Jurado: Luiz Biajoni
Difícil imaginar, na lista dos livros desta Copa, dois títulos tão díspares quanto Música perdida e As sementes de Flowerville. E em vários aspectos.
Música perdida conta a história, de forma bastante linear, do Maestro Mendanha e de sua grande composição, perdida-e-achada, no Brasil, durante boa parte do século XIX.
Luiz Antonio de Assis Brasil está em seu ambiente histórico, bastante seguro do enredo que quer narrar: sabe seu começo, seu meio, seu fim — percebe-se que é um romance estruturado.
Apresenta a bagagem de mais de 20 livros e a maioria dos grandes prêmios de língua portuguesa, inclusive o Machado de Assis e o Jabuti.
Tecnicamente impecável, coloca-se como narrador onisciente e elegante, mostrando ao leitor que o que ele está a ler é, além de uma bela história, uma história bem contada, com labor, suor, empenho e um toque de inspiração, digamos, “musical” — já que é impressionante como sua prosa pede uma leitura em voz alta.
A capa do livro — um tanto frouxa, no geral — traz bela foto em preto-e-branco das mãos do maestro Bruno Walter, enquanto ouvia uma gravação nos estúdios da Columbia, em 1959.
A epígrafe cita Shakespeare no original: “If music be the food of love, play on.”
As sementes de Flowerville se passa em um futuro não muito distante, onde as pessoas ainda ouvem Franz Ferdinand. De forma recortada, com flashbacks e trechos de um caderno de anotações de uma das personagens, o livro conta a história do envolvimento entre alguns cidadãos de Flowerville, amplo condomínio fechado de altíssimo padrão, e de Nova Esplanada, um lugar que não deu certo.
Sérgio Rodrigues estréia em romance lidando com a difícil realidade projetada no futuro, parecendo não saber como vai conduzir a dúzia de personagens que vão aparecendo aos poucos.
Aparecido na Internet, o autor parece ter uma urgência que não merece burilo. E faz citações pop cansadas, meio incríveis para um futuro… Quem restará, num futuro imediato, que terá assistido a National Kid?
Sérgio foge do papel de narrador, botando parte da história na boca ou em escritos de outros personagens. Seria válido, mas soa artificial demais. Os trechos do diário da personagem Nora são mais interessantes — não apenas por conterem certa poesia — que todo resto na narrativa rasinha do autor. Por que não assumir essa voz e escrever a história toda assim?
A capa do livro, atraente e bacanuda, mostra lábios pop prestes a abocanhar um pênis-código-de-barras que traz, óbvio, o preço do livro. A capa moderna é de Marcelo Curvello e Vanessa Feierabend.
A epígrafe cita o Sandman, de Neil Gaiman, traduzido: “Um de vocês está com meu elmo; minha máscara de puro sonho. Eu mesmo o forjei, com os ossos de um deus morto.”
Repararam como são diferentes os dois livros?
Bem, devem ter reparado também, na forma como mostrei as diferenças, que achei o Música perdida melhor, não?
Pois é — e fiquei um pouco infeliz com isso.
Gostaria muito de escolher um jovem romancista estreante, dizer que Sérgio Rodrigues escreveu um livro do caralho.
Gostaria de dizer que, pô, romances históricos estão por fora — ainda mais pseudo-eruditos, tratando de música clássica!
Gostaria de dizer: “Ei, Luiz Antonio, fique com o seu arcadismo, nós queremos no-vi-da-de!”
Mas não posso, sinceramente, dizer nada disso.
Apesar do livro de Assis Brasil não ter os elementos que me chamam a atenção em um romance (a crítica social e sexual, a ironia…), não posso desconsiderar o deleite de deslizar por suas páginas muito suaves, descortinando essa história simples e sensível do grande personagem que o autor criou — baseado na história real do maestro que criou o hino Rio-Grandense.
Já o romance de Sérgio Rodrigues, li com custo — mesmo tendo cem páginas a menos que o outro.
O clima inicial me agradou e podia apostar que seria tudo muito bom. Mas existe um excesso de bons personagens que ali estão aparentemente apenas por uma boa anedota. Um livro que tenha apenas uma grande boa história (como é o caso de Música perdida, que não tem subtramas) vale muito mais a pena que um livro com muitas histórias a serviço de uma única anedota — como é o caso de As sementes de Flowerville.
Abro, por acaso, os livros numa página, a 85, e transcrevo, com idéia de dar uma dimensão da análise primeira, sobre o domínio e estilo:
Ele estava sentado à sombra, no degrau da igreja do Carmo. O calor subia do empedramento da Rua Direita e formava zonas oscilantes de cores e formatos. O suor escorria pelas costas, encharcando a camisa. Deteve o olhar num escravo que vendia fumo em rolo. O escravo tinha uma obstinação serena, como se soubesse que mais cedo ou mais tarde venderia todo seu tabuleiro.
Música perdida
A repórter de TV vem caminhando até ele com um sorriso de dentes tão perfeitos e alinhados que parecem riscados por um arquiteto. Os olhos verdes são como faróis ferozes. Victorino Peçanha sabe o nome dela: Amanda Jones. Sabe mais, embora, claro, isso possa ser só um boato.
As sementes de Flowerville
Entenderam?
Assis Brasil escreve, enquanto Sérgio Rodrigues compara, aponta, usa figuras de linguagem, tenta ser wit e engraçado ou misterioso — ou qualquer outra coisa. Com isso, enterra a literatura e, nesta comparação, perde feio.
Aponto então o livro de Luiz Antonio de Assis Brasil como o vencedor dessa peleja, citando Samuel Johnson: “O que é escrito sem esforço é geralmente lido sem prazer.”
E prazer é quase só o que importa em se ler.

Música perdida
de Luiz Antonio de Assis Brasil


Comentários de Lucas Murtinho
Repararam como é a segunda vez que As sementes de Flowerville é apresentado como o oposto do seu adversário? No jogo 12, apitado por Jonas Lopes, o outro livro era O paraíso é bem bacana e o comentário foi o mesmo. Mas algo me diz que isso não quer dizer que Música perdida e O paraíso é bem bacana são o mesmo tipo de livro.
Uma palavra, aliás, sobre Música perdida. Antes da Copa, eu nem sabia que o livro existia; quando ele foi escolhido como um concorrente, achei que seria uma vítima pouco chorada da primeira fase do campeonato. Mas ele bateu com autoridade e folga três adversários temidos, contrariando os prognósticos dos próprios jurados que o declararam vencedor. Rafael Rodrigues, jurado do jogo 11, adora Luiz Vilela e desconfia de romances sobre músicos, mas deu Música perdida contra Bóris e Dóris. Luiz Biajoni, neste jogo, queria escolher um romancista jovem e não encontrou no livro de Assis Brasil os temas que lhe interessam na literatura, mas deu Música perdida contra As sementes de Flowerville. E Olivia Maia, no jogo 3, começou a leitura do livro achando que seria mais fácil gostar do adversário, O segundo tempo, mas Música perdida ganhou mesmo assim. Depois que dois dos romances que eu considerava favoritos foram eliminados — Mãos de cavalo no jogo 1, Memorial de Buenos Aires no jogo 10 — escrevi que não daria mais palpite sobre o resultado da Copa, mas que se dane: apesar de Um defeito de cor ser bem mais badalado, para mim o favorito da final é Música perdida.
Resta, antes de passar a bola aos leitores, três observações: insurjo-me contra a qualificação de Sérgio Rodrigues, jornalista de longa data, como “aparecido na Internet”; a pedido do Biajoni, dirijo os leitores interessados a essa resenha de Fabrício Carpinejar sobre Música perdida; e lembro a todos que na final os quatorze jurados têm direito a voto e entro na disputa para desempatar em caso de sete a sete. Semana que vem, se tudo der certo, o vencedor da brincadeira.



























11/12/07 - 10:07 am
Vai uma rapidinha porque vou postar sobre os livros e não quero me repetir. Resumindo: gostei de ambos, li com prazer.
{ Citar este comentário } { Comentar }Mas concordo com sua avaliação, Música Perdida é sedutor na medida em que as buscas e os fantasmas do maestro começam a tomar conta da narrativa. Fiz o que costumo fazer ultimamente: reli na sequencia.
Apesar de ja´ter o hábito da releitura,comecei a fazer isso há algum tempo: reler na sequência tem suas delícias, mas isso eu conto quando postar.
Por hora : voto na música.