tudo, Corpo estranho tem dois defeitos q pra mim são indefensáveis:
1. As premissas do livro são mecânicas e superficiais: Mariana é idosa e saudável, mora na serra, pinta aquarelas botânicas; Manu é jovem e diabética, mora na cidade, fotografa grafites e drogados. Juro q pensei: só falta uma gostar de cachorros e a outra de gatos. E ¿não é q lá pelo meio do livro aparece q Mariana prefere cães a gatos? Desde o começo, se supõe q as duas perspectivas vão dialogar uma com a outra mas, apesar das dezenas de apartes sobre as artes, nada acontece e perdem-se várias oportunidades de inserir conteúdo verdadeiramente literário por entre os rococós de gramática e léxico. Mesmo q se veja Corpo estranho como a história de um estranhamento, deveria ter sido pelo menos vislumbrada a possibilidade de algum choque ou de uma chispa entre os dois lados.
2. A narrativa despistadamente se presume descendente de suas influências (por exemplo, o amor quase doente de Mariana por seu irmão José tem um parentesco com a paixão ciumenta de James Ramsay por sua mãe em Passeio ao farol, de Virginia Woolf), mas a autora carece do foco e lucidez dos q a influenciaram. Essas influências são menos sentidas q abertamente declaradas pela referência contínua a artistas e escritores europeus mortos, tornando o livro um exemplo rematado de literatura bruzundanguense, uma mistura desconfortável de deslumbramento e recalque: em Corpo estranho, um personagem não tem “uma resiliência de soldado” mas “de soldado inglês”; o Brasil não pariu um único artista ou escritor digno de menção; o mundo moderno não tem um sucedâneo da ironia, mas um “ersatz”; e por aí vai.
Ri muito quando minha esposa, ao me ouvir ler em voz alta algumas frases mais abstrusas do livro, disse “Esse pessoal parece q não aprendeu nada com os modernistas”. Bingo. Mas não é só com os modernistas q Lunardi poderia aprender. Elizabeth Bennet, a personagem mais acabada de Jane Austen, diz “I cannot speak well enough to be unintelligible”, o q me faz crer q Lunardi se beneficiaria não de tantas leituras de autores “cool” como Gertrude Stein e Virginia Woolf, Lispector e Proust, mas da inteligência clara e bem-humorada da autora de Orgulho e preconceito e Emma. É preciso dizer q, apesar de tantos motivos pra eu não recomendá-lo, Corpo estranho contém numerosas e delicadas jóias, indicando q Adriana Lunardi ainda tem muito a oferecer, contanto q não se leve tão a sério e baixe a bola um pouco.
Resta falar da metáfora, ai, a metáfora, esse subterfúgio q maquinalmente produz frases, livros e torneios literários. Tanto As sementes de Flowerville como Corpo estranho estão embebidos em metáfora; o primeiro como paródia do estado, o segundo em suas elucubrações imagísticas em torno da arte e da dor.
Terminei a leitura desses dois livros meio deprimido, me perguntando ¿será q o que sobrou pro Brasil foi perseguir metáforas? o fazer parecido, derivativo, endividado?
Não me escapa q estamos, nós aqui na Copa, embutidos na metáfora do futebol, imbuídos no símile de fazer parecido com uma idéia criada alhures, imbricados na grande paródia de primeiro mundo q o Brasil pateticamente quer ser. Mas fiquei deprimido porque dos dois livros aprendi nada sobre o q a língua portuguesa e a literatura brasileira têm a adicionar ao vasto cabedal de possibilidades da humanidade. ¿Será q ninguém, no fundo no fundo, realmente QUER o Brasil?
Deu empate em zero a zero; foi pra pênaltis: 1 a 1; computei as faltas: empataram; restou a moedinha. Melhor de três, minha esposa de testemunha, As sementes de Flowerville venceu por 2 a 1. Até fiquei contente com o resultado.
Tough luck, diria Peçanha.

As sementes de Flowerville
de Sérgio Rodrigues
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Comentários de Lucas Murtinho
A emulação do que vem de fora vai mais longe do que o Doutor imagina: na edição de 2006 do Tournament of Books, a matriz americana para esta Copa tupiniquim, um jogo foi resolvido no cara ou coroa. No caso americano, porém, Dale Peck simplesmente se recusou a escolher um vencedor e os organizadores do prêmio decidiram recorrer à moedinha. Pelo menos o Doutor Plausível me poupou esse trabalho.
Mas eu gostaria que a senhora Plausível se pronunciasse, porque essa decisão ao acaso me parece suspeita: foi impressão minha ou o Doutor pareceu desgostar bem mais de Corpo estranho do que de As sementes de Flowerville? Acho que essa moeda tinha duas caras.
Ou talvez eu pense assim apenas por não concordar com o principal argumento do Doutor contra o livro de Sérgio Rodrigues. Certo, a convenção diz que a reprodução é uma recompensa, que ter um herdeiro é um prêmio para os bons e não um castigo para os maus. Mas se Rodrigues quis inverter a convenção, e se ele deixou claro no seu romance o que estava fazendo, por que criticar esse desvio? Escapar dos clichês costuma ser visto como um mérito, não um defeito.
Por outro lado, a fúria assassina que o Doutor dedicou a Corpo estranho me convenceu, embora eu tenha gostado do romance. Porque o estilo de Lunardi é marcado por uma busca obsessiva do diferente que traz consigo muitas possibilidades de erro: como o Doutor observou, ela quase nunca escolhe a frase mais simples. Não costumo gostar desse tipo de livro; calhou de eu gostar bastante deste, mas entendo bem a opinião do Doutor.
Sementes de Flowerville, um dos favoritos ao título antes do começo da Copa, passa para as quartas de final sem méritos, no sorteio. Mas a sorte é importante numa competição curta e eliminatória, e pelo menos por enquanto Sérgio Rodrigues é o único autor explicitamente sortudo do campeonato. Vamos ver se ele recupera o fôlego no seu próximo jogo — contra O paraiso é bem bacana ou O que contei a Zveiter sobre sexo, que se enfrentam na próxima partida, apitada por Antonio Marcos Pereira.



























04/10/07 - 10:56 pm
Pô Rodrigo, só em um post estragou o final de 4 livros que eu queria ler….
:((
kkk
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