Oitavas de final

03/09/07

Mãos de cavalo jogo 1 Por que sou gorda, mamãe?

Jurada: Renata Miloni

A I Copa de Literatura Brasileira começa com sotaque gaúcho. Daniel Galera e Cíntia Moscovich se enfrentam com seus livros Mãos de cavalo e Por que sou gorda, mamãe?, formando um jogo bastante disputado e com direito até a favoritismo.

Narrado em primeira pessoa e levemente inspirado em fatos reais, Por que sou gorda, mamãe? não é apenas sobre em quê se transforma a vida de uma mulher que engorda vinte e dois quilos em quatro anos, resgatando em sua própria história — inclusive nas angústias de uma relação sem solução entre mãe e filha — um motivo por estar em tal situação. A personagem não se limita aos desabafos e faz desse questionamento uma busca por constatações de importância essencial para sua nova condição.

O romance é inteiro dirigido à mãe da narradora, como um conjunto de cartas, embora sua estrutura lembre também um diário. Em vários momentos, a protagonista lhe faz perguntas e comentários um pouco enervados mas necessários. Ao mencionar, por exemplo, a história de um amor vivido por sua avó e interrompido pela família, ela termina com a pergunta: “A senhora sabe, mamãe, como se ama um homem?”. Não são provocações contínuas de uma típica filha desnaturada, descontente e mal-agradecida, como muitas mães seriam capazes de considerar. A explicação para o livro todo, que pode ter sido o que inconscientemente motivou a autora a escrevê-lo, está acima do que a fez escolher o título: a capacidade que ela teve de compreender o que é ser mãe e filha — e tudo a que são expostas e obrigadas a ignorar — para que, assim, conseguisse desenvolver o texto.

Dentro da indigência dos afetos, aprendi quão duro é suportar o amor de mãe e quão infernal é viver sem ele. A senhora nos amou antes que nós a amássemos — a precedência lhe faz responsável, muito embora nem de longe se dê conta. Talvez por isso, por testemunhar o escandaloso poder materno, por saber que a demonstração de amor exigida de um filho não conta, por sofrer na própria carne a dor infeliz por quem chamo com o nome de mãe, decidi não incorrer no erro. Não tive filhos, não dei seqüência aos absurdos. Acho que a necessidade de ter mãe é maior até que a necessidade de comida no prato. A necessidade de ter mãe vem antes e é superior à vontade de ter filhos. A senhora já chegou a pensar nisso?

Em alguns intervalos entre um capítulo e outro, a narradora faz uma pausa na história para incluir fatos relevantes sobre todo o processo de emagrecimento ao qual se submeteu e as situações conseqüentes. O ótimo e singelo humor, sabiamente usado pela autora no decorrer do texto, já pode ser encontrado logo na dedicatória: “Dedico este livro a (…) Gabriela e Guilherme, sobrinhos amados que não desmerecem, diante de um prato de comida, o sobrenome que têm”.

O judaísmo — seus costumes, comidas, a forma de lidar com a vida e suas tragédias — está fortemente presente no livro, ainda mais nos relatos sobre o que parentes e conhecidos da personagem viveram na Segunda Guerra. A narradora procura entender o trauma de cada uma dessas pessoas. Alguns dos relatos talvez pudessem ser excluídos por questão de quantidade, mas juntos formam uma história que, por mais trágica que seja, precisa ser contada. Como eu sempre me interessei por assuntos relacionados à Segunda Guerra, ler sobre aqueles personagens — fictícios ou não — só fez crescer a importância do livro.

Em meio a histórias até fabulosas que a personagem conheceu pela família, o livro é também uma tentativa de encerrar barreiras entre mãe e filha, apesar de ser tarde demais para qualquer reparação. Cíntia alcançou uma percepção profunda não só da narradora-filha e de sua mãe, mas também do resto da família. Assim, pôde construir detalhadamente tanto os personagens quanto suas histórias (umas dentro das outras), usando um humor às vezes irônico mas familiar, e fazer belas descrições — como a do intenso velório do pai —, demonstrando uma lúcida e admirável escolha de vocabulário a cada frase, um dos grandes destaques do romance.

Vovó derreou a cabeça para trás, abriu ainda mais os braços, a estrela-de-david pulsando na fúria do ouro. E foi um som comprido e agudo, que não permitia modulação de descanso, que só crescia e se intensificava na densidade do pavor. Um uivo, como se fosse de besta, escoiceou as paredes e cortou de horror os ouvidos.

Para mim, um livro realmente bom não deixa a atenção do leitor dispersa por qualquer barulho. Se é bom, prende do começo ao fim, por mais que algumas partes, a princípio, pareçam chatas e desnecessárias. Alguma importância inevitável elas têm para o autor. Eu não veria problema algum se, por exemplo, as divagações sobre a gata da protagonista fossem cortadas de Por que sou gorda, mamãe?. Mas entendo que, naquele momento, foram necessárias para a autora, pois há certa solidão quando a personagem observa o animal. E, assim, é possível compreender que, em algumas etapas do emagrecimento, ela não tem outra saída senão enfrentar tudo sozinha.

Além do vocabulário, um dos aspectos que considero mais importantes num livro é o cuidado com o texto. Por ser revisora, sempre leio tudo com atenção dobrada. O texto de Cíntia Moscovich é simplesmente impecável e sei que a grande responsável pela excelente qualidade é a própria autora que, por já ter trabalhado como revisora, tem uma visão mais ampla do próprio texto. Já Daniel Galera não teve o mesmo cuidado com Mãos de cavalo. Os inúmeros erros de português que o autor comete durante o romance inteiro atrapalham a leitura. Pelo menos a minha, que é a de alguém que gosta de ler textos bem escritos, que acha bom valorizar mais a nossa língua.

Escrever errado não significa ser moderno. Ter nesse livro uma frase como “fiquei feliz em ver ela daquele jeito” não traz benefício algum, por mais que no Brasil as pessoas não se importem com isso. “Não tem problema escrever assim” e “Escrevo assim porque é meu estilo” são desculpas que ultrapassam minha concepção de boa literatura. E as pessoas que não acreditam na existência de limites são as mesmas que usam a internet como depósito de suas asneiras.

Momentos de um ciclista que anda freneticamente pela cidade com um único propósito e as decisões de dois amigos que querem ir a uma montanha nunca escalada são duas das narrações iniciais de Mãos de cavalo. Supostamente, não teriam ligação umas com as outras, mas são facilmente relacionadas e logo fazem sentido. O livro conta a história de um homem que acordou um dia e se descobriu humano. Ultrapassar os limites físicos, para o protagonista, é descobrir os psicológicos. Suas ações inconscientes resultam de seu fascínio pelo sangue e pela capacidade do corpo.

Galera prefere que seus protagonistas sejam diferentes do “resto da turma” e, para isto, procura modos díspares de solidão para cada um deles de maneiras admiráveis. Foi assim em Até o dia em que o cão morreu e o mesmo foi feito com o Hermano-Mãos de cavalo. Não há algo mais real para falar do passado, especialmente da infância, do que a fantasia, a dor e os pequenos acontecimentos que são quase apagados quando uma pessoa se torna adulta — pois é fácil esquecer que um dia se foi criança. E o resgate tanto dessa lembrança quanto da exposição que se sofre na adolescência é crucial para entender Hermano. Está nela a sua essência e todos os caminhos que sua vida levaria. Os outros jovens vivem de maneira contraposta e aquele garoto, dono do apelido que dá título ao livro, apoiou todas as suas decisões na consciência que só descobriria ter mais tarde. Saber dos motivos exatos que o levaram de volta ao bairro onde morou quando tinha 15 anos talvez não importasse. O necessário era que ele conseguisse evitar — da maneira mais libertadora possível — outra tragédia, semelhante à que presenciou naquela época.

Apesar de não ter muitas surpresas, Mãos de cavalo foi construído de uma bela forma, com a seqüência cronológica quebrada. Tal estrutura poderia ter valido mais se ao livro fossem acrescentadas cem páginas, no mínimo. Gosto muito dos detalhes, mas algumas das partes sobre a adolescência poderiam dar lugar a mais relatos da infância ou da vida adulta do personagem, talvez mais voltados para seus pensamentos ou sua relação com as mulheres.

Com um enredo de excelente potencial, o autor soube desenvolver o livro de uma maneira essencialmente suave, até nos picos da violência narrada. Mas não me dei por convencida de que ele aproveitou ao máximo o que tinha, embora o romance tenha momentos sensacionais: o quase trágico parto que a esposa de Hermano enfrenta, uma festa de quinze anos, um sonho surreal que tem algum forte sentido para o protagonista. Nas dezenove últimas páginas, também excelentes, o autor se deu conta de que o livro poderia ter sido bem escrito — pena que isso aconteceu apenas no final. Um grande destaque é o parto, quando o personagem supera a sensibilidade que um homem pode ter em tais condições e se entrega ao entendimento e à vida — a que acaba de nascer e a que começa a mudar.

Estava prestes a desmaiar como qualquer maridinho de primeira viagem, pois era exatamente a isso que estava reduzido ao ver o rosto da mãe de seu filho transfigurado por um suplício que ele não tinha meios de aliviar. Temeu que ela pudesse literalmente morrer de dor, e não havia nada que pudesse fazer, pois por mais que a amasse não tinha como dividir o tormento com ela, assumir uma parte da dor.

O estilo do autor se contradiz a cada capítulo, deixando a história não exatamente bagunçada mas com a sensação de que não foi levada muito a sério enquanto era escrita. E a excessiva presença de lugares-comuns deixa o texto fraco às vezes. É preciso ser fiel ao que se escreve para que o desenvolvimento do enredo faça sentido. Escrever é compartilhar com os outros a sua visão de mundo, já disse Galera, e a visão de mundo nesse livro parece tão confusa quanto a maneira como foi exposta. Poderia ser esta a intenção do autor se ele não tivesse descrito detalhadamente fatos da vida de alguém que, sozinho, sempre foi tão lúcido.

Quando li Até o dia em que o cão morreu, um dos primeiros pensamentos que tive em relação à forma da escrita foi que o autor podia muito mais. Tanto podia como fez. Em Mãos de cavalo, tive o que queria: Daniel Galera transbordando em detalhes. Mas, apesar da nítida evolução entre um romance e outro — mesmo que eu não concorde com muitas de suas decisões no texto —, continuo a afirmar: ele tem capacidade para mais. Eu admiro muito o Daniel, sempre acreditei nele e não é porque não gostei tanto de um de seus livros (na verdade dois, pois Dentes guardados também não me agradou) que vou abandonar meu pensamento.

Por que sou gorda, mamãe? poderia ser um livro completamente sem nexo: por contar várias histórias, Cíntia tinha tudo para se perder inúmeras vezes. Mas ela soube dar voltas dentro dos fatos e sair deles com uma facilidade que me surpreendeu a cada capítulo. Galera tinha nas mãos uma história fantástica e, por mais que tenha escrito de uma forma excelente (com ou sem os erros) e que o livro seja bom (sim, eu gostei), ele não tem qualidades suficientes para ser considerado o melhor.

Julgar o livro de Cíntia Moscovich como auto-ajuda seria um equívoco irreparável. Brilhantemente escrito do começo ao fim, mantendo o máximo de cuidado tanto com o texto quanto com cada história, o romance da escritora gaúcha foi uma enorme e maravilhosa surpresa para mim. Como jurada, devo escolher o livro que, na minha opinião, pode ser o vencedor da I Copa de Literatura Brasileira. Apesar de saber que há fortes concorrentes, Por que sou gorda, mamãe? tem maiores chances, condições e motivos de ir para a final e, quem sabe, até ganhar. Por isso, é o vencedor do primeiro jogo.

Por que sou gorda, mamãe?
Por que sou gorda, mamãe?
de Cíntia Moscovich

você concorda?

Qual concorrente da CLB 2008 merece uma segunda chance na repescagem?

Loading ... Loading ...

mesa redonda

Comentários de Lucas Murtinho

A primeira Copa de Literatura Brasileira começa como a Copa do Mundo de 2002: uma surpresa no primeiro jogo, um favorito eliminado na primeira rodada. Mãos de cavalo, que chegou à Copa como o livro a ser batido, está fora da disputa — e agora fiquei curioso para saber qual será o destino de Por que sou gorda, mamãe?, nosso Senegal, que deve ter enganado muita gente com o ar de auto-ajuda citado pela Renata. A vitória inesperada causará simpatia ou cobranças? O que posso dizer por enquanto é que Leandro Oliveira, responsável por julgar o livro de Cíntia Moscovich nas quartas-de-final contra Um defeito de cor ou Os vendilhões do templo, é um grande fã de Mãos de cavalo e deve ter ficado surpreso com essa decisão.

Leandro certamente não é o único: mais do que surpresos, alguns podem estar decepcionados com o resultado desse primeiro jogo. Mas é o espírito da Copa: para os propósitos do prêmio, a palavra do jurado é lei. E Renata deixou claro que Mãos de cavalo perdeu o jogo não por ser ruim, mas por ser menos bom do que Por que sou gorda, mamãe?. Quem não concorda tem à disposição nossa área de comentários para dizer o que pensa. Quem concorda também.



»

Há 57 comentários até agora.

 

Nome:

E-mail: