Quartas de final

29/10/07

Memorial de Buenos Aires jogo 10 Leda

Jurado: Marco Polli

Nesta partida das quartas de final, temos oponentes com alguns elementos similares de jogo: o tom farsesco e o forte caráter intertextual. Já no título de Memorial de Buenos Aires, Antonio Fernando Borges se refere a uma obra de Machado de Assis e à capital onde Jorge Luis Borges passou boa parte da sua vida e que lhe serviu como tema literário. Leda, de Roberto Pompeu de Toledo, tem como subtítulo Relato romanesco em 13 capítulos e epílogo, contendo uma versão condensada de A Busca Vã da Imperfeição; além desse outro livro resumido dentro de si, Leda faz referências freqüentes a outras publicações imaginárias. O caráter referencial dos dois romances permitiria enquadrá-los na “literatura da exaustão”, expressão do autor John Barth relacionada ao desgaste de boa parte dos recursos estéticos literários e à idéia de que a intertextualidade é uma das estratégias usuais para lidar com essa situação. Se está mais difícil escrever um livro ficcional relevante — seja pelo trabalho aparentemente intransponível de autores como Machado ou Borges, seja pela desvalorização da narrativa literária no mundo contemporâneo — Memorial de Buenos Aires e Leda ao menos usam a consciência dessa dificuldade de forma inteligente e bem-humorada, com alguma vantagem para o último.

Memorial de Buenos Aires busca estabelecer o diálogo entre autores de estilos e mundos ficcionais bastante diversos. Depois do título, o ponto de amarração seguinte é o ano de 1939, quando se comemorou o centenário de nascimento de Machado enquanto Borges fazia 40 anos e publicava na revista Sur o conto “Pierre Menard, autor de Quixote”, ponto de virada na sua obra de ficcionista. Numa nota inicial, Antonio Fernando Borges explica que a seguir está o diário de seu avô homônimo sobre uma viagem a Buenos Aires em 1939, embora já advirta que essa viagem nunca chegou a acontecer, pois “Antonio Fernando” havia falecido em 1938. Esse tom de farsa e dúvida vai ressoar por toda a leitura, reforçado por folhas sem data e incoerências temporais e geográficas. Independente do seu grau ficcional, Antonio Fernando é um personagem bastante intenso. No diário, ele se mostra como um acadêmico obcecado por Machado de Assis; a sua ida à capital argentina teria sido motivada pela procura de um amigo desaparecido, mas também pela possibilidade de se afastar do vulto do escritor carioca. Segundo a visão do acadêmico/turista, Machado de Assis, que já era epiléptico, temia ficar louco, daí a recorrência em sua obra de personagens insanos como Quincas Borba. O medo em relação a Machado e seu universo ficcional é para Antonio Fernando também o medo da insanidade mental.

Em Buenos Aires, Antonio Fernando tem conversas casuais com um recém conhecido chamado Georgie, logo identificado como Jorge Luis Borges. O teor dessas conversas heterodoxas sobre o tempo, bifurcações da existência, sonhos e duplos não é levado em alta conta por Antonio Fernando, que deixa claro o seu respeito maior pela visão realista e incisiva de Machado e comenta: “A consciência do Tempo, matriz de qualquer lucidez, não pode sair de cena sem levar, junto, a consciência de si.” Porém, apesar dessa opinião, vão aparecendo com freqüência maior no diário incongruências temporais e geográficas, enquanto se desenvolvem subtramas sobre desaparecimentos, encontros amorosos, duplos e uma seita que pretende influenciar a ordem do tempo. Antonio Fernando duvida cada vez mais da própria sanidade e parece estar se tornando mais borgiano em relação ao tempo — ou mais machadiano no mergulho na loucura. No fim, ficamos sem saber se o diário de Antonio é um exercício de ficção, talvez inspirado por sua loucura, ou um produto da sua vitória sobre o tempo.

Sustentado por uma prosa ágil e bem cuidada, o eixo central sobre tempo e loucura é o ponto mais forte em Memorial de Buenos Aires e um bom exemplo de literatura imaginativa. Mas esse eixo e a estrutura do diário não são capazes de sustentar por completo os diversos fragmentos narrativos e digressões. Desse modo, a sucessão das referências a personagens de Machado, das frases lapidares que soam machadianas e das viradas rocambolescas do enredo gera para o leitor um efeito de acúmulo e embotamento. Um exemplo é quando Antonio desconfia do adultério de sua mulher, Marilu — algo já previsível na história e que se soma como mais uma referência, sem ganho de força narrativa. Seria injusto dizer que Memorial de Buenos Aires é baseado apenas no jogo de referências, mas o escopo delas acaba restringindo o poder ficcional da obra.

***

O tema central de Leda é a fragilidade da literatura de ficção num mundo preocupado demais com relatos, biografias e fofocas. O livro aproveita justamente para ressaltar como esses objetos de atenção não estão livres da criação ficcional: “toda biografia é uma fraude”. Segue-se no início da história Adolfo Lemoleme, um jovem professor de letras que tem como ídolo literário o seu contemporâneo Bernardo Dopolobo. Vencendo a timidez e questionamentos pessoais sobre a idéia de fazer a biografia de Bernardo, Adolfo consegue a aprovação do escritor e parte para um trabalho obcecado e invasivo. Uma das dúvidas iniciais de Adolfo é se por trás do seu projeto haveria um “instinto canibal”, uma vontade de incorporar e vencer o seu ídolo. De fato, é isso o que acontece parcialmente: o primeiro volume da biografia é muito bem-sucedido e a sua versão de Bernardo parece ofuscar o original. Adolfo chega a se relacionar com mulheres que fizeram parte da vida do seu biografado e, para todos os fins, parece estar livre dos questionamentos morais que tinha na concepção do projeto. Bernardo, por sua vez, mantém-se elusivo, aparentemente na defensiva, mas é capaz de surpresas como o lançamento de uma biografia do seu biógrafo, A catedral invertida.

Leda começa com um sonho em que aparece um elegante chapéu de feltro, logo revisto como um chapéu-coco gasto. Ainda no primeiro capítulo, sabemos que Bernardo conserva um fiacre em estado passível de uso, uma referência a Madame Bovary. Não se trata uma história de época — há referências a tênis e baterias — porém são utilizadas imagens e palavras de sabor arcaizante, reforçando a idéia da fragilidade da ficção hoje, que se assemelharia a um mecanismo antigo ou a um costume social ultrapassado. Quase sempre usando um tom de farsa, Toledo constrói a sua prosa com recursos simples, preferindo até “enfeiamentos” de estilo como nomes que soam mal (Marino Sephora, Felícia Faca), aliterações pronunciadas (monte Santo Antão) e expressões de mau gosto como “uma criatividade que agora explodia em borbotões”.

É do estilo que vem o problema principal em Leda, pois fora dos seus eventos mais interessantes e das boas tiradas o texto parece ficar burocrático e sem vida. A experiência da sua leitura está em constante risco de cair num artificialismo mecânico, porém há material suficiente para manter o interesse: Toledo não se limita a atacar a mania contemporânea por biografias e não-ficção e faz o conflito entre biógrafo e biografado percorrer caminhos imprevisíveis. A idéia de que toda biografia é uma fraude é reforçada de um lado — Bernardo vai se mostrar alguém incompreendido pelo seu biógrafo em ao menos um ponto fundamental — mas relativizada no sentido em que essa fraude pode ser literariamente interessante. Esse é o caso do paralelo que Adolfo desenha entre A busca vã da imperfeição, livro de Bernardo resumido nos capítulos 10 e 11, e um acontecimento na vida do autor. Assim, o seguinte trecho, que descreve a revelação de um frei:

Nuvens negras cobriam o céu. “Deus tudo pode e a tudo vigia”, começou dizendo, “está em toda parte e em lugar nenhum, ocupa a totalidade do tempo e estende-se pela totalidade do espaço, é perdão mas também é castigo, é amor e bondade mas também susto e temor, é tudo isso, e também seu contrário, por uma simples razão: Ele não existe.”

será relacionado com uma mudança de perspectiva de Bernardo sobre a literatura: menos platônica e sacralizada, mas por isso mesmo mais livre e profícua. Além de trabalhar criativamente o seu tema principal, Toledo é capaz de criar situações e imagens que, mesmo aparentemente secundárias, continuam na mente do leitor depois de fechar o livro, como o palhaço no enterro ou a existência de um só pecado.

Li Memorial de Buenos Aires e Leda paralelamente e as trajetórias das leituras foram determinantes na escolha do vitorioso. Memorial começou com dois fatores importantes a seu favor, o estilo ágil e a estrutura bem construída, mas aos poucos a leitura foi se tornando saturada pelas referências, digressões e viradas de trama, como se a base do livro não conseguisse mais sustentá-las. Já a experiência com Leda foi inversa: com uma premissa simples, a evolução do tema central seguiu um movimento positivamente inesperado, além de contar com interessantes elementos paralelos. Recuperando a referência futebolística, Leda ganhou pelo fator surpresa — uma tática antiga da ficção. Quanto ao placar, reservo as goleadas para autores como Machado, Borges ou o ficcional Bernardo Dopolobo e coloco essa vitória por 2 a 1. Sem dúvida, Antonio Fernando haveria de concordar: Ao vencedor, as batatas.

Leda
Leda
de Roberto Pompeu de Toledo

Qual concorrente da CLB 2008 merece uma segunda chance na repescagem?

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Comentários de Lucas Murtinho

Vai ver eu sou um pé-frio literário. Falei que Mãos de cavalo era um dos favoritos à Copa e ele foi eliminado logo no primeiro jogo; depois, no meu comentário ao jogo 2, disse que meu favorito pessoal era Memorial de Buenos Aires e pronto, o livro não passa das quartas de final. Melhor deixar os prognósticos pra lá.

Leda é um fenômeno curioso nessa Copa: nem o Marco Polli, neste jogo, nem o André Gazola, no jogo 7, pareceram muito entusiasmados com o romance de Roberto Pompeu de Toledo, mas nos dois casos sua vitória foi clara e dois favoritos tombaram. É pura sorte, uma questão de topar com adversários que não batem com o santo dos jurados? Ou as qualidades de Leda ainda não foram suficientemente louvadas?

Seja como for, o livro enfrenta mais um adversário de respeito na semifinal: Um defeito de cor, que, vocês devem se lembrar, eliminou Os vendilhões do templo no jogo 8 e Por que sou gorda, mamãe? no jogo 9. Mas antes vamos definir qual será a outra semifinal: semana que vem, a primeira vaga será decidida por Rafael Rodrigues, que escolhe entre Bóris e Dóris e Música perdida.