Jurado: Jonas Lopes
Quem compara ou passa os olhos nos volumes de O paraíso é bem bacana, de André Sant’Anna, e As sementes de Flowerville, de Sérgio Rodrigues, pode afirmar que são livros opostos entre si. Afinal, O paraíso é um calhamaço de tamanho incomum na literatura brasileira, enquanto Flowerville é uma novela, pouco mais de 130 páginas que se lêem em poucas horas. Mais diferenças: enquanto o livro “maiúsculo” sustenta-se em uma espécie de hiper-realismo, fazendo com que a linguagem acompanhe essa aventura em busca de um simulacro do real, o “minúsculo”, em teoria, abre mão do concreto ao se passar em um país imaginário, assumindo a posição de alegoria. O leitor, no entanto, notará que ambos deslizam, escorregadios, entre os dois territórios, real e alegórico, e, sem querer ou não e cada um a sua maneira, acabam trazendo reflexões sobre a realidade do país. Algo raro em nossas letras hoje, e digno de aplausos. Ambos possuem bastante humor e, pela verve satírica, armam-se de caricaturas de personagens para se fazerem valer. Os resultados foram desiguais.
Há que se comemorar a ambição de O paraíso é bem bacana. A literatura brasileira é célebre por suas obras menores, de pouca amplitude geográfica e histórica, sobretudo entre os urbanos — entre os rurais podemos nos lembrar de Os sertões, Grande sertão: veredas, Viva o povo brasileiro; quantos trabalhos urbanos desse porte nos vêm à mente de imediato? Sant’Anna ousou: nas 450 páginas de seu romance, alterna cenas entre Brasil e Alemanha, Santos e Ubatuba, hospitais, centros de treinamento, mesquitas e bordéis. Em termos de narrativa, também é ousado. São dezenas de narradores, que nos ajudam a construir, de forma não-linear, a curta trajetória da jovem promessa do futebol brasileiro, Manoel dos Anjos, o Mané. Tudo muito interessante na teoria, não tinha como dar errado. Deu. No papel, a ambição de André Sant’Anna não se traduziu em qualidade.
Mané é um adolescente problemático. Sua mãe é alcoólatra e promíscua, o pai ele nunca conheceu. Na escola é o aluno que apanha de todos os outros, até do “gordinho filho-da-puta” que costuma ser o perdedor em ambientes assim. “Mas não” (referência ao — cansativo — lema recorrente do livro): Mané consegue ser mais mané que os outros manés. Diferencia-se apenas pelo talento extraordinário com a pelota nos pés. Vai parar no Santos, faz uma Taça São Paulo excepcional e é contratado por um clube alemão. Lá se envolve com um grupo de fundamentalistas muçulmanos e, por motivos misteriosos, vira homem-bomba e tenta explodir o estádio de seu time. É assim que o encontramos no início de O paraíso é bem bacana: aleijado, queimado e insano em uma cama de hospital, agonizando e sonhando com as 72 virgens prometidas pelos islâmicos aos mártires. Nesse “paraíso” ele finalmente coloca para fora a tensão sexual que reprimia ao longo da vida, adepto que é do onanismo. Não chegara a perder a virgindade: tinha um medo incomum das mulheres, embora sonhasse com elas o dia inteiro.
A história, como se disse, é contada por muitos narradores, desde enfermeiras e agentes do governo até a mãe e os técnicos de Mané, passando por companheiros de clube, colegas de escola e garotas de programa. São testemunhas que constroem a seqüência de acontecimentos da vida do protagonista. Alguém vai se lembrar de Os detetives selvagens, obra-prima recente de Roberto Bolaño, com a sua segunda parte em que coadjuvantes da cena literária mexicana contam a vida de dois poetas. Sant’Anna fica longe de atingir a perfeição de Bolaño. Ao contrário do chileno, que em 400 páginas não deixa a peteca cair jamais, o autor brasileiro começa bem, dando voz própria e particular a cada narrador, mas cai no esquematismo banal ao se conformar com essas vozes apenas para cativar o leitor, e não para desenhar grandes cenas (como a do hilariante duelo entre um poeta e um crítico, em Os detetives selvagens). Lá pela centésima página enjoamos dos bordões de cada personagem. Só que ainda faltam 350 páginas.
É preciso que se diga, Sant’Anna sabe escrever. Para escrever “mal”, emular a fala de ignorantes, pobres e jogadores de futebol, é preciso habilidade. De novo, contudo, ele se perde na repetição desmesurada — a ambição, que era um ponto positivo, converte-se em inimiga mortal. Saber a hora de parar é uma grande virtude. Outro erro grave é a caracterização de Mané, bem menos instigante que a de seus colegas narradores. Em uma palavra, ele é raso. André não se preocupou em imbuí-lo de qualquer ambivalência, mistério e até possibilidade de nos surpreender. Seus monólogos são previsíveis. Todos os seus problemas psicológicos advêm de fontes irredutíveis. A mãe ausente, as surras dos colegas, a falta de sexo. Mané é resultado de um psicologismo barato e reducionista. Preto e branco, sem espaço para os tão bem-vindos tons de cinza, notáveis em Ulises Lima e Arturo Belano de Os detetives selvagens.
Sérgio Rodrigues, em As sementes de Flowerville, atingiu um equilíbrio bem maior entre a arquitetura romanesca, a formulação de figuras cativantes e a ambição, ainda que não seja o equilíbrio ideal. Encontramo-nos agora em terreno imaginário, o megacondomínio de luxo Flowerville, local aparentemente perfeito para se viver. Clássico (repleto de bancas de jornal e parquinhos de balanço) e futurista (há “anúncios holográficos que saltam na calçada e dos quais todo mundo desvia”, a tecnologia de proteção e segurança atinge níveis incríveis), o condomínio teve como slogan de inauguração “Aqui tudo é playground”. Flowerville existe graças ao sonho de um homem, Victorino Peçanha, perdulário que herdou do pai um posto de gasolina moribundo, aproveitou-se de ligações obscuras com militares, erigiu um império e agora colhe os frutos de seu apurado senso de oportunismo. Passa o dia vigiando os moradores, controlando o cotidiano do local, recebendo sexo oral de funcionárias (a quem paga bônus se engolirem o esperma) e distribuindo expressões pedantes em inglês no meio das suas conversas. O único empreendimento fracassado da carreira de Peçanha foi a primeira tentativa de criar um condomínio, a Nova Esplanada.
Neumani é matemático e um dos moradores de Nova Esplanada que processaram Peçanha — ou Peçonha, como diz a esposa de Neumani, Nora — para ser ressarcidos pelo prejuízo no investimento que tiveram com o fracasso da construção de “Noves”. Mesmo assim, ele é contratado pelo chefão de Flowerville para criar um método de relativizar os votos do condomínio e, com isso, facilitar a reeleição como síndico. Só que pouco antes do pleito um escândalo público põe a fácil eleição em risco e começa uma grave crise nos subterrâneos da novela, envolvendo conspirações, a imprensa sensacionalista, tortura, militares e rock ’n’ roll (e com influências, sem representar uma camisa-de-força, das graphic novels e de certos romances sci-fi). As sementes de Flowerville traça paralelos com a realidade brasileira. O “jeitinho” de Peçanha para alterar o resultado da eleição não difere muito do que fazem alguns de nossos congressistas… Não é estranha a acomodação dos moradores ante o governo. E o nome Nova Esplanada não precisa de muita explicação. Em uma entrevista recente, Sérgio disse que pensou em usar como epígrafe o verso de Caetano Veloso: “aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína”. Nada mais tupiniquim.
Sérgio Rodrigues escreve muito bem, de uma maneira diferente de André Sant’Anna. Sua prosa é precisa, pouco dada a exageros verbais. Ele também trabalha com vários personagens, alternando-se nos capítulos (cabe aqui a definição de Rubem Braga sobre Vidas secas: um “romance desmontável”). É possível dizer que não existe um principal entre eles. E aqui se encontra a sua principal vantagem sobre Sant’Anna. Sim, todas as figuras são caricatas e estereotipadas, como cabe a uma boa sátira. Ao contrário do “adversário”, Rodrigues, regra básica de todo satirista que se preze, manteve-se neutro em relação aos objetos satirizados. Nunca os julga, nem para o bem, nem para o mal. Já Sant’Anna parece acreditar em alguns momentos que seu Mané é um mané. Em outros ele o deixa tão ridículo que só provoca pena.
Sérgio consegue também fazer tudo no livro parecer simples. Uma falsa aparência, pois logo Flowerville revela um enredo intrincado. O segredo talvez sejam os subentendidos espalhados ao longo da novela, explicados aos pouquinhos. Um único porém: o final é apressado (em compensação, não deixa pontas soltas na história). Fica um gostinho de quero mais. Ou seja, sobrou muita ambição em um dos concorrentes e faltou um pouco no outro. Dosar essa pretensão é um dos grandes desafios dessa geração de autores.

As sementes de Flowerville
de Sérgio Rodrigues


Comentários de Lucas Murtinho
Dosar a ambição é mesmo difícil, mas na dúvida vale mais a escassez do que o excesso. Muitos textos fazem a gente pensar “Putz, que autor metido!”, mas quantas vezes você acabou de ler algo e se disse “Putz, que autor modesto!”? Ponto para As sementes de Flowerville — mas quem quer uma segunda opinião, bem mais entusiástica, sobre O paraíso é bem bacana deve ler o jogo 5 da Copa, apitado por Antonio Marcos Pereira, e a discussão nos comentários pós-jogo, em que o próprio André Sant’Anna apareceu para explicar um pouco seu projeto literário.
Também é interessante comparar o fim do texto do Jonas com o parágrafo sobre a magreza de boa parte dos romances brasileiros, especialmente os “urbanos”. O campo ainda tem e talvez sempre terá grande importância no Brasil, mas temos cidades que não deixam nada a dever aos grandes centros urbanos do mundo — bom, deixamos a dever em organização ou qualidade de vida, mas em caos somos imbatíveis. Existe algum Grande Romance brasileiro sobre o caos urbano? Assim, no susto, só penso nos contos do Rubem Fonseca, especialmente “A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro”. Alguém sugere outra coisa?
Mas, de volta à Copa: As sementes de Flowerville confirma seu favoritismo e avança às semifinais, onde enfrentará o silencioso mas eficiente Música perdida em jogo apitado por Luiz Biajoni. Mas no próximo jogo é a outra semifinal, apitada por Simone Campos, que será decidida: o mais recente candidato a grande romance brasileiro, Um defeito de cor, enfrenta Leda, a surpresa da Copa. Estamos chegando na reta final, e outros clichês de comentarista esportivo. Até a próxima.



























20/11/07 - 2:05 pm
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