Copa de Literatura Brasileira

Jogo 11

Antes do começo do jogo, o autor da resenha e o organizador da Copa gostariam de apresentar aos leitores as mais sinceras e cordiais saudações rubro-negras.

Julgamentos tendem a ser monótonos de tão previsíveis. Em meio a tudo aquilo que nos motiva durante uma leitura, tudo que faz com que nos voltemos para a literatura, surge uma noção caduca de imparcialidade. Dessa noção vem o compromisso com certa coerência racional, com a higienização do nosso pensamento para que surja dali o mais esquemático quadro de virtudes que visa organizar aquilo que foi paixão ou ódio ou indiferença ou qualquer outra manifestação singular que ocorre durante uma leitura. Contrapondo tal método, gostaria de seguir outra direção e indicar aqui o resultado com base em critérios parciais de um ponto de vista pessoal sobre o texto literário. Aqui a analogia com o futebol que nos é trazida à atenção pelo título do concurso não faz o menor sentido porque ao contrário do que ocorre numa partida, cujo vencedor fica óbvio pela leitura do placar, na literatura erros e acertos envolvem um grau de subjetividade que invalida qualquer tentativa de descrição pragmática de suas características.

Tendo em vista tudo isso, é preciso revelar então qual seria a subjetividade que envolve a minha escolha: a capacidade de tirar o leitor de seu estado, movendo-o para outra direção, revigorando a literatura. A tradição literária parece ser costurada como uma delicada colcha de retalhos, onde alguns livros são como tecidos que não combinam, suas cores não tornam mais belo o conjunto. Outros apenas estendem o pano, repetindo linhas, cores ou a harmonia do que já agradava. Os raros são os que criam uma nova beleza, ensinando a ver novas formas e transformando todo o conjunto. A partir desses novos, virão outros similares, que ditarão a tendência do próximo conjunto de cores. São livros assim que me fazem sair de um estado inerte e, por isso, me agradam.

O ponto da partida, de Fernando Molica, parece estar na classe de livros que se costuram à tradição literária apenas estendendo-a. O livro possui um enredo tradicional onde o narrador, a partir da vigília para uma cobertura jornalística de homicídio, começa a rememorar alguns eventos de seu casamento e sua carreira. A leve narrativa começa com algumas histórias bem humoradas de um quase lendário repórter, chamado João Carniça. Esse humor do início é interessante porque cativa o leitor, fazendo com que a leitura engrene, e pouco depois, quando o leitor é apresentado ao repórter Ricardo (o narrador da história), o ritmo faz com que a leitura avance fácil e contribui para a boa impressão deixada. Ótimo, se minha expectativa fosse apenas ler um bom livro. Mas O ponto da partida teve o efeito de uma notícia de jornal: depois de lido passa-se a outro, seu conteúdo esquecido.

Não se trata de dizer que é um livro ruim, pelo contrário; mas não atingiu minhas expectativas — que, novamente ressalto, são bem individuais. Algo bastante positivo que encontrei durante a leitura foi o modo como a visão dos dois protagonistas se modifica ao longo da história. Adélia, a ex-mulher do narrador, no começo é descrita de modo a causar imediata antipatia. No entanto, à medida que a narrativa avança, os tons vão mudando, e ao final, mesmo sendo uma criminosa, nutrimos certa simpatia por ela. No caso de Ricardo ocorre o inverso: no início nos afeiçoamos por seu estilo bon vivant, mas à medida que percebemos o quanto de irresponsável há nesse estilo sua imagem vai ficando cada vez mais arranhada. Essa problematização dos personagens, que nos leva a não saber bem como classificá-los, certamente é a maior qualidade do romance. Porém, apesar disso, mesmo com o interesse durante a leitura da narrativa, ao final não senti nenhum envolvimento com os personagens.

Flores azuis, de Carola Saavedra, intercala cartas de uma mulher abandonada — que assina as cartas apenas com a inicial “A” — e a história de Marcos, um homem que não entende as mulheres ao seu redor — sua ex-mulher e sua filha. A qualidade da narrativa, principalmente as cartas que transtornam o personagem que as recebe aparentemente por engano, logo chama atenção do leitor, mas outra qualidade torna o livro o vencedor da partida. Flores azuis é um livro que se multiplica, contando pelo menos duas histórias — uma simples história de amor e uma análise sofisticada do jogo literário, tornando o próprio leitor parte da estrutura do romance. Tal trabalho narrativo é feito de um modo que demonstra uma escritora capaz de enxergar a tradição e ampliá-la, dando vigor a um gênero que parecia declinar.

Como já foi dito, o romance possui uma estrutura que intercala cartas e a própria narrativa, e é essa estrutura que permite uma aproximação entre Marcos e cada leitor da obra. Como o protagonista, nós também temos acesso ao conteúdo das cartas e as lemos com curiosidade, estabelecendo assim um jogo literário bem explorado por Saavedra — o que demonstra um exímio domínio técnico da narrativa. Lemos primeiro na sexta carta enviada (p. 92):

Talvez você pense isso, que eu seria capaz de construir as mais variadas tramas, as mais complexas teorias, e até um leitor para estas cartas, não seria?

E depois, na nona e última carta (p. 148):

E não apenas as cartas e seu formato epistolar, mas também outra história, a do leitor dessas cartas. Já te falei disso? Dessa outra história, desse personagem que inventei, esse personagem com uma vida tão diferente da tua, alguém que recebe por engano esse texto destinado a você, abre as suas páginas por descuido ou por curiosidade, e, sem perceber, pouco a pouco, se encanta e se transforma.

Os trechos acima sugerem uma multiplicação que torna o leitor das cartas todos os leitores que atravessam as páginas do romance. Essa sugestão indicaria que as cartas extraviadas estariam sendo remetidas não a um Marcos, personagem do romance, mas que o próprio personagem é um elemento compósito dessa alegoria construída por “A.”, a autora desconhecida que preenche os espaços do imaginário comum dos leitores.

É interessante observar nesse jogo literário como existe um trabalho consciente de resgatar elementos da narrativa epistolar e atualizá-los, revestindo-os de características que são ressaltadas na contemporaneidade. Um trabalho em que a escritora se arrisca ao apanhar a malha da tradição e tentar costurá-la com novos tecidos para nos revelar novas cores naquilo que nos acostumamos a ver sempre do mesmo modo. A própria “A.” admite na sétima carta que escreve dialogicamente, levando em conta uma infinidade de textos literários que compõem toda a literatura (p. 108):

Sei que aí está a minha maior derrota, ainda que eu me esforce em te dizer algo original, te direi sempre as mesmas coisas, ainda que eu use dos mais variados artifícios e te diga que a cada vez elas mudam porque o tempo e você e o rio que passa, ainda que eu use dos mais variados artifícios e, sedutora, te diga que há algo que nunca foi dito e que te digo agora [...] ainda assim, te direi as mesmas coisas.

Enfim, o que mais é preciso dizer? Flores azuis é melhor porque é provocativo. Em dado momento nos é imposta a necessidade de participar do jogo, de reorganizar nossas certezas, de formular hipóteses, de nos mover frente ao romance. Como era isso que procurava durante a leitura dos romances, Flores azuis é o vencedor.

Vencedor

Flores azuis

Você concorda com o resultado do jogo 11?

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19 comentários

    ainda não li nenhum dos dois livros [estão na minha wishlist], mas gostei mto da sua resenha, leandro. criteriosa, bem argumentada e convincente. mto obrigado.

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  • De fato, Leandro, ¿o que mais é preciso dizer? Tua resenha foi direto ao ponto. Como um aprte, achei interessante q FA tem uma estrutura geral parecida com a de Toda terça: duas narrativas intercaladas, sendo uma delas independente e a outra se alimentando da primeira, e no fim a junção das duas com um toque inesperado.

    Outra coisa interessante é o placar sim x não acima. Fui o primeiro a votar SIM, e qdo se revelou meu voto, tava NÃO 3 x 1 SIM. Agora tá SIM 14 x 5 NÃO. ¿Qual seria a objeção dos NÃOS?

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  • Dr Plausível,

    Sequer li “O ponto de partida”.

    O NÃO na hora da enquete é a única forma que tenho de demonstrar minha rejeição ao “Flores Azuis”(se o computador do trabalho não fosse tão esquisito ainda votava NÃO!!!! aqui de novo).

    Já reclamei tudo que tinha para reclamar na caixa de comentários do último jogo de “Flores Azuis”, esse NÃO enfático é tudo que me resta! rs

    Não sei se é apenas na comparação com seus oponentes que o livro tem se saído tão bem ou se realmente os jurados até agora não tiveram objeção nenhuma… Tem sido o maior mistério dessa Copa para mim.

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  • Flores Azuis tem dois capítulos importantíssimos, grande literatura mesmo. Mas a necessidade de ter uma “sacada” prejudica um pouco os livros da autora, porque é como se os textos fossem fins em si mesmos, como se eles se esgotassem na produção de um efeito meta-ficcional. Acho bacana a ideia de fazer um romance que tenha como eixo central o fascínio pelas cartas, o poder da escrita epistolar (e nesse sentido é um livro sobre retórica, sobre os meios sutis de persuasão e produção de efeito, mas não uma “desconstrução do gênero epistolar”, como diz a orelha). Mas, sabe de uma coisa? Isso morre ao término da leitura. Quando terminei de ler Flores Azuis, tive a mesma sensação de quando terminei Toda Terça. Tá bom, e aí? Bem bolado, engenhoso, mas e aí? Porém, diferentemente de Toda Terça, vi em Flores Azuis coisas importantes, que fazem pensar, que vão seguir comigo, momentos em que a autora explora de modo original aspectos da vida a dois, das barreiras que às vezes são construídas, da dificuldade de comunicação, e outras coisas. Penso que o dia que a autora deixar de lado as sacadinhas, esse vício terrível de alguns jovens escritores brasileiros que não querem assinar o pacto do ilusionismo realista (ainda que não queiram chutar o balde no que diz respeito à referencialidade da linguagem…), ela vai arrebentar.

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  • ainda estou curioso para ler flores. um tanto apreensivo por causa dos comentários sobre metalinguagem e lances mirabolantes de estrutura narrativa, mas ainda curioso. acho q desde fogo pálido não tenho interesse por essas brincadeirinhas d autor pós-moderno para o idota do leitor se deslumbrar com sua inteligência. a propósito disso, um trechinho de principles of a story, de raymond carver:

    I overheard the writer Geoffrey Wolff say “No
    cheap tricks” to a group of writing students. That
    should go on a three-by-five card. I’d amend it a little
    to “No tricks.” Period. I hate tricks. At the first sign of a
    trick or a gimmick in a piece of fiction, a cheap trick or
    even an elaborate trick, I tend to look for cover. Tricks
    are ultimately boring, and I get bored easily, which
    may go along with my not having much of an attention
    span. But extremely clever chichi writing, or just plain
    tomfoolery writing, puts me to sleep. Writers don’t
    need tricks or gimmicks or even necessarily need to be
    the smartest fellows on the block. At the risk of
    appearing foolish, a writer sometimes needs to be able
    to just stand and gape at this or that thing—a sunset
    or an old shoe—in absolute and simple amazement.

    http://www.theshortstory.org.uk/downloads/Essay-Carver-3.pdf

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  • Gostei da resenha justamente porque foi direto ao ponto,como alguém falou anteriormente. A justificativa é coerente- o que move o leitor. Ora, qualquer leitura só anda quando nos move, quando lemos incansavelmente a ponto de devorar o livro.Usando de relance as metáforas do futebol, o Leandro acertou em cheio.

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  • Gusmão,
    Não se preocupe com esses lances de metalinguagem e o escambau. FA tem coisas pra dizer, e diz. Se essas coisas são sustentadas por uma estrutura (tal como numa ponte pênsil) em vez de serem a própria estrutura (tal como numa alcântara) talvez seja irrelevante. Certamente, uma ponte pênsil é mais leve e vai mais longe do q uma alcântara.

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  • Acho que o Leandro Oliveira foi tão objetivo na sua resenha (e isso é um elogio) que nos fez todos humildemente calar diante do seu veredicto (e isso é um lamento, eheh).

    Li somente o livro da Carola, e portanto o vencedor leva toda minha atenção. Não queria ver a discussão esmorecer porque acho que ainda falta muito mais a explorar nesse “Flores Azuis”.

    No jogo anterior se esboçou uma polêmica interessante que ficou quase de lado aqui. Não fosse a Clarice (#3). É realmente engraçado a resistência (ojeriza até?) que algumas mulheres declararam sentir pelo livro. Em oposto à boa aceitação dos gajos. Dá pra pensar no porquê disso?

    Já deixo logo meu ***SPOILER ALERT*** para os futuros leitores de “Flores Azuis”.

    Porque, sim, pretendo falar do já mítico fist-fucking do último (?) capítulo.

    Antes porém, queria concordar com o Felipe (#4). As sacadas metalinguísticas dos livros contemporâneos sempre foram pra mim acessórias à qualidade da literatura. São diversãozinhas de momento, mas não me geram uma impressão duradoura. Se penso no “Extremamente Alto” do Jonathan Safran Foer ou no “Reparação” do McEwan a boa lembrança que eles me trazem tem muito pouco a ver com os truques de enredo que eles contém.

    Desse modo, acho pouco importante ficar encafifando se, em “Flores Azuis”, o destinatário das cartas era invenção da cabeça da remetente, ou vice-e-versa, ou qualquer outra elocubração mais sofisticada. Isso tudo me soa meio falso, meio especulação, meio sem sentido. Se o autor deixou as portas da interpretação em aberto, não faz sentido chegar até uma conclusão comum. Cada um que fique com a sua.

    O que fica do livro pra mim é a estória. E nesse caso, duas estórias. E talvez seja nas estórias que se encontre a razão pela qual as garotas não tem gostado tanto assim do livro.

    Porque, muito habilmente, a Carola (uma mulher!!) mexeu no vespeiro de contrariar o modo-de-pensar feminino/feminista contemporâneo.

    Vamos lá. Na primeira estória, a autora das cartas é uma mulher recém-separada, vítima de violências gratuitas por parte do parceiro (mais psicológica que física, mas clara violência) e que, mesmo assim, declara um amor inabalável ao agressor e clama pela sua volta. O tal fist-fucking é o ponto alto, o momento breath-taking do livro, porque narrado soberbamente mas também porque é o momento simbólico mais claro da submissão quase patológica a que se impõe aquela mulher frente ao seu homem.

    E, pronto, além de submissa, a dita-cuja ainda escreve cartas em modo mimimi on. Nada que tenda a agradar mulheres independentes, cultas e emancipadas.

    Na segunda estória, o sofredor da vez é o homem. Mas, desta vez, de novo habilmente, o narrador agora é crítico ao agressor. O sujeito marido-separado é o personagem mais empático do livro, pois sofre as agruras da ex-mulher megera, se sente deslocado na função de pai, mas reclama de tudo, se questiona, tenta encontrar seu lugar no mundo. Ele é vítima também, mas seu sofrimento não é passivo.

    Além do mais, ele é vítima desta sociedade cruel cheia de mulheres independentes, cultas e emancipadas. Nada muito simpático para elas, logo. Principalmente quando o personagem se vê obcecado justamente pelas cartas de uma mulher apaixonada e submissa.

    Quando digo que Carola maneja tudo muito habilmente é porque não acredito que seja dela esse ponto-de-vista que tanto desagradou às meninas leitoras. É o ponto-de-vista de seus personagens, uma mulher submissa e condescendente e um sujeito esmagado pela postura moderna do feminino no mundo. Se colocar na pele destes e chegar à sua complexidade é o grande mérito da Carola.

    Apesar de não achar que o livro seja nenhuma obra-prima.

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  • Drex,

    Também tenho me perguntado por que os homens têm gostado desse livro tão mais que as mulheres. Nossa amostra é pequena, mas esse aspecto é flagrante.

    Desgotei do livro tão antes do fist fucking que no meu caso essa cena está longe de ser a chave da questão. Pra você ter idéia do quanto minha atenção já tinha sido perdida a essa altura, nem tinha prestado muita atenção nela antes de todos comentarem aqui. Sequer a teria descrito como “ponto alto” ou “cena chave” a quem me perguntasse o que acontece no livro!
    Mas acho que talvez ver uma mulher escrevendo sobre sexualidade de forma mais agressiva esteja encantando os homens (porque apesar de você descrever a mulher como submissa, há agressividade em contar o que é contado, ou da forma como é contado). Vai saber.

    Eu realmente, simplesmente, acho o livro ruim. Não creio que passe por uma questão de como mulheres ou homens são retratados, até porque gosto do homem retratado ali (a relação dele com a ex-mulher e a filha é muito bem construída, infelizmente essa parte da história, a única que me interessou, se perde rápido).
    Como já disse aqui antes, meu total desinteresse pelas cartas faz com que eu não entenda o interesse que elas despertam no cara que as lê, e nada ali faz sentido se vc não consegue entrar no jogo do que as cartas despertam no leitor acidental.
    Mas estou me repetindo…

    Li até o final pq estava lendo para acompanhar a Copa. E o ódio que tomei pelo livro provavelmente tem muito a ver com o fato dele estar avançando na Copa. Não fosse toda a reação positiva, que faz com que eu acabe me inflamando, talvez apenas dissesse “é fraco, não vale a pena”.

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  • Olá a todos, obrigado pelos comentários. Bom, especialmente às meninas, pensei noutro ponto que não toco na resenha – porque não queria esgotar a discussão e chatear a todos com um texto muito longo – mas que pra mim também faz parte da grande qualidade do livro: trata-se da questão da identidade feminina na literatura. Vejo muitas escritoras se irritando com o termo cunhado “escrita feminina” para classificar sua obra. Mais que isso, num mundo totalmente falocêntrico, o que é propriamente o feminino na literatura? Classificamos como feminino aquilo que não traz a marca hegemônica na linguagem? Quer dizer, como personalidades tão distintas são rotuladas dum modo tão simplista como “feminino”? Drex, creio que você conseguiu ver algo muito grande no livro da Carola: dois lados, masculino e feminino, nessa sopa de identidade do sujeito que é a contemporaneidade. Acho estranho que o mimimi das cartas parece um feminino fake, não é a literatura classificada como feminino que eu vejo. Com o perdão da sinceridade, aquelas cartas tem um quê de bregas. Mas há uma construção literária sublime ali. “Nada que tenda a agradar mulheres independentes, cultas e emancipadas”, nos dizeres da Drex, mas não serve pra colocar em xeque essas características ditas femininas?

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  • Só um adendo: “nos dizeres da Drex” ou “nos dizeres do Drex”, não sei se é homem ou mulher :D

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  • ¿Vcs não acham no mínimo estudável, o fato de um livro escrito por mulher suscitar a percepção de q a crítica tá polarizada entre homens e mulheres? Pq na certa é uma percepção, né, uma percepção influenciada pela própria polarização natural entre H e M. Pq ¿por que isso acontece só com livros escritos por mulheres?

    Na copa passada, vários comentadores atribuíram a vitória do Por que sou gorda, mamãe? sobre o Mãos de cavalo a essa polarização, q aqui aparece invertida. Fosse eu menos cínico, já taria dizendo “Êê, gente, século XXI, gente.” pois acho q essa frase não vai colar nem no século XXXI.

    E ¿ninguém vai elogiar eu ter conseguido colocar na mesma frase, em seqüência, o porque junto e o por que separado?

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  • Preciso adendar q achei a autora das cartas uma criação magistral, apesar de (e talvez por causa de) ela ser tão insuportável. Me pergunto se o Marcos quer conhecê-la pq ele tem fantasias sádicas ou pq é na verdade masoquista.

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  • Leandro, é “o” Drex mesmo. Mas obrigado por me fazer esclarecer este fato :-)

    Clarice, é engraçado, desde o primeiro jogo eu percebi que o livro causou em vc um desgosto tão básico, tão primário, que fiquei estimulado em tentar entender o porquê disso. Vc diz que um mero julgamento estético e, claro, não vou duvidar da tua própria opinião. Mas desconfio que há algo a mais nesse desconforto.

    E aí concordo com o Leandro e o Dr.P. A autora causou uma polarização HxM ao contrário da usual. Porque eu entendo que ambas as estórias contadas no livro são provocações ao estereótipo consagrado da mulher moderna.

    As cartas são líricamente bregas, arrastadas, introspectivas, sentimentais. Mas este é o ponto da criação magistral do personagem, como diz o Dr. P. A remetente é um personagem cheio de feminilidade, mas anti-feminista por natureza. Acho que essa é a provocação. Uma mulher assim, tão longe da racionalidade e igualitarismo moderno, ainda é plausível hoje? Um mulher que escreve cartas, que é agredida cotidianamente e ainda pede para seu amor-bandido voltar?

    No fim, no entanto, acho que concordo contigo Clarice. Também achei um tanto chata a leitura daquelas cartas, e encontrava alívio na estória cotidiana do personagem macho-em-crise. Talvez essa discussão toda em torno do masculino X feminino no livro seja mais divertida que ler o livro em si.

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  • O curioso é que discutimos se personagens e livros são femininos em excesso ou de forma adequada, mas é raro discutirmos a masculinidade. O Doutor Plausível falou no comentário 12 sobre o jogo entre Por que sou gorda, mamãe? e Mãos de cavalo, da CLB 2007. Naquela discussão, só se falou sobre a feminilidade do livro da Cíntia Moscovich, quando seria pelo menos igualmente lógico e pertinente falar da masculinidade do livro do Galera. E ainda mais curioso é que as mulheres leem mais, e cada vez mais, do que homens. Ou seja, se algum livro pode ser acusado de se dirigir a um público reduzido, seria o voltado para os homens.

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  • Lucas, como eu disse, um mundo falocêntrico. O que é hegemônico é considerado comum e, portanto, por que chamar atenção?

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  • quedê os comentários do jogo 5? queria ler, mas eles sumiram.

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  • Selene, estou vendo eles normalmente aqui. Mais alguém com problemas?

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  • Só aparece até o 4º. coment.

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