Copa de Literatura Brasileira

Jogo 14

Camaradas, estamos diante de um páreo duro. É o jogo mais difícil que apitei na Copa: me coloca diante de um dilema temido por mim, o de me defrontar com a incompatibilidade entre o juízo de gosto e o juízo de sucesso. Como isso funciona? Um dos livros me agrada mais, se conecta melhor a uma perspectiva algo modernista que defendo, que valoriza ruptura e risco em literatura — mas creio que não funciona, acho que é um naufrágio. O outro me agrada menos, principalmente por parecer antes conservar e controlar que arriscar o que quer que seja, é corretíssimo a ponto de poder ser considerado escolar — mas a máquina inventada por quem o escreveu funciona, é um sucesso. Os dois estão, todavia, unidos por alguns elementos: o uso de cartas para mobilizar a narrativa, e cartas misteriosas, com remetentes ocultos e propósitos imprecisos, está nos dois, e isso é um acaso feliz, permite a quem compara um certo espaço de manobra. Uma questão de fundo, ligada à incomunicabilidade e a certa impossibilidade de dizer a respeito de algumas experiências-limite ligadas ao afeto, também aparece nos dois livros. Há alusões frequentes à afasia, a problemas de enunciação e seus adjacentes problemas de compreensão: o mundo, com seu remetente oculto, continua a enviar missivas indecifráveis, enigmáticas e desafiadoras a esses dois personagens que fazem a trama de cada livro. E nisso também são semelhantes: são livros de um personagem, retratados em um momento particular de suas vidas, diante de um problema específico, que em ambos os casos está ligado às cartas que recebem. Vamos ao certame!

***

Júnior, foco de A arte de produzir efeito sem causa, tem 43 anos, é casado, pai de um filho adolescente, tem um emprego subalterno e vive numa condição geral de pobre ou, na melhor das hipóteses, esmigalhado nessa zona imprecisa que chama-se de “baixa classe média”. Horror dos horrores no esquema de um ethos masculino tradicional, Júnior é um corno — e, na verdade, um personagem como ele merece maiúsculas, pois trata-se de um Grande Corno, de um sujeito que foi depositado nessa condição de maneira particularmente aviltante e que mostra ter dificuldades para lidar com a questão trágica de fundo: como manter, ou reconstruir, sua identidade como pai, marido e homem diante dessa situação? Observe-se que, apesar de ser matéria constante em nossa tradição narrativa oral (quem nunca ouviu falar de um corneante, ou de um corneado, levante a mão) e de contar com a presença de um autor ilustre como Euclydes da Cunha em suas fileiras, a condição do homem traído pela mulher, o problema da traição afetiva, da corrupção do contrato de fidelidade, ainda aguarda um tratamento ficcional que reposicione devidamente o problema após Dom Casmurro. Afinal, mais de cem anos depois, e levando em consideração tudo que se transformou em matéria de negociações no campo das relações afetivas, algo de novo há de aparecer por essa via — ou não? Mas não é só: o livro de Mutarelli também é um livro paralelo a outro, e essa intertextualidade é dinamizadora da narrativa. Para Júnior, importa decifrar o enigma dos pacotes que recebe, e os pacotes estão ligados — algo óbvio para o leitor informado desde a primeira menção ao assunto — ao Almoço Nu, de Burroughs, e à trama, retirada da biografia do autor beat, que se relaciona ao assassinato de sua mulher, Joan Burroughs, em um suposto acidente (intertextualidade à qual já se dedicou, diga-se de passagem com sucesso, o Joca Terron, em seu Não há nada lá — livro que inclusive no título e no uso de artifícios gráficos valeria a comparação com o do Mutarelli, mas isso são outros quinhentos, essa seria uma outra resenha). Por fim, o autor parece fazer questão de demarcar para si uma condição híbrida — de operar, de alguma maneira, na fronteira entre os quadrinhos que o notabilizaram inicialmente e essa atual condição de autor “literário”. Com isso, produziu um objeto impressionante, um livro cheio de marcadores visuais, rabiscos, diagramas, incisões manuscritas no texto — é um primor de apuro editorial e, aparentemente, de controle autoral: dá a impressão de ter sido feito exatamente como o autor quis que ele fosse apresentado e acabado e isso, creio, há de ser bom.

Ora, partindo do pressuposto de que tudo nesse livro foi disposto de caso pensado, que o autor não é ingênuo, e que apesar de seu título este livro almeja produzir algum efeito em seus leitores, vamos observar alguns trechos:

Júnior procura ocultar junto às nódoas do sofá as marcas que suas lágrimas deixam. Infelizmente as lágrimas não mancham o tecido. Não têm cheiro.

ou

Bruna clica duas vezes no ícone do Explorer, vai do Terra ao Google, digita “William + Tell”, escolhe a Wikipédia e descobre que foi mesmo uma lenda. E as lendas não deixam herdeiros.

ou

Sudorese e falta de ar. Deita e é acolhido pela boa mãe. Mamãe depressão.

ou

Bastaria talvez perceber isso.
Somos uma piada grotesca.
Um equívoco.

ou

A arte não é para ser entendida, é para ser sentida. […] Isso não faz sentido, mas saiba que até alguns assassinos em série dizem que as pessoas não conseguem vencer as barreiras morais e por isso não compreendem que o que eles fazem é arte.

ou

Existem várias formas de afasia. Afasia é a surdez e a cegueira às palavras.

Nos trechos citados encontramos todos os elementos que particularizam a voz do autor nesse livro: há uma negociação com o piegas e o brega (lágrimas incolores e inodoras! “Mamãe depressão” acolhendo seu filho!), um esforço didático (descrever o procedimento de busca na internet passo a passo! Discriminar a estratégia correta para apreciação e definição da arte! Esforço “metafórico-sinestésico” para explicar o que é afasia!), uma busca pela formulação lapidar, pela frase memorável (“As lendas não deixam herdeiros”? Como assim? Somos “uma piada grotesca, um equívoco”? Nós quem?). Imagine-se o leitor diante de duzentas páginas disso: a cada momento em que a narrativa parece ajustar-se a um fluxo movido pelo diálogo, pela interação, ou pelo advento de alguma transformação nos laços entre os personagens, aparece, com firmeza, essa interferência asfixiante do autor, querendo dizer tudo, querendo explicar e produzir sentido a cada passo da narrativa e, ao mesmo tempo, evitando qualquer compromisso com o plano mais amplo de problemas que articula a própria narrativa. O aglomerado desses elementos tornou essa leitura um sofrimento, uma perene negociação com o insuportável, e mais uma dessas situações em que o imperativo moral de chegar até o final foi mais forte que o efetivo desejo de fazê-lo. Os enigmas lançados pelo livro são muitos: Quem envia esses pacotes para o Júnior, e com que propósito? O que ele fará para sair de sua condição? O que o aflige é, efetivamente, uma doença, um problema fisiológico diagnosticável com precisão, como o final do livro parece sugerir — e, com isso, busca-se o perdão de todos os pecados, já que com relação à própria fisiologia ninguém é culpado? Todavia, ao chegar ao final da leitura, o problema não é que esses enigmas permaneçam sem solução — não tenho problema algum com a manutenção da questão, ou do problema, colocado por um trabalho literário —, mas sim que eles pareçam gratuitos, lançados a esmo e, em última instância, despropositados.

Nesse sentido, quando o leitor tenta resolver os problemas que o livro propõe — trabalho sem dúvida seu, e não do autor — e pensa no que fazer com as conexões entre Burroughs, exus asiáticos, a tragédia do corno no Brasil contemporâneo, a vidinha mais ou menos dos semi-fudidos e quase-excluídos em São Paulo e a simultânea falência moral e cognitiva de um membro dessa suposta classe, o resultado é frustrante, possivelmente porque não há mesmo nada, nenhuma articulação subjacente a dar sentido e justificativa para o que foi colocado pelo autor. Estamos, assim, diante de uma máquina-nada, de uma narrativa que não se coloca sequer o problema de resolver a si mesma nos termos em que se construiu. Se quisesse valorizar muito o livro, diria que ele é vitorioso, pois sua vaziez é alegoria da própria ficção — da própria arte de produzir efeitos, eventualmente grandiosos, a partir de muito pouco (lápis e papel, ou equivalentes, e imponderáveis muito relativos como “desejo” e “trabalho”). Mas nunca diria que a coisa é “sem causa”: há causas, muitas, e talvez seja justamente pela impossibilidade de seu autor em elaborá-las de alguma maneira que sua narrativa é derrotada.

Tendo explicitado minha crença de que o livro não funciona — e discordando, assim, de meus colegas antecessores aqui na Copa, Luís Francisco Carvalho Filho e Luís Augusto Fischer —, cito agora um trecho do blog que Mutarelli produziu por ocasião de seu envolvimento com o projeto Amores Expressos — como é de conhecimento comum, ele passou um tempo em NY e foi lá que concluiu este A arte…. No dia em que terminou o livro, escreveu:

O ponto onde quero chegar é que anunciei que havia parado de fazer Histórias em Quadrinhos. O trabalho é imenso e não compensa. Já não estava com o mesmo fôlego e tenho certas mágoas em relação a isso. Decidi, então, que iria também parar de desenhar.

Esse trecho me pareceu útil e esclarecedor, por reafirmar um elemento característico da manifestação pública de Mutarelli, seu apreço por falar de si, por aludir a uma esfera de foro íntimo em público (“tenho certas mágoas com relação a isso”) e por nos dar razões para lamentar — pois creio que o único momento realmente intenso dessa narrativa é justamente quando o texto cede totalmente lugar à ilustração e, já nos momentos finais, um desenho absolutamente indecifrável, enigmático e magnífico aparece. Há máscaras de buda e de animais, cornetas tibetanas ou equivalentes, mantos drapeados cobrindo corpos invisíveis das nove entidades insólitas dispostas na página — o efeito é arrepiante, e é uma pena que justo esse lugar, onde o autor parece funcionar melhor, seja o lugar que ele não deseja mais habitar.

***

É, claro, mais fácil a tarefa agora — vou confirmar juízos a respeito de Flores azuis que já apareceram aqui, nas resenhas de Tiago A e Leandro Oliveira: eles já elaboraram à farta sobre as principais características do livro, citaram trechos relevantes, e não vou repetir esse trabalho. Mas vou sim resumir a opinião deles sobre o livro, cum grano salis, dizendo que aqui há alguma coisa. Pois, por mais que eu tenha me aproximado do livro com má vontade (ao contrário do livro do Mutarelli, que contava de antemão com minha simpatia), por mais que tenha, ao iniciar a leitura, me irritado com o mimimi daquelas cartas e por mais que Marcos, “protagonista” de Flores azuis (entre aspas, sim, pois parte do engenho do livro está em colocar isto em dúvida, e equilibrar bem a dificuldade de responder à ambivalência entre os dois eixos do livro, representados por Marcos e por “A”) pareça ser um mosca morta — ora, se diante desse tanto de obstáculos o livro ainda leva a melhor nesse jogo é porque, afinal, há algo aqui.

E o que é mesmo que há? Não poderia dizer que o livro me transformou, que mexeu com minha visão de mundo, que “reformatou meu cérebro” (Dá-lhe, Muta!) — nada disso, longe disso. Mas, mais uma vez, sou lembrado daquele grande modelo de exercício da crítica que é Anton Ego, o feroz crítico gastronômico de Ratatouille, que já evoquei em minha resenha ao livro do Cuenca na Copa de 2008. Há um momento do filme em que, diante da atitude inquisitiva e expectante do garçom ao lhe perguntar o que deseja, Ego responde que deseja “uma perspectiva”, uma que seja “fresca” mas também “bem marinada”. Uma perspectiva é o que encontramos em Flores azuis. A manobra da autora é, na execução final, aparentemente de pouco risco, mas isso não quer dizer que a coisa foi menos laboriosa — afinal de contas, é um livro que inclui uma cena de fistfucking, e nem em Nelson Rodrigues eu vi isso antes! Acredito que o conteúdo aparentemente trivial do livro — um cara de classe média, meio kidult, tem de lidar com uma paternidade que não quis exatamente, com uma separação que lhe pegou de surpresa, com a repetição fatal de suas escolhas afetivas e, por causa de uma contingência qualquer, tropeça nas tais cartas, que lhe magnetizam, que servem de depósito para suas próprias fantasias, que a certa altura parecem se dirigir precisamente a ele, e não a esse fortuito outro destinatário das cartas — é parte do que o torna interessante, pois aqui há potência de reconhecer uma alegoria do fazer literário, da relação entre o Autor e seus Leitores (enigmas uns pros outros, inevitáveis uns pros outros), do problema de impor um “teste de realidade” ao material literário (como o que ocorre quando o Marcos decide buscar o suposto destinatário original, fonte primeira do problema e principal responsável por sua possível resolução em factualidade).

Nenhuma excepcionalidade ou marginalidade é necessária para fazer com que reapareça esse negócio: há um que escreve, há outro que lê — e agora? Esse livro, talvez, pretenda tratar disso também — e, sendo o caso, o faz bem, pois os problemas perduram, mas o leitor tem certeza de que nem a autora, nem os personagens são indiferentes à sua resolução, ou estão tão ensimesmados a ponto de serem incapazes de ouvir a voz de qualquer outro, de qualquer alteridade. Há controle e mesmo uma certa frieza no livro — mas há também quem se importe, e isso faz diferença, isso eu aplaudo e louvo. Flores azuis na final da Copa.

Vencedor

Flores azuis

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33 comentários

    Muita coisa para comentar sobre esta resenha. É bom começar dizendo que o resultado do jogo me decepcionou muito, porque eu queria ver A arte de produzir efeito sem causa chegando à final e ganhando a Copa – batendo, num jogo apertado que seria a final dos meus sonhos, Cordilheira. Como vou discordar de muito do que o AM escreveu, também é bom deixar claro que achei a resenha muito boa: embora do meu ponto de vista ela tenha alguns defeitos, são defeitos que abrem espaço para o diálogo, que permitem argumentação. É uma resenha com substância, com carne pra gente mastigar, e isso é sempre bom.

    Também é uma resenha que exemplifica os perigos das citações, que muitos julgam obrigatórias em toda análise crítica de texto literário. O primeiro perigo é a nossa velha conhecida descontextualização: tirando casos extremos, podemos realmente dizer se uma frase é boa ou ruim, se ela funciona ou não, quando a retiramos do seu meio ambiente para dissecá-la na mesa da resenha? “As lendas não deixam herdeiros” não é a tentativa fracassada de soar misteriosamente profundo que a resenha sugere: é uma peça do raciocínio de Bruna, que está buscando entender uma frase em inglês que cita William Tell e o herdeiro de alguém. “Somos uma piada grotesca” e o trecho sobre arte e assassinos em séries são, salvo engano, pensamento e fala de dois personagens, não declarações pretensamente definitivas do narrador/autor.

    O segundo perigo é a gana de dar uma surra em quem não pode revidar. O romance do Mutarelli está exposto, imóvel, e AM teve toda a liberdade para escolher os trechos que lhe pareciam mais incoerentes/ridículos/risíveis e expô-los em praça pública. Os cinco pontos de exclamação que fecham os comentários sobre as frases de A arte de produzir efeito sem causa são cinco diretos no nariz que o romance leva sem poder sequer levantar a guarda — e fico imaginando o que um leitor mal intencionado de Flores azuis não poderia fazer com aquelas cartas cheias de mimimi.

    Essas são pinimbas formais. Sobre o conteúdo, posso dizer que Flores azuis teria me agradado muito mais se eu tivesse lido a história descrita na resenha, sobre um homem com diversos problemas ligados à vida adulta e à sua falta de caráter que de repente começa a receber cartas misteriosas. Mas o livro que li era sobre cartas misteriosas que começam a chegar na casa de um homem com diversos problemas ligados à vida adulta e à sua falta de caráter. Vi em Flores azuis uma ênfase sobre as cartas, sobre o jogo formal, a questão teórica da relação entre autor e leitor. E talvez seja essa ênfase a explicação para o sucesso que o livro está fazendo nesta Copa, onde os jurados são, afinal de contas, leitores e/ou autores profissionais e/ou pro-ams. Em A arte de produzir efeito sem causa a ênfase é sobre os personagens e suas histórias, não sobre a busca de uma articulação subjacente que, concordo com o AM, talvez não exista mesmo. Só que A arte de produzir efeito sem causa tem tantos aspectos que uma subjacência articulativa dificilmente deixaria de ser forçada. Em Flores azuis a percepção da questão de fundo é fácil porque o livro todo parece ter sido construído em torno dessa questão: o malabarismo de Saavedra é admiravelmente bem conduzido, mas são duas bolas no ar. Mutarelli jogou oito facas pra cima e conseguiu evitar que a maior parte delas caísse.

    E quando as metáforas começam a ficar tão elaboradamente inúteis é melhor parar. Mas espero que a caixa de comentários pegue fogo.

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  • Engraçado, até o Antônio Marcos apontar para isso na resenha, não tinha percebido que os mistérios no “A arte de produzir” não são resolvidos.
    Mas esses mistérios não são centrais, e acho que por isso não importa que não se resolvam. O que importa, o tempo inteiro, é o impacto deles sobre Júnior, o que acontece com Júnior no final (e acho o livro muito bem sucedido nisso: meu envolvimento com Júnior foi total).
    Por isso discordo do resenhista: nada ali é despropositado, tudo ajuda a criar o clima do livro, que no final se torna tão sufocante que a sensação é quase física.
    Concordo muito com o comentário do Lucas acima: no “Flores Azuis” acontece o oposto. O que é central são as cartas, o mistério.
    E com isso esse livro sim me deixou com a sensação de mistério não resolvido.
    Ao contrário da maioria dos que aqui escrevem e comentam, não me importam as “questões” da literatura, do autor, da sua relação com a criação e com personagens etc. Talvez isso faça com que eu não seja o público certo para esse livro. Mas acho uma pena um livro que só quer falar com quem também escreve livros ou pensa profissionalmente sobre eles.
    Para mim “Flores Azuis” terminou sem que nenhuma das questões tão debatidas aqui nas 3 resenhas tenha saltado aos olhos. O que ficou foi um “tá e daí? E de quem eram as cartas então? E em que isso importa/importou para o personagem, para mim, para quem quer que seja?”
    Já o livro do Mutarelli deixou saudades após a leitura e fico triste que ele não esteja na final (a minha final dos sonhos também era “A arte de produzir” vs “Cordilheira” => “A arte de produzir” sagrada campeã da #CLB2009, a torcida vibrando etc)

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  • Estou com o Lucas.
    Parece li outro Flores Azuis e outro A Arte de Produzir…
    A propósito: por que tanto valor assim para a cena de fistfucking? Achei-a uma bela forçação de barra, isso sim. Pois que vinha uma cena de estupro era óbvio, pelo andar da carruagem. Foi só um toque trash no óbvio. Outra coisa: dizer que “A manobra da autora é, na execução final, aparentemente de pouco risco” é levar o eufemismo ao extremo. Pra mim, o que houve ali foi uma perda total de mão, foi um ficar sem saber por onde ir com o enredo e optar pelo final mais brochante possível. Imagino que a própria Carola tenha ficado frustrada por não achar um desfecho melhor para um texto que lhe deu tanto trabalho: reconheço que houve um esforço do cão para escrever este livro que tem, sim, momentos sublimes. De Flores, se diz: há algo, porém não se pôde ainda definir o que. Certamente há poesia, há trabalho de linguagem, há teoria (demais, na minha opinião), há preocupação com a forma, mas falta substância aos personagens e imaginação ao enredo. Momentos sublimes são pouco para levarem-no aa final da Copa, ou não?
    E mais: A Arte não merece ser avacalhada. Afinal, é ou não avacalhação a seguinte sentença> “Se quisesse valorizar muito o livro, diria que ele é vitorioso, pois sua vaziez é alegoria da própria ficção — da própria arte de produzir efeitos, eventualmente grandiosos, a partir de muito pouco (lápis e papel…”? Está longe de ser uma máquina-nada. Prova disso é o esforço da argumentação para desarvorar o livro – e seu autor -, em comparação à superficialidade dos motivos para eleger Flores Azuis (“me toca, mas nao sei onde nem como”). Também houve sim trabalho de forma, de linguagem, ainda que haja algumas gorduras no texto; e fiquei tocada com o conteúdo, o colocar o suburbano mais que fodido no centro de um remoinho social e mental e conduzir o texto de maneira a que o leitor experimentasse a merda junto com o Júnior. Mais feliz ainda fiquei quando descobrimos que o pobre coitado ainda tem uma doença orgânica: já está na hora de assuntos assim virem +a baila, em vez de os delírios e os delirantes serem todos eternas “vítimas” da psiquiatria e dos psiquiatras. Retratos do Brasil: eu curto. Achei um livro despretensioso e por isso mesmo corajoso, com um enredo bacana e não óbvio, um livro encantador. Uma pena que esteja fora da final.

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  • Má-fé pura essa resenha. Sobrou até para a pessoa Mutarelli.

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  • AM.
    Uma coisa q gosto em tuas resenhas é q vc posiciona os livros perante a existência, em vez de se prender a detalhecos (tal como faço eu) ou de procurar explicitar a estrutura mecânica da obra. Ainda não li o Mutarelli, mas coincidentemente esses dois são os únicos livros desta copa q realmente fui lá e comprei (por não tar em minha chave, as editoras não mos enviaram). Com tudo q se falou sobre o Efeito, fiquei muito curioso; até já foi notado aqui q vc parece mais entusiasmado ao falar dele, antes de eliminá-lo, do q ao falar do Flores, antes de aprová-lo. (Claro, entende-se q as duas partes foram escritas em dias diferentes, em circunstâncias diferentes.)

    É interessante q, ao objetar contra Flores, tanto Clarice [2] qto Bruna [3] qto outros comentadores nas fases anteriores reclamam da irresolução no final. Pra mim (q falo disso em minha mini-resenha da final), se Flores demonstra alguma coisa é acima de tudo a máxima de q o leitor consumidor de romances não é tanto um leitor qto un voyeur. Saavedra mostrou q vc pode contar as coisas mais aviltantes, mais humilhantes sobre uma pessoa, mas o leitor não fica satisfeito enquanto não souber QUEM é essa pessoa – pois o voyeurismo é antes de tudo uma afirmação da identidade do voyeur acoplada a um desprezo pelo q vê: “aquilo q vejo não é eu”. É só depois disso q pode acontecer a identificação entre o vedor e o visto, entre o leitor e o personagem: “a pessoa aviltada por meu voyeurismo não é eu, mas poderia ser”, q é o objetivo final do voyeur – e desse tipo de leitura.

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  • mas falta substância aos personagens e imaginação ao enredo.

    ZZZzzzzzzzzzzzzzzzzZZZZZZZ

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  • sobre o que a bruna disse sobre “imaginação ao enredo”: Não troco um ulisses por 10 mil librinhos da agatha cristie.

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  • Bela resenha. Concordo com tudo que AM escreveu sobre “A arte de produzir”. Mas me parece realmente que as copas anteriores tinham melhores escretes.

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  • 7: Diego, entendo que você privilegie a forma em relação ao conteúdo, mas daí a achar que o conteúdo não importa e dormir diante de pedidos de imaginação é um salto que me parece estranho. O próprio Ulisses tem um enredo espetacular – para não falar dos livros do autor com quem você divide o sobrenome.

    5: Doutor, a irresolução é só parte da problema. Como diz a Clarice no [2], é difícil até se importar com essa irresolução. Saber quem está escrevendo aquelas cartas, para o leitor que não gostou delas e não entende o efeito que elas têm sobre Marcos, é um não-problema, uma questão sem interesse. O interesse surge quando se considera que o “A” que assina as cartas pode ser de Autor, que Marcos pode ser uma invenção de A, mas se A é o Autor então todos são invenções de A, inclusive o próprio A, e o leitor talvez seja Marcos etc. Questões que podem ser interesantíssimas, mas para um nicho, para os pouquíssimos que possivelmente levam a literatura a sério demais.

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  • Lucas,
    Acho q parte da arte de Saavedra é q seus livros permitem a leitura em vários níveis sem q o mais simples tenha conhecimento do mais complexo. O q incomoda é estar num limbo surpreso entre duas leituras. Vc pode ler o livro inteiro e apreciar sua história e sua trama central sem multiplicar os espelhos. Vc pode apreciar a intenção de Hamlet em encenar uma peça de teatro em Hamlet sem se tocar de q Shakespeare tá fazendo um comentário sobre o próprio teatro. Essa característica de Saavera já ficou clara em Toda terça, em q o leitor pode ler tudo sem nem se tocar de q o livro tá dialogando com vários filmes e livros. O fato de ela, como autora, tar consciente da possibilidade de outras leituras depõe a favor, não contra. Claro está q um livro como FA não será de agrado geral – por enquanto.

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  • John diz duas coisas. Uma é que a resenha é má-fé pura. A outra é que “sobrou até para a pessoa Mutarelli”. Vou desconsiderar a primeira coisa, porque nem com muita má-fé seria possível crer que essa resenha é má-fé pura–isso aí eu nem vou discutir. Mas a segunda coisa dá espaço para a conversa–não com John, que se manifesta que nem um oráculo: duas frases, 0% de argumento, e o silêncio retórico dos que querem pregar, não bater papo. A segunda coisa dá espaço é para a conversa com o resto da galera aqui.

    Os comentários que AMP faz não “sobram para a pessoa Mutarelli”, de forma alguma. Sobram para a performance autoral Mutarelli–uma entidade fictícia, de construção coletiva, que está, como os seus livros, submetida ao escrutínio de quem quer que se interesse pelo fazer literário. Assim como, na outra semifinal, Dr. Plausível brandiu argumentos de árvore genealógica para valorizar Galiléia, AMP lembrou uma específica performance autoral para baixar a bola de A Arte etc. Nada de errado nisso, IMHO, embora talvez caiba dizer também que toda vez que esse tipo de argumentação ocupa, numa resenha, uma parte maior do que a dedicada à “mecânica” do livro–para usar um termo caro ao Dr.–, o meu interesse pela resenha diminui um pouco. Mas isso só acontece porque eu estou mais interessado em mecânica de livro mesmo. Longe de mim querer excluir esse tipo de apreciação; longe de mim sair por aí confundindo isso com ataques à pessoa natural do escritor. Teria sobrado para a pessoa Mutarelli se AMP houvesse veiculado fofocas sobre o que Mutarelli faz em sua esfera íntima, em seu cotidiano de cidadão. Isso é tão claro para mim que eu receio até estar chovendo no molhado, dizendo o óbvio, e tal. Mas topo correr esse risco, porque silenciar seria deixar a pregação de John aí, ressoando com status de verdade–e isso, sim, seria perigoso e errado e emburrecedor.

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  • Lucas, discordo de suas observações. Embora não tenha lido o livro do Mutarelli não creio que a resenha “exemplifica os perigos das citações”. Citações podem funcionar ou não para apoiar um argumento, mas sugerir uma distorção por meio do recurso é inviabilizar seu uso em qualquer contexto e aí, como no mapa de Jorge Luís Borges, uma citação não serviria pra nada (a não ser que se copiasse todo o texto a ser citado, mas isso deixaria de ser citação). Deveria estar claro para todos que uma citação representa uma pequena parte dum livro e serve simplesmente como peça de um argumento maior. Descontextualizar é um efeito colateral do processo, mas no fim, a conta fecha positiva.

    Outra coisa: “surra em quem não pode revidar”? Como assim? Na Copa de Literatura? A opinião do AM é uma opinião e o espaço democrático taí pra que cada golpe seja rechaçado por quem quer que ache isso necessário.

    Mas o ponto que mais discordo é sobre seus argumentos em relação à “Flores Azuis”. Não quero parecer um teórico chato, mas dizer que a ênfase de uma leitura (“Flores Azuis” e seu aspecto de jogo com o leitor) determina sua vitória em relação à outra (Flores Azuis sobre a história de um homem qualquer que recebe cartas de uma estranha), é uma visão redutora. Teríamos que discutir o que determina o sentido da leitura. Se a discussão centralizar-se em determinar o sentido por meio da experiência do leitor – que em minha opinião é isso que seu comentário faz – sem levar em conta as circunstâncias ou o contexto literário em que se insere o texto de Saavedra, bem, aí a discussão vai ficar mesmo no mimimi das cartas. Agora, levando em conta as circunstâncias digo que Saavedra joga pra cima oito facas e consegue um texto admirável. Como disse em minha resenha, “Flores Azuis” apanha a malha da literatura e procura dar novas cores ao tecido. O resultado, pra mim, é bastante satisfatório.

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  • Pessoal, muitos comentários, e agradeço – o mínimo, com a conversa aqui aprendo a manejar melhor a maneira como comento o que leio.

    Vou começar a comentar pelo mais fácil, o comentário do John [4]:

    “Má-fé pura essa resenha. Sobrou até para a pessoa Mutarelli.”

    Qto à “má-fé”, fica faltando algum argumento que constitua a evidência de má-fé, John. Assim, como está, é o equivalente conversacional de uma cusparada: como contra-argumentar a isso, a não ser partindo para outra acusação infundada (Ex: “Um mané esse cara aí que disse que agi de má-fé”). Se tem uma carapuça que acho que não me cabe é essa, e acho que meu texto evidencia, ao contrário, cuidado na exposição de uma leitura. Se vc tem algo melhor a oferecer que essa acusação gratuita, mande brasa.

    E, qto a sobrar “para a pessoa Mutarelli”, de jeito nenhum: essa “pessoa” eu não conheço (isso toca em um comentário que fiz à resenha do Dr Plausível, respondido por ele lá). Mas conheço alguma coisa do autor, figura pública, que escreve livros, blog, dá entrevistas e declarações sobre si, o mundo, a literatura etc: essas manifestações leio com interesse, e utilizei uma delas para comentar esse livro – para destacar um trecho do livro que comento e lamentar uma sugerida mudança de rota profissional. Para mim, o uso que o Mutarelli faz de declarações sobre sua vida privada, sua depressão, suas questões com a grana e o sucesso (na última entrevista que li com ele, o centro aparente era o custo do sucesso, as consequências do sucesso para o débito dele com o cartão de crédito) serve para que eu pense “O que esse autor quer fazer com isso?” – e não para que chegue a conclusões sobre “pessoa Mutarelli”, terra incognita para mim.

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  • 12: Leandro, a ideia não é dizer que toda e qualquer citação é nociva e sim apontar o risco que existe no uso de citações. Tanto que comentei esse risco aqui, quando achei que ele se tornou realidade, e não nas outras resenhas que usaram o recurso nesta e em outras edições da Copa.

    Sobre a surra em quem não pode revidar, o “quem” aí é o romance: praticamente todo texto longo tem um punhado de frases que não deveriam estar lá, e pincelar algumas delas na resenha não diz muita coisa ao leitor. Nesse sentido, prefiro o procedimento de Tiago A no jogo 5 ou de Luís Francisco Carvalho Filho no jogo 7, com citações mais longas, que dão um certo contexto para o leitor julgar a crítica.

    Sobre Flores azuis, fiquei com a impressão de que a história de Marcos sempre esteve em segundo plano em relação ao mistério da autoria das cartas – que só depois, aqui na Copa, entendi que serve de ponto de partida para uma discussão sobre a relação entre autor e leitor. O que não é ruim, e acho até que Saavedra foi bem sucedida, mas o preço a pagar é que Marcos, um dos personagens mais interessantes de qualquer livro nesta Copa, vai morrendo aos poucos na página. O que era um homem complexo e sutilmente detestável se torna um autômato obcecado por cartas esquisitas. Ao contrário do que o Doutor Plausível sugeriu em [10], acho que em Flores azuis o sentido alegórico prejudicou o narrativo.

    Claro que isso é questão de interpretação, e que outro leitor pode achar que a alegoria e a narrativa estão igualmente bem representadas – parece ser o caso do Doutor Plausível. Mas acho que um traço comum dos leitores que criticaram Flores azuis é justamente o gosto pela narrativa, o clamor pela “imaginação ao enredo” lançado pela Bruna em [3] e ironizado pelo Diego em [5] e [7]. Para esse público, o livro falhou.

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  • Não acho que as citações usadas na resenha sejam desonestas. Basta pegar o começo de AAdPESC:

    “O metrô está vazio. Já passa das onze. Júnior carrega a expressão da desilusão
    e uma pequena mala. Respira com dificuldade pela boca. Seu rosto
    parece uma máscara. A máscara do desengano. Ou do engano?”

    Do desengano ou do engano????? Quem escreve uma coisa dessas? Que tem paciência para ficar lendo isso? Eu aturei cem páginas do romance por causa dos elogios rasgados da imprensa. Cai de novo na armadilha. É a mesma coisa: título bem bolado, uma frase de efeito a cada quatro frases, protagonista dissolvido, “na merda”, como colocaram aqui. Tá ficando chato.

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  • Como sempre os textos do Antonio Marcos não decepcionam. Concordando ou não com eles, tem sempre coisa nova vindo à tona.

    Tb é interessante ver que, gostando dele ou não, Flores Azuis tá sendo o livro mais destrinchado desta Copa. Tá com jeito de Felipão, abrindo caminho contra todos os insatisfeitos, livro copeiro mesmo. O bom é que toda essa conversa acaba enriquecendo a leitura do livro. Acho eu, pelo menos.

    Só um adendo a discussão: acho injusto criar o embate Forma X Conteúdo e colocar o livro da Saavedra representando o lado da “Forma”. Me considero um pró-Flores Azuis moderado, e ao mesmo tempo não sou grande fã das sacadas metalinguísticas. Penso mesmo que o livro se destaca pelo contéudo (mesmo com um enredo simples e aberto no final) e, sim, pelo estofo dos personagens.

    Não li o Mutarelli e, no meio dessa discussão, a cada comentário hesito em lê-lo ou não. Tava me animando, mas aí veio o Luciano (#14) e acho que brochei de novo.

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  • Corrigindo – quem me desanimou foi o comentário #15, claro.

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  • luciano sabe das coisas.

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  • eita q essa final promete ser empolgante. não nenhum dos dois livros, por isso vou restringir meu comentário a breves observações:

    > gostei da resenha, q não me deixou desanimado para ler o mutareli, mas não me deixou mais empolgado para ler a saavedra doq já estava;

    > a resenha não ofende a pessoa do mutareli – acusação injusta, essa do john [4]…

    > … mas as linhas selecionadas realmente não são suficientes para ter uma idéia do estilo do autor, da capacidade de produzir frases q movam a narrativa e deixem aquela impressão de “uau”. acho q am vacilou nesse ponto.

    > citando o resenhista: a cada momento em que a narrativa parece ajustar-se a um fluxo movido pelo diálogo, pela interação, ou pelo advento de alguma transformação nos laços entre os personagens, aparece, com firmeza, essa interferência asfixiante do autor, querendo dizer tudo, querendo explicar e produzir sentido a cada passo da narrativa e, ao mesmo tempo, evitando qualquer compromisso com o plano mais amplo de problemas que articula a própria narrativa. – mto bom; com algumas poucas mudanças, descreve com fidelidade a sensação q tive ao ler “o [enfadonho] verão do chibo”

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  • Bom, o dia passou, vários comentários apareceram – alguns, como o do Tiago A [11], o do Leandro [12], estão mais implicados: trouxeram Flores Azuis até aqui, e de alguma maneira são responsáveis; outros, como o do Luciano [15], me dão argumentos que terminam defendendo minha posição de maneira melhor do que eu poderia fazer. E o Dr Plausível [5] dá mais um lance em uma conversa que temos e que já dura, de fato, anos. Agradeço a todos.

    As interpelações do Lucas são as de um advogado: se eu tivesse sido mais disposto, teria feito coisa semelhante com o que julguei uma terrível injustiça na Copa 1, qdo o Jonas Lopes eliminou o magistral livro do André Sant’Anna, O Paraíso é bem Bacana. Eu me calei daquela vez, ou falei pouco; o Lucas soltou o verbo agora em sua cruzada contra a injustiça; acolho uma coisinha que ele disse, mas pro resto digo não – e aproveito pra expandir um pouco mais umas coisas que disse na resenha:

    1. A questão das citações: Acho que vc apela ao falar em “perigos das citações”: claro, perigo há em tudo, a coisa pode ser utilizada de forma a contrariar o que a justifica – mas defendo a ferro e fogo a citação porque (para repetir mais uma vez algo que repito à exaustão) é o mais próximo que podemos chegar de evidência empírica no comentário sobre literatura. Quer dizer que o autor é evasivo? Que o protagonista é frágil? Que as conexões da trama são potentes? Manda lá um trechinho preu comprovar — ou, pelo menos, pra ter um gostinho do que vem de lá. Principalmente quando o juízo é negativo, como era meu caso, achei imperativo ajustar aqueles trechos ali — havia muito o que comentar, e tive de selecionar. Mas inúmeros, inúmeros trechos mesmo — e os períodos de abertura, que o Luciano copiou no [15], são uma boa dica: o livro perdura assim, o livro é isso. Não há outra voz, não há outra coisa. Agora, acolho, de fato, que a) talvez devesse ter cuidado de selecionar de maneira menos pontual, e mais consistente, pois quanto menor o trecho, mais vago fica seu poder de funcionar como evidência e b) fiz uma colagem selvagem entre falas de dois personagens no trecho citado — mas em meu juízo ele continua infeliz, piegas, brega, ruim.

    2. E que papo é esse de “gana de dar uma surra em quem não pode revidar”? Estou comentando um livro, um texto — não há surra na jogada e, qto ao revide, olha vc aqui revidando. Esse comentário me deixou a ver navios, porque parece que vc está atribuindo intencionalidade (ou falta de) a um texto, e me escapa a que isso vem. Qualquer livro analisado por mim ou por quem quer que seja está “exposto, imóvel” e qualquer comentador tem “toda a liberdade para escolher os trechos que lhe pareciam mais incoerentes/ridículos/risíveis e expô-los em praça pública”. O meu propósito não é agradar todo mundo, mas prioritariamente agradar a mim mesmo e um certo ideal de honestidade. Ainda, se esses fossem os *únicos* trechos que julgasse “incoerentes/ridículos/risíveis”, teria sido bem frau “expô-los em praça pública” – mas não é o caso. Ou, melhor dizendo, *não é o caso em minha opinião*.

    3. Na verdade, nosso dissenso que poderia ser resumido a isso: você foi capturado pelo personagem e pela trama. Com isso, construiu uma experiência de leitura totalmente distinta da minha, e você obviamente arrecadou indícios de excelência na mesma narrativa (e cadê eles? mostra aí!). Pois digo de novo: o livro não funcionou para mim. Mesmo alguma elaboração visual (um trabalho que, por exemplo, me captura totalmente em Valêncio Xavier) – mesmo isso, mesmo o uso do risco e do rabisco, que deve ter sido fruto de um puta labor editorial e que tomo como mostra de como o autor foi valorizado – mesmo isso me pareceu em grande medida despropositado, e ainda mais inconsistente se cotejado com a declaração que citei: afinal de contas, esse cara quer sair ou não da gibilândia? quer parar de ser visto como quadrinista e passar a ser visto como autor de literatura? qual a razão de *tantos* manifestos visuais no livro? Assim, IMHO, salvo no que diz respeito à ilustração que mencionei, acho que nada ali se sustenta e, por isso, o livro me deu a impressão de um contraste curioso: muito apuro e cuidado com a forma, a materialidade do negócio (o livro é extraordinário, e ficou bonito pra chuchu) + pouco caso, pouco cuidado com o conteúdo do negócio (há muito tatibitate no livro do Mutarelli: o narrador é tão fraquinho quanto o Júnior, mas o narrador quer mais, quer grande – só que não dá conta, não tem força pra muito).

    Em particular, achei abominável o uso do Burroughs, mostra maior de fraqueza, de pouca invenção, de baixa voltagem. Convocar uma relação intertxtual dessas fortalece o livro: é chamar um craque, um homem-gol. Mas tem que mostrar reponsa: o uso de Burroughs no livro é, creio, puramente decorativo, uma espécie de incenso a preencher o problema de fazer a trama avançar. Pra mim, deu chabu total.

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  • Clarice, obrigado por seus comentários. Agora, claro, discordamos [SPOILER*SPOILER*SPOILER]: em minha opinião, nada mais anticlimático que aquela sugestão de assassinato final. Ainda por cima chancelado por uma reflexão de segunda categoria a respeito das relações entre arte e crime e assassinos em série – fala sério! Passei longe da asfixia – ao contrário de quando li, para ficar no campo do livro, o Almoço Nu, que é bizarro e delirante, no qual você sempre só vê ou só sabe de uma parcela do negócio, mas você vê a coisa funcionando, a coisa caminha, é cheia de tentáculos, abarca muito – mas vc nunca vê tudo, nunca fecha ou resolve o livro por inteiro. Depois de tanta coisa irresolvida no livro do Mutarelli não havia como achar que o final era uma resolução: achei que estava mais para saída fácil.

    Outra coisa que achei digna de nota é que as remissões à vida do Burroughs me remeteram mais ao filme do Cronenberg que ao livro mesmo – e, qdo o filme chega mesmo, Criterion Collection e tudo o mais, pensei até que podia dar samba. Mas não.

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  • Bruna, agradeço também seus comentários, que me fizeram pensar, p ex, que você apenas quis reagir de imediato e acompanhar o Lucas e, se foi encantada pelo livro, deixou-se encantar pelo comentário dele e prestou menos atenção ao meu comentário sobre o livro do Mutarelli. Como avacalhação? Respeito o livro a ponto de dedicar-lhe extensa atenção e situar meu juízo a respeito dele – disse, ainda, logo na abertura, partir de um pressuposto de interesse e simpatia para a leitura. De jeito nenhum avacalhei o livro – embora já tenha feito isso antes, isso não é minha marca como comentador de literatura (e, pra falar sobre um tema que apareceu aqui, nem como “pessoa”).

    Também discordo quando vc retrata minha posição a respeito do livro da Saavedra como “me toca, mas nao sei onde nem como” (que está entre aspas, e compreendo que isso é como vc compreendeu o que eu disse – mas não é o que eu disse). Ao contrário, procuro argumentar, e meu suporte principal no argumento é que eu consigo estabelecer com precisão, para meu uso como leitor, o que é que esse projeto quer/ pode fazer, como essa máquina literária funciona – e isso não fui capaz de fazer com o livro do Mutarelli. Claro, minha atribuição de defeito ao livro pode ser apenas mostra de uma incompetência minha para localizar o defeito do leitor – mas, olha, me esforcei e, como não deu, ars longa vita brevis e bola pra frente. E se formos pra esse lado, esse argumento será fatal pra qualquer proposta de leitura. “Não gostou? Então é porque não entendeu.” Ora, o negócio tem mais filigranas que isso, né?

    Por fim, discordo de vc no interesse por literatura como fonte de Retratos do Brasil: pra isso, leio etnografia e história, e até jornal. Em literatura estou atrás de outras coisas – que podem, eventualmente, passar por isso: parte do que me leva a valorizar tanto O Paraíso é bem Bacana é que aquele talvez seja o primeiro Bildungsroman de um fudido. Mas não é isso que põe o livro na frente da fila da excelência, mas sim a habilidade prodigiosa de Sant’Anna de forjar aquelas identidades todas traduzidas nas suas falas-perspectivas (claro: ele derrapa às vezes, ele é melhor nas camadas populares que nas médias, como conversava com o Leandro outro dia – mas o livro funciona) e, principalmente, de ter sido capaz de imaginar e acreditar naquele personagem tão improvável e tão inesquecível, Mohammad Mané. Curiosamente, o livro do Mutarelli foi mercado assim, com essa alusão à retratação de um certo Brasil, em particular da classe média baixa, na contracapa – o que me leva a crer que seu apreço é representativo de um segmento potencial de leitores, devidamente diagnosticado pela editora.

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  • 1. Luiz Gusmão, obrigado por seu comentário: saiba que concedo o que vc observa em [19]: eu provavelmente poderia ter feito uma recolha mais estrategicamente interessante de citações que essa que apresentei. Agora, isso só reforça meu ponto a respeito do uso de citações: essas que escolhi podem não estar boas, mas o procedimento perdura tendo valor, e o Lucas está agora com o ônus da prova de selecionar um, ou de preferência alguns trechos do livro do Mutarelli e trazer a luz pra esse debate. :)

    2. Drex Alvarez, agradeço o comentário (e o elogio, claro), e digo que tb “me considero um pró-Flores Azuis moderado” – eu comentei isso na resenha. Não dá pra exigir de todo livro que lhe chacoalhe. E tb concordo com vc: acho que a hipertrofia dessa idéia de que o livro da Saavedra é “só forma” ajuda a construir o argumento contrário a ele, a destitui-lo de valor. O livro do Mutarelli tem um tadinho e uam instância de um drama social, logo, tem “conteúdo”? O da Saavedra tem um mané de classe média e uma candidata a autora de cartas que parecem aludir a problemas literários contemporâneos, logo, só tem “forma”? Tá por fora. Nos dois livros ainda vale o problema do “plot is character”, e quem resolveu isso melhor leva o leitor.

    3. Dr, eu gostei da sugestão do voyeurismo, e acho que isso valoriza também o livro da Saavedra – lamento não ter tido o insight que vc teve, pois certamente teria produzido uma resenha melhor com essa pegada aí. E vc se engana: eu faço muitas fichas, e mil anotações: um dia sento no computador e dou conta do texto inteiro. Depois, reviso, mas em geral é uma saída só – nesse caso em particular me permiti comentar tão pouco sobre a Saavedra por ter já contado com dois comentários que me anteceram e que julguei sintonizados com minha leitura. E, por fim, vc localiza bem parte da dificuldade que aponto no início da resenha: o entusiasmo inicial para a leitura do Mutarelli está na mesma medida da decepção. E continuo aguardando quem me ajude a ver o que não vi no livro.

    PS Comentário geral: passei a Copa inteira “segurando” comentários para não “queimar” minha resenha de antemão. Isso foi um problema que não previa.

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  • AM,

    Pena que você vai estar distante da Internet nesses próximos dias – espero que a conversa tenha fôlego para continuar quando você voltar. E vamos a ela.

    [20].1: Acho que concordamos sobre as citações: como respondi ao Leandro em [14], não sou contra citações, mas acho que nesta resenha elas foram mal utilizadas. E você parece concordar, pelo menos em parte, comigo.

    Ontem procurei o livro lá em casa para dar uma folheada e ver se achava alguns trechos que julguei bons – ou ver se, como você e o Luciano sugerem, ele está mesmo repleto de frases insuportáveis. Mas, por conta da mudança, o livro está afogado em alguma caixa. Então reproduzo o trecho que está na resenha do L. F. Carvalho Filho para o jogo 7:

    “Júnior acorda tamanho é o silêncio. Sente-se bem. O relógio do vídeo não marca a hora. Todos dormem. Não há café na garrafa. Júnior lava o rosto, escova os dentes com o dedo e penteia o cabelo com as mãos. Não muda de roupa porque as suas roupas estão guardadas no quarto do pai. Procura não fazer barulho ao sair. Chama o elevador. Enquanto espera, percebe uma rachadura no piso. Uma linha sinuosa que parte de uma coluna e avança quase até as escadas. O elevador demora. Júnior desce de escada. Percebe que a rachadura se repete a cada piso. Uma discreta ameaça. O porteiro não está na guarita para abrir o portão. Júnior espera. Ansioso por um café e pelo primeiro cigarro, anda até o portão. Passa o braço pela grade e aperta o interfone preso do lado de fora. Está dentro e fora. Em poucos segundos o porteiro surge correndo. Abotoando as calças.

    — Vai sair?

    — Eu só toquei porque não tinha você.

    — Então não vai sair?

    — Não, quer dizer, vou. Só estou falando isso para você não pensar que estou do lado de lá chegando. Para não pensar que toquei para entrar. Entendeu?

    — O senhor já está dentro. Por que eu ia pensar isso?

    — Não é isso. É que eu toquei de fora, entendeu?

    — O senhor vai ou não vai sair?

    — Vou.”

    No primeiro parágrafo do trecho, o cenário e o clima (que, é verdade, o leitor do livro já conhece a essa altura) são definidos em frases de uma economia admirável (“escova os dentes com os dedos e penteia o cabelo com as mãos”, “Não há café na garrafa”). E esse surrealismo mundano do diálogo é ótimo. Quando lembro do livro, é esse tipo de trecho que me vem à mente. As tentativas de soar profundo ou espertinho se perderam no meio do caminho, ou por complacência minha ou porque elas não me pareceram numerosas.

    Sobre a surra em quem não pode revidar, desisto momentaneamente de explicar o que quis dizer. Vou ver se encontro outra forma de apresentar a ideia.

    [23].2: Não sei de onde você tirou a ideia de que alguém aqui equaciona a classe social dos personagens com presença ou ausência de enredo. A Bruna, em [3], fala do aspecto social do livro de Mutarelli como um algo a mais do livro, não como algo obrigatório que Flores azuis peca por não ter. Alem disso, não acho e acho que nunca escrevi que o livro de Saavedra só tenha forma: acho que o principal conteúdo do livro é o alegórico, a discussão sobre autoria e anonimato e leitura que, repito, é interessante para um público pequeno, do qual eu poderia fazer parte mas não faço. O conteúdo narrativo, que no começo se sustenta nos capítulos sobre Marcos, vai sendo deixado de lado à medida que as cartas ganham importância para ele. Se “plot is character”, Flores azuis deixa a plot de lado no meio do caminho, em nome do meaning. Enquanto o meaning de A arte de produzir efeito sem causa, embora menos facilmente identificável, está intrinsecamente ligado ao character, portanto ao plot. “Plot is meaning, meaning is plot”?

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  • AM, a verdade é que não sei nada sobre Burroughs, Almoço Nu, filme do Cronenberg… (Se sei já esqueci. Algum dia já li Burroughs mas sinceramente, “ma mémoire est une passoire”).
    Acho que com isso, essas referências todas apenas criaram um clima estranho e me colocaram ainda mais do lado de Júnior, que como eu, não estava entendendo patavinas.
    Mas acredito se você diz que para quem entendeu as referências ficou faltando. Uma pena.
    O paralelo com o Flores Azuis, já que é todo o objetivo do jogo, não deixa de ser engraçado: pelo visto gostei mais de A arte de Produzir por não ter entendido certas referências, enquanto a leitura de Flores Azuis, no meu caso, ficou totalmente prejudicada por não pescar paralelos e alusões…
    (e assim me retiro, me sentindo uma besta por não pescar referências em livro algum, rs)

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  • Pessoal, só passei aqui porque sou fominha e queria muito ver o que estava acontecendo – mas já estou saindo e devo ficar uns dias sem acesso; prometo me esforçar pra pegar a coisa qdo voltar. Agradeço os comentários do Lucas e da Clarice, que espero poder comentar depois.

    Só um minicomentário sobre uma coisa que a Clarice mencionou aí: tem rolado aqui um peso muito grande no fator metaliterário em Flores Azuis, mas me salta aos olhos que quem ostenta o desejo de ser metaliterário é o A Arte… Ou não? :)

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  • Saudações a todos,

    Gostaria de, nesta minha primeira (ainda que tardia) participação neste espaço, discutir um pouco mais a respeito do livro do Mutarelli, que afinal foi eliminado e está sendo pela última vez comentado nesta Copa. Acredito que a intertextualidade seja um recurso interessante, desde que como um elemento a mais para a leitura de uma peça de ficção. A minha fé cega nessa forma que se chama romance me obriga a crer que qualquer obra que carregue essa classificação deva oferecer pelo menos uma leitura (no sentido de interpretação) possível baseada apenas em si mesma. Digo isso, naturalmente, por causa do “ruído Burroughs”, sobre o qual desejo oferecer aqui a minha hipótese (vejam bem, hipótese). Na leitura que fiz (primária, utilizando apenas os elementos apresentados no próprio livro), o “ruído Burroughs” se apresenta como uma interferência autoral explícita e arbitrária, por extrapolar a capacidade de elaboração tanto do protagonista como do “dispositivo de mediação” proposto, ou seja, o narrador. (Isso a meu ver fica claro na pág. 185, quando o pressuposto do “dispositivo de mediação” muda, e o narrador deixa de se limitar às ações e ao ponto de vista de Júnior e passa a seguir também Bruna, e para quê? – apenas para fornecer mais elementos sobre Burroughs.)

    Na minha leitura (mais uma vez, sujeita a toda espécie de equívocos e descomposturas), o “ruído Burroughs” se configura como uma contaminação, um elemento alheio que se imiscua em uma narrativa que tomava um caminho, por assim dizer, convencional, e a corrompe. Para ilustrar isso, uso parte da epígrafe do assim chamado Livro 2: “A palavra escrita é, literalmente, um vírus, uma forma maligna e letal”. Ora, como agem os vírus? Em termos leigos, fazem com que seu DNA se misture com o DNA das células infectadas, fazendo com que elas produzam proteína viral. Creio que é isso que acontece na narrativa. Uma vez contaminada, ela passa a produzir elementos alheios a aquilo que até então trazia em seu DNA – a trama se descola de uma história até-certo-ponto-banal (“trash”, nas palavras como sempre deselegantes de Alcir Pécora) para narrar o efeito do “ruído Burroughs” sobre Júnior e depois a tentativa de Bruna (que arrasta consigo o “dispositivo de mediação”, quebrando seu pressuposto – a meu ver, uma falha, ainda que explicável pela contaminação da narrativa) de decifrar o enigma, emulando a ação de um anticorpo.

    Sobre a doença de Júnior? Acredito que, como personagem composto de palavras, ele se torna presa fácil para o tal “vírus da palavra escrita”, já que teria como mecanismo de proteção apenas o seu autor, que nesse caso decidiu contaminá-lo propositalmente. Evidência dessa contaminação, acredito, [*alerta de spoiler*] está justamente na já citada cena da sugestão do assassinato (pág. 200), em que Júnior cita uma entidade (Pazuzu) presente em um trecho escrito por Burroughs lido por Bruna.

    Assim, na minha visão, o livro se resume a um experimento baseado nesse artifício da contaminação – a história de Júnior serve apenas como pano de fundo. Acredito que Mutarelli tenha uma capacidade ilimitada de produzir enredos até-certo-ponto-banais como o desse seu protagonista a qualquer tempo, e por isso pode dar-se ao luxo de desfigurá-los sem maiores dilemas. Isso me leva a pensar também na razão do título da obra. O “ruído Burroughs” (ou o tal “vírus da palavra”) certamente exerce um efeito devastador sobre a narrativa. Mas sem causa? Aparentemente não.

    Minha interpretação é totalmente delirante? Talvez. Mas eu prefiro me ater a ela a aceitar a tese da gratuidade proposta pelo Antônio Marcos, que aliás é um cara que merece o maior respeito pela lucidez e a inteligência que demonstrou em todas as suas participações nesta Copa.

    Abraços!

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  • A Arte foi, de longe,o livro que mais me agradou nessa copa. Muito superior, na minha opinião, a Flores Azuis e Galiléia, que vão fazer uma final bem morna. Li A Arte em dois dias; não conseguia largar o livro. A história do Jr. me lembrou um pouco a do Mané de O Paraíso é bem Bacana (os dois melhores livros que li nas três edições da Copa.O terceiro seria Mãos de Cavalo). Talvez porque haja aí aquilo que o Steiner chama de uma certa metafísica do autor, uma espécie de visão de mundo, um posicionamento diante de Deus, etc. A Arte, pra mim, tem isso. O livro também poderia se chamar “A arte de se foder”, ou “Deus existe mas está bem longe daqui”. Isso não tem nada de original. Ele não quer ser original, quer dizer alguma coisa. E diz. O fato de o livro não apresentar solução para os seus “mistérios” não me pareceu um problema. Existem perguntas sobre as causas dosproblemas de Jr.,mas elas não são conclusivas. Chega-se a falar em espíritos, e esse, pra mim, é o link com o Burroughs: a idéia de ser possuído por algo misterioso, por uma causa que não se apresenta como tal. Existem muitas formas de dizer a tópica, hoje clássica, “Deus nos abandonou”. O Mutarelli diz isso de forma muito convincente, num livro triste mas divertido, com personagens quase visíveis (pouco se fala dele, mas o Sênior é um grande personagem).

    Sobre as citações, vou concordar com o Lucas. Existem trechos brilhantes em A Arte. Não estou com o livro aqui, mas poderia mencionar várias.

    E vamos nós a mais uma final medíocre…

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  • [26]: AM, talvez tenha sido importante para eu gostar de A arte… o fato de eu saber muito pouco sobre o Burroughs.

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  • Antes de mais nada, obrigada ao Lucas pela compreensão e camaradagem espontâneas e ao AM pela atenção (apenas não poderei responder agora).
    Segundo, vou ter de ser breve, econômica neste comentário – entao lá vai.
    Somente gostaria de adicionar algo ao que Lucas em 9 inicia: o grande mistério de Flores está longe de ser a identidade da autora das cartas: o grande mistério é que efeitos terá sobre o rapaz. E a tese da metalinguagem efetivamente teria sentido se Marcos se transformasse (como quer A para seu leitor) ao se deparar com a intimidade de uma desconhecida, quando não conseguia estabelecer relações íntimas nem com a filha de 3 anos. Pois ele apenas ficou um pouco mais confuso do que o habitual; mal houve questionamentos. Sua reviravolta, seu fazer foi tão somente buscar o verdadeiro destinatário para que não ficasse a em posse do que não era seu. Nada mais equivocado (e frustro)! O que queríamos era um real envolvimento dele com A, e isto faltou… Como pode um livro querer falar sobre a relação entre autor e leitor e ter o leitor praticamente inerte e tomando decisões equivocadas e vazias como desfecho de seu tema e enredo? Para mim, não é porque A ‘e a letra inicial da palavra “autor” ou porque o texto na pág. 148 evoque explicitamente a metalinguagem que se pode concluir que esta é a força do livro. Esta é sua clara intenção – teria sido mais sutil e feliz se a segunda metade da p’ag. 148 fosse cortada e apenas acompanhássemos a evolução de Marcos (e teria ampliado o sentido para muito além do “nicho” de leitores em que alguns aqui se incluem).
    Porém a idéia é maravilhosa e Carola escreve bem demais; talvez tenha sido uma questão de timing, de maturar mais o como executar a intenção. Acompanharei seus próximos livros com certeza.
    Outros comentários: também sei pouco sobre Burroughs; sou uma leitora que busca apenas prazer em ler; para mim o prazer vem de uma satisfação intelectual e emocional; AMO a bela forma de um texto bem escrito, mas só forma não funciona; agradeço a prsença da Clarice nestes comentários pois é com quem mais me identifico do ponto de vista das relações com os livros e a literatura.

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  • juro que queria ser curta…
    aproveitando: nao acho que Flores seja só forma, apesar do que possa parecer acima.

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  • Poucas vezes encontrei uma resenha no jogo – e talvez seja justamente por conta do jogo, livro x livro – que tenha mantido a coerência e a lucidez do começo ao final.
    Houve textos com avaliações claras, argumentando com alicerces justos, mas a resenha de AM foi simplesmente irretocável.

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  • Gosto muito da ideia da Copa, que nos permite falar e ouvir sobre livros, especialmente aqueles que não tive a oportunidade de ler e que por diversos motivos não figuram nas prateleiras mais proeminentes das livrarias.

    Mas algo me incomoda aqui, que é essa preocupação excessiva com o resultado. O sujeito torce pra um livro, este livro perde o duelo e o resenhista logo vira um canalha.

    Me parece que a metáfora futebolística vem se expandindo para além dos limites do razoável nesses campos.

    Chega a soar infantil levar a sério a vitória de um livro sobre outro quando o critério é o gosto pessoal de um único árbitro.

    Livros jogam juntos, não um contra o outro. Mesmo porque você só torce por um time de futebol, ao passo que pode gostar de diversas obras e diversos autores. Eu mesmo já me interessei por alguns perdedores por aqui. A “Arte..” foi só mais um exemplo.

    Só existem dois julgamentos possíveis para um livro. O íntimo, que é pessoal e intransferível. E o do tempo, que fará com que os irrelevantes sejam devidamente esquecidos.

    A brincadeira fica bem mais leve e prazerosa se for encarada como tal: uma brincadeira. Experimentem.

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