Jurado: Rafael Rodrigues
Para apitar este jogo, tive que deixar a emoção de lado. Luiz Vilela é um escritor que admiro há anos. O vi em carne e osso na Bienal do Livro da Bahia, em 2005. Me pareceu ser um homem tranquilo e humilde. Além disso, sua trajetória como escritor é um exemplo para muito jovem autor (melhor dizendo: para muito jovem autor que realmente seja um bom escritor; jovem autor é o que mais vemos atualmente, mas bons mesmo são poucos). Vilela teve seu primeiro livro, Tremor de terra, recusado por várias editoras. Cansado das recusas, resolveu bancar ele mesmo o livro. Melhor não poderia ter feito: em 1966, com 24 anos, Luiz Vilela venceu o Prêmio Nacional de Ficção, mostrando que qualidade ele tinha — e continua tendo —, os editores (doidos da cabeça ou doente dos olhos) é que não viam.
Já Luiz Antonio de Assis Brasil eu não conhecia, a não ser de ouvir falar. Li algo sobre seu romance Música perdida na época do lançamento, mas não me despertou interesse. Culpa de um romance muito ruim que li, há alguns anos, que tem como protagonista um músico. A obra, de uma então jovem escritora brasileira, é daqueles livros que te deixam boquiabertos, mas por um motivo ruim. Após o fim da leitura, você pensa: “como é que perdi meu tempo lendo essa porcaria?” Depois disso, comecei a manter uma boa distância de qualquer livro ou história que tivesse músico no meio.
Então, quando recebi a notícia de que apitaria Bóris e Dóris contra Música perdida, pensei que seria uma vitória fácil de Vilela, cujo livro li primeiro. Tal pensamento caiu por terra depois de ler pouco mais de 30 páginas do romance de Assis Brasil.
Música perdida impressiona pela qualidade. É extremamente bem escrito. O texto é elegante, refinado, mas nem um pouco pomposo ou pedante. A história se passa no século XIX, e talvez por isso o autor tenha optado por utilizar um vocabulário, digamos, um tanto rebuscado, em algumas passagens. Ênfase em “algumas passagens”, pois o livro é de leitura fácil, com uma palavra ou outra passível de consulta no dicionário, como todo bom livro deve ter. Afinal, além de entreter, fazer pensar etc. etc., livros devem dar aos leitores algum tipo de cultura, nem que seja ao menos uma palavra nova…
Um romance de formação, Música perdida conta a historia do Maestro Joaquim José de Mendanha. Natural da pequena Itabira do Campo, nas Minas Gerais, Joaquim José nasceu nos braços da música, ou, sem querer fazer trocadilho, mas já fazendo, nos braços de um músico, pois seu pai foi mestre de uma Lira (orquestra de amadores). Ainda criança, Joaquim apresenta aquilo que chamam de “ouvido absoluto”: “uma injustiça: só uma pessoa entre dez mil o possui. Wagner e Schumann nunca o tiveram”, diz o narrador. Daí a dominar vários instrumentos é só uma questão de tempo, para o pequeno Joaquim.
Quando adentra a juventude, Joaquim José é enviado para Vila Rica, a fim de estudar composição. “Vá — disse-lhe o pai. — Aprenda o que for necessário para compor para a Lira e volte logo.” Suas despesas são custeadas em parte com o dinheiro do Bispo de Mariana, conhecido do pai de Joaquim, que faz questão de ajudar. O jovem músico começa a tomar aulas com um organista de igreja mas, pouco tempo depois, fica enjoado das formalidades que lhe impõem. Não quer revelar que possui o ouvido absoluto, e esforça-se para mostrar-se um aluno mediano. Aprende, é verdade, mas pouco, para quem tem um dom extraordinário. Alguns dias após a chegada em Vila Rica, conhece seu primeiro verdadeiro mestre, Bento Arruda Bulcão, que o ensina a improvisar músicas e lhe dá importantes lições de composição. Algum tempo depois, vai morar com Bento Arruda, que ensina tudo o que pode, não apenas sobre música, mas também sobre literatura, filosofia e artes em geral ao jovem Joaquim José. Ao perceber que não há mais nada que possa ensiná-lo, propõe enviá-lo para o Rio de Janeiro, aos cuidados do Padre-Mestre José Maurício Nunes Garcia. Sem muito pensar, Joaquim aceita a proposta. E vai.
Não devo me prolongar na descrição da história do livro, então vou direto aos fatos mais importantes. No Rio de Janeiro, Joaquim José vive seu primeiro amor e dá-se conta de ser um verdadeiro artista ao compor uma cantata complexa e quase perfeita chamada Olhai, Cidadãos do Mundo. Por causa dela, o título do romance. A cantata se perde em um momento do livro, e reaparece no final, para ser finalizada pelo Maestro Mendanha. Nesse meio tempo — 40 anos —, ele encontra a mulher que o acompanhará por toda sua vida, integra a banda do exército como Sargento-Mestre e vai para o Sul do Brasil, participar de uma guerra (pela cronologia, o Google deduz que seja a Guerra do Paraguai); seus mestres morrem, seus pais também. As mortes deixam um grande peso sobre Joaquim, que se sente perseguido pelos fantasmas de Bento Arruda, do Padre-Mestre e de seu pai. Já dispensado do exército, estabelece residência na Província do Sul, com Pilar, sua esposa. Ganha a vida escrevendo hinos e dando aulas de música. Pilar trabalha copiando partituras, coisa que fazia antes mesmo de conhecer Joaquim José. Os anos passam sem grandes novidades. Quando o Maestro não esperava mais nada da vida, eis que sua obra-prima Olhai, Cidadãos do Mundo volta às suas mãos, para ser finalizada e orquestrada pela primeira e última vez. Mas não por ele.
Bóris e Dóris é bem menos extenso, e diria até que bem mais simples que Música perdida. Vilela escreveu um belo livro conduzido em forma de diálogo, um retrato do homem contemporâneo ambicioso, auto-suficiente e workaholic. Bóris é assim. Dóris, sua esposa, é a mulher reprimida, ofuscada pelo brilho e pela arrogância do marido. Falando desse jeito, parece que Bóris é um monstro, mas, apesar das caracteristicas apontadas aqui, ele é um homem bem humorado que aparentemente trata bem sua esposa — ou pensa que trata. Bens materiais não faltam para Dóris: O que falta é a presença de Bóris como marido. A prioridade dele é sempre o trabalho, e o trabalho é o tema do diálogo travado entre o casal, enquanto tomam café da manhã num hotel.
Bóris aguarda ansioso o motorista que o levará à convenção do conglomerado onde trabalha. Dóris ficará sozinha no hotel durante o tempo que durar a grande reunião. A tal convenção decidirá os rumos do conglomerado, e Bóris nutre a esperança de ser nomeado diretor geral da empresa. Enquanto esperam — ele, pelo motorista; ela, pela solidão —, conversam. Os assuntos, quando Bóris deixa a conversa sair do tema “trabalho”, são vários: idade, religião, maternidade, morte, entre outros, sempre de maneira superficial. Isso não impede a percepção de certos detalhes sobre os personagens. A solidão de Dóris e a ambição extrema de Bóris ficam bem claras para o leitor, mas não há narrador para dizer isso. Tudo está nas palavras trocadas entre o casal.
Luiz Vilela consegue conduzir bem o diálogo entre os personagens, mas para Bóris e Dóris vencer Música perdida ele precisaria ser perfeito nessa condução. E, como sabemos todos, nada — nem ninguém — é perfeito. Há escorregões em alguns trechos. Além do fato de a brevidade da conversa e a falta de um narrador deixarem a história aberta demais. É mais ou menos como se o livro não tivesse nem início nem fim, apenas uma parte do meio, que é o diálogo.
Música perdida vence pelo volume de jogo e pela versatilidade: atacou pelas laterais, pelo meio e seu goleiro ainda fez um gol de falta. Bóris e Dóris foi um bom adversário, mas pecou pela insistência em fazer apenas jogadas pelo meio. Um fato isolado, pois Luiz Vilela não precisa treinar: é um escritor de mão cheia, um dos melhores de sua geração. Imagino-o parabenizando Luiz Antonio de Assis Brasil pela vitória, dizendo, bem-humorado: “ano que vem tem revanche”.

Música perdida
de Luiz Antonio de Assis Brasil


Comentários de Lucas Murtinho
Confesso que estou triste: li 8 dos 16 concorrentes à Copa, e Bóris e Dóris era o meu favorito. (Mas ainda não li Música perdida, e talvez seja a hora de tomar vergonha na cara.) Além disso, acho que tanto nesta resenha quanto na do jogo 6, apitado por Eduardo Carvalho, a Dóris foi um pouco deixada de lado, tratada como uma escada para o Bóris. Será que uma jurada teria analisado o livro de outra forma? Nunca saberemos. (Silêncio dramático.)
Mas a tristeza não me impede de ver que Música perdida chega às semifinais com sobras, vencedor inconteste dos seus dois jogos até agora. Seu adversário será escolhido entre As sementes de Flowerville, um favorito muito criticado pelo Doutor Plausível no jogo 4, e O paraíso é bem bacana, um azarão muito elogiado por Antonio Marcos Pereira no jogo 5. Semana que vem, Jonas Lopes decide qual dos dois livros conquista a última vaga para as semifinais da Copa.



























20/11/07 - 2:08 pm
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