Copa de Literatura Brasileira

Jogo 3

Ah, a infância. Quanta gente acha que a infância é não ter responsabilidades, não se preocupar. Não era bem assim, pelo menos comigo. Ganhar a pelada na hora do recreio era mil vezes mais importante que a corrida armamentista entre Estados Unidos e União Soviética. Minha infância foi mais perto de O senhor das moscas, de William Golding. “Matem o bicho! Cortem a garganta! Tirem o sangue!” Com medo de apanhar dos mais velhos no colégio, resolvi me trancafiar com alguns livros e gibis. Coleção Vaga-lume, A mina de ouro (da coleção do cachorrinho Samba). Se não fossem eles, os livros, a coisa poderia ser preocupante de verdade.

Insight besta: Todo mundo faz ficção quando fantasia sobre a sua própria infância.

O fazedor de velhos e O verão do Chibo são livros que têm crianças como protagonistas, livros sobre a passagem para a maturidade, sobre a passagem do tempo, resvalam no romance de formação. O mesmo tema para estilos completamente diferentes. E a Copa de Literatura Brasileira colocou-os como adversários, igual a Os meninos da rua Paulo.

O fazedor de velhos é o sexto livro do carioca Rodrigo Lacerda. Ganhou o prêmio de melhor livro juvenil da Biblioteca Nacional, além de ser incluído no catálogo White Ravens 2009. O livro é um romance de formação sobre Pedro, um garoto inteligente, mas que sofre de grande preguiça mental. “Eu não lembro direito quando meu pai e minha mãe começaram a me enfiar livros garganta abaixo.” A mãe lê poesia para Pedro, que aos poucos começa a gostar da coisa. “O conteúdo dessas leituras era relativamente variado. Digo relativamente porque as preferências da minha mãe, mesmo sendo variadas entre si, se repetiam sempre. Depois de um tempo, começamos a reconhecer alguns nomes de gente — Castro Alves, José Régio, Gonçalves Dias, João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira, Fernando Pessoa…”

Pedro cresce. No colégio perde uma garota para um cara mais velho. Mais tarde, coitado, fica desiludido com a faculdade de história. As decepções o levam a conhecer um velho professor, Nabuco, o fazedor de velhos do título, que passa algumas tarefas a Pedro. E são essas tarefas que vão fazê-lo pensar sobre a vida e o tempo. Como diz o personagem do professor: “Falem com o tempo. Conversem com ele. Fiquem íntimos dele. O tempo é a nossa única companhia garantida até o último instante.” O trabalho de Nabuco na formação de Pedro faz com que este último se descubra ficcionista e que passe a trabalhar com a matéria do tempo de uma forma bem diferente da do historiador. Mas ele tem que correr. O tempo é curto. O professor está muito doente.

O problema de O fazedor de velhos é que o tempo não lhe faz bem. O começo, revelando como o personagem se afeiçoou à literatura, é promissor. Essas lembranças são muito legais para quem gosta de ler. A voz narrativa é coloquial e verossímil para um rapaz de 20 anos, mas carrega um monte de clichês: “um garoto de fora do colégio, mais velho, que fazia dela gato e sapato”. Com o desenrolar do livro, cresce o tom de lição de vida. “Envelheci muitos anos em poucas horas. Fiquei muito feliz com isso.” Piores são os títulos dos capítulos, que mais parecem nomes de músicas do Kid Abelha: “Noite triste”, “Ultrassonografia do amor”, “…E assim por diante”. Spoiler: no final tem até casamento e bebê. A sensação é que no meio do caminho o livro se transforma em um roteiro da Globo Filmes, a ser dirigido por Daniel Filho. Um exemplo de diálogo entre o Professor Nabuco e Pedro:

— (…) O que eu sou? — perguntei, como se tivesse conversando com um Deus particular, que sabia as respostas para todas as minhas perguntas.
— Você é um bom coração.

Não li outros livros de Lacerda. Pode ser um grande escritor, mas errou a mão neste. Na tentativa de escrever um livro para um público mais jovem, deixou tudo muito explicadinho, certinho. Toda a empatia que o leitor cria com o personagem vai diminuindo a cada drama com a namorada ou com a doença do professor.

***

O fazedor de velhos é escrito em linguagem clara e conta uma história. Já o seu concorrente faz questão de esconder a tal história, brincar de esconde-esconde com o leitor. O organizador da Copa de Literatura Brasileira, Lucas Murtinho, já disse no Twitter que os escritores brasileiros contemporâneos em geral ou brincam com estilo ou capricham na história. O segundo participante desta disputa faz parte do primeiro time.

Finalista do Prêmio SP de Literatura, O verão do Chibo é um livro escrito a quatro mãos pelos paulistas Emilio Fraia e Vanessa Barbara. A grande sacada é a voz que os autores encontraram para o narrador, uma criança de sete anos. A linguagem não cai na pieguice e no “alumbramento”, mas constrói um universo consistente: até a passagem de tempo é própria do universo infantil, com os meses rebatizados, como o mês-palha. O verão do Chibo é, também, um livro de ausências. Crianças (o narrador, Chibo, Cabelo, Tambor) brincam num milharal e numa casa da árvore enquanto fazem guerra de guloseimas, treinam insetos, planejam contra espiões e discutem uma possível traição à rainha da Bulgária. Chibo é o nome do irmão mais velho do narrador, que desaparece sem se explicar. Homens de galocha passam a visitar o milharal. Época de colheita. Visitam a casa de uma das crianças. Surge tensão entre os desconhecidos e a criança em um plano. Surge tensão sexual entre um dos desconhecidos de galochas azuis e a mãe do narrador em outro plano. Nada é mostrado, ou melhor, muita coisa não é percebida pelo narrador. Com o fim do verão fica a sensação de vazio. Para o personagem e para o leitor.

O próprio método de criação do livro foi pensado como um jogo. Como se revelou numa entrevista, um dos autores escrevia uma parte do livro e a enviava ao outro, que continuava a história. O lírico se junta ao pop, o mítico se encaixa no cinematográfico. Tudo como um jogo. A principal influência dos autores deve mesmo ter sido Cortázar.

História mesmo não tem: “O calendário caiu do prego, as tábuas se desprenderam, e isso foi tudo”. Apenas sugestões de acontecimentos no universo particular dos garotos, numa linguagem confeitada de alusões e onomatopeias:

Nunca houve um besouro como o Bob. O Bruno e o Chibo viravam dias catando cascudos e testando um por um nas corridas, mas nenhum era tão bom. Além disso, o Bob brilhava no sol, era muito verde e redondo, parecia uma joaninha do submundo. O Cabelo ensinou o Bob a esfregar as patas quando queria comer, treinou o Bob em sessenta centímetros rasos com e sem obstáculos, levantamento de migalhas, natação de poça de cuspe, salto com vara. O Cabelo tornou o Bob sociável: ele ficava paradinho na mão da gente, tomava sol do lado do Bruno, vinha abanando o rabo quando abríamos o pote.

O tectectec da máquina tinha desaparecido, nenhum sinal dos barbudos também.

Ele faria croc ou cataplush…

A falta/busca do outro, que se espelha na própria escrita do romance, é um tema recorrente. Ausência: “A pior briga entre o Bruno e o Cabelo aconteceu pouco antes da gente se dividir, quando eu não estava; assopro umas formigas do braço queimado e penso — talvez por causa disso”. Talvez o Chibo, o irmão mais velho, nem tenha realmente existido.

O tempo, aqui, faz o trabalho inverso. O livro parece melhor depois de lido. Provavelmente porque cria um universo muito particular.

O verão do Chibo não é a obra-prima que dizem por aí. Mas tem muitas qualidades. Não lembro de um romance escrito a quatro mãos que tenha se saído tão bem. Uma das conquistas foi manter o ritmo e a cadência até o final, sem que o leitor se chateie no meio do livro pela repetição que é inerente (uau, consegui usar essa palavra) à obra. Mas a principal é não contar a história, como convém a um narrador que não entende o que se passa.

O vencedor é O verão do Chibo, que ganhou porque gostei mais. É isso. Mas torço o cérebro para encontrar mais razões. Essa falta de argumentos me fez consultar um amigo, outro juiz da Copa, e a refletir sobre a minha relação com os livros. Pensei que ler me agrada ou não. Sem muitos motivos, sem muitas argumentações, sem muita explicação. Alguém já disse que quando racionalizamos um sentimento, ele deixa de ser um sentimento. Deve ser isso.

Procurando direitinho até acho uns argumentos: embora O fazedor de velhos tenha uma história mais desenvolvida, O verão do Chibo compensa com imaginação. O segundo livro só poderia ser contado daquela forma, sem muita clareza, com repetições, sem entender o que está em sua volta — afinal o narrador é uma criança de sete anos.

Eu poderia dizer que O verão do Chibo ganhou pelo que não escreveu. Poderia dizer que venceu por esconder na hora de mostrar. Poderia dizer que venceu por fazer um romance de formação diferente. Poderia dizer que venceu pela sutileza e por lembrar que a imaginação ainda é a matéria-prima da literatura. Venceu porque criou o seu próprio universo em miniatura. O verão do Chibo passa. O fazedor de velhos vai pro conselho de classe.

Vencedor

O verão do Chibo

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68 comentários

    [...] This post was mentioned on Twitter by Clarice Saadi and Berna Brayner, Copa de Literatura. Copa de Literatura said: Está no ar o terceiro jogo da #clb2009, entre "O fazedor de velhos" e "O verão do Chibo": http://tinyurl.com/ygkj552 [...]

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  • Não li, mas sei qual escolher.

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  • Não li nenhum dos dois, mas é claro que a boa resenha do Bernardo me inclina mais a ler o Verão de Chibo. O que é curioso: tenho desse livro uma *impressão* positiva, uma espécie de simpatia à primeira vista, que não sei explicar. Tenho, claro, teses tolas – como, p ex, que o livro me interessou por causa do significante “Verão”, ou que o fato de ter sido escrito por dois autores me levou aos livros da citada coleção Vagalume, que às vezes vinham assim, assinados por casal. Bom, vai saber.

    Mas, e aí chega a parte que pra mim é mais digna de nota, me impressiona como esse bem querer gratuito pode, ao se associar à resenha acima, sobrepujar minha história de leitura do Lacerda – cujo Leão Rampante li há um tempão, logo quando saiu e, uns anos depois, li tb o Vista do Rio. Não são livros que mudaram minha vida – critério escrotinho – mas foram livros que me agradaram, que são bem diferentes, que me deixaram com o desejo de prestar atenção no autor.

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  • A.M, adoro critérios escrotinhos e teses tolas. Já comprei livros pelas capas, porque a autora era bonita, porque gosto de livros com bichos narradores, e mais um monte de bobagens de extrema importância.

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  • Também respeito imensamente critérios esdrúxulos na hora de comprar livros (e passei o dia tentando encontrar um tão sensacional quanto “gosto de livros com bichos narradores”), mas, leitura devidamente terminada, tenho dois pés atrás em relação a “O verão do Chibo”.

    O primeiro é injusto pacas: como o Bernardo diagnostica, “história mesmo não tem”. E eu gosto muito de uma boa história. Pra mim, livro sem história fica meio capenga. Mas é sacanagem eu criticar o livro por ele não cumprir uma promessa que nunca fez.

    O segundo já tem um pouco mais a ver com a proposta do livro. Ao contrário do Bernardo, não fiquei convencido de que a voz do narrador poderia pertencer a uma criança de sete anos. Nos trechos citados na resenha tem um “Nunca houve”, um “submundo”, um “sociável” bem pouco infantis. E na mesma página da maior citação tem a seguinte frase, prenhe de correção gramatical e taxonômica: “Um dia, enfim, parou de segurá-lo pela pata e fez dele o coleóptero mais rápido do milharal”. Estamos longe da primeira parte de “O som e a fúria”, ou mesmo de “The curious incident of the dog in the night-time”: este narrador de sete anos escreve como um jovem adulto (ou dois).

    O que em si não é um problema – o descasamento do emissor com o nível da linguagem pode ser interessante. O problema é que para mim esse descasamento não teve nenhuma razão de ser além da comodidade. E aí, por exemplo, não botei a falta de clareza que às vezes acomete o livro na conta de um “narrador que não entende o que se passa”, como diz o Bernardo; ela pareceu ser um jogo de cena dos autores, que não chegou a me irritar mas também não me agradou.

    Também queria falar de “O fazedor de velhos”, do qual gostei mais (embora também com reservas), mas o comentário já está grande. Fica pra amanhã.

    Abraços,

    Lucas

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  • Bela resenha, Bernardo, calma e firme.

    Gostei pacas de OVDChibo. Os motivos literários, vou deixar pra mais tarde.

    O motivo pessoal foi q me lembrou de minha própria infância, brincando no mato, na lama, em árvores. Se fosse só isso, já tava bom. Mas OVDC me trouxe de volta dezenas de palavras e expressões q eu conhecia, como “fulano é café-com-leite” e “mês-da-palha”, “mês-do-pó” (e outros meses não incluídos no livro, como “mês-da-lama”, “mês-do-vento” – acho q este era novembro). Pela orelha, vejo q a infância dos autores foi tbm em São Paulo, mas 25 anos depois da minha. ¿Será q a infância tem regionalmente um vocabulário próprio q vai passando de criança a criança através das gerações?

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  • Interessante suas observações, Lucas. Talvez no segundo pé eu acabe concordando com você.

    Doutor, fico feliz que tenha gostado.

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  • Não li O Verão de Chibo nem O Fazedor de Velhos. Estive com eles nas mãos, mas nenhum dos critérios duvidosos para compra de livros apareceu na hora (e tenho vários). Mas a resenha do Bernardo me deixou com vontade de ler O Verão de Chibo. Ótimo trabalho!

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  • Lucas,

    a discussão sobre a verossimilhança ou não da voz do narrador é muito pertinente, e me remete a um livro que li há pouco tempo, A Elegância do Ouriço. Não achei o livro nada demais. Pareceu-me um daqueles livros fraquinhos com dois ou três momentos bacanas (como O Último Leitor, do David Toscana). Mas a menina de onze anos, citando Schopenhauer, refletindo sobre o suicídio… aquilo atuou contra. Simplesmente não consegui entrar no livro, assinar o contrato do “como se” com a autora. Na minha resenha falo um pouco sobre isso (mas não vou antecipar nada). Penso que a verossimilhança ainda é um bom critério para pensar um livro, desde que este seja usado com moderação. Ele não pode definir nada de antemão, ser ferramenta para um juízo definitivo, mas a construção do verossímil no texto (e isso não tem nada a ver com realismo) é um critério importante para a crítica.

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  • Valeu, Felipe. É uma longa discussão essa do narrador verossímil. Tendo agora a concordar com Lucas. E como direi no meu leito de morte (obrigado, A.M): “Estou mudando de opinião em relação à vida.”

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  • .
    Oi. Aqui é o Emilio, que psicografou o “Chibo” com a Vanessa.

    Não sei se autor pode dar opinião assim, nem sei se vou conseguir contribuir com algo (achei legal a leitura do Bernardo). Mas penso que nenhum narrador infantil (“Zazie no metrô”, por exemplo) ou idiota (“O som e a fúria”) ou, hm, mais calado e tonto (a Felicité, do “Um coração simples”) seria capaz de contar uma história. Pelo menos não como o Queneau, o Faulkner ou o Flaubert fizeram. Acho que o escritor empresta a esses narradores certos recursos, digamos, mais refinados. Se um escritor reproduzisse fielmente a voz de uma criança, de um idiota ou de uma figura simplória, não teríamos livro, não teríamos articulação.

    O principal, quando estávamos escrevendo, era que a IDEIA de uma criança narrando estivesse ali — de resto, seria um naturalismo com gosto de ferida seca.

    Além disso, existe uma tensão entre o presente das crianças e o lugar deste narrador, que às vezes se descola do tempo presente para fazer uma ou outra reflexão que, claro, estaria vedada a uma criança. Num texto na revista Cult, um crítico, Eduardo Sterzi, escreveu algo sobre isso: “a voz que ouvimos no texto se tensiona todo o tempo, embora com sutileza, entre aquela da criança que conta a história enquanto ela acontece e a aquela outra do adulto que relembra a história com distanciamento; o vocabulário oscila permanentemente entre a imaginação desenfreada da criança, que transfigura as brincadeiras mais triviais em complexas tramas de espionagem e guerra, e a reflexidade dura do adulto”.

    Sobre a ausência de história, bem, ela está lá. Mas não de um jeito convencional. Não dava pra narrar como se fosse uma história de aventuras simplesmente, porque desde “A educação sentimental”, o “Godot” etc. a trama enguiçou — até nos contos de Borges, que defende a trama, a aventura e a trama aparecem com curativo na testa.

    Tem umas entrevistas sobre o livro aqui, se alguém tiver interesse: http://emiliofraia.blogspot.com/2008/07/bustos-domecq-de-nariz-escorrendo.html

    E um texto sobre Borges-Bioy:
    http://emiliofraia.blogspot.com/2008/03/tom-jerry.html
    .

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  • Não vejo problema no narrador de OVDChibo usar palavras inverossímeis numa criança de 7 anos. Os sentimentos, modos de pensar e ações duma criança têm nomes (alguns complicadíssimos) e, embora a própria criança não conheça esses nomes, seus pensamentos podem ser TRADUZIDOS prà linguagem adulta. Teria sido inverossímil se esses pensamentos e raciocínios fossem eles mesmos lúcidos e conscientemente complexos. Acho q, na verdade, Lucas, tamos bem perto da 1ª parte de Sound & Fury, pois o Benjie certamente não teria sido capaz de escrever aquilo tudo, q é uma tradução de seus pensamentos feita pelo autor.

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  • Quando o autor entra na caixa de comentário fica bem mais interessante, Emilio. Gostei muito dos dois textos.

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  • Um livro que gosto muito é O estranho caso do cachorro morto, de Mark Haddon. Acho que ele resolve bem essa questão. Para quem não conhece o narrador é um menino e sofre de uma espécie de autismo chamada de Síndrome de Asperger.

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  • Fico interessado nessa história que se conta sobre verosimilhança, afinal estamos falando, aqui, de crianças que tem suas vozes portadas por folhas de papel. Assim, seco, não me parece verossímil. Nunca. Mas convence. Ou ao menos pode convencer.

    Gosto da resenha, Bernardo, no sentido em que eu dara chance para Chibo num futuro como leitor. Mas em outros sentidos eu gosto menos da resenha, embora sobre ‘issos’ eu não saiba escrever.

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  • Verão do Chibo é o bicho. Dos livros que li da Copa, é o que mais me agradou. Mas não é dele que quero falar.
    Quero falar do livro que eu não li.
    Seguinte: “O Fazedor de Velhos” não é o livro infanto-juvenil do Lacerda, autor de outros títulos “voltados para o público adulto”? Até aí tudo bem, o que está em jogo é a “qualidade” literária, MAS, tem uns MAS aí.
    Oras, se “O Fazedor de Velhos” é de fato um livro infanto-juvenil, ele foi criado com um público-alvo, ou melhor, um mercado-alvo em mente. Para um livro infanto-juvenil vender, tem que estar numa linguagem que um pré-adolescente consiga entender. Isso obrigaria o escritor, portanto, a limitar sua linguagem para direcionar o livro ao mercado. Não? As perguntas e as aspas aqui não representam ironia, mas incerteza. Realmente não estou certo do que tô falando. A pergunta é: Deveria “O Fazedor de Velhos” estar concorrendo na Copa junto com os outros livros adultos? (se ele for, de fato, infanto-juvenil). Uma vez vi uma pessoa reclamar da separação do Jabuti de livros infanto-juvenis dos adultos. Mas é complicada a história. Se é.

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  • Também apoio a presença dos autores na mesa-redonda pós-jogo. Só fica complicado pra quem tá defendendo a outra ideia. Mas complicação não é de todo mau.

    Concordo com Emilio e Plausível: Benjy dificilmente teria pensado o que Faulkner pôs na cabeça dele. Mas também acho que, se o Lee Van Cleef saca a arma primeiro, o Clint Eastwood dificilmente tem tempo de atirar antes. Mas isso é o que eu penso agora, depois do filme: na hora, graças à edição, o resultado do duelo pareceu natural. Assim como, enquanto eu estava lendo Faulkner, aceitei que aquele texto era a transcrição da imaginação do Benjy.

    Por isso, embora eu concorde que o mais importante é mesmo a ideia da criança-narradora, acho que a linguagem poderia tê-la reforçado. Quando surgem ênclises no texto, o narrador sai da minha mente e surgem o Emilio e a Vanessa.

    Quanto ao adulto relembrando a história, confesso que não o enxerguei no texto. Mas não é a primeira vez que um livro da Copa se mostra mais esperto do que eu.

    Só não acredito muito no enguiço da trama. O sentido dela e a forma de contá-la podem ter mudado, mas Ian McEwan ou Philip Roth, por exemplo, estão aí para mostrar que uma trama bem contada, e relativamente redonda, não faz mal a ninguém.

    Abraços,

    Lucas

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  • 14: Bernardo, “O estranho caso do cachorro morto” é o “The curious incident of the dog in the night-time” que mencionei no comentário 5. Também gosto muito do livro, e também acho que a questão de ter um narrador autista é muito bem resolvida ali.

    Abraços,

    Lucas

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  • Escapou-me a referência anterior, Lucas.

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  • Para bagunçar mais: existe verossimilhança em escrever um livro, por exemplo, em que um cachorro é o narrador?

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  • Sobre o argumento do adulto lembrando a história: vou pensar no assunto.

    Sobre a incapacidade de falar sobre os issos do Refrator: tente.

    Sobre as dúvidas de Xerxenesky: tive as mesmas antes de começar a escrever. Decidi ignorar que era infanto-juvenil. Simplesmente. Ele, sem dúvida, acabou prejudicado por isso.

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  • 16: Xerexenesky, também acho essa questão de colocar um livro infanto-juvenil na arena dos livros para adultos complicada. “O fazedor de velhos” entrou na Copa em parte porque gosto muito dos livros do Rodrigo Lacerda, e queria que um deles fosse discutido aqui. (Se depender de mim, aliás, “Outra vida” entra na Copa 2010.) E o Bernardo chega a falar dessa questão na resenha: “Na tentativa de escrever um livro para um público mais jovem, deixou tudo muito explicadinho, certinho”.

    Concordo e acrescento outro pecado de livros infantis que “O fazedor de velhos” às vezes comete: o de querer ser engraçadinho. Exemplo:

    “Outro poema que terminei preferindo, e aprendendo de cor, foi ‘O monstrengo’, escrito, segundo minha mãe, por um poeta português que dizia ter quatro personalidades. Achei isso impressionante. Já imaginou, quatro portugueses numa pessoa só?”

    Enfim, acho que a melhor forma de resolver a questão é mesmo o que o Bernardo disse no 21: tratar o livro como todos os outros.

    Estou tentando escrever sobre “O fazedor de velhos”, mas não sai nada de inteligível. Mas ainda não desisti.

    Abraços,

    Lucas

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  • 20: Bernardo, acho que aí o autor teria uma excelente desculpa para mandar a verossimilhança pro espaço. Embora eu ache que o Paul Auster tenha sido razoavelmente verossímil em Timbuktu – considerando, claro, a verossimilhança que existiu dentro da minha cabeça enquanto eu lia o livro.

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  • Saiu meio ruim esse comentário 23. Tentando consertar: a verossimilhança nem sempre é obrigatória. Às vezes o autor quer mesmo ser inverossímil, e tem um bom motivo para tanto. Pode ser o caso quando o narrador é um cachorro.

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  • Não li esse, Lucas. Mas entendi e lembrei de um conto de Dave Eggers.

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  • Verossimilhança, no fim das contas, é coerência interna.

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  • Pegando o trem andando e já sentando na janelinha, concordo com o xxnsk. Por mais fantástica que a coisa seja, é preciso lutar pela coerência interna. Senão, aquela tão falada “suspensão voluntária da descrença” a que o leitor se submete vai pro espaço.

    O Sérgio Rodrigues publicou um texto bacana sobre isso um tempinho atrás, explorando o mistério do que ele chama de “plausibilidade”.

    Não opino mais, porque não li os livros. Mas a resenha ficou bem interessante.

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  • 26: Concordo, Xerxenesky. 18: Extremamente alto e incrivelmente perto, de Safran Foer, traça um caminho parecido com o do Estranho caso, não, Lucas? Ali o menino é um gênio, o que não é tão diferente.

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  • Eu nem vou falar de The Last Samurai (não confundir com o filme de Tom Cruise), pra não dar briga.

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  • Pra mim é curioso q o assunto central de meu blogue tenha surgido numa conversa sobre um livro q considerei meio q desobrigado das demandas da plausibilidade.

    Pra quem se interessar, tenho um texto de 2005 falando de plausibilidade e, en passant, de verosimilhança e coerência:

    http://drplausivel.blogspot.com/2005/02/e-o-doutor-ficou-srio-de-repente.html

    Ah, Lucas, apesar do q eu disse sobre OVDC, as ênclises me rasparam um pouquinho tbm.

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  • A questão do narrador verossímil é interessantíssima – embora ultimamente eu esteja saturado da “questão do narrador”, da “memória”, da “voz”: tais pontos estão para os prefácios, orelhas e resenhas do séc. XXI como o surrado [i]“profundo mergulho na alma humana “[/i] estava para o século XX.

    Só que há um baita equívoco aí: o trecho citado pelo resenhista é narrado por um adulto (ou pelo menos por alguém que já é criança), não por uma criança. É perceptível até pra quem não leu o livro.

    Isso já havia acontecido na edição passada. Para exemplificar a “pobreza” da linguagem do Daniel Galera, transcreveram a fala de um personagem (na caixa de comentários).

    O mais curioso é que o próprio resenhista deixa-se conduzir pelo equívoco alheio e cogita em mudar sua opinião sobre a tal verossimilhança do narrador: a Vida peca pela incoerência interna. E talvez seja por isso que leio.

    Hummm.

    Então, isso acaba de vez com qualquer discussão sobre a verossimilhança do narrador do O.V.D.C. etc e podemos passar a outros aspectos, não?

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  • Bilu, no trecho citado pelo Bernardo para mim o narrador era a criança mesmo, o Menorzinho. Mas para mim, como eu disse no comentário 17, o texto inteiro é narrado por ele. E me incomodou justamente a nítida impressão, “perceptível até para quem não leu o livro”, de que às vezes quem narrava era um adulto.

    Quanto a acabar de vez com a discussão, tenho inveja de uma pessoa com tanta confiança nos próprios argumentos. Mas talvez você tenha razão – pelo menos no que diz respeito a este jogo: no próximo, como o Felipe antecipou no comentário 9, ela deve voltar. Parece que o papo está mesmo no ar.

    Abraços,

    Lucas

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  • Lucas, não atentei para o “mea culpa” no comentário 17. Perdoe-me. Não comentaria se tivesse lido.

    Ainda assim, acho que minha “sugestão” ainda parece bem razoável: a partir do momento em que todos os comentaristas conheceram, lembraram-se ou descobriram Quem Narra O Que e Como Cada Um Narra, a “discussão” perde o sentido, ao menos no que toca ao livro resenhado. Se o tema está no ar e será abordado em outra peleja, ok; desde já, lá me parece mais adequado do que aqui.

    Digo isso, Lucas, porque não estou confiando em nenhum argumento (próprio ou alheio).
    Essa “sugestão” decorre de um FATO, o qual foi ressaltado e elucidado por um dos autores do livro: um dos narradores (se é que pode-se chamá-lo assim) é um adulto.

    Sendo um adulto, as falhas de verossimilhança (ou coerência interna) apontadas deixam de existir, seja qto ao vocabulário, indagações, raciocínio etc. Era só isso.

    Além do mais, queria conhecer outros aspectos interessantes e bilu bilu-tetéios dos livros resenhados (além da questão da narração)

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  • .
    Alô.

    Só um ajuste: o “Zazie” e o “Coração simples” não são narrados em primeira pessoa. O que eu quis dizer é que o FOCO narrativo é uma criança no primeiro e a criada Felicité no segundo. E que o narrador coloca a serviço deles uma série de procedimentos narrativos que é decisiva para a forma de cada uma das histórias. O Faulkner faz isso no “Som e a fúria”, só que em primeira pessoa.

    Pode-se discutir se a série de procedimentos usados no “Chibo” (para dar a ideia da imaginação desenfreada desta criança muito específica) funciona ou não, claro. Mas eles estão lá. Quanto a ser narrado por uma criança ou um adulto: o livro não se preocupa em dar uma resposta clara a isso. O que não queríamos era o sentimentalismo de um adulto que recorda a infância, por isso a opção de colar o narrador àquele tempo presente. Sobre a história: ela existe, só não é contada de maneira tradicional porque o narrador-Menorzinho, colado aos acontecimentos do jeito que está (e este foi um verão muito duro pra ele), não permitiria.

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    .

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  • Gostei dessa formulação do Xerxenesky: resume bem minha solicitação pro autor, pra qualquer autor. Pode ser velha guarda isso, mas até incoerência tem que ter coerência interna.

    Outros comentários:

    Lucas: eu tb me reconheço no comentário de Lucas – eu gosto de história, busco história, desejo ver personagens e situações em desenvolvimento – mas tb sei que isso não é uma exigência absoluta, isso não coloniza meu gosto. Em Sherwood Anderson, ou nos meus contos favoritos de Ballard, não é exatamente diante de histórias que estamos – o funcionamente do negócio é fundado na alusão e na exigência de trabalho do leitor pra preencher as lacunas.

    Bilu-Tetéia: Curioso: me reconheço como parte disso que vc aponta em seu diagnóstico, vivo exigindo isso dos autores que leio, me aporrinha sim ver criança brasileira usando ênclise (será que no Leblon é assim mesmo?), e me regozijo com os momentos em que julgo que, por exemplo, o André Sant’anna acerta a mão na seleção vocabular e na estruturação de uma fala que já constrói um perfil moral: eu aplaudo isso. Mas não reconheço isso como um marcador geracional da crítica e, digamos que seja, o que será que isso diz sobre o que a crítica está cobrando dos autores? Você vê isso como parte de quê?

    Em meu caso, continuando aí com a fórmula do AX, estou cobrando um negócio que me permita continuar no investimento como crente, como apostador no funcionamento do mecanismo textual proposto pelo autor. Se eu a todo momento me pego pensando “Ah, caceta, que é isso” acho que, enquanto ficção, o negócio não está funcionando. Ou seja: não estou cobrando compatibilidade mimética com a realidade ou com o fora da ficção, mas sim uma espécie de compatibilidade com as regras do jogo produzidas pelo próprio autor em seu projeto. Um exemplo que agora me ocorreu é O Mago, de Cesar Aira, que é bizarríssimo – há p ex uma cena na qual uma escova de dentes e outros objetos de tocador executam um balé: é Dada, e me fez rir, ao invés de me fazer “Nhé”.

    Tiago A: O tema do livro da DeWitt sempre aparece qdo conversamos sobre isso. E nem sei se vc chegou a terminar a leitura, o que talvez (talvez) conferisse/ confira um diferencial para aquele negócio ali. Mas, se para mim Ludo é verossímil, se funciona para mim e se não me estimulou à reação “Nhé”, acho que isso se deve aos outros elementos: a genealogia de gênios tortos da família (excelência técnica e exuberância intelectual + incompetência social há pelo menos duas gerações); à socialização insulada (o menino vive com Os Sete Samurais, que são praticamente os únicos modelos morais que ele conhece) e à estimulação precoce (linguagem é jogo praquele moleque, T: kanji é a bola de gude dele). Etc Isso tudo é, pra mim, construção de personagem, e esse esforço é recompensado pois resulta que esse personagem é consistente com tudo isso – é um fruto aceitável desse conjunto de contingências, anômalas e excepcionais e, portanto, engendrando um moleque que é, tb, uma entidade bizarra. Mas esse papo é comprido, e não sou evangelista. :)

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  • E para resolver essa questão da verossimilhança, o mais comum é o autor colocar o protagonista como intelectualmente privilegiado. Assim fica mais simples escoar as próprias ideias (dele, autor) através da fala do personagem.

    Dois exemplos recentes e heterogêneos: em Cordilheira, a Anita é uma escritora prodígio que já tem prêmios literários aos vinte e poucos anos.

    Em Indignação, o Marcus Messner é um aluno que só tira notas 10 e lê e cita Bertrand Russel aos dezoito anos.

    Isso não torna esses livros ruins, mas denuncia a opção pelo caminho mais fácil.

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  • 31: Não entendi isso, Bilu: “…ou pelo menos por alguém que já é criança), não por uma criança”. Sério, sem ironia. E achei boa a explicação de Emilio. Mas não acho que ela acaba com a discussão (mesmo que tão batida).

    Abraços.

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  • Eu gostei disso: “Quanto a ser narrado por uma criança ou um adulto: o livro não se preocupa em dar uma resposta clara a isso.”

    E, Emilio, talvez eu tenha exagerado em falar que não tem história, talvez devesse falar em história tradicional.

    Abraço.

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  • Em seu comentário 17, último parágrafo, Lucas me faz ver algo importante, talvez como escolha pessoal estética, mas, enfim, algo que atribuo relevância para a avalição de obra artística, isto é, tem escritores que conseguem fazer todos estes jogos estéticos, interessantíssimos aliás, como a perspectiva dos narradores, o tempo difuso, o jogo da verossimilhança etc e jamais deixam a história sem pé, diversamente de como fazem os outros, onde o enredo gira ao sabor da idéia conveniente (apenas para citar o enredo, pois eu poderia citar a caracterização das personagens). Não sei, receio que as personagens estejam servindo tanto às idéias que perdem o vigor, o calor. Receio um pouco certo esteticismo na literatura atual e me pergunto se não deveríamos nos ater a aspectos mais “chão” da literatura, concomitantemente, claro, ainda que sejam os menos cativantes, ou até menos brilhantes… Não sei. Me dá uma sensação de que falta vibração até mesmo aos comentaristas a respeito dos livros que vem sendo avaliados desde a primeira Copa. De qualquer forma, acho que eu estou nadando contra a corrente aqui e isto me dá a sensação de que, ou sou peixe fora d’água ou (mais provável) não estou entendendo alguma coisa… É preciso se tocar (e aqui nenhum onanismo resolve).

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  • Amém, Danilo.

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  • Não achei q OVDC “não tem história”. Há vários momentos em q ele se fecha, fecha os olhos, &c, sugerindo q tem coisas muito sérias acontecendo longe do milharal, coisas q a criança narradora não quer aceitar. Perceber o q são, ou o q podem ser, requereria mais de uma leitura. Há tbm a possibilidade de q OVDC não narra UMA história, mas diversas possibilidades de história, de modo q saber-exatamente-qual-é-a-história pode tar vedado ao leitor; acho esse o aspecto mais saliente e atraente do livro.

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  • A partir do comentário do AM, acho que eu seria justo e preciso se aponta-se como um (suposto) “marcador geracional” Editorial/Comercial (deixando a Crítica de fora). Orelhas, prefácios, essas coisas que, não raro, passam ao largo do exercício crítico.

    Realocada a questão, AM, eu desconfio que é parte da preguiça, da “moda”, ou que talvez essas questões em torno da narração acabem sendo o grande traço distintivo da Literatura Atual. Logo, essas questões tornam-se incontornáveis para a Crítica Atual.

    “o que será que isso diz sobre o que a crítica está cobrando dos autores?”

    Não sei.

    (Justifico a resposta com uma opinião/impressão pessoal absolutamente inútil pra Copa de Literatura Brasileira e para essa Caixa de Comentários:

    O certo é que, convocado a ultrapassar essa linha, meu interesse dá dois passos para trás. Não saberia responder a essa pergunta. Me interessa o que o livro está ME cobrando (tampouco me interessa o que cobra aos outros).

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  • “31: Não entendi isso, Bilu: “…ou pelo menos por alguém que já é criança), não por uma criança”.”

    ERRO MATERIAL. Deveria ser: “(ou pelo menos por alguém que já NÃO é criança), não por uma criança”

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  • Bilu, vou tentar continuar a discussão mas jogar ela para um outro lado: você diz no comentário 33 que a narração “compartilhada” de “O verão de Chibo” é um fato, informado pelo Emilio, um dos autores do livro. O próprio Emilio, no comentário 34, entorta um pouco a linha reta, mas independendente disso: será que basta o autor dizer que é para que seja?

    Acho que a resposta é claramente não. Por um lado, um autor pode não perceber várias leituras possíveis para o seu texto. O Louis Begley escreveu um ensaio biográfico sobre o Kafka em que ele fala das múltiplas leituras que “O processo” ou “Na colônia penal” receberam ao longo do século; é possível que uma ou mais dessas leituras não estivesse na cabeça ou no inconsciente de Kafka, e que leitores as tenham aportado mais tarde ao texto.

    Defender o contrário é mais complicado, mas pode ser que, para voltar ao livro resenhado, a minha inteligência tenha sido insuficiente para captar as sugestões em “O verão de Chibo” que indicaram um narrador sem idade fixa. Ou de repente essas sugestões não foram fortea o bastante para passar essa impressão. Ou de repente a minha inteligência e as sugestões se desencontraram.

    A sugestão de releitura do Doutor Plausível funciona aqui também: pode ser que, com essa informação do Emilio na manga, eu releia o texto e ache que a linguagem faz mais sentido. Também posso continuar teimando que pra mim ali só tem mesmo uma criança, e que continuo incomodado pelas ênclises.

    Abraços,

    Lucas

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  • Tbm não me interessam as mirabolâncias da crítica catalogando narradores. Li OVDC como o(s) autor(es) traduzindo o q tá na cabeça do menino – q é, sim, o narrador do livro, não ele qdo adulto.

    E isso não é o q há de excepcional no livro.

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  • Estou gostando da discussão. Quero ler O Verão do Chibo. :D

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  • Dr, adorei seu (plausível e inteligente-2) post: vou começar a usar como material didático! :)

    *

    Bilu, obrigado pela resposta. E vc tem razão: a pergunta é minha, eu que quero saber esse negócio sobre a crítica. Já faz um tempo que quero produzir um texto sobre blurb, sobre a estrutura e a economia do blurb. Quem sabe com esse pontapé sai?

    *

    Eu tb gostei da participação do Emilio aqui, e em geral gosto quando os autores envolvidos aparecem e acho isso bacana, a possibilidade de interagir, de ouvir, de perceber opções (p ex, o texto sobre Borges-Bioy do Emilio é, tb, uma defesa do procedimento que ele utilizou para autorar o livro com a Vanessa) e, enfim, de ter mais uma perspectiva sobre o trabalho. Mas noto que, salvo no caso do Alberto Mussa (me corrijam, por favor, se pisei na bola), só aparecem os vencedores. Fico pensando no que seria necessário para que um “perdedor” aparecesse aqui – e que nao fosse para defender seu lado mas, pelo menos, para adicionar algum tempero à conversa. Fiquei surpreso ao saber, p ex, que o Cuenca comentou em seu blog o resultado da Copa, mas nada aqui: ao ver o comentário, era um descarte o que, creio, é uma pena. Há outros papéis, e lugares de performance autoral, que poderiam ter aqui um espaço de desempenho interessante, acho.

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  • DR, questão de boa-fé, ainda no rumo proposto pela Bilu: vc diz:

    “Tbm não me interessam as mirabolâncias da crítica catalogando narradores”

    Cadê esses catálogos? A sério: não consigo lembrar de um sequer agora, salvo o pacotão do Wood no texto sobre Z Smith. Mas mais que esse não lembro mesmo. E tenho lido os suplementos, e lido resenhas do raio que o parta na internet. Não leio tudo, mas tô com o radar apontado nessa direção, e leio tb sistematicamente textos de autores cujas posições não aprecio (p ex, apesar do fiasco lastimável de sua atuação aqui ano passado, continuo lendo o Nelson de Oliveira).

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  • AM, correção rápida: o André Sant’Anna, na primeira Copa, comentou tanto o jogo que ele ganhou quanto o que ele perdeu.

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  • Ah, o Sérgio Rodrigues também comentou quando perdeu na primeira Copa.

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  • Lucas, é verdade. O curioso ali, todavia, é que o destino dos comentários estava em outro lugar: o negócio não tinha a ver exatamente com o que aconteceu aqui, mas sim com o que já tinha acontecido antes daqui na caixa de comentários do blog do Garschagen (que, que eu me lembre, não comentou nada fora de sua resenha). Ou não? Tem que voltar e rever.

    *

    Andei pensando, nessa linha, no que faria, no que farei se, eventualmente, um autor que eu resenhe aqui, digamos o que receba a negativa, apareça pra conversar aqui na caixa. Eu certamente não sei, a priori, o que farei/ faria – mas sei que eu sou capaz de mudar de opinião sobre minhas leituras a partir de conversas, leituras, informações que adquiro sobre o lido: uma coisa que li hoje e achei um traste pode, depois de uma conversa de bar, passar a ser interessante, respeitável, etc. Então esse tipo de coisa, por sua possibilidade de complicar minha relação com os textos e com o juízo que faço dos textos, me interessa pacas: o material, com essa adição, fica mais resistente, e pro argumento isso é, às vezes, bom (e pra comunidade de interessados no assunto tb, talvez, seja).

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  • Eu também quero ler o Verão de Chibo. É, eu não li! Lucas, tudo que escrevi se baseia no 4º parágrafo do Comentário 11, feito pelo Emílio, um dos autores.

    Esse parágrafo (incluindo a crítica citada, que parece ter o aval do autor) me levou a crer que há um Adulto envolvido. Minha inteligência só me permitiu essa conclusão.

    O Emílio volta e diz (Comentário 34):

    “Quanto a ser narrado por uma criança ou um adulto: o livro não se preocupa em dar uma resposta clara a isso.”

    Mas aí, no que me concerne, o estrago já está feito: quando Ler o Verão de Chibo, o Adulto estará lá me esperando, sólido, concreto.

    A culpa é sua, Emílio! (rs) Não, a culpa é minha: é o castigo por comentar comentários, por falar do que não li. Porque isso não se faz. É errado. E deselegante.

    Lucas, nada do que escrevi tem a ver com captar sugestões ou inteligência ou capacidade de compreensão etc. Tudo o que escrevi foi em cima da resenha e do comentário nº 11. Não li o livro, não sei o que ele sugere.

    1) Será que basta o autor dizer que é para que seja?

    Bastaria. O problema é: o Autor não diz. Os grandes autores e aqueles que valem a pena, não dizem. Jamais dirão.

    A mim, num primeiro momento, o Emílio pareceu ter dito. Mas ele foi e “desdisse”.

    OH GLÓRIA, ainda bem que ele desdisse, pq eu realmente me interessei em lê-lo (mérito do resenhista e dos comentários aqui).

    Acho que, “com a informação do Emílio na manga” valeria a pena reler o livro, sim.

    Se funcionar, eu iria atrás das informações da Vanessa Bárbara(a “ausência” dela nos comentários começa a me incomodar) e leria de novo.

    Se funcionar novamente, eu poderia até buscar o que o Louis Begley tem a dizer sobre o assunto.

    Não é esse o trabalho de quem se interessa por crítica?

    2) “É possível que uma ou mais dessas leituras não estivesse na cabeça ou no inconsciente de Kafka, e que leitores as tenham aportado mais tarde ao texto.”

    Não estavam. Pode acreditar: (desconfio que) não estavam. O que estava lá, jamais saberemos. Nem o Louis Begley sabe. Pouco me importa, contanto que eu possa ler e reler Kafka sossegado (esse eu li).

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  • Comentário 51:

    “(…)sei que eu sou (…) e pra comunidade de interessados no assunto tb, talvez, seja).”

    [2]

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  • AM,
    “Cadê esses catálogos?”

    Ah, foi só uma hiperboleta. Foi pra dizer q nunca penso “ah, este aqui é um narrador-personagem diegético parcialmente onisciente e não-confiável”. Aliás, não confio em narrador nenhum por princípio.

    Mas deve haver um catálogo nalgum lugar. Não seria trabalhoso listar os tipos de narradores q vivem pipocando em crítica. Pegue três palavras:

    confiável, onisciente, diegético

    precedidas ou não por ‘parcialmente’ e ‘não’, e já aparecem 12 categorias, algumas absurdas, culminando com

    “narrador-ausente confiável não-onisciente parcialmente diegético”.

    Sei lá o q é isso, mas é possível.

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  • Agora lembrei do protagonista de “The child in time”, que escreve um excelento livro infanto-juvenil… sem saber. :)

    Bilu, não sei se o livro do Begley já saiu (pela Companhia das Letras, trabalhei na preparação), mas vale a pena. O argumento do Begley é que a maioria dos temas certamente estava na cabeça do Kafka: “Na colônia penal” deve muito ao caso Dreyfuss, como querem alguns, e também funciona como uma parábola da passagem do judaísmo para o cristianismo, como querem outros; “O processo” é sobre burocracia e totalitarismo mas também sobre o noivado fracassado de Kafka com Felicia Bauer; “Um relatório para uma Academia” é sobre os direitos dos animais mas também sobre os esforços judaicos para se assimilar aos povos europeus.

    Begley aceita todas essas interpretações, desde que o leitor não se sente para ler “Na colônia penal” pensando “Lerei agora uma crítica ficcional do tratamento de Dreyfuss pelos militares franceses”, por exemplo. Toda interpretação é válida se encontrar respaldo no texto e se somar às outras. A crítica de Begley se dirige aos kafkólogos que decidem que a obra X de Kafka é sobre um assunto e pronto.

    Acho que me afastei bem do tema da discussão, mas no meio do caminho o objetivo passou a ser atiçar a curiosidade sobre o texto do Begley. Espero que eu tenha conseguido.

    Abraços,

    Lucas

    PS: O que é diegético?

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  • P.S: O que é diegético (2)

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  • Lucas: aqui, ó:

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Diegese

    Assino embaixo do verbete – de facto. :)

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  • Conseguiu, Lucas!

    Alegra-me a possibilidade de finalmente entender O Artista Da Fome (desde já, creio que existem muitos outros “mais também” além dos enumerados pelo Begley para O Processo, Na Colônia Penal e Um Relatório para Uma Academia).

    Que siga a pelada.

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  • Falando em Kafka e fugindo do foco inicial: a leitura que Piglia faz de Kafka em O último leitor é linda.

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  • Sobre o ultimo comentário acima: que coisa mal escrita.

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  • 58: Bilu, não se desanime com o Begley, mas ele fala pouco de “Um artista da fome”. Ele fala do trabalho de Kafka, suas doenças, suas mulheres, seu judaísmo e só no último capítulo ataca de fato as obras, priorizando “O julgamento”, “Na colônia penal” e os romances.

    Abraços,

    Lucas

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  • 1) Vale mesmo assim, Lucas.

    2) Dee Snyder(ou Udo Dirkschneider?) disse: “Less Begley, More Chibo!”.

    Vambora pro foco.

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  • .
    Oi, oi.

    Prometo que é o último: no comentário 11, quando disse que “existe uma tensão entre o presente das crianças e O LUGAR DESTE NARRADOR, que às vezes se descola do tempo presente para fazer uma ou outra reflexão que, claro, estaria vedada a uma criança” não digo que se trata de um ADULTO. Quem diz isso é o crítico.

    Não sei muito sobre o lugar deste narrador. Este lugar que se descola do que seria o presente da criança existe (se um escritor reproduzisse fielmente a voz de uma criança não teríamos livro, não teríamos articulação), mas eu não sei o bastante sobre ele, e o livro não se preocupa em solucionar isso. Mas achei legal a possibilidade aberta pelo crítico — e, puxa, tudo são maneiras ler.

    Como pediram a presença da Vanessa (ela está de férias e viajou com o comandante de divisão André Conti para uma praia cheia de águas-vivas e um peixe-boi), a Vanessa e eu respondemos uma vez uma pergunta que tem a ver com a discussão que surgiu, sobre se o autor é ou não dono das chaves do livro (na minha opinião, não — não basta o autor dizer para que seja: depois do livro escrito, o autor é mais um leitor):

    Enquanto escrevíamos, não idealizamos nenhum leitor, não pensamos nos amigos nem no que a história poderia causar. Parafraseando o Quiroga: tentávamos criar a história como se ela não tivesse interesse senão para o pequeno mundo dos nossos personagens. Mas, com o livro pronto, a literatura são sempre MODOS DE LER.

    A mãe da Vanessa, por exemplo, quer um leitor que perceba quão magnífico é o personagem Cabelo. Ele seria o centro do livro e tudo no mundo se encheria de desenhos alienígenas, abelhas e nariz escorrendo. O pai do Emilio diz que é um Verão muito sinistro, uma história de barcos que não atracam, lagartixas cortadas ao meio, tábuas quebradas.

    Ou a história de um mundo em que a imaginação tenta resistir frente a um exército de figuras mortas e empalhadas.

    Alguém pode dizer: é o tipo de narrativa de aventura, só que enguiçada! Há crianças, férias, verão, mas o filme enroscou na máquina, a boia de pato furou, as figurinhas perderam o autocolante. Ou é a história de um narrador que não entende direito as coisas porque, ora, é criança!

    É a história de pais que brigam, ou é a história de como, sem perceber, devagar e aos poucos, as coisas de lá se misturam com as de cá e nos transformamos em pessoas novas e estranhas para nós mesmos.

    Dá pra ser muita coisa. Não tem fim.
    .

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  • Pô, Emilio, que promessa mais sem graça. Assim vou ser obrigado a concluir que você não tem umbigo.

    Ok, sério agora: a sua presença neste papo foi valiosíssima. Escrevi lá no jogo 1, comentário 16, sobre como quase todo autor brasileiro que vejo falando de crítica literária só sabe reclamar que os críticos não são capazes de entender o que ele escreve. É um grande prazer ver um autor me desmentindo, disposto a arregaçar as mangas e debater a obra, sem apelar pro insulto e com argumentos que fazem você repensar a leitura.

    Costumo ser muito radical quando a conversa é a objetividade da apreciação de uma obra de arte: para mim isso não existe, qualquer juízo sobre qualquer obra é potencialmente defensável. Mas se eu tivesse que buscar algum tipo de objetividade acho que ela se estaria fortemente correlacionada ao debate que a obra é capaz de suscitar e à inteligência dos argumentos que seus defensores e detratores conseguem montar para debatê-la. Objetivamente, portanto, a obra seria tão boa quanto a discussão que se pode ter sobre ela.

    Digo isso porque eu, que instintivamente gostei mais de “O fazedor de velhos” e sei que esta é a última chance de falar do livro na Copa, não consegui pensar em nada de interessante para escrever sobre ele. Continuo achando que o meu voto seria diferente do do Bernardo, mas não tenho mais certeza de que seria uma boa decisão.

    Abraços,

    Lucas

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  • A essa altura, dizer que sou um sujeito simplório é até redundância. Mas, pra mim, (desconfio que) alguém que faz uma reflexão que estaria vedada a uma criança, é um adulto, um adolescente ou um velho. Se preferir, esse foi o meu Modo de Ler o Comentário 11.

    Na minha opinião, o autor é sempre o dono da chave do livro. O problema é que o autor que entrega a chave ao leitor, diminui, perde sua validade, torna-se sem graça.

    Pra mim, basta que ele DIGA QUE SEJA, sim. Só que eu nunca mais retornarei ao mesmo.

    Quanto ao Chibo, você é o autor, Emílio.

    Se você diz: “Bilu, ouça, Bilu, eu não tenho a chave do nosso livro”.

    Acreditarei cegamente. Acredite, quando lê-lo, essas palavras terão um enorme peso sobre a minha leitura.

    Portanto, a mim, também basta que o autor diga que NÃO SEJA.

    Não sei se por excesso ou carência de imaginação, prefiro crer que o autor está no controle da situação e sabe de onde, como e para onde vai.

    Que fique claro: o único que pode impedir que o leitor procure a chave, é o dono dela. Mas esse não é um Autor, é um patife.

    Preciso ler o livro.

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  • gostei demais dos comentários do emilio e ele ainda é gatinho ;)

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  • Lido. E agora tendo a concordar com o Lucas e outros quanto a posição do narrador, verossimilhança etc. Desconfio que daria um conto melhor que um romance (ou uma novela). Por ser dividido, escrito a 4 mãos, desconfio que a percepção do quanto a “”trama”" emperrou, girou sobre si mesma, deixou de avançar significativamente etc, é mais evidente ao leitor que aos autores.

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  • Li o O Verão do Chibo e gostei demais. Concordo com Dr. Plausível, não vejo nenhum problema em o narrador usar palavras supostamente inverossímeis. Acho que o livro é ainda mais realista por conta disso. Há a criação de um universo próprio. E a históra, que é aparentemente simples, vai ficando muito complexa.

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