
Como na primeira edição da CLB, um livro chega à final aos trancos e barrancos enquanto o outro surge como franco favorito, tendo vencido todos os seus jogos com autoridade de campeão. Mas ao contrário da Copa passada, em que os dois finalistas me pareceram mais ou menos equivalentes em qualidades e defeitos, desta vez não tenho dúvidas sobre quem merece ganhar: a decisão entre um livro bom — O filho eterno, de Cristovão Tezza — e outro menos do que isso — O dia Mastroianni, de João Paulo Cuenca — é fácil. “Bom”, porém, pode parecer pouco para uma obra tão elogiada quanto O filho eterno, e me encontro agora na desagradável posição de apontar os defeitos de um romance do qual gostei.
Vi dois problemas em O filho eterno. O primeiro é que o desejo do autor de escrever bem é tão proeminente quanto o fato de ele realmente escrever bem. Quando comentei isso com o Alex Castro ele tirou um sarro da minha cara: “Pois é, eu também acho que o problema do Pelé era que ele claramente queria mostrar pra todo mundo que sabia jogar bola”. Aceito a crítica mas mantenho a posição: a busca da imagem perfeita e da frase primorosa é evidente demais em O filho eterno, e acabou me distraindo da perfeição e do primor mesmo quando eles foram alcançados. Mais grave ainda, tal busca me distraiu da história contada por Tezza, funcionando como uma barreira entre o leitor e o duro retrato que o autor compõe de um personagem óbvia e sabidamente inspirado em si mesmo: o perfeccionismo de Tezza reduz o impacto emocional da sua narrativa. O segundo problema que enxerguei no romance, aliás, também causa uma redução de impacto emocional: é a quantidade de vezes que o narrador-autor divaga, delira, pensa em outra coisa — a quantidade de vezes, enfim, em que ele evita tratar do assunto central do livro, da difícil convivência com e aceitação do seu filho que sofre de síndrome de Down. Por mais que eu tenha gostado de finalmente descobrir por que os dias da semana têm nomes tão ridículos em português, por exemplo, fiquei com a impressão de que informações desse tipo entraram no romance apenas para que Tezza não precisasse ir tão longe no seu autoexame quanto muita gente acredita que ele foi.
Mas falo desses problemas apenas para explicar a modicidade do meu elogio diante de tantos leitores — incluindo alguns jurados da Copa — que colocam O filho eterno entre os melhores romances brasileiros da década ou mesmo de todos os tempos. Não vou tão longe, mas não hesito em dizer que se trata de um livro acima da média e de um excelente cartão de visitas para quem, como eu, não conhecia a obra de Tezza. Mais do que isso, e para fazer eco às apreciações encontradas em alguns dos textos que seguem abaixo, O filho eterno é um romance adulto, no sentido de ser uma obra madura cujos defeitos não se encontram em elementos básicos como seu conteúdo, sua forma ou a adequação entre ambos. Voltando à metáfora futebolística que felizmente teima a permanecer viva na Copa, O filho eterno é como o hexa/tricampeão São Paulo: um clube com estádio próprio, finanças em dia, elenco talentoso, equipe técnica estável e grande torcida. Nem todos os passes saem certos e nem todos os jogos são vitórias por goleada, mas o poder de fogo do time é inegável e ele será sempre um sério candidato ao título. Passando para uma menos usada metáfora escolar, O filho eterno é um aluno que, ainda que não tire dez, certamente passará com tranquilidade de ano.
Havia outros clubes estruturados ou alunos aplicados nesta Copa — O sol se põe em São Paulo e Toda terça são os meus dois exemplos — mas por um acidente como os que sempre acontecerão em torneios deste tipo o outro finalista não é um deles: O dia Mastroianni está mais para o meu querido e esquizofrênico Flamengo ou para o aluno desligado conversando no fundo da sala. A resenha do Sérgio Rodrigues me fez reconsiderar alguns pontos do meu primeiro e extremamente negativo julgamento de O dia Mastroianni: o romance tem uma lógica interna, um conjunto de objetivos que se propõe a atingir, e consigo entender por que alguns leitores pensam que ele os atingiu. Mas ainda julgo que nem os objetivos valiam a pena nem a execução foi satisfatória. Concordo relutantemente com Rodrigues quando ele diz que O dia Mastroianni é puro exercício de estilo, e senti ao lê-lo o despojamento criativo de que André Sant’Anna falou na sua resenha. Mas o exercício de estilo só deixa de ser isso, mero exercício, quando é levado ao limite e explora novas possibilidades (como Finnegans wake, para citar o único exemplo que me vem à mente neste instante): se não é o caso, seu lugar é na gaveta de rascunhos do autor, à espera de um conteúdo que lhe dê razão de ser. Mais grave ainda — mas menos sujeito a uma discussão argumentada e por isso menos interessante — a meu ver nem mesmo como exercício de estilo banal O dia Mastroianni é digno de nota. Há alguns erros entre os consideráveis acertos, e foram poucos os momentos em que as múltiplas sacadas de Cuenca me deixaram sinceramente admirado: na maior parte do tempo elas me pareceram malabarismo com palavras, algo que eu não poderia fazer mas que ainda assim não me prende a atenção por mais de cinco minutos. Talvez se Cuenca tivesse trocado as bolas de tênis por serras elétricas — se houvesse algum risco ou alguma novidade no que ele fez. Mas não há.
Faltou, portanto, um adversário à altura de O filho eterno para animar esta final. Pelo menos o meu voto ele leva fácil.
O dia Mastroianni 0 x 1 O filho eterno
Jurado: Luiz Antonio de Assis Brasil
Cuenca: Eis aí um livro que, para além da avaliação de sua qualidade estética, merece uma consideração de natureza cultural. É o retrato do modo de vida de certo segmento de nossa sociedade — ligado a determinada faixa etária e econômica e a uma certa tabela de valores sociais e pessoais. Todas minhas cautelas restritivas indicam que não é um “retrato de época” tout court; isso seria erigir o livro à condição de metonímia epocal, o que não é bom para nenhum livro nem para a literatura. Em outras palavras, O dia Mastroianni deve ser entendido em seu contexto, e nesse contexto ele funciona, e funciona bem, e merece seu espaço.
Contudo, peçam-me para falar sobre esse livro daqui a dez anos.
Tezza: O livro de Tezza tem tudo para ser considerado como literatura; e sou levado a dizer isso porque: a) o texto é, poético, forte, elegante, persuasivo; b) o conteúdo tem drama humano e emoção. É certo que fala de uma questão específica (e dolorosa, no caso), mas qualquer romance trata de uma questão específica. Não há literatura em abstrato. A literatura tem temas, e vive em função dos temas. Por isso considero ociosa a discussão sobre o que vale mais, neste romance. Ele é literatura na sua integralidade, e pronto. E dizer que é literatura significa dizer, implicitamente, que é boa literatura.
O dia Mastroianni 0 x 2 O filho eterno
Jurado: Sérgio Rodrigues
O desequilíbrio de forças desta partida final chega a ser um pouco aflitivo, embora os dois times sejam inegavelmente profissionais.
O dia Mastroianni é uma novela curta que se dedica a fazer graça (muita) e provocar reflexão (pouca) sobre a suposta irrelevância da literatura no mundo de hoje. O filho eterno é um romance suculento que desmente de forma avassaladora a tese da irrelevância da literatura no mundo de hoje.
O livrinho de João Paulo Cuenca é ligeiro e assumidamente imaturo, ainda que construído com inteligência e sustentado por um domínio técnico da prosa bem acima da média nacional — um bom divertissement. O livraço de Cristovão Tezza dá um show de maturidade, tanto emocional quanto literária, e faz do domínio técnico um instrumento, não um fim. Sem tratar a literatura como mero veículo para o confessional, nem por isso desiste de iluminar o que está fora dela: o viver, que, como se sabe, é muito perigoso.
O resultado é mais que previsível. A O dia Mastroianni resta o consolo de ser derrotado por um livro que, até onde me foi dado ler, tem raros adversários à altura na literatura brasileira dos últimos anos.
O dia Mastroianni 0 x 3 O filho eterno
Jurado: Antonio Marcos Pereira
Há um momento em Ratatouille no qual o feroz crítico gastronômico Anton Ego expõe seu credo a respeito da crítica, suas funções, seus imperativos. É um credo como qualquer outro — é relativo, é idiossincrático, é matéria de debate e não determina leis imutáveis. Mas funciona bem para mim, e volta e meia reflito sobre os desafios implícitos em sua aparente simplicidade moral, e sobre o que ali me parece ser o elogio de uma potência da crítica à qual gostaria, como comentador de literatura, de fazer jus: refiro-me ao momento em que Ego, após dizer da relativa facilidade do trabalho do crítico enquanto aquele que fala contra, que impõe reparos, diz que há momentos nos quais um crítico realmente arrisca algo, e isso ocorre na descoberta e na defesa do novo. O mundo é muito injusto com os novos talentos, as novas criações, e o novo precisa de amigos.
A minha grande tristeza nessa final da Copa 2008 é que me vejo mais uma vez impossibilitado de ser amigo do novo, de estar ao lado de uma produção que arrisca algo e, assim, de arriscar junto, de apostar em outras formas de fazer e ler literatura. Acreditando que uma construção como a literatura não está ainda dada, ou pronta, mas está se fazendo e transformando diante de nossos olhos e por nosso próprio empenho, sempre cobro de mim mesmo evitar ter um único fiel da balança, julgar de uma maneira muito unilateral os produtos que me aparecem e que solicitam meu juízo. Quero poder ouvir alguma vozinha miúda e ainda incerta sobre a tradição com a qual conversa, e quero aprender com o que essa voz pode ter a me dizer. Ano passado, um trabalho muito eloqüente, de grande potência — O paraíso é bem bacana, de André Sant’Anna — foi deixado de lado por uma resenha que julguei obnubilada e nostálgica. Resultado: levou o caneco um livro que me lembrou a seleção em tempos de Parreira: o Música perdida, do Assis Brasil. E dessa vez, apesar de minha simpatia programática e apriorística com o que ele respresenta no certame, não tem jeito de favorecer o livro do Cuenca, O dia Mastroianni.
Cuenca representa bem para mim “o novo”: é um cara jovem e não tem atrás de si uma carreira tão longeva, nem seu livro tem uma trajetória tão eivada de prêmios quanto a de O filho eterno. Queria que o livro do Cuenca fosse o precário e talvez precoce investimento na salerosidad às expensas da respeitabilidade, o advento de uma literatura neo-dada com caipirinha, a celebração do dandismo como opção ainda legítima, um dandismo de pobre, um dandismo carioca e nosso. Queria que a citação do Oswald na epígrafe indicasse que se seguiria uma máquina de comer cultura nas páginas vindouras, algo que pudesse dizer melhor, e em outra chave, menos marcada pela chatura do Oswald, que pegamos a cultura européia e o tédio do flâneur mastroiânico e fizemos disso outra coisa, um novo fruto sob o sol. Queria, enfim, muitas coisas desse livro, mas não pensem que queria demais, ou que já sabia o que queria: a cobrança maior, talvez a única cobrança, é que o livro me desse algo que não tenho ainda, que me mostrasse algo estranho a mim e, assim, cumprisse quem sabe uma das funções atribuíveis a esse negócio, que tem a ver com uma dimensão de aprendizado.
Mas que nada: o livro é mais do mesmo, e é só onanismo mesmo: Cuenca captura um bom tema, e encontra uma matriz interessante (Mastroianni, Fellini) para tratar dele. Mas seu autor assume muito pouco risco, circunavega o próprio umbigo, flerta com a ficção de si e resolve seu dilema criativo com algo (ai!) à guisa de metaficção. O pouco risco está em toda parte: nas marcas de bom gosto distribuídas pelo livro, no ethos bom moço traduzido nos desenhos, nas letras graúdas, na afetação inofensiva do discurso dos personagens, nas séries sincopadas de elementos díspares e nas referências oblíquas a elementos da cultura contemporânea dos antenados — tudo parece cortejar justamente aqueles que, supomos, seria o alvo da crítica operada pelo livro, essa geração ao mesmo tempo destituída e abundante à qual tenho a dúbia fortuna de pertencer.
O dia Mastroianni falha, creio, justamente por isso: ao ser demasiado inofensivo, não consegue dizer nada, apesar de aparentemente desejar ser um livro sobre algo — algo como a impossibilidade de escrever hoje, o peso da tradição e da influência, a dificuldade de escrever o tédio com leveza e o delírio com ludicidade. Eu gostaria de ter lido um livro com esse temário, que talvez produziria uma resolução interessante para uma dicotomia que aparece nos tratamentos mais amplos da ficção brasileira contemporânea que julgo mais interessantes, a que toma uma estética da delicadeza como paralela a uma estética da transgressão — mas esse não é o livro que o Cuenca escreveu. É, todavia, o livro que creio que ele poderia ter escrito, e que acredito que ele escreverá — mas essa altura especulativa vai me aproximar demasiado de mãe Dinah, e é melhor abrir mão dela.
Sobre o Tezza e seu livro já falei à farta em minha resenha; outros comentaristas fizeram o mesmo, e pelo visto ele vai somar mais este modesto prêmio imaterial à sua longa galeria de premiações. Mas reitero: ao escolhê-lo mais uma vez vencedor, lamento — e não porque seu livro seja privado de merecimento, como deve estar claro para quem leu meus comentários a respeito. Lamento porque, mais uma vez, mesmo querendo muito ser amigo do novo, não pude sê-lo.
O dia Mastroianni 0 x 4 O filho eterno
Jurado: André Sant’Anna
O filho eterno, de Cristovão Tezza, é um livro sensacional! É a história de um jovem escritor, que podia ter escolhido uma profissão na vida, mas preferiu percorrer os árduos caminhos da arte, escrevendo livros, mesmo que, para isso, tivesse que ser sustentado pela esposa e, ainda por cima, tem um filho com síndrome de Down, passando pelos inúmeros conflitos que isso acarreta, como o sentimento de culpa inicial pela rejeição ao filho “defeituoso” até o amor que surge e, finalmente, pauta a relação de pai e filho daí por diante. É uma história sensacional, que tinha tudo para se tornar piegas, não fosse a categoria do escritor em ir além dos fatos propriamente ditos. O Tezza é um escritor sensacional, que domina a técnica, além de contar com grande criatividade e honestidade na hora de desenvolver sua visão de mundo. Eu, que gosto muito de futebol, me emocionei muito com o final do livro, com aquela perspectiva de não saber o que pode acontecer no segundo seguinte, nos gramados e na vida. Para que se tenha a certeza de que O filho eterno é um livro sensacional, basta ver as críticas publicadas nos principais jornais do país, os prêmios conquistados pelo Tezza este ano, além das resenhas sensacionais escritas pelos juizes desta Copa de Literatura Brasileira. Fora isso, o Tezza também é mais ou menos meu amigo. Fomos jurados juntos em um outro prêmio literário aí, vimos juntos um filme chinês aí, batemos uns papos legais num boteco aí etc.
Meu voto final vai para O dia Mastroianni, de João Paulo Cuenca, que é um livro sensacional, embora não se possa dizer que é mais sensacional do que O filho eterno, de Cristovão Tezza. Meu voto em O dia Mastroianni não é um voto de amizade. É um voto político contra a opinião formada, contra as resenhas plausíveis, contra o Vinicius Jatobá, a favor da aventura e da irresponsabilidade, essas porra.
O dia Mastroianni 1 x 4 O filho eterno
Jurado: Alex Castro
Confesso que não entendi muito bem O dia Mastroianni. Ou melhor, até entendi a proposta. Li as resenhas vitoriosas sobre o livro na Copa. Mas não entendi por que isso é bom. Ok, é um livro debochado, que brinca com a linguagem, etc. etc., mas e daí? No final, produziu-se boa literatura ou só uma boa piada interna, pra ser entendida pelo pequeno círculo de jovens autores contemporâneos? Veja bem: não é que eu leve a literatura a sério, deus me livre! O mais maravilhoso do romance é ser o único gênero literário que comporta sua antítese, sua paródia: uma tragédia nunca poderá ser anti-trágica, um épico não pode ser anti-épico, mas um romance pode ser um anti-romance, uma crítica de si mesmo. E, sim, entendo que foi isso que Cuenca quis fazer. E ficou até divertido. Mas e daí? Qual o conteúdo além disso? Era só a piada interna ou tinha mais? Se era só mesmo a piada interna, valeu a pena? Correndo o risco de ser repetitivo: sim, entendi a proposta do autor, sim, li tudo e acho que ele executou essa proposta muito bem, mas, ok, e daí? O filho eterno, por outro lado, e por tudo que falei em minha resenha do jogo 12, que não vou repetir aqui, é talvez o livro do ano. Cuenca demonstrou que tem talento mas ficou fazendo embaixadinhas pra arquibancada; Tezza partiu pro gol e fez um atrás do outro, verdadeira goleada. Sinceramente, não tem comparação.
O dia Mastroianni 1 x 5 O filho eterno
Jurada: Simone Campos
O dia Mastroianni é realmente uma masturbação (assumidíssima), no sentido de que não é autobiografia, mas idealização. É a fantasia de uma malandragem que tudo perdoa com invólucro sociológico (o menino de rua, o mendigo) e fashion (a bebida certa, a roupa certa) numa cidade híbrida com muitas moças bonitas. O problema é que o ideal máximo do ego só costuma ser proveitoso para o ego. O autor preparou toda uma pré-defesa: o título, a definição do mesmo puxada da cartola no começo, a epígrafe sobre onanismo, os interlúdios com um ser superior que lhe desqualifica em maiúsculas — e o final. Mas escolher uma estrutura sob medida para justificar a ausência de fio narrativo não vai fazer (como não faz) o leitor se conectar ao livro. Mesmo lendo com tempo de sobra, topei com um palavrório derramado e um excesso de referências que me lembrou estudar química tarde da noite antes da prova: ruído, puro ruído. No final, O dia Mastroianni melhora um pouco, mas nessa altura do campeonato… É um problema parecido com o do livro do Backes que critiquei (jogo 11). Reitero que a literatura nacional hoje tem muito autor dominador pra pouco leitor submisso.
O filho eterno também é um produto do ego, mas ao contrário de Mastroianni o material não parece ter sido colhido em benefício apenas do autor. Longe de mim querer glorificar o sofrimento do escritor ou a tragédia em detrimento da comédia; é simplesmente que em O filho eterno há coesão e molejo narrativos. O leitor consegue acompanhar a história e goza também. Isso, quem escreve sabe, demanda sensibilidade, empenho e persistência. Meu voto fica com O filho eterno.
O dia Mastroianni 1 x 6 O filho eterno
O jurado do jogo 10, Vinicius Jatobá, decidiu não participar da Copa e, portanto, não votou nesta final.
Jurado: Leandro Oliveira
O dia Mastroianni, embora seja um bom livro, é um livro que escolhe seu público — possivelmente aqueles que não acompanham o cenário literário nacional não perceberão uma série de ironias do texto e a motivação por trás de algumas cenas do enredo. Já O filho eterno é um livro que, além de não escolher seu leitor, seduz aqueles que não conhecem seu enredo ou o trabalho do autor, emocionando sem recorrer aos usuais artifícios de linguagem que fabricam falsos sentimentos que duram apenas uma página. O segredo do livro de Tezza é manter o equilíbrio, numa primeira parte mais distante, com um narrador mais cruel, e numa segunda mais próxima, com um narrador mais compassivo. O equilíbrio e a integração entre elementos da obra vão além ao ambientar a ação dos acontecimentos em um Brasil em transição, saindo de um longo período de ditadura e tendo diante de si problemas graves a serem solucionados, como a hiperinflação. O filho eterno é sem dúvida um dos grandes livros da literatura brasileira e por isso meu voto é dado a ele.
O dia Mastroianni 1 x 7 O filho eterno
Jurado: Jonas Lopes
João Paulo Cuenca sofre do mal que vem contaminando boa parte da produção dos jovens autores brasileiros: excesso de umbiguismo. Voltado para o próprio ego, desperdiçando a qualidade da prosa em favor de um humor frívolo (transgressão atrasada em quase um século), o autor não conseguiu fazer de O dia Mastroianni muito mais do que uma piadinha sem graça de final de noite. E o pior, tentando fazer de conta que ironiza as bobagens, os lugares-comuns. No diálogo entre o protagonista, Pedro Cassavas, e uma entidade misteriosa (sua consciência?), esta última brada: “Estamos cansados de narrativas que se curvam sobre si mesmas escritas por narradores autoconscientes em crise”. E, um pouco depois: “Essa literatura inútil e umbiguista não serve nem como vanguarda, ‘embora tenha todos os defeitos do vanguardismo’”.
Acontece que conhecer as próprias limitações, embora seja um bom começo, não significa necessariamente que se conseguiu driblá-las — a ironia não possui tal poder reparador. Daí as piadinhas pobres, a trama banal e sem frescor, a forma datada de tratar o erotismo (como se fosse um escândalo e estivéssemos em 1936). O que Cuenca e alguns de seus companheiros de geração parecem não ter compreendido ainda é que é possível, sim, falar de juventude ou boemia sem soar adolescente. Fellini, evocado no romance desde o título, que o diga.
Quanto a O filho eterno, repito as qualidades ressaltadas no jogo 8 sem me estender muito para não cair na redundância. Além de ser o melhor trabalho de Cristovão Tezza até hoje — evolução natural de O fotógrafo e Breve espaço entre cor e sombra —, é também um dos principais romances brasileiros recentes. O escritor radicado em Curitiba deixou para trás a irregularidade e encontrou o ponto certo entre energia e reflexão, ajudado pelo manejo eficiente do discurso indireto na narração — a terceira pessoa se confunde com a primeira, aproximando e afastando o leitor, mascarando uma possível confissão e, ao mesmo tempo, tratando com distância apaixonada o protagonista, a ponto de muita gente achar que de fato se trata apenas de um livro sobre um filho com síndrome de Down…
Tezza, não sem razão, levou a maioria dos prêmios que disputou por O filho eterno. Seria um concorrente sério mesmo em uma lista com os melhores da década. Nada mais natural, portanto, que seja o merecedor do troféu da CLB. A se lamentar apenas não ter tido na final um adversário à altura, como o teriam sido, por exemplo, Bernardo Carvalho ou Marcelo Backes.
O dia Mastroianni 1 x 8 O filho eterno
Por incompetência do organizador, a jurada do jogo 7, Carol Bensimon, não recebeu os livros da final em tempo hábil para dar o seu voto.
Jurado: Fabio Silvestre Cardoso
Assim como um torneio de futebol, em que a trajetória nem sempre é triunfal e pode reservar surpresas, esta Copa Brasileira de Literatura alcança o jogo final com a disputa entre O filho eterno, de Cristovão Tezza, e O dia Mastroianni, de João Paulo Cuenca. Pode-se afirmar que o duelo marca o choque entre duas gerações de escritores, do mesmo modo que duas formas de escrita, duas vozes narrativas, dois estilos. Nesse sentido, Cristovão Tezza representa uma escola mais tradicional, filiada ao estilo mais clássico da construção das histórias. Começo, meio e fim. De sua parte, João Paulo Cuenca está alinhado a uma tendência mais contemporânea da narrativa, utilizando recursos não apenas da literatura, mas, sobretudo, do discurso das mídias, do cinema e da televisão que aparecem desde o título do livro (sobre isso, a propósito, comentarei mais adiante). Esse detalhe é importante para que se possa entender por que o livro de Tezza está muito à frente da obra de Cuenca. Para este árbitro-resenhista, trata-se de uma conta muito simples: enquanto Tezza se expressa com uma voz que se destaca pela qualidade provada pela experiência, Cuenca gera uma literatura que ainda carece de voz própria, algo escrita automática, muito dependente que é dos recursos utilizados ao longo do livro.
Nesse aspecto, a virtude da obra de João Paulo Cuenca é dialogar com os leitores de seu tempo, tanto no que se refere ao tema (a saber, a errante saga de Pedro Cassavas e seus amigos cujo mote de vida é aproveitar a vida como se não houvesse amanhã) quanto no que tange ao estilo sobremaneira coloquial com o qual o narrador se direciona ao leitor. Há momentos de extrema qualidade, como quando um dos personagens ri de seus pares escritores, fazendo troça de certa intelectualidade e afins. O problema de O dia Mastroianni é o fato de que tais qualidades ora se perdem, ora são rapidamente substituídas por novas piadas rápidas, numa tentativa de não deixar o ritmo da história cair na mornidão. Por essa razão, o ritmo é frenético, o que compromete a digestão sadia do livro.
Já em O filho eterno, Cristovão Tezza também dialoga com os temas de seu tempo ao trazer para a ficção um caso, a um só tempo, de ordem privada e bastante polêmico. Em síntese: como um pai lida com um filho que tem síndrome de Down? Não, não se trata de um livro de auto-ajuda, tampouco de um estudo científico sobre o tema. O que se lê, em vez disso, é uma obra de rara profundidade e delicadeza. Profundidade porque o autor não fica no lugar-comum de apresentar de que maneira o personagem central aprendeu a conviver com suas condições especiais, para usar um jargão politicamente correto. Delicado, neste caso, porque sem cair no discurso das patrulhas, o autor é certeiro ao tratar de um drama desse tamanho com sutileza e agressividade nos momentos certos. Surpresa: o pai e a mãe não são vítimas perfeitas, posto que também têm dúvidas, emoções e tantos outros pensamentos imperfeitos acerca do filho, que, aos poucos, também conquista seu território no livro.
À medida que se desenvolvem, O filho eterno e O dia Mastroianni ganham contornos definitivos acerca do caráter de seus respectivos protagonistas. No caso de Tezza, um homem assumidamente imperfeito, temendo o futuro imediato por não saber o que fazer, como deve reagir, o que pensar. Do lado de Cuenca, Pedro Cassavas se projeta como o homem ideal de seu tempo, despreocupado que está com o mundo à sua volta, só interessado no prazer mais imediato, e isso pode ser sexo, drogas e rock’n'roll. Por tudo isso, o drama construído por Tezza é mais sensível do que a jornada elaborada por João Paulo Cuenca. Não necessariamente devido ao tema ou à natureza da história, mas, especialmente, em virtude da maneira como o autor de O filho eterno molda desde os personagens centrais até a elegância com a qual ele conta uma história que poderia ser facilmente vilipendiada. Num torneio com autores de seu status, o livro de Cuenca poderia ser considerado vencedor. Nesse tipo de confronto, no entanto, não há surpresa em declarar a obra de Tezza como a detentora do triunfo desta Copa da Literatura Brasileira.
O dia Mastroianni 1 x 9 O filho eterno
Jurado: Felipe Charbel
“Comecei como poeta. Quase sempre acreditei, e continuo acreditando, que escrever prosa é de um mau gosto bestial. E digo isso a sério.” Lembrei-me dessa frase de Roberto Bolaño enquanto relia o primeiro capítulo de O filho eterno, especialmente a passagem em que o narrador evoca a perda do sentimento do sublime, que ainda jovem o afasta da poesia e o aproxima da prosa ficcional. “É preciso ter força e peito para chamar a si a linguagem do mundo, sem cair no ridículo”, diz o narrador. No livro de Tezza, a conquista da linguagem do mundo é tematizada pela mobilização de tópica recorrente no gênero romance de formação: a busca, lenta e muitas vezes indistinguível, do estilo como substância-mundo capaz de articular literariamente a experiência vivida.
Em O filho eterno, porém, não é o mergulho interior, o distanciamento subjetivo ou a busca de uma improvável originalidade romântica o que movimenta o narrador em sua evocação do passado, mas a tentativa de fazer aparecer, a contrapelo, a íntima relação entre modelagem de si e aprendizado da alteridade. Esta preocupação se revela na lenta aquisição, pelo protagonista, da consciência de que a conquista da linguagem do mundo só pode se dar por meio de atrito com o chão áspero, para empregar imagem imortalizada por Wittgenstein. É assim, ao rés do chão, que a construção nada naturalizada da especularidade entre pai e filho é abordada em O filho eterno — para o pai, um exercício constante de se colocar no lugar do filho e então voltar a si mesmo incorporando diferenças.
A aspereza do contato com o chão se revela, também, na crueldade empregada pelo narrador na urdidura da imagem, predominante em boa parte do livro, de um humanista-bárbaro viajando ao fundo do ego. Trata-se de alguém que “ainda não sabia”, ou “não podia saber” — mantras recorrentes que margeiam um sentido quase agostiniano de conversão, a dissipação das sombras que encobrem a verdade. Curioso é que tal conversão, embora não se concentre exclusivamente num único momento, possui um claro “grau zero”: uma experiência at the limits do protagonista, a “maior vertigem de sua existência, a rigor a única que ele não teve tempo (e durante a vida inteira não terá) de domesticar numa representação literária”, a saber, o momento em que recebe a notícia de que o filho era portador de síndrome de Down. O sublime sai pela porta da frente e entra pela porta dos fundos, o que contribui, em meio a descrenças e ceticismos, para o delineamento de um “sentido de fim” levemente otimista, horizonte talvez inalcançável onde as coisas possam afinal fazer algum sentido.
O filho eterno é não apenas o melhor livro brasileiro de 2007. Trata-se de um grande livro de ficção, desses que terei vontade de revisitar muitas vezes. Em todos os sentidos, ele é bem diferente de O dia Mastroianni. Uma conversão literária como a de Tezza, efetivo deslocamento “do mundo da mensagem para o mundo da percepção”, não possui lugar no universo ficcional de João Paulo Cuenca, concebido, como nota Sérgio Rodrigues em sua resenha, como “linguagem pura”. Um livro sem referente — o que não deixa de ser uma boa premissa.
O principal problema de O dia Mastroianni é o excesso de excesso. Não basta o recurso ao meta-ficiconal; é preciso ser meta-meta-ficciconal e debochar da meta-ficção. Não basta a escatologia; é preciso ridicularizar os que argumentam contra a idéia de que nojeiras podem ser fins-em-si, descolados de qualquer critério de coerência ficcional. É muito importante, quase um imperativo categórico, ser moderninho, ou melhor, pós-moderninho.
O dia Mastroianni tem (poucos) bons momentos: o título é ótimo; o verbete de abertura é inspiradíssimo, embora prometa o que o restante do livro se recusa a cumprir; a atmosfera de não-lugar é bastante original, e alguns diálogos entre Pedro Cassavas e Tomás Anselmo são repletos de agudezas. É fato que João Paulo Cuenca sabe escrever. Mas isso basta? No geral, tive a impressão de que o autor quer doutrinar pela negativa, como se dissesse “não nos resta nada, então vamos radicalizar e dar boas risadas”. Boas risadas, não as dei. O que se pretendia leve tornou-se um fardo insuportável. A afetação do livro é tanta que minou minhas sinceras tentativas de distanciamento crítico. O universo ficcional de O dia Mastroianni permaneceu completamente opaco. Com receio do que talvez viesse a encontrar, preferi deixá-lo quieto. Afinal, quem merece aquela voz em caps lock, bradando anti-verdades desconstruídas e espertinhas?
O dia Mastroianni 1 x 10 O filho eterno
Jurado: Doutor Plausível
Meu voto vai pro livro do Cuenca. Não gostei de O dia Mastroianni. Gostei de O filho eterno. Portanto, preciso explicar meu voto.
Julgo livros aqui pela regra A-002b de meu calvinball: pra mim, a trama dum livro na CLB deve ser inventada, ou pelo menos aparentar isso. Tou atrás de invenções do intelecto humano expressas em língua portuguesa. A participação de O filho eterno [OFE] na Copa se baseia não numa invenção mas num artifício, num recurso. Acho q apenas um leitor BEM desavisado leria esse livro como ficção; nas primeiras páginas, já fica óbvio tratar-se de um documentário. Aliás, um efeito curioso do livro é q ele todo tem o estilo de um documentário sem narrador, desses q acompanham um sujeito pra cima e pra baixo.
Em múltiplas passagens, Tezza impacta pela franqueza de suas fraquezas humanas. O autor usou interessantemente o recurso de falar do ‘eu’ como um ‘ele’ pra simultaneamente confessar e ausentar-se, mas a tentativa de apresentar OFE como romance não me convenceu: o livro nunca transcende além de sua concepção original — um depoimento sobre uma paternidade dolorida mesclado com cenas memorialistas, q pode muito bem ter começado como artigo pruma revista. Não é um romance; é, talvez, uma inovação: um demeterpes — depoimento memorialista em terceira pessoa.
É bem vindo um livro sobre mongolismo pelos olhos de um pai, ainda mais um q parece tão disposto a confessar o inconfessável. Mas muita coisa me irrita em OFE. Menciono algumas: a oscilação entre indicativo presente e pretérito na mesma cena; o name-dropping de grandes figurinhas carimbadas das artes, da literatura e da filosofia; os ganchos gratuitos entre a narrativa sobre o filho e as memórias do pai; a semelhança, em informação e tom, com a ampla literatura sobre mongolismo — desde manuais pra pais até fóruns na internet — em q são moeda corrente as angústias, as peculiaridades, o trabalho multiplicado, as revelações inesperadas (internas e externas), o desejo latente de alívio, o questionamento da própria normalidade, a lenta aceitação da pessoa do mongolóide junto com a descoberta de sua singularidade.
Adiciono a isso não outra irritação mas uma decepção — dada a expectativa — em ler uma prosa apenas mediana (embora admiravelmente regular) e circunscrita num raio de ação intelectual mais estreito do q eu esperava, com oportunidades perdidas e pouca profundidade.
Seu adversário O dia Mastroianni [ODM] sabe q é um livro onanista, um livro sobre o “personagem”, sobre o ilusionismo da literatura, sobre o próprio onanismo da própria literatura em q o próprio personagem escreve o q ele mesmo quer ler sobre si mesmo.
Pausa pra bocejar.
Cuenca sabe q não é pra ser levado a sério um livro em q, em cenas reminiscentes da filmografia italiana, um personagem da série Super-Homem — o vilão brincalhão Mister Mxyzptlk — toma as rédeas narrativas pra ensinar ao protagonista q o próprio livro em q estão não existiria sem ele, o protagonista. Um livro inteiro baseado numa idéia juvenil. É interessantíssimo vc se perguntar aos oito anos se o mundo continua existindo enquanto vc dorme; mas ¿um livro perguntar-se isso? Aliás, ¿um livro concluir com esse assunto? ¿E depois do Show de Truman, q partiu dessa pergunta? Outraliás, Mxyzptlk mostra a Pedro Cassavas q tudo q ele vê e descreve só existe pra ser visto e descrito por ele; compare isso com a percepção complexa e desenganada (ia dizer adulta) na qual Salman Rushdie baseou seu The Midnight Children — “most of what matters in your life happens in your absence” —, e a absurdez e irrelevância da ambição de ODM sobe à tona como gelo num martíni.
Embora seja difícil rir e bocejar ao mesmo tempo, há muito humor em ODM; há uma virtuosidade pro besteirol etílico, descambante prà chulice falocêntrica; há toda uma verve com as palavras — embora amiúde, e aparentemente sem intenção, soe como traduzês do inglês (logo na primeira página lê-se “Eu faço as perguntas aqui” e “Eu não posso ver nada”). Neste livro, Cuenca — cuja prosa evidencia um talento óbvio e palpável — é como uma criança q já entendeu por que os adultos lhe dão pincéis e tintas, mas ainda não sabe conceber uma obra de arte.
ODM ganha meu voto por essa verve, o único indício de algo parecido com alguma coisa inventiva de algum valor entre os dois finalistas.
É uma pena q, pela estrutura dos jogos desta copa e por outras razões, ODM tenha passado às finais por uma zebra cavalar, resultando em q um romance maduro, multilegível e afiado como Toda terça tenha perdido a oportunidade de ser mais lido e comentado.
O dia Mastroianni 2 x 10 O filho eterno
Luciana Araujo, jurada do jogo 3, não pôde participar da final da Copa por motivos profissionais.
Jurado: Eduardo Nasi
Num ano demente desses, não dei pra Copa a bola que ela merecia. Pelo que sei, a culpa no atraso do apito final é minha e deste textinho mixuruca. Foi mal aí.
Nessa maluquice toda, acabei largando O dia Mastroianni lá atrás para, passado um semestre, reencontrá-lo só aqui na final, diante de O filho eterno.
Fato é que eu me apeguei ao mundo onírico que Cuenca criou. Gosto demais de lembrar de como a leitura foi uma curtição. Tenho vontade de dar o livro de presente de Natal para deixar pessoas felizes.
Mas jogo sem conjunção adversativa não tem graça. E O filho eterno é um baita “mas” nessa final, porque é um petardo. Daria pra falar da técnica, da trama, da consistência, do vigor, de como o livro é íntegro, verdadeiro e profundamente emocionante. Só que eu cheguei depois e estou com a impressão de que meus elogios seriam todos apenas redundantes.
Por isso, pra não atrasar mais o trabalho do Lucas, deixo só o meu econômico voto pro livro do Tezza.
O dia Mastroianni 2 x 11 O filho eterno
Jurado: Nelson de Oliveira
Dois romances muito diferentes. Eu diria, incomparáveis. Isso me lembra um comentário de Adorno. Volto ao seu livro. Num dos aforismos das Minima moralia ele faz sérias objeções à nossa compulsão em comparar as obras literárias, principalmente “as do mais alto nível e por isso mesmo incomparáveis”. Nessa compulsão Adorno vê o instinto do comerciante, do burguês bem estabelecido que tenta medir tudo sempre com a mesma régua. Para esses a arte e a literatura não podem e não devem conter nada de irracional ou subjetivo, e a melhor maneira de neutralizar a irracionalidade e a subjetividade de certos romances é forçando-os a caber nos pratos da mesma balança.
Esse comentário de Adorno sempre me incomodou. Ele está certo: a compulsão à comparação, no mundo da arte e da literatura, é uma perversão de burgueses fetichistas. Espera lá, será que ele está mesmo certo? Não tenho tanta certeza. Afinal qualquer atividade crítica só é possível por meio da comparação das obras, dos programas poéticos, das idéias. Certo ou não, estamos nesta Copa pra comparar. Por esporte, por diversão, sem maiores pretensões.
O filho eterno e O dia Mastroianni: dois romances muito diferentes. O narrador, a linguagem e as situações do primeiro não têm nada a ver com o narrador, a linguagem e as situações do segundo. O filho eterno pertence à linhagem realista de sondagem psicológica, de matriz biográfica. Sua ação é cronológica, e seu narrador esférico e verdadeiro é do tipo detalhista e moralista, ou seja, ele é cuidadoso com os pormenores narrativos e impiedoso ao analisar cartesianamente sua própria conduta e a de seus pares. A essa linhagem também pertencem Crime e castigo, Dom Casmurro, Angústia e Doutor Fausto, entre outros.
Apesar do forte apelo sentimental e do desenlace edificante, em que a fé na humanidade permanece intacta, O filho eterno é um dos melhores romances realistas da década. O problema é que depois de ler todo o Flaubert, todo o Dostoievski, todo o Proust e a maior parte do Machado e do Thomas Mann, eu acabei pegando certa ojeriza a romances realistas de sondagem psicológica.
O dia Mastroianni, ao contrário, pertence à linhagem não-realista de sondagem onírica, de matriz delirante. Sua ação é fragmentária, e seu narrador plano e artificial é do tipo irreverente e obsceno, ou seja, ele se deixa conduzir o tempo todo pelo nonsense, pelo anarquismo e pela libertinagem. A essa linhagem pertencem as Memórias póstumas de Bras Cubas, Macunaíma, O jogo da amarelinha e Agora é que são elas, entre outros. No momento essa é a linhagem romanesca que mais me interessa, pois aqui a norma culta e os sentimentos nobres são constantemente ridicularizados. E isso acaba atingindo também a própria instituição literária.
Por que eu disse tudo isso? Apenas pra deixar claro que sempre que um romance realista de sondagem psicológica estiver competindo com um não-realista de sondagem onírica, meu voto será pra este último.
Meu voto vai para O dia Mastroianni não porque este seja um romance melhor do que O filho eterno (calma, meu caro Theo, eu sei que são incomparáveis), mas porque ele pertence ao gênero romanesco de minha predileção.
O dia Mastroianni 3 x 11 O filho eterno

O filho eterno
de Cristovão Tezza

























