Jogo 13

Competem nesta semifinal um faroeste e um farnordeste. Confesso q fiquei surpreso. Depois de ler seis dos oito livros desta chave, esperava apitar Cordilheira contra O verão do Chibo. Ambos me impressionaram, e eu teria gostado da dúvida enquanto os destrinchasse.
No futebol e na literatura, ganha quem marca gols (qdo não pela moedinha…) mas, no caso dos livros, cada leitor tem suas traves num lugar diferente do gramado. (Aliás, o futebol per se seria bem mais divertido se tbm fosse assim.) Em certos jogos, no entanto, qdo um dos times é claramente superior ao outro, mudar a posição das traves não modificaria o desfecho. Claro, uma vitória fácil tbm não traz glória. No caso aqui, embora haja entre Galiléia e Areia nos dentes um claro vencedor, alguns de seus gols são incompreensíveis — daquelas badernas na pequena área qdo a bola rola até a rede ninguém sabe como.
Areia nos dentes entremeia um faroeste com zumbis e os problemas pessoais e técnicos do autor desse faroeste. É um livro gostoso de ler, assim como é gostoso ficar em casa numa quarta-feira depois do almoço e assistir à sessão da tarde. Aliás, não duvido q Antônio Xerxenesky tenha feito exatamente isso mais do q a média, tal é sua habilidade em construir, nas partes do faroeste, um estilo q parodia as dublagens empostadas traduzidas do inglês, comuns na tv. Numa única página encontramos: “O melhor, que diabos, era não pensar sobre a missão. Apenas executá-la. Quão difícil seria penetrar no escuro (…)?” (p.13). Aplicado a um faroeste, fica bem engraçado.
O livro tbm é gostoso pq o autor percebeu q, pra narrar um faroeste de uma rixa entre duas famílias — com delegados forasteiros, brigas de pôquer e madames de saloon, terminando numa chacina de zumbis comendo carne humana —, vc não pode se levar a sério; não pode escrever uma prosa tradicional de cabo a rabo — a menos q queira q tua obra vire um daqueles bolsilivros da coleção Oeste Vermelho da editora Monterrey, na boníssima companhia de Brigitte Montfort, a linda espiã milionária gostosa e poliglota. Assim, até pouco mais da metade do livro, Xerxenesky escreveu em vários formatos (relato, diário, script, fluxo de consciência, &c), escolhendo o formato segundo a cena. Já mais pro fim, o formato se estabiliza na prosa tradicional — pois leitor nenhum é de ferro: quer saber o final da história mais do q quer se divertir com brincadeiras de escritor.
Mas…
Dentre essas brincadeiras está a de “romper os limites da própria literatura” (segundo a contra-capa). O faroeste dentro de Areia nos dentes é a história criada por um personagem cuja história é criada por um autor cujos personagens o mencionam como autor de um outro livro que é na verdade o próprio faroeste que o personagem está escrevendo. Não sei como isso rompe os limites da literatura; pra mim, o autor da contra-capa está meio desinformado. De qqer modo, são brincadeiras divertidas — de um jeito meio adolescente-descobrindo-espelhos-móveis, mas divertidas assim mesmo.
A melhor brincadeira é a metáfora entre as dualidades pai/filho e autor/personagem na cena em q o pai-autor não consegue fazer o filho-personagem matar o pai-personagem pq não consegue se desresponsabilizar por seu próprio filho (do pai-autor) ter realmente conseguido matá-lo no sentido freudiano de “matar o pai” (q todo homem precisa fazer pra se tornar adulto). Por aí se vê q cabem ainda muitas balas no cinturão do jovem Xerxenesky — se disparadas, balas cujas profundezas e complexidades, ainda q não rompam “limites” literários, talvez atinjam lugares até bem longe do faroeste e das travessuras com letras e fontes.
Então, sorte nossa q Areia nos dentes não tenha virado bolsilivro: não teria feito o menor sucesso junto àquele público. Mas qdo se vê o rosto pós-imberbe de Xerxenesky na orelha da contra-capa, não há como deixar de pensar q ele foi precipitado ao publicar esse livro, e talvez devesse ter esperado uns 25 anos (e um ou dois filhos difíceis) pra escrever Areia nos dentes comme il faut.
A esta altura do campeonato, é um grande problema um livro ser comparado à sessão da tarde. E realmente (acho q até o literato Xerxenesky concordará), não há como Areia nos dentes chegar à final se seu adversário é esse livro de Ronaldo Correia de Brito, traves deslocadas ou não.
Perto do começo de Galiléia, Adonias fala dos “livros da biblioteca do avô Caetano, todos parcialmente comidos pelas traças e cupins. Difícil encontrar algum que não tivesse buracos no miolo das folhas, em que não faltassem páginas inteiras, obrigando-me a imaginar o que não conseguia ler” (p.37). Foi um livro esburacado como esses q RCB tratou de criar: é como se Galiléia tivesse páginas omitidas pelo autor qdo este decidiu seguir a máxima de Bartleby, “Acho melhor não.” (p.37), e me obriga agora, como resenhista, a imaginar aquilo q estaria nas páginas expurgadas de Galiléia.
Uma das chaves pra entender muita coisa nesse livro está na orelha da capa: a foto do autor. Sua fisionomia tipicamente cearense é tbm fortemente marcada por ancestrais sefarditas ibéricos. Menciono isso pq me parece necessário q se mencione. Ninguém deixaria de notar a relação entre o livro e a fisionomia do autor se o livro tivesse dezenas de elementos, digamos, filipinos, e o autor fosse claramente um filipino; mas tanto o semblante sefardita qto o tema central de Galiléia passam despercebidos por muitos, como se o Brasil e seus fenômenos tivessem caído prontos do céu, sem longínquos nós, vozes e elos. Pensa-se no Brasil como um caldeirão de etnias e culturas, qdo na verdade está mais prum caleidoscópio. Contra a luz, os elementos de uma ou outra cultura parecem sincretizados; mas vc vira o caleidoscópio um pouquinho e elas se separam em entidades discretas. Qdo Ronaldo Correia fala dos Rego Castro, de Raimundo Caetano, está falando de si mesmo, do lugar de onde veio, dos sefarditas ibéricos q vieram ao Brasil com a colonização holandesa no nordeste, das feridas incuradas e dores ancestrais com q nascem há séculos os descendentes dos cristãos-novos e criptojudeus.
Galiléia é uma re-encenação pós-freudiana de cenas do antigo testamento no Ceará. Já não seria banal dizer q os sefarditas q aportaram no Brasil re-encenam infindavelmente os traumas de sexo e sangue das Escrituras, fascinados pela defesa dos mínimos detalhes da honra — como bons nordestinos. Mas Galiléia não pára aí: as dualidades às vezes dolorosamente insintetizáveis q o narrador traz em si mostram q quem carrega os fardos de um povo é o indivíduo. Adonias age como um paciente psicanalítico durante a fase “inconveniente” — qdo começa a questionar ostensivamente os familiares e amigos. Como o típico fuinha chato procurando sarna pra se coçar, cutucando os outros pra cutucar a si, sua cabeça é um caos de identidades e pulsões embaralhadas, uma dentro da outra, cada uma exigindo primazia: seu orgulho dos ancestrais sefarditas e a mestiçagem com os indígenas; seu homossexualismo latente e os supostos esqueletos nos armários da família; a atração e repulsa pelos povos nativos; o conforto custoso da cidade e a fúria fácil do sertão; a vontade de saber e de esquecer o q sabe ou pensa q sabe. Adonias é um palco de pulsões e repulsas. Ao se distanciar de seu cotidiano normal, ele narra: “Desejo voltar, acelero o carro, recuo na poltrona” (p.8). Não há repouso; nunca. Não há terra santa.
Haverá quem não veja a condição de cristãos-novos dos Rego Castro como leitmotiv em Galiléia. Mas um olhar mais detalhista revela o rio q acompanha a estrada, como o Jaguaribe. Na verdade, é sempre o inverso: a estrada é q acompanha o rio. Dezenas de fios aparentemente soltos amarram bem essa interpretação. • O avô Raimundo Caetano é um cristão-novo atávico. Seu passado sefardita subjaz a toda manifestação pública de cristianismo. Ele se sente “humilhado” (p.29) pelo padre q o batizou pois este se recusou a seguir uma tradição nordestina de usar nomes do Antigo Testamento e dar-lhe o nome judeu Abraão. • O tio Salomão, ao opinar q o judaísmo é “uma forma de ver o mundo… muito mais do que o culto a uma religião” (p.25), mostra como entender a escolha de palavras qdo Adonias narra q o avô “praticou um catolicismo pagão” (p.23) e “se declarava um católico apostólico romano” (p.29). • Da “História Sagrada, composta de textos seletos do Antigo e do Novo Testamento” (p.28), Raimundo lê apenas o Levítico e o Livro de Jó; a decadência do nordeste e a do próprio Raimundo é a decadência q Deus impingiu a Jó; mas contrariamente a este — q se viu redimido por sua fé inabalável —, Raimundo perdeu a sua. • Davi, Ismael e Adonias – q vê a trindade cristã como um “absurdo” (p.205) —, são três errantes pelo mundo q agora voltam à fazenda Galiléia pra assistir aos últimos estertores do patriarca, mas apenas Ismael — mestiço com índios locais — deseja permanecer. • As reuniões da família à volta do patriarca moribundo (p.204) reproduzem os semi-círculos hierárquicos nas antigas sinagogas do Recife: ao centro, os patriarcas; depois, os homens em geral; coladas às paredes, as mulheres; lá fora, os negros; ao longe, os índios. • No clímax, qdo nenhum conflito termina e nenhuma resolução o consola, Adonias vasculha um baú velho e descobre uma evidência clara de q sua avó está mais pra jucá do q pra judia, apesar de seu sobrenome Fonseca figurar numa listagem de nomes judaicos (p.24). Se a avó não é judia, então tbm ele — ligado à avó pela mãe — certamente não é, pois o sangue judeu se transmite via materna (p.28). A ascendência jucá se materializa nos pés descalços da avó numa foto antiga. “Os pés machucam meu coração, não suporto a dor” (p.215). A dor é a de confirmar q vive uma farsa acalentada subliminarmente pela família, de já não ter sequer uma identidade problemática. • Num parágrafo perto do final, Adonias, em Fortaleza, a caminho de volta, tira um sarrinho desconsolado do nordeste futuro, seu futuro, simbolizado nos nomes q o nordestino dá a seus filhos hoje: Maycon, Érick, Claysson. A primeira palavra desse parágrafo (p.234) é o nome Christian…
Perdido em Fortaleza, sem o telefone celular com q tenuamente amarra sua masculinidade à esposa em Recife, Adonias entrega-se a uma farra de rua multissexual e multirracial. “As pessoas aqui são bonitas, vejo formosura em rostos, cabelos crespos e lisos, pele clara e escura. Nunca mais fecharei meu peito, nem deixarei q a ansiedade me cegue.” (p.235) Acho q vislumbra um alívio lúdico a meio caminho entre o masculino e o feminino, entre o judeu e o cristão, entre o europeu e o indígena, entre o ir e o voltar. Mas logo lembra q, sem o celular pra contactar seu carona, não sabe como chegará ao aeroporto, e se desespera novamente — novamente se vê completamente perdido. (¡Pega um táxi, Adonias!) (Mas ele não quer pegar um táxi, não quer resolver seus problemas; quer é continuar fuxicando a si e aos outros, viciado na própria terapia.)
De fato, prum judeu errante, ¿o q é “voltar”? ¿Será mesmo q é re-encenar infindavelmente aqueles traumas de sexo e sangue das Escrituras e implacavelmente “repetir o q os antepassados fizeram” (p.159) em fazendas sertanejas reminiscentes da geografia bíblica? Após “matar” Ismael com uma pedrada, Adonias se analisa: “Depois de viver em outras sociedades, de reconhecer o esforço que elas fizeram para se diferenciar do que nós somos, voltamos à barbárie e praticamos os mesmos atos de sempre” (p.143).
(Mudando de tom: por mim, como pessoa e como resenhista, já tou de saco cheio com essas repisadas na Bíblia, com toda essa herança cultural desértica, cruel e calhorda de povos semi-selvagens de 2500 anos atrás, depois regurgitada nas calhordices de cristãos e muçulmanos. Ô assunto cansativo. A tradição — especialmente a de usar a própria tradição pra explicar o presente — é a pior prisão da cultura, a prisão q cada grupo humano risivelmente acha necessária pra dar significado à vida. Mas fuxicar infindavelmente todo micro-detalhe do presente como se não passasse de mera manifestação do passado é uma forma de escapismo sublimado, uma preguiça cultural, uma clichecização servil. Não serve mais. Até mesmo o judeu errante hoje não passa de um clichê temático pra gerar questionamentos anacrônicos. Caí numa armadilha, e me envergonho.)
¿Que contêm, então, as páginas expurgadas pelo autor? Melhor dizendo, ¿qual intenção do autor se realiza ao chamar a atenção pro fato de haver páginas expurgadas q ele “achou melhor não” publicar? ¿Que é impublicável numa catarse em público? Não pode ser nada muito sério; se fosse, o autor não deixaria tantos indícios. Posso estar absurdamente enganado, claro, mas minha teoria é q RCB não quis publicar seu profundo ressentimento pela decisão de seus antepassados de permanecer no sertão. Admitir isso teria explicitado não só esse ressentimento mas tbm uma aversão pouco elogiável em relação a sua terra natal. O livro todo se baseia numa dissonância entre o orgulho de ser judeu em meio a jucás e a vexação de ser sertanejo em meio a Europas e Nova Iorques. Pode ser uma pena q o politicamente correto esburaqueie uma catarse inteligente, mas é uma pena ainda maior q o Brasil tenha dissonâncias tão profundas, q escamoteá-las possa parecer a opção mais sábia.
De resto, vejo em Galiléia problemas — alguns deles sérios — de coerência narrativa, de unidade conceitual, de estilo (um médico escritor é presa fácil da norma “culta”; as melhores partes do livro são qdo os ritmos nordestinos teimam em aflorar apesar dos impulsos assépticos do autor). Estivesse Galiléia jogando contra Cordilheira ou O verão do Chibo, eu teria vacilado um pouco, mas não lhe daria a vitória. Seus gols são muito confusos, alguns de impedimento. Além dos problemas, não é uma obra de criação; é antes a romantização de uma genealogia real, ou a simbolização (ie, a fuga) de uma experiência pessoal — coisas q, em arte, não valorizo acima da criação. No entanto, contra Areia nos dentes, Galiléia leva a vitória pelo descomunal cérebro de seu autor, por ele perceber em si e em seu tema as miríades de ângulos e direções possíveis na formação de um personagem.
Notem, por favor, q minha resenha aqui focou aquilo q imagino estar nas páginas perdidas de Galiléia, nos “buracos no miolo das folhas … comidas pelas traças e cupins”. O livro tem uma dezena de outros aspectos comentáveis. Se a crítica profissional, comercial e acadêmica for esperta e realmente deseja um bom futuro prà literatura brasileira, não vai deixar Galiléia nas prateleiras perdendo ainda mais páginas aos cupins.
Vencedor




Foi plausível, apesar do assassinato paterno precisar do eterno retorno da horda sempre que alguém o comenta – não vejo assim, o mundo é maior que este argumento. Mas surpreendetemente me parece que o Areia nos Dentes (não li nenhum dos dois) venceria por não cair no elemento de vergonha maior, a que sentiu na confusão entre anacronismo e genealogia de Galiléia. O peso maçante de uma tradição justificatória não orienta o Areia nos Dentes, que mesmo não sendo pouco, não te levou à vergonha. Assim, vale perguntar porque a vergonha vale mais que as tentativas imberbes de correr solto no mato entre zumbis?
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O que é um pós-imberbe? Depois de fazer a barba?
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Muito bom o texto, Dr. Plausível.
E me arrisco a responder o #1 acima dizendo que por vezes o que dá vergonha pode sim estar alguns palmos acima do nível do que é apenas agradável.
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Por isto que acho o doutor o mais lúcido resenhista e comentarista desta Copa. Já leu muitíssimo, não só da literatura moderna (como ocorre com muitos aqui, segundo me parece) e se impressiona pouco com idéias que a tradição literária já consagrou. Além do mais, tem independência de pensamento (fato ainda mais raro). Bravo.
Uma prova das duas qualidades?:
(Mudando de tom: por mim, como pessoa e como resenhista, já tou de saco cheio com essas repisadas na Bíblia, com toda essa herança cultural desértica, cruel e calhorda de povos semi-selvagens de 2500 anos atrás, depois regurgitada nas calhordices de cristãos e muçulmanos. Ô assunto cansativo. A tradição — especialmente a de usar a própria tradição pra explicar o presente — é a pior prisão da cultura, a prisão q cada grupo humano risivelmente acha necessária pra dar significado à vida. Mas fuxicar infindavelmente todo micro-detalhe do presente como se não passasse de mera manifestação do passado é uma forma de escapismo sublimado, uma preguiça cultural, uma clichecização servil. Não serve mais. Até mesmo o judeu errante hoje não passa de um clichê temático pra gerar questionamentos anacrônicos. Caí numa armadilha, e me envergonho.)
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bravo, doutor. em vista das suas opiniões antecipadas em comentários de jogos anteriores, sua decisão me surpreendeu. sem ter lido o areia, eu só podia torcer pelo galileia do qual, embora não seja uma obra-prima, gostei bastante.
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Lúcido? O cara faz análise segundo a orelha, a contracapa e a foto do autor. Independente do resultado, isso é uma Copa de Edições ou uma copa de Literatura?
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Fernando,
alguns historiadores bem chatos diriam que a materialidade do objeto livro é tão importante quanto o texto em si, que esses são aspectos que condicionam a leitura, que modificam as práticas, etc. Eu acho isso um pouco de exagero, mas entendo a capa, a orelha, e até mesmo a foto – não pela imagem em si, mas pelo modo como a imagem é construída -, podem ser analisadas, se trouzerem bons insights. E no caso do texto do Plausível me parece que trouxeram.
Gostei bastante da análise de Galiléia, principalmente por se focar nas apropriações da Bíblia, e por mostrar um pouco da neurastenia do autor (e como ela prejudica o livro na medida em que se acopla ao livro, redirecionando o narrador, como tentei argumentar na minha resenha). Também gostei da análise de Areia nos Dentes. Só não concordo com o que ele diz sobre Cordilheira – para mim, um livro bem fraquinho, uma espécie de “fiquei louco com Bolaño mas não sei o que fazer” (e eu gosto do Galera… Mãos de Cavalo é ótimo).
Mas o ponto alto é, realmente, o excurso (Mudando de tom…). Melhor resenha do Plausível em todas as copas, a mais madura, a mais comedida no tom. Ótimo trabalho de crítica (precisamente por não ficar apenas tentando justificar o juízo de gosto, ao tentar compreender o texto por diversos ângulos, afastando-se a proximando-se dele, separando o “compreender” do “apreciar”).
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O parágrafo entre parêntesis expressa bem melhor algo que me passou pela cabeça, mas que não cabia no tipo de crítica que escrevi. Mencionei só que me pareceu excessivo, porque na época eu estava traduzindo comentário bíblico.
Mas EXCELENTE crítica.
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Ainda não percebeu, Fernando Torres, que este é o estilo do cara? Brinca com detalhes, justamente porque são detalhes, como quem justapõe grandes pensamentos a sutis comentários leves, tirando um efeito lúdido destes, por assim dizer, oxímaros?
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Rapazes, a resenha é só um besteirol. Tem tanto equívoco que dá até preguiça de listar. Vou mostrar só um, dos mais básicos: o tal Plausível confunde o autor de um dos livros com o narrador do livro… Quem omitiu páginas foi o narrador, não o autor. Aí ele vai e analisa a foto do cara!!!
Meu irmão se parece muito com um japonês, mas nossa família não tem o menor traço
de sangue oriental. Imagina o desastre que essa figuraça iria fazer se meu irmão fosse escritor!!
O que parece muito é que Plausível é desesperado por aparecer. Por isso fica soltando essas pérolas. E a linguagem do cara? “Bolsilivro”?!
O texto e os elogios a ele demonstram com clareza a enorme dificuldade de leitura que existe hoje: Plausível passou longe do que é a literatura…
Beijos.
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dr. plausivel é um dos grandes embustes da internet brasileira. ainda bem que naõ tem grande relevância ou destaque.
resenha convoluta, esgarçada, troncha.
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¡Obrigado a todos pelos comentários! Pela votação, eu já tava achando q poucos tinham gostado…
Refrator,
AreiaNosDentes me pareceu uma boa brincadeira não com tradições mas com memes literários (zumbis, tiroteiros, conflitos pai/filho &c). Talvez isso não chegue a “se orientar por uma tradição justificatória”; mas enquanto AreiaNosDentes mescla UMA idéia de Freud + zumbis + as praxes do faroeste, Galiléia mescla inúmeros insights psicanalíticos + Bíblia + as problemáticas do sertão. No geral, o primeiro acertou 10 de 10 e o segundo acertou 70 de 100. E é por isso q há mais pra falar sobre este do q sobre aquele. Galiléia dá mais do q pensar, e ganhou por isso. De resto, eu ter caído na armadilha bíblica do livro depôs contra ele, não a favor; mas no fim, areia por areia, tive q admitir a superioridade de Galiléia, neste jogo.
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LuizGusmão,
Ainda assino em baixo de tudo q falei em outros jogos sobre ambos livros.
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Fernando,
É preciso dizer q tbm eu “achei melhor não” falar de algumas coisas.
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Mariazinha,
Pô, eu achava q um teorista conheceria os bolsilivros. Tbm achava q vc fosse mais velho. :^D
Sobre o “equívoco” mencionado, repito o q eu já disse alhures: “Tou mais interessado em saber o q um autor tá DIZENDO, pq não nasci ontem e sei q alguma coisa todo autor tá empurrando, e quero saber o q é.” TODO narrador é o autor, a menos q ele seja hipócrita. Esse é um aspecto da literatura ao qual vc (pelo menos online) soa singularmente insensível. Isso não é nenhuma crítica, claro; há infinitos modos de ser e estar no mundo. Só não me xingue por EU ser sensível àquilo.
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Eu gostei de “bolsilivros” e de “farnordeste” também.
Sem ter lido os livros, não posso julgar o acerto da resenha.
Mas é fato que há algo no estilo do resenhista que incomoda. Parece que deve sempre haver alguma “sacada” para além das contingências apresentadas pelos livros, algum fato notável, mas não notado. Nem que seja a foto, a contra-capa ou a vida do autor.
Acho que Fernando Torres protesta do lugar de quem soube fazer uma resenha com um grande fato notável interferindo no jogo -a polêmica celebridade de Paulo Coelho – mas restrita às questões literárias em jogo.
Prefiro o estilo de Torres, mas até compreendo que as maquinarias do Dr Plausível acrescentam ao espetáculo, mesmo que seja com um gol impedido, ou de xiripa – como se diz na várzea.
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Tristán,
“dr. plausivel é um dos grandes embustes da internet brasileira”
Mantendo as proporções, isso foi quase como subir numa caixa na praça da Sé e declarar aos quatro ventos q Sansón Carrasco e um dos grandes embustes da universidade espanhola. Perspectiva, please.
“ainda bem que naõ tem grande relevância ou destaque”
Apesar de ser um dos “grandes” embustes. (Interessante, o “ainda bem”; ¿algo a temer?)
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Varzeano,
“Parece que deve sempre haver alguma “sacada” para além das contingências apresentadas pelos livros”
Taí uma crítica legítima. Em defesa, digo q o mundo é mais complexo do q parece à vista da mecânica academicista e da hidráulica da crítica profissional. Um livro não é só uma organização peculiar de forma e conteúdo, passível de análise textual e situamento estilístico. Tbm é uma declaração de posicionamento moral, cultural, político e psicológico do autor, e q, pra chegar a nossas mãos, precisa ter sido aprovado pelos posicionamentos do editor. Nas análises q pessoas como Tristán e Mariazinha, suponho, aprovariam, tem tanta suposição tácita, tanta bagagem inquestionada, q – reduzida a se valer apenas da mecânica acadêmica – muitas vezes parecem discussões medievalescas sobre o sexo da forma e o conteúdo dos anjos. Aquilo q pra vc soa como “sacações” artificiosas, são apenas coisas q EU enxergo no livro como primordialmente relevante. Mas sendo coisas q não vejo outros trazendo à tona, acho q, numa resenha num certame tão despretensioso como é a CLB, tou justificado em comentar sobre elas, ainda mais (neste caso) sabendo q, antes de mim, Simone Campos e Felipe Charbel teriam dado conta admiravelmente dos outros aspectos.
Espero ter me defendido a contento.
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Foi só elogiar… “TODO narrador é o autor, a menos q ele seja hipócrita”. Putz…
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Felipe,
Sim. Vc tá pensando em ‘narrador’ como “a figura faz-de-conta q o autor tá fingindo ser”; eu tou pensando em ‘narrador’ como “o cara q realmente tá narrando”. Eu deveria ter qualificado melhor, tipo, “no fundo” todo narrador é o autor, a menos q ele seja hipócrita “ou esquizofrênico”. Ninguém consegue escapar de si mesmo. No caso do autor, a menos q ele seja hipócrita ou esquizofrênico, não vai conseguir publicar um livro com premissas e postulados morais, culturais, políticos e psicológicos de q ele discorda. Então saber quais são essas premissas e postulados é tão importante qto analisar a mecânica narrativa do livro.
Por outro lado, no contexto, daquela resposta ao Mariazinha, a frase tinha um duplo sentido.
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Meu caro, Plausível
Seja um pouco previsível
E, mesmo, um tanto risível
Disse risível, não irrisório
Bandeirinha e não transitório
Amigo e jamais concessório
Sê melífl… meloso como frade
Beija a mão da tua comadre
E se cirande dos compadre
Sê um bufo e não truão
Dê tapinhas e não menção
Pois, amigos, para que o são?
E com certeza será misto
Perto de todos e disto
Unanimidade burra e quisto
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Achei a resenha muito ruim. Além de observações irrelevantes e comparações inapropriadas, o texto é bastante descuidado, desorganizado. Para piorar, uma chuva de pq, qdo, q, abreviações adolescentes, grotescas, que doem no olho. Isso aqui não é MSN; e a mão não cai se a gente escreve as palavras por inteiro. Decepcionei-me.
Apesar disso, os livros parecem ser bons e certamente os lerei.
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Aposto que o comentário 10, da Mariazinha, é de fato de autoria de um certo RL, que costuma publicar livros de ficção e está prestes a ganhar um título nobiliárquico da Fundação Troll.
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Pô, Rodrigo, assim vc me encabula.
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“resenha convoluta”
“o texto é bastante descuidado, desorganizado”
É nisso q dá economizar nas conjunções.
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AM,
De fato. Ou ele ou uma probabilidade ínfima de alguém muito esperto se passando por ele. Mas qdo aparece uma sumidade pra criticar, é quase uma honra, não?
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Caro Dr, vamos concordar em diferir: vc diz, em sua resposta ao Felipe:
“[...] eu tou pensando em ‘narrador’ como “o cara q realmente tá narrando”. Eu deveria ter qualificado melhor, tipo, “no fundo” todo narrador é o autor, a menos q ele seja hipócrita “ou esquizofrênico”. Ninguém consegue escapar de si mesmo. No caso do autor, a menos q ele seja hipócrita ou esquizofrênico, não vai conseguir publicar um livro com premissas e postulados morais, culturais, políticos e psicológicos de q ele discorda. Então saber quais são essas premissas e postulados é tão importante qto analisar a mecânica narrativa do livro.”
Mas acredito que de jeito nenhum é assim: o que vc está sugerindo é uma colagem entre a figura que desempenha a função autor e uma, digamos, “pessoa física”. Nesse sentido, toda a crítica volta a ser exame da intenção autoral, e nada mais: revelada essa intenção, e negada a possibilidade de uma intenção de má fé, ou esquizo, está feito o trabalho. Nenhum jogo de cintura é permitido, Dr? E justo nesse contemporâneo de mil performances e discursos sobre si? Vc está negando que a invenção, o engenho e a arte podem sim fazer, em literatura, personagens e situações que destoam não do desejo de narrar do autor – o autor escolhe o que contar – mas sim das tais premissas fundamentais sobre a vida, o universo, e tudo o mais. Pq eu mesmo não sei se sei das minhas premissas fundamentais assim, com tanta clareza – como é que eu posso exigir que o autor que examino as tenha? Isso pra não falar que as premissas fundamentais de hoje são a matéria de riso de amanhã – o que nos deixa com o problema do autor mudando de opinião.
Minha opção tende a ser pensar o autor como um trabalho, o exercício de uma função, que um sujeito ocupa estrategicamente. Ele pode ser mais ingênuo, pode ser mais astuto – mas nunca suponho que ele se confunde com o sujeito que, à noite, deita pra dormir e pensa sobre a vida, o universo e tudo o mais na sua secreta intimidade. Veja que o próprio Flaubert diz, ao mesmo tempo, que “Madame Bovary sou eu” e que “Há uma Madame Bovary em cada vilarejo da França”: o autor inventa, o autor retrata, e o autor também tergiversa, também sacaneia, também oculta o ouro intencionalmente – e às vezes o entrega inadvertidamente. Vc, Dr, está fazendo aí o elogio do autor-Deus, e ainda por cima deus cristão, infalível, onisciente de si, sabichão. Eu estou aqui defendendo a opção sublunar.
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AM,
Como sempre, vc dá o q pensar.
“Pq q eu mesmo não sei se sei das minhas premissas fundamentais assim, com tanta clareza – como é que eu posso exigir que o autor que examino as tenha?”
Pq, no foro público, até mesmo a incerteza sobre essas premissas tbm é um posicionamento.
“o que nos deixa com o problema do autor mudando de opinião”
Mas em qqer momento q publique, ele publicará a partir de um posicionamento. O Cordilheira tem uma passagem em q a personagem-autora é obrigada a ouvir trechos de um livro seu, pomposo e simbolista, q ela agora renega; e é uma passagem q o próprio Galera renegaria, acredito. Mas até mesmo um livro q o autor renegasse teria q conter seus posicionamentos em outros tempos; e daí se vê q o próprio fato de um autor renegar um livro indica q ele mesmo vê cada livro como indicativo de um posicionamento.
“nunca suponho que ele se confunde com o sujeito que, à noite, deita pra dormir e pensa sobre a vida, o universo e tudo o mais na sua secreta intimidade”
Nem eu suponho isso. O autor é uma figura pública. O q ele pensa na intimidade é irrelevante; relevante é o q ele diz em público.
“e o autor também tergiversa, também sacaneia, também oculta o ouro intencionalmente”
Essa foi, pra mim, a frase q cutucou minha opinião, pq me pegou de surpresa. Ainda vou pensar nela.
“Vc, Dr, está fazendo aí o elogio do autor-Deus, e ainda por cima deus cristão, infalível, onisciente de si, sabichão”
Nãnãnão… Como eu disse, o autor é uma figura pública. No faz-de-conta, ele se coloca através do narrador, mesmo q este seja um tapado maluco analfabeto. Mas toda pessoa tem centenas de automatismos q se distilam no narrador; e além disso há centenas de subentendidos compartilhados entre o autor e seu público, subentendidos q o narrador tbm utiliza. Então não é q o autor é “infalível, sabichão”; é q ele não tem outra escolha exceto ser ele mesmo – ie, ter os automatismos e os subentendidos q ele tem. (Um dos aspectos q tentei sugerir na resenha do Galiléia é q o leitor judeu vai entender trocentas mais coisas do q eu, por exemplo [e é até possível q tenha sido escrito com o público judeu em mente]; e essas foram as coisas q eu quis tatear, pra saber por que o livro sugere q faltam páginas nele mesmo – algo com q até mesmo o Mariazinha [10] parece concordar.)
No mesmo sentido, se o narrador fosse uma tabula rasa onde o autor pode colocar QQER coisa, ¿como se explicaria q todo autor é (usualmente) reconhecível, no outro lado do véu narrativo, tanto por sua tramática (q é uma expressão de sua psicologia) qdo por seus posicionamentos identificáveis?
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Areias nos dentes , parece Italo Calvino tentando roteirizar “Um drinque no inferno” , em alguns momentos.Brilhante,mas meio confuso.
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Alguém conhece esse “Dr.” pessoalmente ?
Se não, não entendo como aceitam essa participação.
Entendo comentários anônimos, mas uma resenha?
Ninguém aqui desconfia que o Dr. Plausível é outro participante desta mesma copa?
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Fique tranquilo, Michel, existem provas suficientes da existência do Dr. Plausível enquanto ser independente dos demais jurados.
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